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quinta-feira, 2 de julho de 2020

Gérard de Nerval: Anteros

Resultado de imagem para As Filhas do Fogo 15 Livro B Editorial Estampa Gérard de Nerval
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[traduzido por M. João Gomes]

Perguntas porque tenho no peito tanta ira
E nos ombros ostento esta fronte indomada:
É que, da geração de Anteu originado,
Sou o que o tenso dardo aos próprios deuses vibra.

Sim, sou daqueles a quem o Vingador inspira;
Ele me marcou no rosto um ósculo irado;
De Abel na palidez do sangue fui banhado,
Implacável Caim que de paixão delira.

Ó Jeová, quem foi que o teu poder vencia,
E do profundo inferno gritava: “Ó tirania”!?
Foi meu avô Beluz, meu pai Degon talvez...

Três vezes me banhei nas águas de Cocita,
Protejo minha mãe viúva Amalecita,
Do dragão lhe deixando a presa esparsa aos pés.

(As Quimeras)

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Gérard de Nerval

Antéros

Tu demandes pourquoi j’ai tant de rage au coeur
Et sur un col flexible une tête indomptée;
C’est que je suis issu de la race d’Antée,
Je retourne les dards contre le dieu vainqueur.

Oui, je suis de ceux-là qu’inspire le Vengeur,
Il m’a marqué le front de sa lèvre irritée,
Sous la pâleur d’Abel, hélas! ensanglantée,
J’ai parfois de Caïn l’implacable rougeur!

Jéhovah! le dernier, vaincu par ton génie,
Qui, du fond des enfers, criait: “O tyrannie!”
C’est mon aïeul Bélus ou mon père Dagon…

Ils m’ont plongé trois fois dans les eaux du Cocyte,
Et, protégeant tout seul ma mère Amalécyte,
Je ressème à ses pieds les dents du vieux dragon.

(Les Chimères)
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As Filhas do Fogo (e As Quimeras) — Gérard de Nerval, Traduções de Luiza Neto Jorge (As Filhas do Fogo) e M. João Gomes (As Quimeras), 1972, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista e romancista; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; parte de seus poemas foram publicados em jornais e revistas da época; bibliografia: Elégies et Odelettes (1834), Voyage en Orient (1851), Les Filles du feu (1854), Promenades et souvenirs (1854), Les Chimères (1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (1855) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.