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quarta-feira, 17 de abril de 2024

Lima Barreto*: Nacionalização de tabuletas & As tabuletas da Avenida


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Nacionalização de tabuletas1

          Tive a honra de conversar com um respeitável cidadão que se dá ao estudo do português, nas suas transcendentes questões de vernaculismos, galicismos e barbarismos em geral.
          Fui interrogá-lo sobre o negócio de tabuletas em línguas estrangeiras que tanto inquieta o nosso patriotismo de hoje, que se reforçou com as nossas vitórias militares, econômicas e políticas na guerra mundial, que é acusada de ter cessado.
          Em tese, disse-me o gramático, sou pelo desejo dos nacionalistas que querem que os dísticos das casas comerciais e outras sejam escritos no nosso idioma; mas a verdade é que muitos jornais não o são. Quer ver? Veja só Jornal do Commercio é português?
           Como?
           Jornal é galicismo e dos bons; e só foi admitido, como significando folha de papel impressa diariamente, depois de muita relutância dos sábios linguistas. Gazeta também não é?
           Que é?
           É veneziano. Era uma moeda de Veneza com a qual se comprava certo diário impresso. Mais ainda.
           Ainda mais!
           Temos. Em papéis oficiais você vê contrôle, cahiers de charges, hinterland, self-government e tantos outros que não custa catar por aí. Os jornais então abusam e abusam dos estrangeirismos, conforme a moda. Você viu aparecer, durante a guerra, camouflage, poilus, tommies etc.
          Como é que você quer então que os particulares, ainda mais negociantes, sejam mais escrupulosos do que o Estado que chama de divisões as suas repartições ou seções, o que deve ser um rematado galicismo.
          Não tenho tempo para fornecer exemplos de que todos nós, nessa história de linguagem, somos tão nacionalistas como o comerciante que põe, na fachada de suas casas de negócio, este título que nada diz com o fito das suas mercadorias: À la Ville de Brest, quando o que ele vende são fazendas e artigos de armarinhos. De resto, é tradição do comércio essas denominações extravagantes para as suas casas. Você que é viajado e lido, sabe bem disso; e os comerciantes que se transportam dos seus países para aqui trazem esse hábito na massa do sangue.
          Porque você queria que a “Notre Dame”, por exemplo, fosse chamada “Nossa Senhora de Paris”? Adiantava isso muito para a nacionalização do Brasil?!
          Não acho lá grande a medida, porquanto o que primeiro devíamos fazer era nacionalizarmos a nós, depois, os recém-chegados.

— o 

As tabuletas da Avenida2

          Durante muito tempo, nós, os do Rio, não soubemos ver a transcendental significação da tabuleta, hoje, porém, as coisas vão mudando.
          Não tão rapidamente como era de esperar, pois que há na Avenida um Armazém Central. Ignóbil!
          Nos atuais tempos de transformações radicais, é bom que as tabuletas obedeçam a todas as condições de elegância, brilho e novidades; é bom também que atendam à satisfação geral, ao abarrotamento de satisfação, que enche a cidade.
          Café Jeremias3, por exemplo, inconveniente, desgracioso, perfeitamente desgracioso.
          Evocar o nome do eminente profeta hebraico, mesmo no âmago da nossa alegria e da nossa felicidade!...
          O governo, ao meu ver, devia proibir; tanto mais que uma tal tabuleta bem pode influir para que voltemos aos tempos do pessimismo, do “isto vai mal, Jeremias”, na Avenida! Que gafe!
          Há, entretanto, alguma coisa de smart. Felizmente, uma feliz reação se operou no seio dos nossos criadores de tabuleta. Café Chic! Eis aí a tabuleta que salva a nossa civilização. Todos os perigos internos e externos que porventura nos ameacem serão evitados se formos chics, extraordinariamente chics. Sejamos chics, smarts, gentlemen, das quatro em diante, quando saímos dos escritórios e das repartições... Café Chic é genial!
          Junto ao chic, temos o rosé Maison Rosé.
          Rosé é o otimismo, é a satisfação do viver...
          Chic e Rosé é a expressão do anseio da nossa modernidade carioca.
          Não quiseram os retrógrados que a coisa ficasse tão bem; puseram em Lira Casa Lira título romântico, conciso, a mesmo que não seja em honra ao ministro. Se o for, é moderno, smart, gentleman, XPTO4, London.
          Num desvio de O País, deparamos com Trust tabuleta soberbamente expressiva. Recorda milhões de Carnegie, de Vanderbilt; é uma tabuleta super-homem. Fascina, atrai, empolga... Por quê? É a obscuridade, é a não significação.
          Ponham uma em hieróglifos e verão que sucesso! O Rio transforma-se graças a Deus! é de esperar que em breve tenhamos uma. Que doce esperança!...


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, [Mié,] entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.
Notas do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1. Assinado por Horácio Acácio. Publicado em Careta, nº 586, 13 set. 1919;
2. Assinado por Mié. Publicado em Fon-Fon, nº 5, 11 mai. 1907;
3. Localizado na avenida Central, 150, era um dos cafés mais frequentados por Lima Barreto;
4. Expressão popularizada em Portugal para designar algo sofisticado.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...