como o ascender nos levara.
A memória é uma forma
de consumar-se,
um tipo de renovo
mesmo
uma iniciação, uma vez serem os espaços que
abrem novos lugares
povoados por hordas
dantes inimagináveis,
de espécimes novas —
uma vez visarem seus movimentos
a objetivos novos
(mesmo que anteriormente abandonados).
Nenhuma derrota é feita tão só de derrota — uma vez
ser o mundo que abre sempre um lugar
anteriormente
insuspeito. Um
mundo perdido,
um mundo insuspeito,
nos leva a novos lugares
e nenhuma brancura (perdida) é tão branca como a
memória
da brancura
Ao cair da tarde, o amor desperta
embora suas sombras
que vivem em virtude
da luz do sol —
alastrem-se sonolentas e larguem
do desejo
O amor sem sombras alenta-se agora
principiando a despertar
quando a noite
avança.
O descender
feito de desesperos
e sem consumar-se
imagina um novo despertar:
o qual é o inverso
do desespero.
O que não podemos consumar, o que
é negado ao amor,
o que perdemos na antecipação —
um descender prossegue,
infindo e indestrutível
[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 11.09.83
The
Descent
The descent beckons
as the ascent beckoned.
Memory is a kind
of accomplishment,
a sort of renewal
even
an initiation, since the
spaces it opens are new places
inhabited by hordes
heretofore unrealized,
of new kinds —
since their movements
are toward new objectives
(even though formerly they
were abandoned).
No defeat is made up entirely
of defeat — since
the world it opens is always a
place
formerly
unsuspected. A
world lost,
a world unsuspected,
beckons to new places
and no whiteness (lost) is so
white as the memory
of whiteness.
With evening, love wakens
though its shadows
which are alive by
reason
of the sun shining —
grow sleepy now and drop away
from desire.
Love without shadows stirs now
beginning to awaken
as night
advances
The descent
made up of despairs
and without
accomplishment
realizes a new awakening:
which is a reversal
of despair.
For what we cannot accomplish,
what
is denied to love,
what we have lost in the
anticipation —
a descent follows,
endless and indestructible.
* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro
desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal
Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo
inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura
modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de
Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem
carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de
Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições
Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 — 1963), estadunidense
de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade
da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta
do modernismo e do imagismo norte-americano; Williams, antes mesmo de aprender o
inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto
Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909),
Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela,
1923), Novelette and Other Prose (1932), An Early Martyr and Other Poems (1935),
White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete
Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (1938), The Wedge (poesias,
1944), Paterson — Book I (1946), Autobiography (1951), The Desert Music and Other
Poems (1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (1962),
Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama,
1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações
por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen
e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.