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sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Sully Prudhomme: As lembranças

 
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[traduzido por Augusto de Lima]

Das velhas impressões da infância a ideia grata
Perdura-nos fiel, volvam embora os anos;
Em vão do nosso abril as flores sofrem danos,
A imagem delas fica indelével, exata.

Ao contrário, ai de nós! ninguém conserva intata
A memória, apesar de esforços sobre-humanos,
Das novas emoções, efêmeros enganos,
Cujo traço se apaga apenas se retrata.

Como esperto escanção que no banquete a taça
Entretém sempre cheia, a cada vez que passa,
Passa o tempo e nos enche a memória também.

A lembrança mais nova é a gota derradeira,
Que ao choque mais sutil, transborda e cai; porém
No fundo permanece a primitiva inteira.

(Tradução colhida na Antologia organizada
por Magalhães Júnior.)

Sully Prudhomme

Les souvenirs — Sonnet

A Madame Marthe Guéroult.

De nos émois d’enfantt le lointain souvenir
Nous est fidèle encore, en dépit des années;
Les fleurs de notre avril en vain se sont fanées,
Leurs images en nous ne se peuvent ternir.

Mais au contraire, hélas! voulons-nous retenir
De nos impressions les plus récemment nées,
Elles s’effacent vite et meurent, condamnées,
Moins anciennes dans l’âme, à plus tôt y finir.

Comme un prompt échanson qui, sans reprendre haleine,
Passe devant la coupe et la tient toujours pleine,
Le temps passe et remplit la mémoire à plein bord.

Le souvenir nouveau, c’est la dernière goutte
Qui sous le moindre heurt s’en échappe d’abord,
Tandis que la première au fond demeure toute.

(Le Prisme, poésies diverses —  1886)
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

sábado, 1 de setembro de 2018

Augusto de Lima: Colisão

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A vida é um mal; a morte, um bem incerto.
Maldizendo da vida, temos medo
dessa esfinge que, do alto do rochedo,
nos dita o enigma trágico, encoberto.

Maldizemos da vida; mas o certo
é que, ao fim, se desvenda esse segredo;
essa vida, termina tarde ou cedo,
essa morte nos leva longe ou perto.

Ao nada? À natureza? Aonde nos leva?
À luz eterna, à irreparável treva,
onde a dor de outros tempos se suporte?

Se fugimos da vida, que incerteza!
Se evitamos a morte... ó Natureza,
que tédio a vida, que terror a morte!

(Símbolos  1892)

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Augusto de Lima  Série Essencial 47, Academia Brasileira de Letras, Organização e Notas de Paulo Franchetti, 2011, Imprensa Oficial do Estado São Paulo, São Paulo  SP; Antônio Augusto de Lima (1859  1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje, cidade de Nova Lima), fez seus estudos no Seminário de Mariana, no Colégio do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto e graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1882); além de poeta, foi jornalista, magistrado, jurista, professor e político, tendo participado como redator de vários periódicos, entre os quais a Revista de Ciência e Letras e o jornal Comédia; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro) e São Francisco de Assis (1930).

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Augusto de Lima: O Cético

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“Percorro da ciência o labirinto,
E em tudo encontro um eco duvidoso:
Matéria vã, espírito enganoso,
Mentis, tudo é mentira, eu só não minto.

Vejo, é verdade, a vida e a vida sinto,
O calórico, a luz, a dor e o gozo,
A natureza em flor, o sol formoso
E o céu das cores da Aliança tinto.

Mas quem, senão eu mesmo, vê tudo isto?
E quem pode afirmar-me que eu existo,
Visões celestes, velhas nebulosas?”

E em seu crânio a razão desponta e morre,
Como o santelmo fátuo, que discorre
Na solidão das minas tenebrosas.

(Contemporâneas  1887)

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Augusto de Lima  Série Essencial 47, Academia Brasileira de Letras, Organização e Notas de Paulo Franchetti, 2011, Imprensa Oficial do Estado São Paulo, São Paulo  SP; Antônio Augusto de Lima (1859  1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje, cidade de Nova Lima)  fez seus estudos no Seminário de Mariana, no Colégio do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto e graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1882); além de poeta, foi jornalista, magistrado, jurista, professor e político, tendo participado como redator de vários periódicos, entre os quais a Revista de Ciência e Letras e o jornal Comédia; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro) e São Francisco de Assis (1930).

sábado, 23 de dezembro de 2017

Augusto de Lima: Nunca

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A Rodolfo Paixão

“É cedo!”  ao homem uma voz responde,
quando, recém-nascido, o olhar aberto
pela primeira vez, levanta incerto,
interrogando o fado que se esconde.

“É cedo ainda.” Do zenith * já perto
o espírito, por mais que inquira e sonde,
a mesma voz, que vem não sabe de onde,
repete o cruel dístico encoberto.

Fitando o ocaso, afaga uma esperança.
“Espera”, diz-lhe a voz, e não se cansa
de esperar que do ocaso venha a aurora.

E a noite vem. No vítreo olhar silente,
morto, ainda interroga avidamente….
 Porém, responde a voz: “É tarde agora!”

Poesias: Contemporâneas, Símbolos
 e Laudas Inéditas — 2008

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* Nota de Paulo Franchetti: Manteve-se a grafia antiga, pois a palavra deve ler-se cono oxítona para que o decassílabo sáfico não se corrompa.
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Augusto de Lima – Série Essencial 47, Academia Brasileira de Letras, Organização e Notas de Paulo Franchetti, 2011, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo  SP; Antônio Augusto de Lima (1859  1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje, cidade de Nova Lima), fez seus estudos no Seminário de Mariana, no Colégio do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto e graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1882); além de poeta, foi jornalista, magistrado, jurista, professor e político, tendo participado como redator de vários periódicos, entre os quais a Revista de Ciência e Letras e o jornal Comédia; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro) e São Francisco de Assis (1930).

sábado, 7 de janeiro de 2017

Augusto de Lima: Cólera do Mar

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Disse o rochedo ao mar, que plácido dormia:
“Quantos milênios há que, tu, negro elefante,
tragas covardemente esses, cuja ousadia
se arriscou em teu dorso enorme e flutuante?”

O mar não respondeu; mas um tufão horrendo
cavou-lhe a entranha e fez estremecer de medo
o coração do abismo. Então o mar se erguendo,
atirou um navio aos dentes do rochedo!

Contemporâneas — 1887

Imagem relacionada
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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Augusto de Lima (1859  1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje, cidade de Nova Lima), fez seus estudos no Seminário de Mariana, no Colégio do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto e graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1882); além de poeta, foi jornalista, magistrado, jurista, professor e político; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro) Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro).

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Augusto de Lima: No Mar

Em verde-negro, esconso lenho
Discorro o mar, de além a além...
O céu me pede o que eu não tenho,
O mar me nega o que ele tem.

O céu me pede a crença e o pranto,
Matar-me a sede o mar não quer;
Mesmo com o mar posso no entanto
Da minha mágoa o céu encher?

Quem me mandou a esta viagem?
Donde parti? Quando embarquei?
Qual meu roteiro? A que paragem?
Devo voltar? Não sei, não sei.

Que estranha voz... rumor das vagas...
Sombras além... névoas talvez...
Quem sabe? Estão próximas plagas
Onde aportar por uma vez.

Não tem a névoa essa figura,
O mar não fala. É uma ilusão,
Pensar em praia é uma loucura,
Aves não há nesta amplidão.

Desmaia a luz... o vento esfria,
Na água dormente a ressonar...
Por que o tremor que me arrepia,
Fitando o céu, fitando o mar?

Cai sobre mim a Noite imensa.
Que ela confunde em seu negror
As sombras vãs da minha crença,
A rouca voz do meu pavor!

Mudez e treva, olvido e nada...
Melhor. Não sinto o espectro meu.
No berço-esquife a alma encerrada
Pensa talvez que já morreu!

(Poesias. H. Garnier, Rio de Janeiro,
 1909, p. 249 — 250.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Augusto de Lima (1859 1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje, cidade de Nova Lima ), fez seus estudos no Seminário de Mariana, no Colégio do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto e graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1882); além de poeta, foi jornalista, magistrado, jurista, professor e político; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro) e Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro).

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Augusto de Lima: Evangelho e Alcorão


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Num tom de voz que a piedade ungia,
falava o padre ao crente do Alcorão,
que no leito de morte se estorcia:
— "Implora de Jesus a compaixão".

"Deixa Mafoma, ó filho da heresia,
e abraça a sacrossanta religião
do que morreu por nós..." E concluía:
"Se te queres salvar morre cristão."

Ao filho de Jesus, o moribundo,
ergueu o olhar esbranquiçado e fundo,
onde da morte já descia o véu.

Mas logo se estorceu na ânsia extrema
e ao ver da Redenção o triste emblema,
ruge expirando: "Alá nunca morreu!".
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Poesia Parnasiana  Antologia, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo —  SP; Antônio Augusto de Lima (1859  1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje, cidade de Nova Lima ), fez seus estudos no Seminário de Mariana, no Colégio do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto e graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1882); além de poeta, foi jornalista, magistrado, jurista, professor e político; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro) e Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro).