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[traduzido por M. João Gomes]
Perguntas porque tenho no
peito tanta ira
E nos ombros ostento esta
fronte indomada:
É que, da geração de Anteu
originado,
Sou o que o tenso dardo aos
próprios deuses vibra.
Sim, sou daqueles a quem o
Vingador inspira;
Ele me marcou no rosto um
ósculo irado;
De Abel na palidez do sangue
fui banhado,
Implacável Caim que de paixão
delira.
Ó Jeová, quem foi que o teu
poder vencia,
E do profundo inferno gritava:
“Ó tirania”!?
Foi meu avô Beluz, meu pai
Degon talvez...
Três vezes me banhei nas águas
de Cocita,
Protejo minha mãe viúva
Amalecita,
Do dragão lhe deixando a presa
esparsa aos pés.
(As Quimeras)
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| Gérard de Nerval |
Antéros
Tu demandes pourquoi j’ai tant de rage au coeur
Et sur un col flexible une tête indomptée;
C’est que je suis issu de la race d’Antée,
Je retourne les dards contre le dieu vainqueur.
Oui, je suis de ceux-là qu’inspire le Vengeur,
Il m’a marqué le front de sa lèvre irritée,
Sous la pâleur d’Abel, hélas! ensanglantée,
J’ai parfois de Caïn l’implacable rougeur!
Jéhovah! le dernier, vaincu par ton génie,
Qui, du fond des enfers, criait: “O tyrannie!”
C’est mon aïeul Bélus ou mon père Dagon…
Ils m’ont plongé trois fois dans les eaux du Cocyte,
Et, protégeant tout seul ma mère Amalécyte,
Je ressème à ses pieds les dents du vieux dragon.
(Les Chimères)
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As Filhas do Fogo (e As Quimeras)
— Gérard de Nerval, Traduções de Luiza Neto Jorge (As Filhas do Fogo) e M. João
Gomes (As Quimeras), 1972, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Gérard de Nerval
(1808 — 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo,
contista, novelista e romancista; estudou no Collège Charlemagne — Paris, participou
do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe
e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao
teatro e que circulou por alguns meses; parte de seus poemas foram publicados em
jornais e revistas da época; bibliografia: Elégies et Odelettes (1834), Voyage
en Orient (1851), Les Filles du feu (1854), Promenades et souvenirs (1854), Les
Chimères (1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (1855) e outros títulos em verso,
prosa e para teatro; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento
e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se
numa viela de Paris.
