domingo, 18 de abril de 2010

Genésio dos Santos: Choque da confrontação (1977)

Livro: Número Um De Genésio Dos Santos
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Nestes dias
o que já se delineava claramente
aos meus olhos
se confirmou:
os que professam
e os professados
são feitos de um mesmo barro
e moldados por um mesmo oleiro,
são queimados em um mesmo forno
e em uma mesma olaria,
se partem com um único choque
e se transformam em areia, em barro moído.
Quando se partem em pedaços,
o mesmo oleiro que antes os moldara
os moldará de novo.

Há que procurar um outro barro
se se pretende um jarro forte.
Há que procurar um outro oleiro
se se pretende um jarro de outro molde.
Há que procurar um outro forno
se se pretende um jarro resistente.
Há que procurar uma outra olaria
se se pretende um jarro diferente.

Há que romper
com o antigo barro
com o antigo oleiro
com o antigo forno
com a antiga olaria.

Há que começar
de novo.

Minha foto
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Número Um poesias, 1978, Edição do Autor, São Paulo  SP; Genésio dos Santos, paulista e itapetiningano, nascido em 1952, caipira, filho de ferroviário, é bancário aposentado; partindo de Iperó —  SP pegou o caminho do trem (a antiga Sorocabana, ex-Fepasa) rumo à cidade grande (São Paulo), onde reside desde a década de setenta do último século do milênio passado; poeta e cronista,  escreve desde seus treze anos, é hoje um cidadão urbano adaptado e aprendiz de blogueiro; publicou também Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981), além de colaborar na produção de crônicas para jornais sindicais do SeebSP (O EspelhoSPNa MoitaFolha Bancária etc.)

Itagyba Kuhlmann: Entretanto Danço

À Wilma

Vivo enquanto passo
Enquanto passo posso
Posso enquanto encanto passo
Passo enquanto posso ser.

Canto enquanto posso
Enquanto posso passos
Passos enquanto em canto passo
Passo encanto passos sei.

No entanto canto tanto
Encanto passo tanto
Encanto posso em canto
Tanto quanto posso ser.

E no entanto, entre tantos,
No meu canto em pranto.
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Inverno 1997 - Itagyba Kuhlmann (1945 - 2009) vive, na memória, pelo que fez. Foi poeta, cronista, livreiro, professor, web designer, padeiro, cantor, compositor, marceneiro, criador de coelhos, pai, avô, marido e amante, companheiro...

Itagyba Kuhlmann: Apresentação (1975)

Eu sou gente:
Animal racional,
Mamífero da ordem dos primatas,
Da espécie Homo-sapiens.

E necessito de outros
Animais racionais,
Mamíferos
Da ordem dos primatas,
Da espécie Homo-sapiens,
Para com eles repartir minha vida.

Como animais de outras espécies
Que se alimentam de tudo,
Sou onívoro
E me alimento até
De esperança.

Eu sou gente:
Sexo masculino,
E necessito,
Urgente,
De um outro ser humano,
Do sexo oposto,

Disposto a deixar de ser oposto
Para ser complementar.

No meu peito existe
Um músculo
Parassimpático
Chamado coração
Que distribui
Sangue pelo meu corpo.

E amor...

O ritmo do coração
É desespero,
O ritmo da minha poesia.
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Itagyba Kuhlmann (1945 - 2009) vive, na memória, pelo que fez. Foi poeta, cronista, livreiro, professor, web designer, padeiro, cantor, compositor, marceneiro, criador de coelhos, pai, avô, marido e amante, companheiro....

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O Espelho SP: Leão, patos e tomates

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano III  n° 25  20 de agosto a 20 de setembro de 1982)

Oi, Satélio!

Tô de volta e o leão também. Ele, que em todo o ano passado nos mordeu religiosamente deixando profundas cicatrizes no nosso lombo, prometeu que até junho deste ano nos daria o troco e com correção monetária. Não cumpriu o que devia. Está atrasando as restituições e, de lambuja, nos presenteou com uma nova tabela de descontos na fonte a vigorar a partir de outubro.

O bicho, que é esperto, fingiu que não tinha mais fome e arrotou. Para os menos observadores foi uma pequena boa ação do rei. Mas, a verdade é que, com a inflação a cem por ano, a fera se recusou a nos morder a torto e a direito, pois, o troco que nos cabe no ano que vem será acrescido de noventa e cinco por cento e é evidente que sobre o que ela nos toma nos últimos três meses do ano a inflação não consegue corroer totalmente. Aí a fera teria que desembolsar mais tutu, se não reajustasse a tabela. O que era bom para o bicho, deixaria de ser. Passava a sê-lo para os homens. E já não interessava. Aliás, foi por esse mesmo motivo  que faz algum tempo o monstro proibiu o desconto na fonte sobre o 13° salário.

O certo, Satélio, é que a patéia agradecida, digo, a platéia agradecida e desatenta, aplaudiu a boa nova. E o leão, que nunca foi pato, anda pelas ruas rindo à toa como se tivesse acertado a quina na loto.

O mamífero é vivo! Aproveitou o pleito na Europa para nos passar a perna. Se não fosse o político Paolo Rossi talvez a gente nem tivesse percebido a manobra. Foi preciso o italianíssimo nos dar um pito para que a gente acordasse. E, no que acordamos, vimos que o Delfim já estava acordado de véio. Vimos outros mamíferos, com cédulas em branco, tentando nos empacotar de vez. Vimos o Maluf e o Reinaldão distribuindo rosas e jantares, inaugurando pontes e postes. E nem eram mais governador e prefeito. Vimos também o Afif vendendo laranja. E o pessoal da plurioposição discutia se realmente o Toninho Cerezo, candidato do PDS mineiro, era o culpado pela derrota da eleição na Espanha.

Pra encompridar o papo, fiquei sabendo que o Tejero Molina saiu da toca. Voltando a agir, urrou que, se alguns candidatos da plurioposição fossem votados pelo povo, ele entraria de metralhadora em punho no congresso e acabaria com a festa. Quando ouvi isso, empertiguei-me todo, fiz continência e lasquei um viva ao democrático regime canarinho.

Como patriota foi que resolvi almoçar no Gervásio. Fazia tempo que eu não passava por lá. Estava com saudades. Entrei na fila, peguei o arroz, o feijão. Ia pegar a salada... e surpresa! Vi um CEB no pratinho de verdura. Isso mesmo, um Corpo Estranho Boiando! Um tomate, mais vermelho que comunista assumido.

Fiquei rubro, Satélio! Não por ter encontrado o safado do tomatinho, mas é que, durante o almoço, conversando com outros patriotas, fiquei sabendo que o BB quer implantar o CCQ. O famoso Círculo de Controle de Qualidade da não menos famosa Teoria Z. Dizem que deu certo no Japão e na Conchinchina. O Banco quer trazer isso pra cá, bem nas nossas barbas. Ouvi falar que rende mais que RDB. É aguardar e conferir.

Parece que no tal do CCQ está sendo previsto inclusive representantes de seção. Estamos sendo vaselinados, Satélio!

Que jeito, hein?!

Saudações verde-amarelas,

P.da Silva
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P.da Silva, Satélio e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.

O Espelho SP: Satélio e a fera

(O Espelho SP  Informativo dos Funcionários do Banco do Brasil S/A  Agcen-SP  Ano II  n° 13  Abril de 1981)

Com mil dragões! Nestes últimos dias a cidade está em polvorosa. Jornais, rádio e televisão dão ampla cobertura às malvadezas de um tal leão que, escapulido de algum circo, anda solto por aí amedrontando ricos e pobres, gregos e troianos. O caso até fez com que despertasse em mim uma certa onda de saudosismo. E são raras as vezes em que isso me acontece. Foi então que chegando em casa, após o expediente, passei a revirar minha discoteca e encontrei o que queria para aliviar a tal sede saudosística - um elepê do meu ídolo daqueles idos de setenta e um: Roberto Carlos, móóóóóra!!!

Liguei o meu quadrifônico Polyvox e fiquei a me deleitar com a composição "Um leão está solto nas ruas". Naquela época, aproveitando-se do carnaval descontraído que fizemos pela conquista do tricampeonato, com nossos soldados brigando contra soldados italianos em terras mexicanas, um leão andou às soltas pela cidade e se alimentou fartamente do povo. O bicho almoçou, jantou e palitou os dentes. Como os mais velhos devem estar lembrados, acreditávamos tratar-se de um milagre. Religiosos nós éramos e ainda somos. E nisso ninguém põe dúvida. Até somos convictos de que Deus é brasileiro!

Pois é! Mais de dez anos depois a fera está de volta e, ao que tudo indica, pra nos fazer de sobremesa. Isso é o que a gente pode chamar de apetite de leão. Cruzes! Até parece revanchismo!

Desta feita, conforme o publicado em jornais, rádio e tevê, o bicho anda atacando em tudo quanto é lugar, na base do vou-te-abater. Satélio (este vocês conhecem, né!), ele me contou que dia destes abriu a porta de sua casa pra atender a um chamado da campainha e deu de cara com o tal leão. O bicho, após as apresentações e formalidades iniciais, queria saber como Satélio vivia, quanto ganhara no ano passado, se era solteiro ou casado, se pagava aluguel ou residia em casa própria e outras perguntas mais. Satélio respondeu que sim, que graças a Deus e ao suor do seu rosto, tudo ia mais ou menos. Que trabalhava no Banco do Brasil, que era B-2, solteirinho da silva e que ganhara por volta de quatrocentos mil cruzeiros durante o ano de oitenta. Disse mais ainda, que vivia de aluguel pois a poupança que vinha fazendo só ia dar pra comprar uma tevê a cores e sobraria um pouco pra dar de entrada num fiat. Mas que ia ser duro de pagar as prestações.

O leão, com ar de sabido, mexeu na sua Hewlett-Packard, fez cálculos, multiplicou, diminuiu, deduziu, consultou umas tabelas e completou: Você tem sorte, sr. contribuinte (pelo que se apurou até agora, ele chama todo mundo de sr. contribuinte). Dessa vez, você só vai sofrer uns arranhõezinhos. E palavras proferidas, ato realizado. Pegou num braço de Satélio e meteu suas garras afiadas, deixando um sulco formidável. Depois, como vampiro, chupou o sangue que escorria. Satélio sentiu um calafrio. O Leão, dono de si, ainda fez um comentário antes de se despedir. Disse que se Satélio fosse casado e tivesse um filho, possivelmente nem os arranhõezinhos ele sofresse. Que talvez escapasse ileso.

Satélio acha que mesmo sendo solteiro ele teve melhor sorte que outros senhores contribuintes, e cita o caso de um fulano que recebeu mais de um milhão durante o ano passado. Por azar, não paga aluguel. Tem casa própria. É solteiro e não tem família pra tratar. O leão chegou, ouviu, consultou os folhetos e tabelas já com um sorriso meio disfarçado e lambendo os beiços. Calculou, somou, multiplicou e comeu o contribuinte por uma perna. O fulano teve que tratar do leão.

Tem muitos casos mais. O leão anda fazendo e desfazendo por aí. Chega, investiga, calcula, soma, multiplica e come um por uma perna, outro por um braço e outro ainda pela perna e pelo braço. Está deixando muita gente aleijada pra engrossar o rol dos deficientes físicos neste ano internacional.

Fato inusitado porém se deu com outro contribuinte. Comentam que o leão chegou fazendo as perguntas de praxe e obteve a resposta na bucha: Faturei seis milhões no ano passado! O leão nem se deu ao luxo de calcular coisa alguma. De imediato lançou-se num bote fulminante, com a boca escancarada, pronto pra engolir o contribuinte. Em fração de segundos porém, o sicrano complementou que se tratava de rendimentos não tributáveis, e o rei das selvas, entre chocado e envergonhado, parou no ar com a bocarra aberta. E sumiu, querendo subir pelas paredes, de raiva. O contribuinte foi salvo pelo gongo. Cáspite!

Tem outro caso horrível que está sendo muito comentado por aí. Um outro beltrano, ouvindo o tilintar da campainha, abriu a porta da sala e deu de chofre com o tal leão. Apavorado, conseguiu fugir pelos fundos indo direto ao consultório do psicanalista da família. Chegou, ajeitou-se no divã e foi botando pra fora: — Tem um leão lá em casa! Tem um leão lá em casa! E o psicanalista, ouvindo, ouvindo. O beltrano tranquilizou-se e, refeito, voltou pra casa. Foi comido pela fera.

Sossega, leão!
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P.da Silva, Satélio e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, em uníssono, assumem a autoria desta crônica.