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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Arthur Rimbaud: À Música

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Praça da estação, em Charleville1

Na praça rtetalhada em canteiros mesquinhos,
Onde tudo é correto, as árvores e as flores,
Burgueses ofegando asmáticos calores
Passeiam, quinta-feira à noite, os colarinhos.

A orquestra militar, em meio da pracinha,
Balança seus bonés na Valsa dos Flautins;2
À volta a se exibir na frente, o “almofadinha”;3
O notário que cai dos berloques chinfrins.4

Agiotas de lornhon sublinham notas fracas;5
Vão gordos escrivães levando de arrastão
Grossas damas, iguais a atenciosos cornacas,6
Dessas cujo trajar cheira à remarcação.7

Nos bancos verdes vêem-se, em grupo, aposentados
Hortelãos, futucando a bengala na areia,8
Discutem seriamente os últimos tratados,
Depois tomam rapé e rematam: “Pois creia!...”

No banco esparramando as nádegas obesas,
Um burguês, os botões brancos da pança inflando,
Saboreia o cachimbo onde pendem acesas9
Iscas de fumo sim, fumo de contrabando;10

Pelas aléias riem-se os malandrins e as putas;11
Põe o som do trombone os corações em chamas,
E, fumando uma “rosa”,12 ingênuos, os recrutas13
Vão bulir com os bebés para embair as amas...

E eu ali estouvado estudante, fingindo
Não ver que as moças vão sob as árvores quietas;
Mas elas sabem bem, e me dirigerm rindo
Em carregado olhar de coisas indiscretas.

Não consigo falar: mas mudo, em meus assombros,
Vejo a carne de um colo entre cachos macios;
Sigo sob o corpete e os frágeis atavios
Um dorso divinal na curva de seus ombros.

Com pouco lhes suprimo as botinhas, as meias...14
Os corpos reconstruo ardendo em febre louca.
Achando-me um bobão, põem-se a falar a meias...
E sinto um beijo vir chegando à minha boca.

Arthur Rimbaud

A la musique

Place de la gare, à Charleville.

Sur la place taillée en mesquines pelouses,
Square où tout est correct, les arbres et les fleurs,
Tous les bourgeois poussifs qu’étranglent les chaleurs
Portent, les jeudis soirs, leurs bêtises jalouses.

L’orchestre militaire, au milieu du jardin,
Balance ses schakas dans la Valse des fifres:
Autour, aux premiers rangs, parade le gandin;
Le notaire pend à ses breloques à chiffres.

Des rentiers à lorgnons soulignent tous les couacs:
Les gros bureaux bouffis traînent leurs grosses dames
Auprès desquelles vont, officieux cornacs,
Celles dont les volants ont des airs de réclames;

Sur les bancs verts, des clubs d’épiciers retraités
Qui tisonnent le sable avec leur canne à pomme,
Fort sérieusement discutent les traités,
Puis prisent en argent, et reprennent: »En somme!…»

Épatant sur son banc les rondeurs de ses reins,
Un bourgeois à boutons clairs, bedaine flamande,
Savoure son onnaing d’où le tabac par brins
Déborde vous savez, c’est de la contrebande;

Le long des gazons verts ricanent les voyous;
Et, rendus amoureux par le chant des trombones,
Très naïfs, et fumant des roses, les pioupious
Caressent les bébés pour enjôler les bonnes…

Moi, je suis, débraillé comme un étudiant,
Sous les marronniers verts les alertes fillettes:
Elles le savent bien, et tournent en riant,
Vers moi, leurs yeux tout pleins de choses indiscrètes.

Je ne dis pas un mot: je regarde toujours
La chair de leurs cous blancs brodés de mèches folles:
Je suis, sous le corsage et les frêles atours,
Le dos divin après la courbe des épaules.

J’ai bientôt déniché la bottine, le bas…
Je reconstruis les corps, brûlé de belles fièvres.
Elles me trouvent drôle et se parlent tout bas…
Et je sens les baisers qui me viennent aux lèvres…

(Poésies, 1870-1871)

Notas do tradutor Ivo Barroso:
1. Deliciosa composição em que R. [Rimbaud] posa de pubescente e encabulado diante das meninas namoradeiras na pracinha de Charleville, durante uma retreta da banda de música. Invoca o local em que Vitalie Cuif, a mãe do poeta, conheceu o capitão Frédéric Rimbaud, seu pai. Mas o tom aparentemente bucólico já está impregnado do espírito sarcástico rimbaldiano e há imagens de agudo senso crítico expondo ao ridículo a burguesia da província;
2. Shakos. Espécie de barretina militar, alta, de feitio cilíndrico, da qual pendia uma borla, aqui traduzido simplesmente por bonés, de mais imediata compreensão pelo leitor brasileiro;
3. Le gandin é o janota, o peralvilho, o homem “chic” do interior. Usamos “almofadinha”, que lhe é sinônimo e, por estar em desuso, se aplica perfeitamente ao efeito cediço buscado por R.;
4. Imagem criadora de R. Em vez de dizer que o notário (tabelião) vem carregado (pesado) de berloques, diz que ele cai de seus penduricalhos;
5. Couac significa nota desafinada. É palavra-chave em R. que a utiliza na abertura de Une saison en enfer;
6. Cornacas são os guias de elefantes na Ìndia;
7. Air de reclame, literalmente: ar de saldo, de oferta especial, de produto em promoção a preço convidativo. Preferimos usar “remarcação”, que acentua o caráter usuráriuo dos maridos;
8. Futucar é regionalismo, com o significado de cotucar. R. emprega com frequência palavras de sua região ardenesa. O verbo usado por ele é tisonner (atiçar), indicativo da ação de avivar o fogo da lareira, de pouca expressividade para um leitor brasileiro;
9. Onnaing é o nome de um povoado próximo de Valenciennes, onde se fabricam cachimbos esculpidos;
10. De contrabando. Pela proximidade de Charleville com a fronteira belga, o contrabando de tabaco era coisa frequente;
11. Voyous são os vadios, os garotos de rua, para efeito de rima e reforço do verso acrescentamos “e as putas”;
12. Rose (“rosa”) era uma marca de cigarro barato e serve aqui para o trocadilho;
13. Pioupious era o nome popular que se dava aos soldados rasos de infantaria, meganha;
14. R. rima les bas (meias femininas) com tout bas (em voz baixa), tipo de rima opulenta que buscamos reproduizir em “meias” e “a meias”
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Arthur Rimbaud — Poesia Completa, Edição Bilíngüe Comemorativa do sesquicentenário, Tradução, Prefácio, Organização e Comentários de Ivo Barroso, e Apresentação [orelha do livro] de José Mario Pereira, 1995, 3ª edição definitiva, Topbooks Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; em 1869, iniciou-se na produção de seus primeiros versos e encaminhou o poema Les Étrennes des Orphelins [A consoada dos órfãos] à Revue pour tous, "que o estampa em seu número de 2 de janeiro de 1870"; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros, e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

terça-feira, 12 de março de 2024

Arthur Rimbaud: As mãos de Jeanne-Marie *


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[traduzido por Ivo Barroso]

Jeanne-Marie tem a mão forte,
Escuras mãos que o sol atana,
Pálida mão qual mão de morte.
Serão acaso as mãos de Juana?

Terão tomado as cores cruas
Do charco da sensualidade?
Ou mergulharam-se nas luas
Dos lagos da serenidade?

Beberam céus bárbaros, brutos,
Calmas, em joelhos deslumbrantes?
Terão enrolado charutos
Ou traficado com diamantes?

Nos pés ardentes das Madonas
Fanaram flores de ouro informe?
Negro sangrar das beladonas
Em suas palmas surge e dorme.

Mãos caçadoras de apiários
Onde aurorais azuis serenos
Zumbem, em busca de nectários?
Mãos que decantam os venenos?

Que Sonho as fez assim contritas
Em suas pandiculações?
Sonho das Ásias inauditas,
Dos Khenghavares ou dos Siões?

Mãos que jamais vendem laranjas,
Nem que dos deuses brunem sólios;
Que não lavaram nunca em sanjas
As fraldas de nenéns sem olhos.

Não têm das primas as mãos finas
Nem da operária a rude tez
Que, em fornos fétidos de usinas,
Rescalda um sol ébrio de pez.

São curvadoras de dorsais,
Que de fazer o bem têm calo,
Mais do que as máquinas, fatais,
E fortes, mais do que um cavalo!

Ardendo em fornalhas acesas
E a sacudir todos os seus tons.
Canta essa carne Marselhesas
E jamais canta os Eleisons!

Podem vos enforcar, madames
Más, e esmagar vossas mãos ruins,
Ó nobres damas, mãos infames
Cheias de branco e carmins.

O seu clarão de amor constrange
Ovelhas longe em seus redis!
O sol depõe-lhe na falange
O brilho rubro de rubis!

Uma nódoa de populaça
Qual seio antigo as anegreja;
O dorso dessas mãos é a praça
Que um revoltado altivo beija!

Desfaleceram, sonhadoras,
Ao sol do amor que então surgia
No bronze das metralhadoras
Pela Paris que se insurgia!

Ah! Que por vezes, Mãos sagradas,
Em vosso punho, onde acolheis
Nossas bocas jamais saciadas,
Gritam grilhões de alvos anéis!

E há um Sobressalto que constrange
Os nossos seres, quando os medos
Querem vos consumir, mãos de anjos,
Fazendo-vos sangrar os dedos.

Arthur Rimbaud

Les Mains de Jeanne-Marie

Jeanne-Marie a des mains fortes,
Mains sombres que l’été tanna,
Mains pâles comme des mains mortes.
Sont-ce des mains de Juana?

Ont-elles pris les crèmes brunes
Sur les mares des voluptés?
Ont-elles trempé dans des lunes
Aux étangs de sérénités?

Ont-elles bu des cieux barbares,
Calmes sur les genoux charmants?
Ont-elles roulé des cigares
Ou trafiqué des diamants?

Sur les pieds ardents des Madones
Ont-elles fané des fleurs d’or?
C’est le sang noir des belladones
Qui dans leur paume éclate et dort.

Mains chasseresses des diptères
Dont bombinent les bleuisons
Aurorales, vers les nectaires?
Mains décanteuses de poisons?

Oh! quel Rêve les a saisies
Dans les pandiculations?
Un rêve inouï des Asies,
Des Khenghavars ou des Sions?

Ces mains n’ont pas vendu d’oranges,
Ni bruni sur les pieds des dieux:
Ces mains n’ont pas lavé les langes
Des lourds petits enfants sans yeux.

Ce ne sont pas mains de cousine
Ni d’ouvrières aux gros fronts
Que brûle, aux bois puant l’usine,
Un soleil ivre de goudrons.

Ce sont des ployeuses d’échines,
Des mains qui ne font jamais mal,
Plus fatales que des machines,
Plus fortes que tout un cheval!

Remuant comme des fournaises,
Et secouant tous ses frissons,
Leur chair chante des Marseillaises
Et jamais les Eleisons!

Ça serrerait vos cous, ô femmes
Mauvaises, ça broierait vos mains,
Femmes nobles, vos mains infames
Pleines de blancs et de carmins.

L’éclat de ces mains amoureuses
Tourne le crâne des brebis!
Dans leurs phalanges savoureuses
Le grand soleil met un rubis!

Une tache de populace
Les brunit comme un sein d’hier;
Le dos de ces Mains est la place
Qu’en baisa tout Révolté fier!

Elles ont pâli, merveilleuses,
Au grand soleil d’amour chargé,
Sur le bronze des mitrailleuses
À travers Paris insurgé!

Ah! quelquefois, ô Mains sacrées,
À vos poings, Mains où tremblent nos
Lèvres jamais désenivrées,
Crie une chaîne aux clairs anneaux!

Et c’est un soubresaut étrange
Dans nos êtres, quand, quelquefois,
On veut vous déhâler, Mains d’ange,
En vous faisant saigner les doigts!

[Poésies — 1871]

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página transcreve o que Ivo Barroso, tradutor e organizador deste Arthur Rimbaud — Poesia Completa, relata na seção Flashes Cronológicos da obra:
‘1871 — Charleville é ocupada pelos alemães. A 28 de janeiro é firmado o armistício. A 25 de fevereiro, Rimbaud, com o produto da venda de seu relógio de prata, empreende, de trem, sua terceira fuga em direção a Paris. Após errar quinze dias pelas ruas da capital, regressa a pé a Charleville, passando pelas linhas inimigas e dizendo-se franco-atirador para os camponeses que lhe dão pousada. Em março, instala-se a Comuna de Paris; Rimbaud recebe a notícia com alegria e manifesta vivos sentimentos communards; redige um projeto de constituição comunalista (segundo testemunho de [Ernest] Delahaye [18531930]), que se terá perdido. A reabertura do colégio, marcada para 23 de março, leva-o a nova e controvertida fuga para a capital, onde se teria engajado nos corpos da Comuna e estagiado na caserna de Babylone. Seus poemas dessa época assinalam para esse engajamento: “Canto de guerra parisiense”, “As mãos de Jeanne-Marie”, “Paris se repovoa”. ...’
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Arthur Rimbaud — Poesia Completa, Edição Bilíngüe Comemorativa do sesquicentenário, Tradução, Prefácio, Organização e Comentários de Ivo Barroso, e Apresentação [orelha do livro] de José Mario Pereira, 1995, 3ª edição definitiva, Topbooks Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.