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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Sampaio Bruno: A Poesia Científica

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                    Quer isto dizer que não acreditemos na possibilidade e na eventualidade da poesia científica?
                    Entendamo-nos. Basta a quase unanimidade da aspiração para que se nos demonstre irrefragável sua ulterior realidade. De fato, até nossos dias, as tentativas, chegando às recentes de André Léfévre e de Sully-Prudhomme, contam-se pelos abortos. Mas os insucessos não desanimam. Teima-se. Sente-se que há necessidade dessa criação. Com efeito, ela tem de aparecer. Será o fecho das criações idealistas do século XIX.
                    Mas, enquanto a procurarem por onde a procuram, nenhum resultado eficaz se obterá.
                    Em primeiro lugar, a poesia científica não emanará precisamente da Ciência, mas sim da Filosofia considerada esta como a chaveta que compreenda toda hierarquia enciclopédica. A expressão: poesia científica é, assim errônea e tem sido a grande causa dos desvairamentos. O que há a constituir é a poesia filosófica, não a poesia científica. O único exemplar perfeito duma tentativa congênere não marcada de insucesso é, como se sabe, o De rerum natura, de Lucrécio. Este poema não é um poema científico, à laia didática das Geórgicas, de Virgílio. É um poema filosófico, explanador dum sistema cosmogônico geral. Esta diferencial não tem sido suficientemente percebida; e ela é essencial. Ao tempo de Lucrécio, de resto, a aquisição científica de ordem da versada no poema era insuficiente para metrificar explicações determinativas, puras e estremes.
                    Sendo filosófica, a poesia científica deixará de ser didática; o vago crítico de todo o sistema filosófico conservará à obra de arte o vago estético, indispensável à poesia. Posto isto, o sistema filosófico que tinha de ser idealizado poeticamente, nunca poderia ser o Positivismo. Precisamente pela razão por que se apartou a Ciência. Porque o Positivismo é rigidamente limitado; tem as fronteiras, próximas e claramente visíveis; é uma curva fechada; é um polígono cujas arestas não toleram que as ultrapasse a conjectura. O Positivismo, não; é positivo demais. Carece-se duma filosofia mais inexata e menos terrestre.
                    Tem o sistema filosófico que se adote para a idealização poética de proceder da Ciência e de nela se consubstanciar indissoluvelmente e a todo o instante a ela se reportar, referir e recorrer. E, sem embargo, num rapto, a todo instante, a poesia dele emanada há de confugir da originária demonstração científica.
                    Depois, como o homem é o limite finalista de toda a humana atividade, essa poesia cumpre que seja transcendentemente moral, o que quer dizer: no ponto de partida, pessimista; no de chegada otimista. O otimismo deve, mesmo, ser o seu conceito sintético, o seu critério dominante e geral.
                    Por consequência, essa poesia científica haverá de ser profundamente espiritualista e, simultaneamente, rigorosamente objetiva; quer dizer, será teleológica.
                    Professar isto equivale a professar que uma poesia científica positivista resulta abortiva, porque o caráter concreto do sistema não permite a idealização. Não pode ser também materialista uma poesia filosófica, porque lhe falta a sanção moral. A autolatria individualista, que para a Filosofia deriva da Economia Política, a seu turno derivada da interinidade social, indispensavelmente iníqua, é inadmissível num poema caracterizado pela estrita justiça. A autolatria coletiva, à maneira de Comte ou de Max Stirner, é insuficiente também, porque a humanidade não pode jamais ser o órgão supremo da sanção moral, visto como, para substituir, ela tem de, infligindo egoisticamente a morte negar, como as unidades específicas ainda as mais inferiores, as coexistências de si alheias. Essa poesia não pode, finalmente, ser mística no tipo antropométrico da Sagesse de Verlaine, porque lhe escasseia o elemento exterior da realidade objetiva, ademais da inferioridade do simples conceito da vida moral humana, destacada soberbosamente da continuidade universal.
                    Só, portanto, a Filosofia da Evolução pode permitir uma idealização poética da Ciência. Só a moral socialista, no sentido integralista que rudimentarmente começou a bosquejar Malon, é que é compatível com um poema que pretenda a honra, máxima, de ser concordante com o conjunto ideativo, afetivo e volitivo da humanidade contemporânea, tão perfeita e homologamente como o foi o poema de Dante para a gente e o espírito católico da sua época.
                    O poema do futuro tem de integrar-se no monismo teleológico, inclusive o homem e a sociedade, em seu destino; completará a intuição exata que, malogrando-a na efetivação, até hoje só teve, fragmentária e conscientemente, um cérebro privilegiado. Foi o de Goethe, mas no seu segundo Fausto ele embaraçou-se a ponto de oferecer o singular espetáculo de promover comentadores mais assanhados e difusos do que os mais obscuros devaneios teológicos. A causa próxima do desastre esteve na efetuação, em o recurso dominante da simbólica; mas o conceito fundamental destaca indiscutível para toda a alta especulação estética. É o do panteísmo idealista hoje acrescentaríamos o socialista, se o idealismo sistemático não implicasse, derivativamente, o conceito da justiça, já. Até, disseminado no cosmo, ele freme, formando sua trama dissimulada, analisável desde o rudimento atômico, bem antes mesmo da psicologia celular esmiuçada por Haeckel.

(O Brasil Mental, pág. 281. Porto, Chardron, 1898.)

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; José Pereira de Sampaio Bruno (1857 1915), português do Porto, foi escritor, ensaísta e filósofo; aos quatorze anos, sob o pseudônimo Bruno referência a Giordano Bruno , iniciou-se na carreira literária no Diário da Tarde, publicando artigo com crítica ao cristianismo; depois, ingressou na Academia Politécnica do Porto, a fim de se preparar para o curso de Medicina, mas teve que abandonar os estudos por problemas de saúde; bibliografia: A Geração Nova: Os novelistas (1886), Notas do exílio (1893), O Brasil Mental: esboço crítico (1898), A Idéia de Deus (1902), O Encoberto (1904), Os modernos publicistas portugueses (1906), Portugal e a guerra das Nações (1906), A questão religiosa (1907), Portuense ilustres (19071908), A Ditadura: Subsídios morais para seu juízo crítico (1909) ...; Sampaio Bruno, como político e republicano, foi fundador dos semanários O Democrata e O Norte Republicano e do jornal diário A Discussão; o ensaísta filósofo elaborou, juntamente com Antero de Quental e Basílio Teles, os 'Estatutos da Liga Patriótica do Norte'; por seus ideais liberais e libertários, passou uma temporada exilado em Madri, após participação na fracassada revolta de 31 de janeiro de 1891, uma primeira tentativa de destituir a monarquia e instaurar a república.