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quarta-feira, 6 de março de 2024

William Carlos Williams: Descender

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[traduzido por Vinicius Dantas]

O descender nos leva
como o ascender nos levara.
A memória é uma forma
de consumar-se,
um tipo de renovo
mesmo
uma iniciação, uma vez serem os espaços que
abrem novos lugares
povoados por hordas
dantes inimagináveis,
de espécimes novas
uma vez visarem seus movimentos
a objetivos novos
(mesmo que anteriormente abandonados).

Nenhuma derrota é feita tão só de derrota uma vez
ser o mundo que abre sempre um lugar
anteriormente
insuspeito. Um
mundo perdido,
um mundo insuspeito,
nos leva a novos lugares
e nenhuma brancura (perdida) é tão branca como a
memória
da brancura

Ao cair da tarde, o amor desperta
embora suas sombras
que vivem em virtude
da luz do sol
alastrem-se sonolentas e larguem
do desejo
O amor sem sombras alenta-se agora
principiando a despertar
quando a noite
avança.

O descender
feito de desesperos
e sem consumar-se
imagina um novo despertar:
o qual é o inverso
do desespero.
O que não podemos consumar, o que
é negado ao amor,
o que perdemos na antecipação
um descender prossegue,
infindo e indestrutível

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 11.09.83

William Carlos Williams

The Descent

The descent beckons
                     as the ascent beckoned.
                                             Memory is a kind
of accomplishment,
                     a sort of renewal
                                             even
an initiation, since the spaces it opens are new places
                     inhabited by hordes
                                             heretofore unrealized,
of new kinds 
                     since their movements
                                             are toward new objectives
(even though formerly they were abandoned).

No defeat is made up entirely of defeat  since
the world it opens is always a place
                     formerly
                                             unsuspected. A
world lost,
                     a world unsuspected,
                                             beckons to new places
and no whiteness (lost) is so white as the memory
of whiteness.

With evening, love wakens
                     though its shadows
                                             which are alive by reason
of the sun shining 
                     grow sleepy now and drop away
                                             from desire.

Love without shadows stirs now
                     beginning to awaken
                                             as night
advances

The descent
                     made up of despairs
                                             and without accomplishment
realizes a new awakening:
                                             which is a reversal
of despair.
                     For what we cannot accomplish, what
is denied to love,
                     what we have lost in the anticipation 
                                             a descent follows,
endless and indestructible.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo norte-americano; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Novelette and Other Prose (1932), An Early Martyr and Other Poems (1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (1938), The Wedge (poesias, 1944), Paterson — Book I (1946), Autobiography (1951), The Desert Music and Other Poems (1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.