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[VI]
[traduzido por Renata
Cordeiro]
Um dia, enciumado, o tempo a
aura gelada
Soprando, vai fanar-te os
tons qual flor passada
Nos leitos de verdura;
Com a mão vai murchar nos
teus lábios faceiros
Aquilo que me falta, os teus
beijos ligeiros,
Na sua estação pura.
Um dia os olhos teus,
velados pelo pranto,
Do tempo que passou,
roubando os teus encantos,
Hão-de o rigor chorar;
E quando na lembrança e na
vaga da margem,
Procurares em vão a tua
linda imagem,
Hás-de ao meu peito olhar.
Lá, teu primor floresce
indefinidamente;
Lá, a lembrança de ti vigia
eternamente
Junto à minha franqueza.
Como a dourada luz, de
trêmulo clarão,
Que a virgem santa só
protege com a mão,
Cruzando a fortaleza.
Quando a morte vier, por
outro amor seguida,
E, aos risos, apagar, da
nossa dupla vida
Ambos os fogaréus,
Que ela disponha os dois
estrados lado a lado
E que os dedos das mãos
prossigam enlaçados
Dentro dos mausoléus!
Ou na Terra talvez possamos
nós passar,
Qual no outono se vê um
solitário par
De cisnes companheiros
Que, ao partir, dois a dois,
do ninho da paixão,
Rumo a um clima bom, em cuja
busca vão,
Voam num doce enleio!
Chant d'amour
[VI]
Un jour, le temps jaloux, d'une haleine glacée,
Fanera tes couleurs comme une fleur passée
Sur ces lits de gazon;
Et sa main flétrira sur tes charmantes lèvres
Ces rapides baisers, hélas! dont tu me sèvres
Dans leur fraîche saison.
Mais
quand tes yeux, voilés d'un nuage de larmes,
De ces jours écoulés qui t'ont ravi tes charmes
Pleureront la rigueur;
Quand dans ton souvenir, dans l'onde du rivage
Tu chercheras en vain ta ravissante image,
Regarde dans mon coeur!
Là, ta beauté fleurit pour des siècles sans nombre;
Là, ton doux souvenir veille à jamais à l'ombre
De ma fidélité,
Comme une lampe d'or dont une vierge sainte
Protège avec la main, en traversant l'enceinte,
La tremblante clarté.
Et quand la mort viendra, d'un autre amour suivie,
Éteindre en souriant de notre double vie
L'un et l'autre flambeau,
Qu'elle étende ma couche à côté de la tienne,
Et que ta main fidèle embrasse encor la mienne
Dans le lit du tombeau!
Ou plutôt puissions-nous
passer sur cette terre,
Comme on voit en automne un couple solitaire
De cygnes amoureux
Partir, en s'embrassant, du nid qui les rassemble,
Et vers les doux climats qu'ils vont chercher ensemble
S'envoler deux à deux!
[Naples, 1822]
[Nouvelles méditations
poétiques — 1823]
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa
— Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002,
Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Alphonse
Marie Louis de Prat de Lamartine (1790 — 1869), francês de Mâcon, foi escritor,
poeta, diplomata e político; obras: Premières méditations poétiques (Primeiras
Meditações Poéticas, 1820), Nouvelles méditations poétiques (Novas Meditações Poéticas,
1823), Harmonies poétiques et religieuses (Harmonias Poéticas e Religiosas, 1830),
Jocelyn (1836), La chute d'um ange (A Queda de um Anjo, 1838), Histoire des girondins
(História dos Girondinos, 1847), La vigne et la Maison (A Vinha e a Mansão, 1857)
e outros títulos; Lamartine envolveu-se diretamente na política e na diplomacia,
conheceu outras localidades fora do círculo francês, mas sem deixar de produzir
seus textos; pertenceu à Academia Francesa.


