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[traduzido por Cláudia
Cavalcanti]
2ª versão
Outono: avanço negro na margem
da floresta; minuto de muda destruição; ergue-se à espreita a fronte do leproso
sob a árvore nua. Noite há muito passada, que agora mergulha sobre os degraus
de musgo; novembro. Um sino bate e o pastor conduz ao lugarejo a manada de
cavalos negros e vermelhos. Sob a avelãzeira o caçador verde destripa um
animal. Suas mãos fumegam de sangue e a sombra do animal suspira na folhagem
por cima dos olhos do homem, moreno e taciturno; a floresta. Gralhas que se
dispersam: três. Seu voo parece uma sonata, repleto de acordes empalidecidos e
melancolia viril, devagar se desmancha uma nuvem dourada. No moinho, rapazes
acendem o fogo. Chama é irmão do mais pálido e este ri, enterrado em seu cabelo
de cor púrpura; ou é um local do crime, pelo qual passa um caminho de pedras.
As berberidáceas desapareceram, por anos a fio sonha-se no ar de chumbo sob os
pinheiros; medo, escuridão verde, o gargarejar de um afogado: o pescador tira
do lago de estrelas um peixe grande, negro, o rosto marcado por crueldade e
loucura. As vozes do junco, homens brigando atrás, aquele se balança num barco
sobre a água gelada do outono, vivendo em obscuras sagas de sua estirpe, e os
olhos de pedra abertos sobre noites e espantos virginais. O mal.
O que te obriga a ficar em
silêncio sobre a escada em ruínas, na casa de teus ancestrais? Plúmbeo negror.
O que levas aos olhos com mão prateada, e as pálpebras baixando como se
inebriadas de ópio? Mas pelo muro de pedra vês o céu de estrelas, a Via Láctea,
Saturno, vermelho. Furiosa, contra o muro de pedra bate a márvore nua. Tu sobre
degraus em ruínas: árvore, estrela, pedra! Tu, um animal azul que treme em
silêncio; tu, o polido sacerdote que o abate no altar negro. Oh, teu sorriso na
escuridão, tão triste e mau que uma criança empalidece mesmo dormindo. Uma
chama vermelha saltou da tua mão e uma falena queimou-se nela. Oh, a flauta da
luz; oh, a flauta da morte! O que te obrigou a ficar em silêncio sobre a escada
em ruínas, na casa de teus ancestrais? Lá embaixo, bate ao portão um anjo com
dedos de cristal.
Oh, o inferno do sono; ruela
escura, pequeno jardim marrom. Baixinho soa na tarde azulada a figura dos
mortos. Florezinhas verdes pairam à sua volta e o seu rosto as abandonou. Ou
então inclina-se empalidecido sobre a fria fronte do assassino no escuro do
vestíbulo; adoração, chama púrpura da volúpia; morrendo, o adormecido
precipitou-se na escuridão por sobre os degraus negros.
Alguém te deixou na
encruzilhada, e olhas para trás, longamente. Passo prateado na sombra de
macieiras atrofiadas. A fruta, purpúrea, brilha no galho negro, e na grama a
serpente muda de pele. Oh, o escuro; o suor que surge na fronte gelada e os
tristes sonhos no vinho, na taberna local sob vigas negras pelo fumo. Tu, ainda
selva, que por encanto transforma em ilhas róseas a fumaça marrom do tabaco e
busca de dentro o grito selvagem de uma presa, quando caça em recifes negros no
mar, tempestade e gelo. Tu, um metal verde e dentro um rosto de fogo que quer
sair e cantar, do monte de ossos, tempos obscuros e a queda chamejante do anjo.
Oh, desespero que cai de joelhos com um grito mudo!
Um morto te visita. Do coração
corre o sangue vertido por ele, e na sobrancelha abriga-se indizível momento;
encontro sinistro. Tu —
uma lua purpúrea, quando aquele aparece na sombra verde da oliveira. Segue-o a
noite que não passa.
(1913)
Verwandlung des Bösen
2. Fassung
Herbst: schwarzes Schreiten am Waldsaum; Minute stummer Zerstörung;
auflauscht die Stirne des Aussätzigen unter dem kahlen Baum. Langvergangener
Abend, der nun über die Stufen von Moos sinkt; November. Eine Glocke läutet und
der Hirt führt eine Herde von schwarzen und roten Pferden ins Dorf. Unter dem
Haselgebüsch weidet der grüne Jäger ein Wild aus. Seine Hände rauchen von Blut
und der Schatten des Tiers seufzt im Laub über den Augen des Mannes, braun und
schweigsam; der Wald. Krähen, die sich zerstreuen; drei. Ihr Flug gleicht einer
Sonate, voll verblichener Akkorde und männlicher Schwermut; leise löst sich
eine goldene Wolke auf. Bei der Mühle zünden Knaben ein Feuer an. Flamme ist
des Bleichsten Bruder und jener lacht vergraben in sein purpurnes Haar; oder es
ist ein Ort des Mordes, an dem ein steiniger Weg vorbeiführt. Die Berberitzen
sind verschwunden, jahrlang träumt es in bleierner Luft unter den Föhren;
Angst, grünes Dunkel, das Gurgeln eines Ertrinkenden: aus dem Sternenweiher
zieht der Fischer einen großen, schwarzen Fisch, Antlitz voll Grausamkeit und
Irrsinn. Die Stimmen des Rohrs, hadernder Männer im Rücken schaukelt jener auf
rotem Kahn über frierende Herbstwasser, lebend in dunklen Sagen seines
Geschlechts und die Augen steinern über Nächte und jungfräuliche Schrecken
aufgetan. Böse.
Was zwingt dich still zu stehen auf der verfallenen Stiege, im Haus
deiner Väter? Bleierne Schwärze. Was hebst du mit silberner Hand an die Augen;
und die Lider sinken wie trunken von Mohn? Aber durch die Mauer von Stein
siehst du den Sternenhimmel, die Milchstraße, den Saturn; rot. Rasend an die
Mauer von Stein klopft der kahle Baum. Du auf verfallenen Stufen: Baum, Stern,
Stein! Du, ein blaues Tier, das leise zittert; du, der bleiche Priester, der es
hinschlachtet am schwarzen Altar. O dein Lächeln im Dunkel, traurig und böse,
daß ein Kind im Schlaf erbleicht. Eine rote Flamme sprang aus deiner Hand und
ein Nachfalter verbrannte daran. O die Flöte des Lichts; o die Flöte des Tods.
Was zwang dich still zu stehen auf verfallener Stiege, im Haus deiner Väter?
Drunten ans Tor klopft ein Engel mit kristallnem Finger.
O die Hölle des Schlafs; dunkle Gasse, braunes Gärtchen. Leise läutet im
blauen Abend der Toten Gestalt. Grüne Blümchen umgaukeln sie und ihr Antlitz
hat sie verlassen. Oder es neigt sich verblichen über die kalte Stirne des
Mörders im Dunkel des Hausflurs; Anbetung, purpurne Flamme der Wollust;
hinsterbend stürzte über schwarze Stufen der Schläfer ins Dunkel.
Jemand verließ dich am Kreuzweg und du schaust lange zurück. Silberner
Schritt im Schatten verkrüppelter Apfelbäumchen. Purpurn leuchtet die Frucht im
schwarzen Geist und im Gras häutet sich die Schlange. O! das Dunkel; der
Schweiß, der auf die eisige Stirne tritt und die traurigen Träume im Wein, in
der Dorfschenke unter schwarzverrauchtem Gebälk. Du, noch Wildnis, die rosige
Inseln zaubert aus dem braunen Tabaksgewölk und aus dem Innern den wilden
Schrei eines Greifen holt, wenn er um schwarze Klippen jagt in Meer, Sturm und
Eis. Du, ein grünes Metall und innen ein feuriges Gesicht, das hingehen will
und singen vom Beinerhügel finstere Zeiten und den flammenden Sturz des Engels.
O Verzweiflung, die mit stummem Schrei ins Knie bricht.
Ein Toter besucht dich. Aus dem Herzen rinnt das selbstvergossene Blut
und in schwarzer Braue nistet unsäglicher Augenblick; dunkle Begegnung. Du —
ein purpurner Mond, da jener im grünen Schatten des Ölbaums erscheint. Dem
folgt unvergängliche Nacht.
(1913)
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De Profundis e Outros Poemas — Georg Trakl, Edição bilíngue,
Organização, Posfácio e Tradução de Cláudia Cavalcanti, 1994, Editora
Iluminuras, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 — 1914), austríaco de Salzburgo
(antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira
Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg
Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (Gedichte, 1913), além de textos
esparsos em edições da revista expressionista austríaca Der Brenner (onde publicou seus primeiros poemas) e em outros jornais; logo após sua morte,
publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia,
consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem
presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por
ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação
incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio:
ele em novembro de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.