quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Georg Trakl: Metamorfose do Mal

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[traduzido por Cláudia Cavalcanti]

2ª versão

     Outono: avanço negro na margem da floresta; minuto de muda destruição; ergue-se à espreita a fronte do leproso sob a árvore nua. Noite há muito passada, que agora mergulha sobre os degraus de musgo; novembro. Um sino bate e o pastor conduz ao lugarejo a manada de cavalos negros e vermelhos. Sob a avelãzeira o caçador verde destripa um animal. Suas mãos fumegam de sangue e a sombra do animal suspira na folhagem por cima dos olhos do homem, moreno e taciturno; a floresta. Gralhas que se dispersam: três. Seu voo parece uma sonata, repleto de acordes empalidecidos e melancolia viril, devagar se desmancha uma nuvem dourada. No moinho, rapazes acendem o fogo. Chama é irmão do mais pálido e este ri, enterrado em seu cabelo de cor púrpura; ou é um local do crime, pelo qual passa um caminho de pedras. As berberidáceas desapareceram, por anos a fio sonha-se no ar de chumbo sob os pinheiros; medo, escuridão verde, o gargarejar de um afogado: o pescador tira do lago de estrelas um peixe grande, negro, o rosto marcado por crueldade e loucura. As vozes do junco, homens brigando atrás, aquele se balança num barco sobre a água gelada do outono, vivendo em obscuras sagas de sua estirpe, e os olhos de pedra abertos sobre noites e espantos virginais. O mal.
     O que te obriga a ficar em silêncio sobre a escada em ruínas, na casa de teus ancestrais? Plúmbeo negror. O que levas aos olhos com mão prateada, e as pálpebras baixando como se inebriadas de ópio? Mas pelo muro de pedra vês o céu de estrelas, a Via Láctea, Saturno, vermelho. Furiosa, contra o muro de pedra bate a márvore nua. Tu sobre degraus em ruínas: árvore, estrela, pedra! Tu, um animal azul que treme em silêncio; tu, o polido sacerdote que o abate no altar negro. Oh, teu sorriso na escuridão, tão triste e mau que uma criança empalidece mesmo dormindo. Uma chama vermelha saltou da tua mão e uma falena queimou-se nela. Oh, a flauta da luz; oh, a flauta da morte! O que te obrigou a ficar em silêncio sobre a escada em ruínas, na casa de teus ancestrais? Lá embaixo, bate ao portão um anjo com dedos de cristal.
     Oh, o inferno do sono; ruela escura, pequeno jardim marrom. Baixinho soa na tarde azulada a figura dos mortos. Florezinhas verdes pairam à sua volta e o seu rosto as abandonou. Ou então inclina-se empalidecido sobre a fria fronte do assassino no escuro do vestíbulo; adoração, chama púrpura da volúpia; morrendo, o adormecido precipitou-se na escuridão por sobre os degraus negros.
     Alguém te deixou na encruzilhada, e olhas para trás, longamente. Passo prateado na sombra de macieiras atrofiadas. A fruta, purpúrea, brilha no galho negro, e na grama a serpente muda de pele. Oh, o escuro; o suor que surge na fronte gelada e os tristes sonhos no vinho, na taberna local sob vigas negras pelo fumo. Tu, ainda selva, que por encanto transforma em ilhas róseas a fumaça marrom do tabaco e busca de dentro o grito selvagem de uma presa, quando caça em recifes negros no mar, tempestade e gelo. Tu, um metal verde e dentro um rosto de fogo que quer sair e cantar, do monte de ossos, tempos obscuros e a queda chamejante do anjo. Oh, desespero que cai de joelhos com um grito mudo!
     Um morto te visita. Do coração corre o sangue vertido por ele, e na sobrancelha abriga-se indizível momento; encontro sinistro. Tu uma lua purpúrea, quando aquele aparece na sombra verde da oliveira. Segue-o a noite que não passa.

(1913)

Georg Trakl

Verwandlung des Bösen

2. Fassung

     Herbst: schwarzes Schreiten am Waldsaum; Minute stummer Zerstörung; auflauscht die Stirne des Aussätzigen unter dem kahlen Baum. Langvergangener Abend, der nun über die Stufen von Moos sinkt; November. Eine Glocke läutet und der Hirt führt eine Herde von schwarzen und roten Pferden ins Dorf. Unter dem Haselgebüsch weidet der grüne Jäger ein Wild aus. Seine Hände rauchen von Blut und der Schatten des Tiers seufzt im Laub über den Augen des Mannes, braun und schweigsam; der Wald. Krähen, die sich zerstreuen; drei. Ihr Flug gleicht einer Sonate, voll verblichener Akkorde und männlicher Schwermut; leise löst sich eine goldene Wolke auf. Bei der Mühle zünden Knaben ein Feuer an. Flamme ist des Bleichsten Bruder und jener lacht vergraben in sein purpurnes Haar; oder es ist ein Ort des Mordes, an dem ein steiniger Weg vorbeiführt. Die Berberitzen sind verschwunden, jahrlang träumt es in bleierner Luft unter den Föhren; Angst, grünes Dunkel, das Gurgeln eines Ertrinkenden: aus dem Sternenweiher zieht der Fischer einen großen, schwarzen Fisch, Antlitz voll Grausamkeit und Irrsinn. Die Stimmen des Rohrs, hadernder Männer im Rücken schaukelt jener auf rotem Kahn über frierende Herbstwasser, lebend in dunklen Sagen seines Geschlechts und die Augen steinern über Nächte und jungfräuliche Schrecken aufgetan. Böse.
     Was zwingt dich still zu stehen auf der verfallenen Stiege, im Haus deiner Väter? Bleierne Schwärze. Was hebst du mit silberner Hand an die Augen; und die Lider sinken wie trunken von Mohn? Aber durch die Mauer von Stein siehst du den Sternenhimmel, die Milchstraße, den Saturn; rot. Rasend an die Mauer von Stein klopft der kahle Baum. Du auf verfallenen Stufen: Baum, Stern, Stein! Du, ein blaues Tier, das leise zittert; du, der bleiche Priester, der es hinschlachtet am schwarzen Altar. O dein Lächeln im Dunkel, traurig und böse, daß ein Kind im Schlaf erbleicht. Eine rote Flamme sprang aus deiner Hand und ein Nachfalter verbrannte daran. O die Flöte des Lichts; o die Flöte des Tods. Was zwang dich still zu stehen auf verfallener Stiege, im Haus deiner Väter? Drunten ans Tor klopft ein Engel mit kristallnem Finger.
     O die Hölle des Schlafs; dunkle Gasse, braunes Gärtchen. Leise läutet im blauen Abend der Toten Gestalt. Grüne Blümchen umgaukeln sie und ihr Antlitz hat sie verlassen. Oder es neigt sich verblichen über die kalte Stirne des Mörders im Dunkel des Hausflurs; Anbetung, purpurne Flamme der Wollust; hinsterbend stürzte über schwarze Stufen der Schläfer ins Dunkel.
     Jemand verließ dich am Kreuzweg und du schaust lange zurück. Silberner Schritt im Schatten verkrüppelter Apfelbäumchen. Purpurn leuchtet die Frucht im schwarzen Geist und im Gras häutet sich die Schlange. O! das Dunkel; der Schweiß, der auf die eisige Stirne tritt und die traurigen Träume im Wein, in der Dorfschenke unter schwarzverrauchtem Gebälk. Du, noch Wildnis, die rosige Inseln zaubert aus dem braunen Tabaksgewölk und aus dem Innern den wilden Schrei eines Greifen holt, wenn er um schwarze Klippen jagt in Meer, Sturm und Eis. Du, ein grünes Metall und innen ein feuriges Gesicht, das hingehen will und singen vom Beinerhügel finstere Zeiten und den flammenden Sturz des Engels. O Verzweiflung, die mit stummem Schrei ins Knie bricht.
     Ein Toter besucht dich. Aus dem Herzen rinnt das selbstvergossene Blut und in schwarzer Braue nistet unsäglicher Augenblick; dunkle Begegnung. Du ein purpurner Mond, da jener im grünen Schatten des Ölbaums erscheint. Dem folgt unvergängliche Nacht.

(1913)
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue, Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Cuti: Revela-som


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o chicote sempre se pretendeu erudito
ordenou e ordena em idiomas vários
o seu “tenho dito!”

em seu tom
a vida míngua
via mar de mágoa
incha a nossa língua

produziu tantas marcas
em nossas minhas costas
externas e internas
que elas agora
mantêm de pé
o punho deste grito uníssono
e o verdadeiro desenho
do mapa do brasil.

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Cadernos Negros: Poemas afro-brasileiros, Volume 41 [vários autores], Organização de Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, 2018, Quilombhoje, São Paulo — SP; Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, nascido em 1951, paulista de Ourinhos, formado em Letras (Português e Francês) pela USPSP, com mestrado (Teoria da Literatura) e doutorado (Literatura Brasileira) pelo Instituto de Estudos da Linguagem UNICAMP, é poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e militante da causa negra; o poeta Cuti foi um dos fundadores e membro da ONG QuilombhojeLiteratura e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros; suas obras: Poemas da carapinha (1978), Batuque de tocaia (poesia, 1982), Suspensão (dramaturgia, 1983), Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (poesia, 1987), Quizila (contos, 1987), A pelada peluda no Largo da Bola (infanto-juvenil, 1988), Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro (dramaturgia, 1991, 2ª edição revisada e ampliada, 2009), Negros em contos (1996), Castro, ouves a poesia negra? (não-ficção, 1997), Um desafio submerso: “Evocações”, de Cruz e Souza (dissertação de mestrado, 1999), Sanga (poesia, 2002), Negroesia— Antologia Poética (2007), Poemaryprosa (poesia, 2009), Contos crespos (2009), A consciência do impacto nas obras de Cruz e Souza e Lima Barreto (não-ficção, 2009), Literatura negro-brasileira (não-ficção, 2010), Lima Barreto (biografia, 2011), Kizomba de vento e nuvem (poesia, 2013), Contos escolhidos (coletânea, 2016) Negrhúmus líricos (poesia, 2017), além de publicação de textos em coautorias várias e participação em antologias poéticas e em prosa.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Bertolt Brecht: Antígona

 
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[traduzido por Geir Campos]

Vem do crepúsculo e surge
um tempo para nós
amável, ligeiro o passo
com determinação, apavorante
para os apavorados.

Posta à margem, eu sei
quanto temias a morte; porém
maior temor ainda tinhas
da vida sem dignidade.

E aos poderosos tu não
deixaste escapar, e não
fizeste as pazes com os embromadores,
nem esquecias afrontas, a fim de que sobre o crime
não germinasse o capim.

Bertolt Brecht

Antigone

Komm aus dem Dämmer und geh
Vor uns her eine Zeit
Freundliche, mit dem leichten Schritt
Der ganz Bestimmten, schrecklich
Den Schrecklichen.

Abgewandte, ich weiß
Wie du den Tod gefürchtet hast, aber
Mehr noch fürchtetest du
Unwürdig Leben.

Und ließest den Mächtigen
Nichts durch, und glichst dich
Mit den Verwirrern nicht aus, noch je
Vergaßest du Schimpf und über der Untat wuchs
Ihnen kein Gras.

[1948]
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Bertolt Brecht — Poemas e Canções, Tradução de Geir Campos, 1966, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra, interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Rimbaud: Primeira tarde


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[traduzido por Joana Canêdo]

Ela estava quase despida
E um grande ramo indiscreto
Lançava folhas na janela,
Maliciosamente perto.

Sentada na minha poltrona,
Seminua, cruzava as mãos.
Tremelicando junto ao chão
Seus pezinhos, finos, finos.

Eu observava, pálido,
Um raiozinho gazeteiro
Borboletear em seu sorriso
E no seio, mosca no canteiro.

Beijei-lhe os finos tornozelos,
Deu um doce riso brutal
Que se desfez em claros trilos,
Um belo riso de cristal.

Os pezinhos sob a camisa
Escaparam: “Queres parar!”
Primeira audácia permitida,
E o riso fingindo castigar!

Palpitantes sob meus lábios,
Beijava docemente seus olhos:
Ela lança a cabela travessa
Para trás: “Ó! Está melhor!...

Senhor, tenho algo a dizer...”
No resto do seio eu lançava
Um beijo que a fez estremecer
Com um bom riso que aceitava...

Ela estava quase despida
E um grande ramo indiscreto
Lançava folhas na janela,
Maliciosamente perto.*

Arthur Rimbaud

Première soirée

Elle était fort déshabillée
Et de grands arbres indiscrets
Aux vitres jetaient leur feuillée
Malinement, tout près, tout près.

Assise sur ma grande chaise,
Mi-nue, elle joignait les mains.
Sur le plancher frissonnaient d’aise
Ses petits pieds si fins, si fins.

Je regardai, couleur de cire,
Un petit rayon buissonnier
Papillonner dans son sourire
Et sur son sein, mouche au rosier.

Je baisai ses fines chevilles.
Elle eut un doux rire brutal
Qui s’égrenait en claires trilles,
Un joli rire de cristal.

Les petits pieds sous la chemise
Se sauvèrent: “Veux-tu finir!”
La première audace permise,
Le rire feignait de punir!

Pauvrets palpitants sous ma lèvre,
Je baisai doucement ses yeux:
Elle jeta sa tête mièvre
En arrière: “Oh! C’est encor mieux!…

Monsieur, j´ai deux mots à te dire…”
Je lui jetai le reste au sein
Dans un baiser, qui la fit rire
D´un bon rire qui voulait bien…

Elle était fort déshabillée
Et de grands arbres indiscrets
Aux vitres jetaient leur feuillée
Malinement, tout près, tout près.

* Nota da edição: Rimbaud A. “Première Soirée”. In: Oeuvres complètes, op. cit. [Paris: Gallimard, 1972 e 2007. Col. Bibliothèque de la Pléiade].
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Rimbaud — biografia: Jean Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Guerra Junqueiro: Mostrou-me a luz da crença-alva recém . . . [soneto]


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Mostrou-me a luz da crença-alva recém
Pálida virgem de luzentes tranças;
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.

A graça, as ilusões, o amor, a unção,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado,
Nos tremendos combates da razão.

Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho, como herói antigo,
Batalhando sem elmo e sem escudo.

A implacável, a rígida ciência,
Deixou-me unicamente a Providência,
Mas, deixando-me Deus, deixou-me tudo!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850 1923), português de Ligares Freixo de Espada à Cinta, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi alto funcionário administrativo, político, deputado, jornalista, escritor e poeta; à sua época, bastante popular, é considerado o mais típico representante da chamada Escola Nova e, com sua poesia panfletária, contribuiu para formar o ambiente revolucionário que acabou por provocar a implantação da República portuguesa; passando a residir em Lisboa, a partir de 1875 colaborou em prosa e em verso com jornais políticos e artísticos, A Lanterna Mágica, O António Maria, Diário de Notícias, Atlântida, Branco e Negro, Brasil Portugal, A Crônica, A Illustração Portugueza, A Imprensa, A Leitura, A Mulher, O Occidente, Renascença, O Pantheon, A República Portugueza, Ribaltas e Gambiarras, Serões, Azulejos, Azeitonense, entre outros periódicos; suas obras: A Morte de D. João (1874), Contos para a Infância (1875), A Musa em Férias (1879), A Velhice do Padre Eterno (1885), Finis Patriae (1890), Os Simples (1892), Oração ao Pão (1902), Gritos da Alma (1912), Poesias Dispersas (1920), ...

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Lúcio de Mendonça: Alice


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Os seus olhos são como os das pombas,
sem falar no que está oculto dentro.
Cântico dos Cânticos, [Salomão, 1, 15.]

Imagina um sorriso só de criança,
Todo candura, e junta-lhe a meiguice
De um sorriso de mãe; e tens ideado
O sorriso de Alice.

Imagina um olhar mistério e sonho,
Cheio de luz, de glória, de doidice...
Com a sedução dos olhos da mãe-d’água;
E tens o olhar de Alice.

Imagina uma grave melodia,
Tão doce como nunca mais se ouvisse,
Como nunca se ouviu na terra ainda;
E tens a voz de Alice.

Já viste como o cisne fende o lago?
Como desliza a névoa na planície?
Como anda na clareira a pomba rola?
É ver o andar de Alice.

Olha o macio pétalo corado
De rosa que de todo não abrisse,
O mimo da conchinha nacarada,
É a boca de Alice.

Se um dia visses no alcantil dos cerros
A imaculada neve que caísse,
Verias, ai de mim! do que é formado
O coração de Alice.

[Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902)]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; sem o auxílio de professor para o aprendizado das “primeiras letras”, descobriu a leitura e a escrita “ligando sons e caracteres gráficos” e jornais e, aos 16 anos, matriculou-se no Colégio Pimentel, em São Gonçalo; em 1871, já em São Paulo, e já tendo iniciado o curso de Direito, também deu início às suas atividades poético-literárias: escreveu um caderno de versos, Risos e Lágrimas; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro, Colombo, de Campanha MG, Semana, de Valença RJ e O País, do Rio; traduziu poemas de Musset, Richepin, Heinrich Heine, Ludwig Uhland, Henri Mürger, Théophile Gautier, Victor Hugo, ...; suas obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); desde 1889, com a proclamação da república, passou a ocupar diversos cargos públicos até ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal e continua escrevendo para jornais, agora sob o pseudônimo de Juvenal Gavarni, entre outros; Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela; o poeta, com o agravamento de problemas na visão, aposentou-se e morreu completamente cego.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Jorge de Lima: Apenas eu te aceito, não te quero . . . [soneto]


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[Dor do mundo]

Apenas eu te aceito, não te quero
nem te amo, dor do mundo. Há honraria
que nos abate como um punho fero
mas aceitamos com sobrançaria.

A um vate grego certo rei severo
vazou-lhe os olhos para não fugir.
Ó dor do mundo, eu vivo como Homero,
aceito a provação que me surgir.

Homero, a tua história sinto-a; e urdo
o teu destino, o meu e o de teu rei.
Mas só teus olhos nossos passos guiam,

e inda tens vozes para o mundo surdo,
e luz para os outros cegos, luz que herdei
com a aceitação dos olhos que não viam.

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Jorge de Lima, Poesia — Coleção Nossos Clássicos Nº 26, por Luiz Santa Cruz, 1958, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Francisca Júlia da Silva: Anfitrite


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Louco, às doidas, roncando, em látegos, ufano,
O vento o seu furor colérico passeia...
Enruga e torce o manto à prateada areia
Da praia, zune no ar, encarapela o oceano.

A seus uivos, o mar, chora o seu pranto insano,
Grita, ulula, revolto, e o largo dorso arqueia;
Perdida ao longe, como um pássaro que anseia,
Alva e esguia, uma nau avança a todo o pano.

Sossega o vento; cala o oceano a sua mágoa;
Surge, esplêndida, e nua, envolta em áurea bruma,
Anfitrite, e, a sorrir, nadando à tona d'água,

Lá vai... mostrando à luz suas formas redondas,
Sua clara nudez salpicada de espuma,
Deslizando no glauco amículo das ondas...

(Esfinges — 1903)


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Francisca Júlia, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe que em 27 de fevereiro de 1909 a poetisa se casou com Filadelfo Edmundo Münster, telegrafista da Estrada de Ferro Central do Brasil, “de poucas posses e limitada bagagem intelectual”, afastou-se da literatura e passou a dedicar-se ao esposo e ao lar, “uma casa modesta mas muito bem cuidada”; o “casamento-relâmpago” foi noticiado pelos jornais O Estado de São Paulo, Correio Paulistano, Diário Popular e Commercio de São Paulo; em 1914, Francisca Júlia adoeceu, incômodo que a acompanhou pelos seus seis últimos anos de vida; a partir de 1915 a poetisa voltou a publicar seus textos poéticos através das páginas de A Cigarra; em dezembro de 1916, em entrevista ao jornal A Época, ao ser perguntada sobre sua doença, respondeu:
Tenho alucinações, [...] Há ocasiões que de repente saio da vida real e entro no sonho. Vejo pessoas e seres desconhecidos. A princípio cuidei que me estava tornado médium. Mas não, isto é o princípio do fim. Sinto-me feliz ao observar, dia a dia, que esse fim se aproxima. Sabe, é muito bom morrer. Minha vida encurta-se hora a hora. Tenho ambições, oh! muitas ambições, mas são de outra natureza.”;
em 31 de outubro de 1920, seu marido veio a falecer acometido de tuberculose e após demorado tratamento; a poetisa, que confessara a amigos não ver mais sentido em sua vida sem a companhia do marido, constatada a morte de Filadelfo, se retirou para repousar e “não mais acordou, apesar dos esforços médicos para reanimá-la, vindo a morrer na manhã do dia do enterro do marido." — o atestado de óbito registrou como causa mortishemorragia cerebral”. [informações colhidas da longa matéria Francisca Júlia, a musa impassível, registrada na página virtual do jornal O Vale do Ribeira [Registro — SP e região], de 01.11.2020 — clique no título lá em cima.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Francisca Júlia da Silva Münster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e, no Rio de Janeiro, em O Álbum, A Semana, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920; a poetisa, uma das precursoras da literatura feminina no país, e considerada a principal representante feminina amante do Parnaso, foi reverenciada e incentivada por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, constituintes da tríade do Parnasianismo no Brasil; Francisca Júlia, leitora de românticos alemães Goethe e Henri Heine , traduziu poemas de Heine para o português.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Dalton Trevisan: A comadre


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          Na tarde aprazada João foi à casa do compadre para acertar uma dívida. Dona Maria disse que o homem não estava, mas por que não estava? Respondeu que tinha pressa e ficava para outro dia.
           Entre, que ele não demora insistiu risonha a comadre.
          Ao vê-lo, irresoluto, a sacar o relógio do bolsinho da calça:
           A modo que tem medo de mim?
          João espiava os gestos faceiros da moça e não queria desfeitear o compadre. Entrou, mas não aceitou a cadeira:
           Espero mesmo de pé.
          A dona disse que, escondida do marido, gostava de um cigarrinho.
           Não aqui na sala, que ele sente o cheiro. É melhor na janela do quarto.
          João enrolou cigarro de palha. Ela queixava-se de não sei quem e, reclinada no travesseiro, descansou as pernas sobre a cama, a saia acima do joelho.
          Na terceira tentativa, João conseguiu rematar a palha, dobrou uma das pontas. Ao apanhar o cigarro, ela segurou-lhe a mão. Disse que na cama havia lugar para mais um.
          Sentando-se, ele riscava o polegar trêmulo no isqueiro. Em vez de acender o cigarro, dona Maria soprou o fogo.
           Deite, seu bobo.
          Que bulha foi essa na cozinha? Ficaram suspensos, a olhar um para o outro.
           É o gato afirmou ela. Não carece ter susto.
          Sem saber que na casa não havia gato, João tirou o paletó e descalçou o sapato.

(O conto A comadre, publicado originalmente em
Mistérios de Curitiba — 1968, foi revisto pelo autor
para a edição deste Quem tem medo de vampiro?)

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Quem tem medo de vampiro? — contos, Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Narciso Araújo: A um vacilante

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Marcha, sereno, palmilhando a terra,
sem loucas contrações, sem fúteis risos!
A paz se ganha no estridor da guerra;
dentro da luta estão os paraísos.

Há de surgir-te a dor, como uma serra,
alta e brutal, de distanciados visos,
alta, a zombar na altura, com que aterra*,
dos pés que andaram nos caminhos lisos:

o que vale é ter fé, é pela escarpa,
que sangra os pés, na fadigosa viagem,
calmamente subir sem** deixar a harpa...

Vale o saber certo o valor do obstáculo:
vê-se melhor dos cumes a paisagem,
de mais alto é mais épico o espetáculo!

(Poesias, 1ª série, págs. 71-72.)


Notas de Andrade Muricy:
* Está: “eterna”;
** Está “em”.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Narciso da Costa Araújo (1877 1944), capixaba nascido na Vila de Itapemirim, atual Itapemirim, estudou no Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, formou-se pela Faculdade de Direito, também no Rio, adquiriu “sólidos” conhecimentos dos idiomas Grego, Latim e também de outras línguas “vivas”, foi jurista, jornalista e poeta do Simbolismo; colaborou na revista Vera-Cruz, de inspiração simbolista, fundou o jornal político O Caboclo; em 1941, foi eleito “Príncipe dos Poetas Capixabas” em concurso instituído pelo jornal A Tribuna; em vida, teve a publicação de Poesias, 1ª série (1942), além de “numerosa produção esparsa” em jornais e revistas do Rio de Janeiro, Rua do Ouvidor entre os quais, e nos periódicos capixabas O Eco e O Cachoeirano.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Friedrich Nietzsche: Obscurecer-se. [aforismo 368] & outros aforismos


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[traduzido por Paulo César de Souza]

122 — A boa memória. — Alguns não se tornam pensadores porque sua memória é boa demais.
201 — Erro dos filósofos. — O filósofo crê que o valor da sua filosofia se acha no conjunto, no edifício: a posteridade enxerga esse valor na pedra com que ele construiu, com a qual, a partir de então, constrói-se ainda muitas vezes e melhor: ou seja, no fato de aquele edifício poder ser destruído e, no entanto, ainda ter valor como material.
256 — Aviso aos desprezados. — Quando alguém decaiu claramente na estima das pessoas, deve agarrar-se com unhas e dentes ao pudor nas relações: de outro modo, revela aos outros que também decaiu na sua própria estima. O cinismo nas relações é um sinal de que a sós consigo a pessoa trata a si mesma como um cão.
347 — Fala o bebedor de água. — Continua bebendo o vinho que te deleitou a vida inteira — que tens a ver com o fato de eu necessariamente ser um bebedor de água? Vinho e água não são elementos pacíficos, fraternais, que coexistem sem objeções?
361 — Medicamento da alma. — Permanecer deitado e pensar pouco é o mais barato medicamento para todas as doenças da alma e, com boa vontade, seu uso torna-se mais agradável a cada hora.
368 — Obscurecer-se. — É preciso saber obscurecer-se, a fim de livrar-se do enxame de admiradores importunos.
380 — A vida filosófica é mal interpretada. — No instante em que alguém começa a tomar a sério a filosofia, todo o mundo acredita o contrário.
392 — A regra como mãe ou como filha. — A situação que gera a regra é diferente daquela que a regra gera.

[Humano, Demasiado Humano II * 
Primeira parte: Opiniões e Sentenças Diversas]

Friedrich Nietzsche

122
Das gute Gedächtnis. Mancher wird nur deshalb kein Denker, weil sein Gedächtnis zu gut ist.
201
Irrtum der Philosophen. Der Philosoph glaubt, der Wert seiner Philosophie liege im Ganzen, im Bau: die Nachwelt findet ihn im Stein, mit dem er baute und mit dem, von da an, noch oft und besser gebaut wird: also darin, daß jener Bau zerstört werden kann und doch noch als Material Wert hat.
256
Warnung an die Verachteten.  Wenn man unverkennbar in der Achtung der Menschen gesunken ist, so halte man mit den Zähnen an der Scham im Verkehre fest: sonst verrät man den andern, daß man auch in seiner eigenen Achtung gesunken ist. Der Zynismus im Verkehre ist ein Anzeichen, daß der Mensch in der Einsamkeit sich selber als Hund behandelt.
347
Der Wassertrinker spricht.  Trinke deinen Wein nur weiter, der dich dein Leben lang gelabt hat,  was geht es dich an, daß ich ein Wassertrinker sein muß? Sind Wein und Wasser nicht friedfertige, brüderliche Elemente, die ohne Vorwurf beieinander wohnen?
361
Arznei der Seele.  Still-liegen und Wenig-denken ist das wohlfeilste Arzneimittel für alle Krankheiten der Seele und wird, bei gutem Willen, von Stunde zu Stunde seines Gebrauchs angenehmer.
368
Sich verdunkeln.  Man muß sich zu verdunkeln verstehen, um die Mückenschwärme allzu lästiger Bewunderer loszuwerden.
380
Das philosophische Leben wird mißgedeutet.  In dem Augenblicke, wo jemand anfängt mit der Philosophie Ernst zu machen, glaubt alle Welt das Gegenteil davon.
392
Die Regel als Mutter oder als Kind.  Ein anderer Zustand ist der, welcher die Regel gebiert, ein andrer der, welchen die Regel gebiert.

[Menschliches, Allzumenschliches II
Erste Abteilung: Vermischte Meinungen und Sprüche]

* Nota do aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: No Posfácio deste Humano, Demasiado Humano II, o tradutor Paulo César de Souza nos relata que, em 1879, ao concluir O Andarilho e sua Sombra, Nietzsche achava ser esta a sua última obra, por ter sido aquele ano “pródigo em dores”. As doenças por ele sofridas desde a juventude (“enxaquecas, problemas de visão, náuseas, etc.”) haviam se tornado mais frequentes e terríveis, o que o obrigou a deixar o cargo de professor da Universidade de Basileia. Nietzsche mal podia ler e escrever, e achava que morreria no ano seguinte, aos 36 anos, idade da morte de seu pai. O tradutor, alertando caber várias outras considerações sobre o tema, expõe que, naquelas condições, para alguém incapaz de uma produção intelectual constante, e sem ter residência fixa, o aforismo “revelou-se o modo de expressão mais adequado”. Paulo César de Souza continua: “desde Humano, Demasiado Humano até o início de 1889, quando ele parou de sentir, pensar e escrever, a maior parte do que publicou foram coletâneas de aforismos”. Este Humano, Demasiado Humano II é composto de duas partes: Opiniões e Sentenças Diversas e O Andarilho e sua Sombra.
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Humano, Demasiado Humano: Um Livro para Espíritos Livres, Volume II Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2017, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.