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domingo, 28 de agosto de 2022

Sylvio Figueiredo: Vade retro, Satan!

 
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Vade retro, Satan! Coisa indecente,
mulher de calças, a fazer serviço
que era feito por homens... Deixa disso!
não penses nessa coisa irreverente!

Tu, numa forja1, por exemplo, à frente
da fornalha! Imagina, ó meu derriço2,
pensa bem, anjo meu, terno e roliço,
tu, no trabalho da barbuda gente!

Lérias3, o idiota  feminismo  estulto4!
não se coaduna o forte e o vil trabalho
com ser gentil, com feminino vulto.

Por isso é que contigo zango e ralho;
faze o labor doméstico e eu me oculto
no meu... Cada macaco no seu galho5!

Notas de Luiz Antonio Barros:
1. Forja: oficina de ferreiro: fundição. ([dicionário] Aurélio)
2. Derriço: xodó; namorada. ([dicionário] Houaiss, 2001)/(Houaiss/Aurélio)
3. Lérias: conversa fiada; tolices ([A gíria brasileira, Antenor] Nascentes [filólogo], 1953);
4. Estulto: insensato, estúpido; que não apresenta um bom discernimento. ([dicionário] Houaiss, 2001)
5. Cada macaco no seu galho: ditado cujo significado é “ninguém deve ir além das suas atribuições ([Enciclopédia e dicionário ilustrado, 1998], [André] Koogan)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal,  2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras; pelos traços biográficos do autor, relatados neste Os Poetas Satíricos..., ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris, Niterói (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; ressalte-se também que, conforme já citado, em 1913 o poeta já publicara Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Sylvio Figueiredo: Recessus lacertaes*

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A minha casa é pequenina e pobre
Como convém a um pobre e pequenino:
Não tem varandas nem entrada nobre,
É o jardim algo menos que mofino**

Conta, porém, dos pássaros com o hino
E logo vê quem minha esquina dobre
Que não lhe falte o raio purpurino***
Do mesmo sol que as outras casas cobre.

Nela é que fruindo meus modestos gozos,
Vivo entre os meus amigos tagarelas
E os meus livros amigos silenciosos.

Nela a ilusão ao menos me conforta
De que do mundo as ríspidas procelas****
Vêm morrer surdamente à minha porta!

(Forja 1962)

Notas de Luiz Antonio Barros:
* Recessus lacertae (latim): Significa “O esconderijo do lagarto”.
** Mofino: de pequenas dimensões, acanhado (Aurélio)
*** Purpurino: púrpura; cor vibrante vermelho-escura, tendente para ao roxo (idem)
**** Procelas: temporais; grandes tumultos. (ibidem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras; pelos traços biográficos do autor, relatados neste Os Poetas Satíricos..., ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris, Niterói (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; ressalte-se também que, conforme já citado, em 1913 o poeta já publicara Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café. 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Sylvio Figueiredo*: Mora a pequena em minha vizinhança

 
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Mora a pequena em minha vizinhança,
Na avenida mais chic da cidade;
É linda e a cabecinha não descansa,
Viva, astuta e repleta de maldade.

Tem namorado: um paspalhão de pança,
Que lhe fala feliz, muito à vontade
E que os ouvidos seus mimosos cansa
Com farta dose de boçalidade.

Eu, que no amor não tenho tal ventura,
Invejo a esse magano sem decoro,
Que o amor possui de tão gentil criatura.

“Ah, Deus dá nozes...” penso e assim, mofino,
Para ter tanta sorte no namoro,
Sinto o desejo até de ser cretino!

* Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que pelos traços biográficos de Sylvio Figueiredo, anotados por Luiz Antonio Barros  organizador deste Os Poetas Satíricos ..., ficamos sabendo que embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; antes, em 1913, o poeta publicou Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo, fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Sylvio Figueiredo*: No dia 3 mais uma primavera

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No dia 3 mais uma primavera
contas, formosa e escreves-me, pedindo
que eu compareça ao bródio ameno e lindo,
que a tal festa não falte... ai! quem me dera!

Eu, que sou nos folguedos mesmo cuera,
vou faltar desta vez. Horror infindo!
É que o meu terno podre está se esvaindo
de tão batido e pálido. Pudera!

Tenho razões, bem vês, minhas candongas,
De não comparecer à linda festa,
A ouvir ao piano as belas arapongas...

Nesta minha pindaíba se concentra
a causa disso... É a explicação que resta
... e em festa de jacu nhambu não entra!

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz constar que pelos traços biográficos de Sylvio Figueiredo, anotados por Luiz Antonio Barros organizador deste Os Poetas Satíricos ..., ficamos sabendo que, embora o nome do poeta não conste da lista de freqüentadores da Roda do Café Paris (com auge nos anos 10 e 20 do século XX), há notícia testemunhando tê-lo como um dos “remanescentes da roda literária do Café Paris, no ambiente das redações de jornais ou nos cenários literoboêmios de Niterói, por volta de 1930”; antes, em 1913, o poeta publicou Sonetos, seu primeiro livro de poemas, com a parceria de Lili Leitão, outro niteroiense e assíduo freqüentador da roda literária e boêmia de tal Café.
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Sylvio de Figueiredo (1891 1972) ou Sílvio Figueiredo), fluminense de Niterói, autodidata, freqüentou a Escola Nacional de Belas-Artes, mas “abandonou definitivamente o pincel”, foi jornalista, poeta, escritor e tradutor; colaborou n’O Malho, n’O Cruzeiro e atuou no Jornal do Rio (foi fundador?), “tablóide de cem mil exemplares de tiragem”, com distribuição gratuita “de Tabatinga ao Chuí, por intermédio de dois laboratórios farmacêuticos”, e cujo custeio foi obtido através de propaganda comercial, tablóide este que circulou por três anos e que divulgou crônicas e outros escritos de diversos autores, além de textos de autores franceses, espanhóis e italianos, traduzidos pelo próprio Sylvio Figueiredo, que os lia no original, conhecedor que era de tais idiomas; obras: Sonetos (quarenta sonetos, em parceria com Lili Leitão, sendo vinte de cada poeta, 1913), Contos que a vida escreve (1931), Quixote (sátira, 1934), Atlantes (versos, 1943), Sonetos (Separata da Academia Fluminense de Letras, 1954), Forja (versos, 1962), Passos na areia (crônicas, 1962); o poeta foi membro da Academia Fluminense de Letras.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Itamar Siqueira: Visita à casa da sogra

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Como urubu que regressasse ao ninho,
A ver se ainda um bom caminho logra,
Eu quis rever também a minha sogra,
O meu primeiro e virginal carinho.

Entrei. Pé ante pé, devagarzinho,
O fantasma, talvez, daquela cobra...
Tomou-me as mãos, olhou-me bem, de sobra...
E levou-me para dentro, de mansinho.

Era este quarto, oh! se me lembro, e quando...
Em que, à luz da lua que brilhava,
O pau roncava forte, tanto e tanto,

No costado da gente, sem piedade,
Um cacete bem grosso lá no canto...
Minhas costas choraram de saudade...


(Humor e Humorismo, organizado por Idel Becker  1961)

Livro: Humor e Humorismo Parodias - Idel Becker | Estante Virtual
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, e Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; sobre Itamar Siqueira, autor deste poema-paródia, nada consta neste Poetas Satíricos, nem mesmo pode-se afirmar que o autor tivesse frequentado o Café Paris; Luiz Antonio Barros registrou nas Referências Biográficas desta obra que o poema foi colhido de Humor e Humorismo (Brasiliense, São Paulo  SP, 1961), organizado por Idel Becker; o aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa, até onde pode pesquisar, também nada encontrou a respeito do poeta e do poema; fica o agradecimento a quem se aprofundar a respeito e quiser repartir com o blogue.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Lili Leitão: Suíte

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Paro aqui. Tenho o livro terminado.
De continuar a versejar desisto.
Já dei sofrivelmente1 o meu recado.
Neste soneto, agora, ponho o visto.

Peço, entretanto, por amor de Cristo,
Que comigo ninguém fique zangado,
Pois, brevemente, se inda cuidar disto,
Voltarei mais feliz, mais engraçado.

Por esta vez, já chega de chalaça2.
Estou pronto3, e o dinheiro cabuloso4
É o meu maior fornecedor de graça.

Eis o meu derradeiro sonetinho;
Vou tratar de outro ofício mais rendoso:
Meus amáveis leitores, adeusinho...

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Notas de Luiz Antonio Barros:
1 Sofrivelmente: de modo sofrível, isto é, que não é bom, mas também não é inteiramente mau; passável, tolerável. (Lili Leitão)
2 Chalaça: dito ou gracejo de mau gosto, escárnio. (idem)
3 Pronto: sem dinheiro. (ibidem)
4 Cabuloso: azarento, importuno, antipático. (ibidem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

domingo, 26 de maio de 2019

Lili Leitão: Prova dos nove

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Meus amores, primeiro, foram sete,
Sete criaturas divinais, bonitas,
Cada qual mais risonha e mais coquette1:
Três Dulces, uma Isaura e três Anitas.

Mas, depois, Deus mais duas me remete,
Igualmente formosas e catitas2.
Dois peixõezinhos3  Margarida e Odete 
Para um total de nove senhoritas.

Hoje, tudo acabado, é finda a festa:
Perdi de leão do amor o privilégio,
Pois, dessas nove já nem uma resta.

Fiquei só, recordando-me a tabuada,
Como um simples aluno de colégio;
“sete e dois, nove; noves fora, nada”.

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Notas de Luiz Antonio Barros:
Coquette: palavra francesa que se refere à pessoa, especialmente do sexo feminino, que procura despertar admiração, geralmente apenas pelo prazer de seduzir; diz-se também de pessoa leviana, inconstante; coquete. (Lili Leitão)
Catita: bonita, atraente, bem-vestida. (idem)
Peixãozinho: diminutivo de peixão: mulher bonita e de corpo exuberante. (ibidem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Lili Leitão: Uma tragédia

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Sonhei... Leitores, que calamidade!
Foi numa noite tétrica, chuvosa.
Sonhei que o Diabo  o gênio da maldade 
Tinha me transformado em melindrosa*.

Imaginem que horror! Eu, nesta idade,
Passar a ser uma mulher dengosa...
Mudar de sexo... E a originalidade
É que, no sonho, eu me chamava Rosa...

E era noiva de um gajo magro e feio,
Que só de pernas tinha metro e meio,
De um rapaz antipático, medonho!

Felizmente, acordei de tal suplício,
Livrei-me a tempo do meu sacrifício.
Que medo eu tive de casar-me em sonho!

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* Nota da edição: Melindrosa: nos anos 1920, mulher que se distinguia por estar sempre no rigor da moda e possuir maneiras tão gráceis quanto afetadas; o traje característico dessa mulher, de cintura baixa e longas franjas, muito usado como fantasia no carnaval ou em festas de época. (Houaiss)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890  1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A CapitalJornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas umaEu aqui e ela láO espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Lili Leitão As fitas

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Vai-se a primeira fita1 comovente
Vai-se outra mais... mais outra... e muitas fitas
Vão-se, fitas alegres, esquisitas,
Apenas desce a tarde lentamente.

E, depois do programa surpreendente,
Noutra sessão, mais tarde, elas, catitas2,
Da Pathé, Paramount, Metro, bonitas,
Voltam todas à tela novamente.

Também dos nossos bolsos, retinindo,
Vão-se os níqueis magríssimos sumindo
Como do quadro as fitas colossais.

Nas trevas da gaveta o timbre soltam,
Fogem. Noutra sessão as fitas voltam,
E esses níqueis, aos bolsos, nunca mais!

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Notas de Luiz Antonio Barros:
1 Fita: filme cinematográfico (Aulete)
2 Catita: que se veste bem ou que tem modos graciosos, elegante. (idem)
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão, (1890  1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, para onde se dirigiam e ali discutiam os boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos, jornalistas...; colaborou em vários jornais, entre os quais A CapitalJornal de Niterói, Gazeta da ManhãO Fluminense, muitas vezes sob o pseudônimo de Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas do carnaval, o tablóide O Almofadinha; escreveu e publicou: Sonetos (1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas umaEu aqui e ela láO espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); com o pseudônimo Armando Prazeres, o poeta-humorista reuniu em Comidas Brabas (edição reduzida) os poemas pornográficos recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.