terça-feira, 30 de novembro de 2021

Charles Baudelaire: Pesadelo

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[traduzido por José Lino Grünewald]

(Esboço)

I
Retrato do poeta e da amada. Mistura de corações. Céu sem nuvem. Beatitude.

II
Ciúme do rei. Ele intima o poeta a lhe emprestar sua amante. Recusa do amado. Ameaças do tirano (Luís-Filipe)! Mensagem real anunciando uma vingança inaudita.

III
Um mesmo leito reuniu os dois amantes. Sono profundo dos combatentes. Um rumor imperceptível surgiu ao longe…

IV
(Crescendo dos djins.) Ruídos de espadas. Canhões rodantes, turba retumbante. Um exército em marcha. Tumulto enorme sobre o cais.

V
O que vem se detém; abre-se a porta em nome do rei! É o exército inteiro, tambor-mor à frente, que, sob os olhos do amado, paralisado de horror, vem violar sua amante. Descrição plástica dos executantes da obra infame. Trajes, gestos, posturas diversas de infantaria, cavalaria e das armas especiais.

VI
O poeta enlouqueceu. A musa somente lhe envia rimas sem sentido… Maldição!!

Baudelaire

Cauchemar
(Canevas)

I
Portrait du poète et de la bien-aimée. Mélange des cœurs. Ciel sans nuage. Béatitude.

II
Jalousie du roi. Il somme le poète de lui prêter sa maîtresse. Refus du bien-aimé. Menaces du tyran (Louis-Philippe)! Message royal annonçant une vengeance inouïe.

III
Une même couche a réuni les deux amants. Sommeil profond des lutteurs. Une rumeur imperceptible surgit dans le lointain…

IV
(Crescendo des djinns.) Bruit d’épées. Canons roulants, foule grondante. Une armée en marche. Tumulte énorme sur le quai.

V
Ce qui vient s’arrête; la porte s’ouvre au nom du roi! C’est l’armée tout entière, tambour-major en tête, qui, sous les yeux du bien-aimé, paralysé d’horreur, vient souiller sa maîtresse. Description plastique des exécuteurs de l’œuvre infâme. Costumes, gestes, attitudes divers de l’infanterie, de la cavalerie et des armes spéciales.

VI
Le poète est devenu fou. La muse ne lui envoie plus que des rimes insensées… Malédiction!!
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Mário de Sá-Carneiro: Epígrafe & Fim

 
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Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.

Tenho medo de Mim. Quem sou? Donde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estilizada,
A cor morreu e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina
Um som opaco me dilui em Rei...

— 

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes
Façam escalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro...

Paris, fevereiro de 1916

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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português e lisboeta, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; obras: Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

domingo, 28 de novembro de 2021

Afonso Schmidt: Brinquedos

 
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São Nicolau de barbas brancas,
de alto capuz beneditino1,
nas costas levava um grande saco
e vai seguindo o seu destino...

É muito tarde. Nas janelas,
há sapatinhos ao sereno:
a cada espera corresponde
o sonho leve de um pequeno.

Súbito, estaca na calçada;
uma janela está vazia
e, pelas frinchas de uma porta,
chegam rumores de alegria.

O Santo pára; está amuado,
acha que o mundo é muito mau
e estas crianças já não querem
esperar por São Nicolau.

Mas, logo fica curioso,
quer descobrir porque naquela
casa não há um sapatinho
no canto escuro da janela.

Vai espiar pelo buraco
da fechadura...  Pobrezinhos,
são os meninos do trapeiro,
nunca tiveram sapatinhos...

E vê que, à falta de bonecas,
eles divertem o casal,
enquanto o avô fuma num canto,
São Nicolau, mas de avental...

Todos estão muito contentes
o Santo ri de olhos molhados
e vai seguindo à luz branquinha
do plenilúnio2 nos telhados.

Pisa de leve sobre as folhas,
diz a sorrir palavras mansas:
 “Essas crianças são os brinquedos
e esses papais são as crianças...”


Notas da edição — Vocabulário:
1. Beneditino: é o nome que se dá aos frades da Ordem de São Bento. Na poesia [acima] a palavra é usada como adjetivo de capuz.
2. Plenilúnio: a lua cheia.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversos autores), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, não concluiu o curso primário, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; Afonso Schmidt, por vezes, assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

sábado, 27 de novembro de 2021

Púchkin: A carta incinerada

 
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[traduzido por José Casado]

Adeus, carta de amor, adeus; assim quis ela…
Muito procrastinei, muito à chama da vela
Meu regozijo eu não me decidi a opor!...
Basta, o instante chegou: arde, carta de amor.
Minha alma (pronto estou) outro ato não concebe.
As páginas, voraz, o calor já recebe…
Inflamaram-se após instante… e a fumaçar,
Sobem, perdem-se com minhas súplicas no ar.
A esvair-se a impressão fiel do anel-sinete
Ó Providência , o lacre, em brasa já, derrete…
Cada folha se enrola, então cor de carvão.
Era fatal! Na cinza a oculta e alma expressão
Branqueja…O peito meu contrai-se. Cinza amada,
Refrigério infeliz de sorte desgraçada,
Serás sempre sobre este aflito coração.

(1825)

Aleksandr Púchkin

СОЖЖЕННОЕ ПИСЬМО

Прощай, письмо любви! прощай: она велела.
Как долго медлил я! как долго не хотела
Рука предать огню все радости мои!...
Но полно, час настал. Гори, письмо любви.
Готов я; ничему душа моя не внемлет.
Уж пламя жадное листы твои приемлет...
Минуту!... вспыхнули... пылают... легкий дым.
Виясь, теряется с молением моим.
Уж перстня верного утратя впечатленье,
Растопленный сургуч кипит... О провиденье!
Свершилось! Темные свернулися листы;
На легком пепле их заветные черты
Белеют... Грудь моя стеснилась. Пепел милый,
Отрада бедная в судьбе моей унылой,
Останься век со мной на горестной груди...

(1825)
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Poesia de Todos os Tempos: Púchkin Poesias escolhidas, edição bilíngue, Seleção, Tradução do russo, Prefácio, Traços biobliográficos, Notas e Apêndice (Olavo Bilac, tradutor de Púchkin) de José Casado, 1992, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Aleksandr Serguéievitch Púchkin (1799 1837), russo de Moscou, foi poeta, romancista e dramaturgo; de família nobre, educado desde o berço por preceptores vindos de Paris França e devido ter tido acesso à biblioteca paterna, quase toda de literatura francesa, aprendeu o francês antes mesmo de conhecer a língua dos pais; à época, os integrantes da nobreza russa conversavam com seus pares quase sempre em francês: o idioma russo era reservado para a comunicação com os servos; o poeta e escritor veio a aprender o russo com uma avó e com uma serva da família; em 1811, ingressou no Tsarskoye Selo Lyceum, recém-inaugurado e, a partir daí, começou a escrever e divulgar seus poemas; obras: em poesia, Ruslan e Lyudmila (18171820), Prisioneiro do Cáucaso (18201821), Ladrões de irmãos (18211822), Ciganos (1824), Conde Nulin (primeira edição, 1825), Poltava (18281829), Uegene Oneguin (novela em verso, 18231832) etc, em dramaturgia, Boris Godunov (1825), O Cavaleiro Malvado, Mozart e Salieri, Convidado de pedra (todos de 1830) ..., em prosa, O conto do falecido Ivan Petrovich Belkin (1830), Dubrovsky (1833), A Rainha de Espadas, História de Pugachev (ambos em 1834), Noites egípcias (1835), Filha do Capitão (1836) etc. além de contos de fadas e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; o poeta, desafiado por um contendor e desafeto a duelar, aceitou o desafio e, no dia 8 de fevereiro de 1837, foi ferido, vindo a morrer dois dias após; Púchkin nos deixou muitas obras inacabadas; é considerado por seus contemporâneos como o maior dos poetas russos.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Jean Moréas: Estâncias [I, 11 & III, 12]

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

I, 11

Nunca diga: esta vida é um alegre festim;
É de fútil espírito, alma inferior.
Mais ainda não diga: é ela dor sem fim;
É uma falsa coragem e se torna torpor.

Ri como ramos a vibrar nas primaveras,
Chore qual a maré na areia ou como o vento,
Sofre todos os males e goze os prazeres;
E diga: é muito e é a sombra de um alento.

III, 12

Ó tu que nos meus dias tristes, de fastio,
                   Só ainda iluminada,
Como céu estrelado que em noite de um rio,
                   Quebra as flechas douradas,

Envolve meu espírito, poesia bela,
                   Com sutil elemento,
Que eu me transforme em água, em flama e na procela,
                   Na folha e no sarmento;

E, sem perturbar com o que agita o homem,
                   Que eu cresça verdejante
Qual divino carvalho, e no eu que me consome
                   Como o fogo brilhante!

Jean Moréas

I, 11

Ne dites pas: la vie est un joyeux festin;
Ou c’est d’un esprit sot ou c’est d’une âme basse.
Surtout ne dites point: elle est malheur sans fin;
C’est d’un mauvais courage et qui trop tôt se lasse.

Riez comme au printemps s’agitent les rameaux,
Pleurez comme la bise ou le flot sur la grève,
Goûtez tous les plaisirs et souffrez tous les maux;
Et dites: c’est beaucoup et c’est l’ombre d’un rêve.

III, 12

Ô toi qui sur mes jours de tristesse et d’épreuve
                   Seule reluis encor,
Comme un ciel étoilé qui, dans la nuit d’un fleuve,
                   Brise ses flèches d’or,

Aimable Poésie, enveloppe mon âme
                   D’un subtil élément,
Que je devienne l’eau, la tempête et la flamme,
                   La feuille et le sarment:

Que, sans m’inquiéter de ce qui trouble l’homme,
                   Je croisse verdoyant
Tel un chêne divin, et que je me consomme
                   Comme le feu brillant!
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Ioannis A. Papadiamantopoulos, conhecido pelo pseudônimo Jean Moréas (1856 1910), grego e ateniense, viveu em Paris França, estudou Direito, foi poeta, romancista, ensaísta e crítico literário; teve seus poemas publicados nas revistas Lutèce e Le Chat Noir, e, em 1886, no Prefácio de sua obra Les cantilènes, Moréas se anunciou simbolista; ainda em 1886, com a apresentação do Manifesto do Simbolismo (Le Symbolisme), de sua autoria e divulgado no suplemento literário do jornal Le Figaro, o poeta passou a ser reconhecido como o iniciador daquele movimento que surgia na França e que até então não tinha nome; foi cofundador da revista Le Symboliste, com Paul Adam e Gustave Kahn; obras: Les syrtes (Os sirtes, 1884), Les cantilènes (As cantilenas, 1886), Le pélerin passioné (O peregrino apaixonado, 1891), Stances (Estâncias, 1899/1901) e outros títulos.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

T. S. Eliot: Conversa galante

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[traduzido por Oswaldino Marques]

Pondero: “Nossa amiga sentimental, a lua!
Ou talvez (é fantástico, confesso)
Seja o balão de Preste João
Ou uma velha e surrada lanterna suspensa no alto
Para alumiar os pobres viajantes, para aflição deles.”
       E ela: “Como devaneais!”

Eu, então: “Alguém engendra no teclado
Esse noturno raro, com o qual deciframos
A noite e o luar; música a que nos agarramos
Para enformar a nossa vacuidade”
       Ela: “Isso diz respeito a mim?”
       “Oh, não! Eu é que sou sem conteúdo.

“Vós, madame, sois o eterno humorista,
O eterno inimigo do absoluto,
Torcendo, com um piparote, o rumo de nossos estados erráticos!
Para, de um golpe, o ar indiferente e imperioso,
Refutar nossas lunáticas artes poéticas...”
       E ela: “Então, somos assim tão sérios?”

T. S. Eliot

Conversation galante

I observe: "Our sentimental friend, the moon!
Or possibly (fantastic, I confess)
It may be Prester John’s balloon
Or an old battered lantern hung aloft
To light poor travellers to their distress."
       She then: "How you digress!"

And I then: "Someone frames upon the keys
That exquisite nocturne, with which we explain
The night and moonshine; music which we seize
To body forth our own vacuity."
       She then: "Does this refer to me?"
       "Oh no, it is I who am inane."

"You, madam, are the eternal humorist,
The eternal enemy of the absolute,
Giving our vagrant moods the slightest twist!
With your aid indifferent and imperious
At a stroke our mad poetics to confute "
       And "Are we then so serious?"
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Poemas Famosos de Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Edmond Rostand: Maneira de Fazer Pastéis de Amêndoa Doce*

 
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[traduzido por Ricardo Gonçalves]

Com três ovos cada clara
Bem batida, uma por uma,
Se prepara
Uma xícara de espuma
Branca e leve qual se fosse
Neve pura; põe-se então,
Com leite de amêndoa doce,
Quinze gotas de limão.

Depois se bate e adelgaça,
Visando-se obra perfeita,
Fina massa
Que se deita
Numas formas especiais.
E em cada pastel brocado
Lado a lado,
Põe-se a espuma e nada mais.

Os pastéis assim obtidos
São no forno muito quente,
Docemente,
Com cautela introduzidos.
Espera-se um pouco e, após,
Na bandejinha que os trouxe,
Enfileiram-se ante nós
Os pastéis de amêndoa doce.

Edmond Rostand

Comment on fait les tartelettes amandines

Battez, pour qu'ils soient mousseux,
Quelques oeufs;
Incorporez à leur mousse
Un jus de cédrat choisi;
Versez-y
Un bon lait d'amande douce;
Mettez de la pâte à flan
Dans le flanc
De moules à tartelette;
D'un doigt preste, abricotez
Les côtés;
Versez goutte à gouttelette
Votre mousse en ces puits, puis
Que ces puits
Passent au four, et, blondines,
Sortant en gais troupelets,
Ce sont les
Tartelettes amandines!

* Nota do Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que o poema-receita Maneira de Fazer Pastéis de Amêndoa Doce (Comment on fait les tartelletes amandines) é apresentado na comédia teatral Cyrano de Bergerac (Acte II, Scene 4) como parte de uma fala de Ragueneau, poeta e pasteleiro, um dos personagens da peça.
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Edmond Eugène Alexis Rostand (1868 1918), francês de Marselha, formado em Direito, sem nunca ter exercido a profissão, foi poeta, escritor e dramaturgo; tornou-se conhecido como dramaturgo, pela autoria da peça Cyrano de Bergerac; obras: Le Gant Rouge (peça, A Luva Vermelha, 1888), Ode à la Musique (poesia, 1890), Les Musardises (Divagações, poesia, 1891), Les Deux Pierrots (Os Dois Pierrôs, 1893), Les Romanesques, comédia, 1893), La Princesse Lontaine (A Princesa Longínqua, peça escrita em versos, 1895), La Samaritaine (A Samaritana, peça escrita em versos, 1897), Pour la Grèce (poesia, 1897), Cyrano de Bergerac (comédia dramática escrita em versos, 1897), L’Aiglon (O Filhote de Águia, drama, 1900), Un Soir à Hernani (poesia, 1902), La Dernière Nuit de Don Juan (A Última Noite de Don Juan, peça, 1911) e outros textos.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Eudoro Augusto: Exames — & — O visitante

 
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O visitante

Entra de mansinho encosta a porta
sem pressa mas firme fala
farfala deblatera
aperta e solta mas agarra
força a barra
apronta um ouriço
que é isso? que é isso? e sai de fino.

&

O fio do sonho é apenas um cabelo.
Mas se ele pinta na cabeça
é bom deixá-lo crescer.

Exames

Na terça chegou assobiando
deu bom-dia
e recebeu de cara a novidade:
esquizofrenia.

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26 Poetas Hoje — antologia, Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Eudoro Augusto Macieira de Souza, nascido em 1943, português lisboeta e naturalizado brasileiro, com mestrado em Literatura Brasileira pela UNB   Universidade de Brasília, é poeta, jornalista e professor; obras: O Misterioso Ladrão de Tenerife (em coautoria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia GO), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro RJ), Dia sim Dia não (em coautoria com Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília  DF), Carnaval (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro RJ), Cabeças (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo SP), Olhos de Bandido (7Letras, 2001, Rio de Janeiro RJ), Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasília DF); Na década de 70, início de suas publicações, aproxima-se do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Padre Manuel Albuquerque: Prova Infalível *

 
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Quando eu soltar meu último suspiro;
quando o meu corpo se tornar gelado,
e o meu olhar se apresentar vidrado,
e quiserdes saber se inda respiro,

eis o melhor processo que eu sugiro:
Não coloqueis o espelho decantado
em frente ao meu nariz, mesmo encostado,
porque não falha a prova que eu prefiro:

Fazei assim: Por cima do meu peito,
do lado esquerdo, colocai a mão,
e procedei, seguros, deste jeito:

Gritai “MARIA!” junto ao meu ouvido,
e se não palpitar meu coração,
então é certo que eu terei morrido!...

4 de março de 1949, Braga — Portugal


Prueba Infalible

[traduzido por Luís O'Neill de Milan]

Cuando yo exhale el último suspiro
Y mi cuerpo esté rígido y helado,
Y el brillo de mis ojos apagado,
Si queréis comprobar si aún respiro,

Tomad sin falta este infalible giro:
Olvidad el espejo decantado,
Porque su prueba nunca me ha inspirado
La confianza absoluta a que yo aspiro:

Acercáos a mi izquierda, dulcemente,
Y actuad así después, tan solamente,
La mano reposada a mi costado:

Gritad "MARIA!" cerca de mi oído...
Y si mi corazón sigue dormido,
Podréis saber que todo ha terminado...

Indubium Signum

[traduzido por Aires de Montalbo]

Supremum diem mihi cum sit obeundum,
Dum corpus undis remeatur Lethis,
Oculis tandem tenebris repletis,
Si mortuum me, an tantum moribundum,

Scire pro certo denique voletis,
Ne speculum addatur acie mundum
Ori vincto, quo referat profundum
Ac ultimum spiramen... Sic agetis:

Ponitè manum super latus laevum,
Ubi latitat cor ah! , cor primaevum,
Et hic et nunc indubium signum adest:

Conclamate "MARIA!..." Sonu misso,
Tacito corde in pectoris abysso,
Mortem probate: "CONSUMMATUM EST!...”

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página faz constar que Vasco de Castro Lima deixa registrado que Prova Infalível é, com folga, um dos poemas de poetas brasileiros mais traduzidos para outras línguas e dialetos; o próprio padre, autor do soneto, relacionou 43 traduções para 23 línguas diferentes, incluindo dialetos, até 1972.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Padre Manuel Rebouças e Albuquerque (1907  1977), amazonense de Eirunepé, à época município de São Felipe do Juruá, fez seus primeiros estudos na paraense Santarém, cursou o Colégio São Francisco, ingressou no Seminário de Tefé  AM, ordenou-se padre em Portugal, foi missionário, professor, escritor e poeta; após retorno da Europa, fixou residência em Santarém do Pará, onde criou a Escola Maria Goretti, hoje Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Maria Imaculada; obras: Maria Minha Poeta, Estrela para a Tua Fronte, Brasil do meu Amor, Cristais Sonoros, Meu Sabiá, A Glorificação do Monossílabo, Sorrisos de minha Mãe, entre obras de história, poesia, prosa e cantos religiosos, com lançamentos no Brasil e em Portugal.

W. B. Yeats: Giros

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Giros! os giros! Velha Face Rochosa*, olha à frente!
Podem deixar-se de pensar coisas pensadas longamente,
Pois a beleza nasce da beleza e o valor nasce do valor,
E esvai-se todo antigo lineamento.
A terra, está manchando-a irracional rio sangrento;
Tudo lançou Empédocles em seu redor;
Há em Tróia uma luz, que já morreu Heitor;
Vemos, e de alegria trágica rimos somente.

Que importa se na crista um mudo pesadelo se segura
E o corpo sensitivo o manchem sangue e lodo?
Que importa? Não suspires, e não caia nenhum pranto,
Foi-se um tempo maior e de maior encanto;
E por formas pintadas e por caixas de pintura
Em velhas tumbas eu chorei, não vou chorar após;
Que importa? Da caverna ergue-se uma voz,
E tudo o que ela sabe é isto: “Regozija-te de todo!”

Fazem-se rudes a conduta e a obra, e rude a alma faz-se;
Que importa? Aqueles que preza a Rochosa Face,
Os amadores de cavalos e mulheres, tais irão
Desenterrar do mármore ou da sepultura espedaçada
Ou do escuro entre a doninha-fétida e a coruja, desse lado,
Ou de qualquer negro e opulento nada,
O obreiro, o nobre e o santo, e as coisas todas correrão
Outra vez neste giro já antiquado.

W. B. Yeats

The Gyres

The gyres! the gyres! Old Rocky Face look forth;
Things thought too long can be no longer thought
For beauty dies of beauty, worth of worth,
And ancient lineaments are blotted out.
Irrational streams of blood are staining earth;
Empedocles has thrown all things about;
Hector is dead and there's a light in Troy;
We that look on but laugh in tragic joy.

What matter though numb nightmare ride on top
And blood and mire the sensitive body stain?
What matter? Heave no sigh, let no tear drop,
A greater, a more gracious time has gone;
For painted forms or boxes of make-up
In ancient tombs I sighed, but not again;
What matter? Out of cavern comes a voice
And all it knows is that one word 'Rejoice!'

Conduct and work grow coarse, and coarse the soul,
What matter! Those that Rocky Face holds dear,
Lovers of horses and of women, shall
From marble of a broken sepulchre
Or dark betwixt the polecat and the owl,
Or any rich, dark nothing disinter
The workman, noble and saint, and all things run
On that unfashionable gyre again.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: Velha Face Rochosa: uns entendem o oráculo de Delfos, outros o judeu ermitão do Hellas[, A Lyrical Drama], de [Percy B.] Shelley [1792 — 1822]; terceiros descartam qualquer alusão.
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Poemas de W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, Coleção Toda Poesia 4, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, tho stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.