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sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Alphonse de Lamartine: Canto de amor

 
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[VI]

[traduzido por Renata Cordeiro]

Um dia, enciumado, o tempo a aura gelada
Soprando, vai fanar-te os tons qual flor passada
Nos leitos de verdura;
Com a mão vai murchar nos teus lábios faceiros
Aquilo que me falta, os teus beijos ligeiros,
Na sua estação pura.

Um dia os olhos teus, velados pelo pranto,
Do tempo que passou, roubando os teus encantos,
Hão-de o rigor chorar;
E quando na lembrança e na vaga da margem,
Procurares em vão a tua linda imagem,
Hás-de ao meu peito olhar.

Lá, teu primor floresce indefinidamente;
Lá, a lembrança de ti vigia eternamente
Junto à minha franqueza.
Como a dourada luz, de trêmulo clarão,
Que a virgem santa só protege com a mão,
Cruzando a fortaleza.

Quando a morte vier, por outro amor seguida,
E, aos risos, apagar, da nossa dupla vida
Ambos os fogaréus,
Que ela disponha os dois estrados lado a lado
E que os dedos das mãos prossigam enlaçados
Dentro dos mausoléus!

Ou na Terra talvez possamos nós passar,
Qual no outono se vê um solitário par
De cisnes companheiros
Que, ao partir, dois a dois, do ninho da paixão,
Rumo a um clima bom, em cuja busca vão,
Voam num doce enleio!

Lamartine

Chant d'amour

[VI]

Un jour, le temps jaloux, d'une haleine glacée,
Fanera tes couleurs comme une fleur passée
Sur ces lits de gazon;
Et sa main flétrira sur tes charmantes lèvres
Ces rapides baisers, hélas! dont tu me sèvres
Dans leur fraîche saison.

Mais quand tes yeux, voilés d'un nuage de larmes,
De ces jours écoulés qui t'ont ravi tes charmes
Pleureront la rigueur;
Quand dans ton souvenir, dans l'onde du rivage
Tu chercheras en vain ta ravissante image,
Regarde dans mon coeur!

Là, ta beauté fleurit pour des siècles sans nombre;
Là, ton doux souvenir veille à jamais à l'ombre
De ma fidélité,
Comme une lampe d'or dont une vierge sainte
Protège avec la main, en traversant l'enceinte,
La tremblante clarté.

Et quand la mort viendra, d'un autre amour suivie,
Éteindre en souriant de notre double vie
L'un et l'autre flambeau,
Qu'elle étende ma couche à côté de la tienne,
Et que ta main fidèle embrasse encor la mienne
Dans le lit du tombeau!

Ou plutôt puissions-nous passer sur cette terre,
Comme on voit en automne un couple solitaire
De cygnes amoureux
Partir, en s'embrassant, du nid qui les rassemble,
Et vers les doux climats qu'ils vont chercher ensemble
S'envoler deux à deux!

[Naples, 1822]
[Nouvelles méditations poétiques — 1823]
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Alphonse Marie Louis de Prat de Lamartine (1790 1869), francês de Mâcon, foi escritor, poeta, diplomata e político; obras: Premières méditations poétiques (Primeiras Meditações Poéticas, 1820), Nouvelles méditations poétiques (Novas Meditações Poéticas, 1823), Harmonies poétiques et religieuses (Harmonias Poéticas e Religiosas, 1830), Jocelyn (1836), La chute d'um ange (A Queda de um Anjo, 1838), Histoire des girondins (História dos Girondinos, 1847), La vigne et la Maison (A Vinha e a Mansão, 1857) e outros títulos; Lamartine envolveu-se diretamente na política e na diplomacia, conheceu outras localidades fora do círculo francês, mas sem deixar de produzir seus textos; pertenceu à Academia Francesa.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Lamartine: Elegia

 
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[traduzido por Castro Alves] *

Colham-se as rosas na manhã da vida;
Ao menos no fugir da primavera,
Das flores os perfumes se respirem.
O peito se franqueie aos castos gozos;
Amemos sem medida, ó cara amante!

Quando o nauta, no meio da tormenta,
Vê o frágil baixel quase afundir-se,
Às praias que deixou dirige as vistas,
E tarde chora a paz que ali gozava.
Ah! quanto dera por volver o triste
Aos amigos da aldeia, ao lar paterno,
E de novo passar junto à que adora
Dias talvez sem glória, mas tranqüilos!

Assim um velho, curvo ao peso d’anos,
Da mocidade, em vão, os tempos chora;
Diz: "Volvei-me essas horas profanadas
De que eu, ó céus, não soube aproveitar-me".
Só lhe responde a morte; os céus são surdos
E inflexíveis o arrojam ao sepulcro,
Não consentindo que se abaixe ao menos,
A apanhar essas flores desprezadas.

Amemos, vida minha!
E riamos do afã que os homens levam
Atrás de um fumo vão que lhes consome
Metade da existência, esperdiçada
Em sonhos e quimeras.

Não invejemos seu orgulho estéril;
Deixemos à ambição os seus castelos;
Mas nós, da hora incertos,
Tratemos de esgotar da vida a taça.
Enquanto as mãos a empunham.

Quer os louros nos cinjam,
E, nos fastos sangrentos de Belona,
Nosso nome se inscreva em bronze e mármore;
Quer da singela flor que as belas colhem
Se entrance a humilde c`roa,
Vamos todos saltar na mesma praia.

De que val, no momento do naufrágio,
Em pomposo galeão ir navegando,
Ou num batel ligeiro,
Solitário viajante,
Ter só junto da margem bordejado?

A. de Lamartine

Élégie

Cueillons, cueillons la rose au matin de la vie;
Des rapides printemps respire au moins les fleurs.
Aux chastes voluptés abandonnons nos coeurs,
Aimons-nous sans mesure, à mon unique amie!

Quand le nocher battu par les flots irrités
Voit son fragile esquif menacé du naufrage,
Il tourne ses regards aux bords qu'il a quittés,
Et regrette trop tard les loisirs du rivage.
Ah! qu'il voudrait alors au toit de ses aïeux,
Près des objets chéris présents à sa mémoire,
Coulant des jours obscurs, sans périls et sans gloire,
N'avoir jamais laissé son pays ni ses dieux!

Ainsi l'homme, courbé sous le poids des années,
Pleure son doux printemps qui ne peut revenir.
Ah! rendez-moi, dit-il, ces heures profanées;
O dieux! dans leur saison j'oubliai d'en jouir.
Il dit: la mort répond; et ces dieux qu'il implore,
Le poussant au tombeau sans se laisser fléchir,
Ne lui permettent pas de se baisser encore
Pour ramasser ces fleurs qu'il n'a pas su cueillir.

Aimons-nous, à ma bien-aimée!
Et rions des soucis qui bercent les mortels;
Pour le frivole appas d'une vaine fumée,
La moitié de leurs jours, hélas! est consumée
Dans l'abandon des biens réels.

A leur stérile orgueil ne portons point envie,
Laissons le long espoir aux maîtres des humains!
Pour nous, de notre heure incertains,
Hâtons-nous d'épuiser la coupe de la vie
Pendant qu'elle est entre nos mains.

Soit que le laurier nous couronne,
Et qu'aux fastes sanglants de l'altière Bellone
Sur le marbre ou l'airain on inscrive nos noms;
Soit que des simples fleurs que la beauté moissonne
L'amour pare nos humbles fronts;
Nous allons échouer, tous, au même rivage:
Qu'importe, au moment du naufrage,
Sur un vaisseau fameux d'avoir fendu les airs,
Ou sur une barque légère
D'avoir, passager solitaire,
Rasé timidement le rivage des mers?

* Nota do Organizador Eugênio Gomes: Publ. no vol. Lamartineanas — Poesias de Afonso de Lamartine, traduzidas por poetas brasileiros (RJ, 1869), e nas Espumas Flutuantes (Ed. de Serafim José Alves, RG, 1881), em Ap.
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Alphonse Marie Louis de Prat de Lamartine (1790 1869), francês de Mâcon, foi escritor, poeta, diplomata e político; bibliografia: Premières méditations poétiques (Primeiras Meditações Poéticas, 1820), Nouvelles méditations poétiques (Novas Meditações Poéticas, 1823), Harmonies poétiques et religieuses (Harmonias Poéticas e Religiosas, 1830), Jocelyn (1836), La chute d'un ange (A Queda de um Anjo, 1838), Histoire des girondins (História dos Girondinos, 1847), La vigne et la Maison (A Vinha e a Mansão, 1857) e outros títulos; Lamartine se envolveu diretamente na política e na diplomacia, conheceu outras localidades fora do círculo francês, mas sem deixar de produzir seus textos; pertenceu à Academia Francesa.