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sábado, 17 de setembro de 2022

Jean Moréas: Agha Veli

 
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[traduzido por Fontoura Xavier]

No seu palácio encantado
De mil andares de porte,
Entre a nobreza da corte,
Cisma Agha Veli sentado.

Pelos salões espaçosos
Ressoam notas festivas...
Os eunucos aos convivas
Servem vinhos capitosos.

Ao clarão dos candelabros,
À voz das harpas, sonora,
Voam em giros macabros
As escravas de Bassora.

De súbito, num assomo
De mão oculta que impele,
Entra, sem se saber como,
Uma ave e diz: “Agha Veli,

A tua bela de opala,
Princesa de sangue azul,
Vai amanhã desposá-la
O filho do rei de Thul”.

Agha Veli ouve-a congesto
E grita por um cavalo,
Que venha, rápido e presto,
Junto à princesa levá-lo!

"Mais veloz que o vento alado,
Qual de vós, rompendo a treva,
Antes que seja o sol nado,
Ao fim do mundo me leva?”

“Mais que o vento pressuroso
E o próprio raio iracundo
(Responde um corcel fogoso)
Eu levo-te ao fim do mundo”.

E parte como um demônio...
Florestas, vales, montanhas,
Rios, cidades, campanhas,
Somem-se num pandemônio.

Vê-o da sua caverna
O dragão em sobressalto
Transpondo apenas dum salto
O pico onde o lhama inverna.

A devorar horizontes
No seu galopar sem trégua
Corre por vale e montes
Em cada passo uma légua.

Mas dentro em momentos, antes
Que ressurja o sol no espaço,
Ante um préstito arquejante
Detém o sinistro passo.

Em vez de cantos de boda
Ouvem-se preces e rezas...
Filas de velas acesas
Pontilham a noite toda.

É um enterro de donzela,
Talvez donzela e princesa
Vai de branco e de capela,
Os símbolos da pureza.

“Dizei-me rápido e breve
(Agha Veli à turba exorta)
Quem nesse esquife de neve
A esta hora enterra-se, morta?”

"É a bela da cor de opala
Princesa de sangue azul;
Ia amanhã desposá-la
O filho do rei de Thul.”

Jean Moréas

Agha Veli

Dans la salle de sa maison,
de sa maison aux cent fenêtres,
avec ses pareils et ses maîtres
il partage la venaison:
parmi les fleurs des champs en gerbes
ce sont des sangliers entiers,
des chevreuils roux et des quartiers
de cerfs aux ramures superbes.

Les eunuques silencieux
versent les liqueurs parfumées
dans les fines coupes gemmées
et dans les hanaps précieux;
tandis que pour charmer la fête,
des esclaves de Bassora
dansent au son du tamboura
avec un sabre sur la tête.
Un oiseau rose, oiseau joli,
oiseau qui parle, tel un homme,
l'on ne sait d'où, l'on ne sait comme,
il entre et dit: "Agha Véli
ta belle aux yeux et ta blonde,
ta blonde aux baisers de carmin,
on va la marier demain
au fils du roi de Trébizonde."

il va trouver ses chevaux roux,
tachetés comme une panthère,
qui du sabot bêchent la terre,
la dent longue et l'oeil en courroux.
"plus vite qu'un cerf dans la plaine,
plus vite que l'aile du vent,
bien avant le soleil levant,
au bout du monde qui me mène?"
un vieux cheval, cheval pur sang,
aux flancs meurtris de mainte entaille
dans le combat et la bataille,
hume la brise en hennissant:
"plus vite qu'un cerf dans la plaine,
plus vite que l'aile du vent,
bien avant le soleil levant,
au bout du monde je te mène."

ils laissent derrière les monts,
derrière ils laissent les montagnes:
par les forêts, par les campagnes,
ils passent comme des démons.
Les houx géants mordent la selle,
et le sabot saigne au caillou,
et dans l'air glacé le hibou
les frôle, en fuyant, de son aile.
Ils laissent derrière les monts,
derrière, la campagne brune;
dans la rafale, au clair de lune,
ils passent comme des démons.
Le pic où la lamie hiverne
est descendu sitôt monté,
et le dragon épouvanté
frissonne au fond de sa caverne,

ils vont, pareils à des démons,
passant le gué, sautant le fleuve,
ils vont, qu'il grêle, ils vont, qu'il pleuve,
par les ravins et par les monts.
Le sang zèbre sa peau de bistre,
la vase lui monte aux mollets;
voilà que le pont du palais
tremble sous leur galop sinistre.
Nul chant de luth répercuté
dans la tourelle et sous les porches;
de rouges languettes de torches
oscillent dans l'obscurité.
Une procession arrive
escortant un cercueil tout blanc,
et Véli demande, tremblant
comme le roseau sur la rive:

"les prêtres et les fossoyeux,
dites, quelle est la jeune morte
que dans ce cercueil on emporte
couchée en ses cheveux soyeux?
c' est la belle aux yeux bleus, la blonde,
la blonde aux baisers de carmin;
elle allait épouser demain
le fils du roi de Trébizonde."
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro  nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Ioannis A. Papadiamantopoulos, conhecido no ambiente literário pelo pseudônimo Jean Moréas (1856 1910), grego e ateniense, viveu em Paris França, estudou Direito, foi poeta, romancista, ensaísta e crítico literário; teve seus poemas publicados nas revistas Lutèce e Le Chat Noir, e, em 1886, no Prefácio de sua obra Les cantilènes, Moréas se anunciou simbolista; ainda em 1886, com a apresentação do Manifesto do Simbolismo (Le Symbolisme), de sua autoria e divulgado no suplemento literário do jornal Le Figaro, o poeta passou a ser reconhecido como o iniciador daquele movimento que surgia na França e que até então não tinha nome; foi cofundador da revista Le Symboliste, com Paul Adam e Gustave Kahn; suas obras: Les syrtes (Os sirtes, 1884), Les cantilènes (As cantilenas, 1886), Le pélerin passioné (O peregrino apaixonado, 1891), Stances (Estâncias, 1899/1901) e outros títulos.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Fontoura Xavier: Massas de bronze

 
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A Luís Delfino

Não foram dois heróis mas foram dois chacais!
Fizeram-se no tempo em que uma tirania
Co’a descarnada mão da morta monarquia
Esbofeteava a Lei nos fojos imperiais!

Eram dignos um d’outro os míseros rivais:
Enquanto um, menos nobre, à infâmia se vendia
O outro, Judas vil, as suas leis traía
Roubando uma coroa à fronte de seus pais!...

Hoje, feitos de bronze e erguidos pelas praças
Para glória dos reis e insulto às populaças,
Um  cospe desdenhoso escárnios à Nação;

Enquanto, sobre o pó do fúnebre banquete,
Outro  tenta apagar co’a pata do ginete
A luz da liberdade e a sombra d’um Catão!

Rio de Janeiro

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856 1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; obras: O Régio Saltimbanco (versos contra a monarquia, 1877) e Opalas (poesias, 1ª edição em 1884 e edição definitiva em 1905); Fontoura Xavier serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suíça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Fontoura Xavier: Estudo anatômico

 
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Entrei no anfiteatro da ciência,
conduzido por mera fantasia,
e aprouve-me estudar anatomia,
por dar um novo pasto à inteligência.

Discorria com toda a sapiência
um lente, numa mesa em que jazia
uma imóvel matéria muda e fria,
a que outrora animara humana essência.

Fora uma meretriz. Seu rosto belo
pude, tímido, olhá-lo com respeito,
por entre negras ondas de cabelo...

A um gesto do lente, contrafeito,
rasguei-a com a ponta do escalpelo
e não vi o coração dentro do peito!...

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Livro das Cortesãs 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856 1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; escreveu e publicou O Régio Saltimbanco (versos contra a monarquia, 1877) e Opalas (poesias, 1ª. Edição em 1884 e edição definitiva em 1905); serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suiça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).

sábado, 2 de julho de 2016

Fontoura Xavier: Nevrose *

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Nessa tristeza mórbida, secreta,
Que te afugenta as sombras do repouso,
Eu vejo a hipocondria, a febre infecta
Florescências do pântano do gozo.

Por uma noite de luar repleta,
Eu, contudo, quisera, fervoroso,
Sentir pulsar esta paixão discreta
No bronze do teu seio tormentosol

Depois... morrer! beijando como o pária
Na liça da peleja sanguinária
A mortalha de lodo em que se cose!

És o perfume negro, a flor do pasmo,
Que no silêncio morno do marasmo
Faz-me sonhar os estos da nevrose!...



* Nota do Organizador: Data de 1876 e reflete atmosfera decadente. Nevroses seria o título do futuro livro do baudelariano Rollinat.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856 1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; escreveu e publicou O Régio Saltimbanco (versos contra monarquia, 1877) e Opalas (poesias, 1ª. edição em 1884 e edição definitiva em 1905); serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suiça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Fontoura Xavier: Carvalho Júnior

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Um instante, coveiro! o morto é meu amigo,
E como vês cheguei para dizer-lhe adeus;
Depois podes levá-lo, a Satanás, contigo,
Que sei que não pretende a salvação de Deus.

Eu descuidei-me, sim; nós dávamo-nos muito!
Há meses abracei-o e nunca mais o vi...
Alguém, quem quer que seja! aproveitou o intuito,
Matou-o em minha ausência e trouxe-o para aqui.

Vim despedir-me dele... (Escuta-me, primeiro.
Tu deves conhecer os mortos que aqui somes;
Muitas vezes Hamleto a dúvida, coveiro,
Visita este lugar interrogando nomes.

Estuda esta cabeça, o príncipe há de vê-la;
Repara bem, é loura, esplendida, à Van-Dick!
Pois bem, gasta a mortalha, então roída a tela,
Não tomes Baudelaire por um jogral Yorick !).

Vim despedir-me, pois! A morte já começa
A martelar caixões na porta dos ateus!...
Sentido, batalhões! caiu uma cabeça...
Que importa uma vitória às legiões de Deus?...


Nota do Organizador:
A última estrofe, que figura na edição definitiva, 1905, não vem reproduzida na 4ª. Edição de Opalas, e a poesia inteira não consta da ed. Príncipe. Os versos são decadentes com seu satanismo e também com seu intuito escandalizador de profanar. Se foram recitados à beira-túmulo de Carvalho Júnior, devem datar de 1879. Os títulos também variam: na ed. definitiva, é o que se lê acima; na 4ª., “Nos Funerais de um Poeta”.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856  1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; escreveu e publicou O Régio Saltimbanco (versos contra a monarquia, 1877) Opalas (poesias, 1ª. edição em 1884 e edição definitiva em 1905); serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suiça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).