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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Adrienne Rich: Da Casa de Detenção

 
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[traduzido por Marcelo Lotufo]

Sob minhas pálpebras se abriu outro olho
ele encara nuamente
a luz

que satura vinda do mundo da dor
mesmo quando durmo

Fixo, o olho observa
tudo aquilo pelo que estou passando

e mais

vê os porretes e as coronhas
subindo e caindo

detalhe ausente na TV

os dedos da mulhar policial
vasculhando a buceta da jovem prostituta

as baratas caírem na panela
onde as bistecas são cozidas
na Casa de D

a violência
incrustrada no silêncio

Esse olho
não é para chorar
a sua visão
precisa ser límpida

embora haja lágrimas no meu rosto

sua intenção é a clareza
não pode esquecer
nada

Setembro de 1971

Adrienne Rich

From the Prison House

Underneath my lids another eye has opened
it looks nakedly
at the light

that soaks in from the world of pain
even when i sleep

Steadily it regards
everything i am going through

and more

it sees the clubs and rifles-butts
rising and falling
it sees

detail not on TV

the fingers of the policewoman
searching the cunt of the young prostitute
it sees

the roaches dropping into the pan
where they cook the pork
in the House of D

it sees
the violence
embedded in silence

This eye
is not for weeping
its vision
must be unblurred

though tears are on my face

its intent is clarity
it must forget
nothing

September 1971

(Diving into the Wreck: Poems 1971-1972 — 1973)
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Que tempos são estes e outros poemas — edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização e Tradução de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo — SP; Adrienne Celine Rich (1929 2012), estadunidense de Baltimore Maryland, estudou no Radcliffe College bacharelou-se em Artes, foi poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora; desde a infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de seu pai e incentivador nos estudos [leu Ibsen, Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros]; a partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente ativa no ativismo contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”; como professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis University, Stanford University e várias outras; suas obras: A Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems, 1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), The Will to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970, 1971), Diving into the Wreck: Poems 1971-1972 (Mergulhando no Naufrágio: poemas 1971-1972, 1973), Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como Experiência e Instituição, 1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978 (Sobre Mentiras, Segredos e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood, Bread, and Poetry: Selected Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa selecionada, 1986), What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics (O que se encontra lá: Cadernos sobre poesia e política, 1993), Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995 (Campos Escuros da República: Poemas, 1991-1995, 1995), Adrienne Rich — Collected Poems, 1950-2012 (2016) e muitos outros títulos em verso e prosa; a poeta, ensaísta e ativista do feminismo, que enviuvara no início dos anos 70, em 1976 iniciou sua “parceria homossexual com a romancista e editora jamaicana Michelle Cliff”, que durou até 27 de março de 2012 [data da morte de Adrienne Rich]; premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award (Prêmio Yale para Jovens Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall de Poesia, 1992), Wallace Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens 1996) etc.; Rich foi a única pessoa a recusar a National Medal of Arts (Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria do governo ‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente Bill Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do dinheiro”.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Adrienne Rich: Que tempos são estes

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[traduzido por Marcelo Lotufo]

Há um lugar entre duas fileiras de árvores onde a grama cresce colina
acima
e a velha estrada revolucionária acaba em sombras
perto da assembleia abandonada pelos perseguidos
que desapareceram nessas sombras.

Caminhei por lá colhendo cogumelos no limite do temor; mas não se
deixe enganar
este não é um poema russo, isto não é em algum outro lugar, mas
aqui;
nosso país aproximando-se da sua própria verdade e temor,
da sua própria maneira de fazer pessoas desaparecerem.

Eu não vou dizer onde fica este lugar, a trama escura da floresta
encontrando o feixe de luz não assinalado
encruzilhadas possuídas por fantasmas, paraíso em decomposição:
eu já sei quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazer com que desapareça.

E eu não lhe direi onde fica; então por que eu lhe conto essa e outras
coisas? Porque você ainda me escuta, porque em tempos como estes
para você me escutar ao menos um pouco, é preciso
falar das árvores.

1991

Adrienne Rich

What Kind of Times Are These

There's a place between two stands of trees where the grass grows
uphill
and the old revolutionary road breaks off into shadows
near a meeting-house abandoned by the persecuted
who disappeared into those shadows.

I've walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don't be
fooled,
this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but here,
our country moving closer to its own truth and dread,
its own ways of making people disappear.

I won't tell you where the place is, the dark mesh of the woods
meeting the unmarked strip of light
ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:
I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won't tell you where it is, so why do I tell you
anything? Because you still listen, because in times like these
to have you listen at all, it's necessary
to talk about trees.

1991

(Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995, 1995)
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Que tempos são estes e outros poemas edição bilíngue: Adrienne Rich, Organização e Tradução de Marcelo Lotufo, 2018, Edições Jabuticaba, São Paulo SP; Adrienne Celine Rich (1929 2012), estadunidense de Baltimore Maryland, estudou no Radcliffe College bacharelou-se em Artes, foi poeta, escritora de não-ficção, ensaísta, feminista e professora; desde a infância, a poeta tomara gosto pela literatura através da biblioteca de seu pai e incentivador nos estudos [leu Ibsen, Arnold, Blake, Keats, Dante Gabriel Rossetti, Tennyson e outros]; a partir de 1966, morando em Nova Iorque, “Rich envolveu-se com a Nova Esquerda e tornou-se profundamente ativa no ativismo contra a guerra [do Vietnã], pelos direitos civis e pelo feminismo.”; como professora, lecionou em muitas instituições: Swarthmore College, Columbia University School of the Arts, City College of New York, Brandeis University, Stanford University e várias outras; suas obras: A Change of World (poesias, Uma Mudança de Mundo, 1951), The Diamond Cutters, and Other Poems (Os Lapidadores de Diamantes e Outros Poemas, 1955), Snapshots of a daughter in-law: poems, 1954-1962 (Instantâneos de uma nora: poemas, 1954-1962, 1963), Necessities of life: poems, 1962-1965 (Necessidades da vida: poemas 1962-1965, 1966), The Will to Change: Poems 1968-1970 (A Vontade de Mudar: Poemas 1968-1970, 1971), Of Woman Born: Motherhood as Experience and Institution (De Mulher Nascida: A Maternidade como Experiência e Instituição, 1976), On Lies, Secrets and Silence Selected Prose, 1966-1978 (Sobre Mentiras, Segredos e Silêncio: prosa selecionada, 1966-1978, 1979), Blood, Bread, and Poetry: Selected Prose, 1979–1985 (Sangue, Pão e Poesia: prosa selecionada, 1979-1985, 1986), What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics (O que se encontra lá: Cadernos sobre poesia e política, 1993), Dark Fields of the Republic: Poems, 1991-1995 (Campos Escuros da República: Poemas, 1991-1995, 1995), Adrienne Rich Collected Poems, 1950-2012 (2016) e muitos outros títulos em verso e prosa; a poeta, ensaísta e ativista do feminismo, que enviuvara no início dos anos 70, em 1976 iniciou sua “parceria homossexual com a romancista e editora jamaicana Michelle Cliff”, que durou até 27 de março de 2012 [data da morte de Adrienne Rich]; premiações e honrarias: Yale Younger Poets Award (Prêmio Yale para Jovens Poetas, pela obra A Change of World, 1950), Lenore Marshall Poetry Prize (Prêmio Lenore Marshall de Poesia, 1992), Wallace Stevens Award (Prêmio Wallace Stevens, 1996) etc.; Rich foi a única pessoa a recusar a National Medal of Arts (Medalha Nacional das Artes, 1997), “a mais alta honraria do governo ‘estadunidense’ para artistas” oferecida a ela pelo então presidente Bill Clinton, com a justificativa de que não podia ser hipócrita e aceitar prêmio oferecido pelos mesmos “poderosos que fazem da arte uma refém do poder e do dinheiro”.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Nísia Floresta: A lágrima de um caeté (fragmento)


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[ . . . ]

Era um Caeté, que vagava
Na terra que Deus lhe deu,
Onde Pátria, esposa e filhos
Ele embalde defendeu!…

É este… pensava ele,
O meu rio mais querido;
Aqui tenho às margens suas
Doces prazeres fruído…

Aqui, mais tarde trazendo
N’alma triste, acerba dor,
Vim chorar as praias minhas
Na posse de usurpador!

Que de invadi-las
Não satisfeito,
Vinha nas matas
Ferir-me o peito!

Ferros nos trouxe,
Fogo, trovões,
E de cristãos
Os corações

E sobre nós
Tudo lançou!
De nossa terra
Nos despojou!

Tudo roubou-nos,
Esse tirano,
Que povo diz-se
Livre e humano!

Filho se diz
De Deus Potente
De quem profana
A obra ingente!

Ó terra de meus pais, ó Pátria minha!
Que seus restos guardando, viste de outros
Longo tempo a bravura disputar
Ao feroz estrangeiro a Pátria nossa,
A nossa liberdade, os frutos seus!...
Recolhe o pranto meu, quando dispersos
Pelas vastas florestas tristes vagam
Os poucos filhos teus à morte escapos,
Ao jugo de tiranos opressores,
Que em nome do piedoso céu vieram
Tirar-nos estes bens que o céu nos dera!
As esposas, a filha, a paz roubar-nos!...
Trazendo d'Além-mar as leis, os vícios,
Nossas leis e costumes postergaram!

[ . . . ]

(A lágrima de um caeté, 1849)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto (1810  1885), ou Dionísia Pinto Lisboa, ou Dionísia Freire Lisboa, ou Dionísia Freire Pinto, ou Dionísia Gonçalves Pinto Freyre, nascida em Papari [atual Nísia Floresta], Capitania da Paraíba [atual Rio Grande do Norte], militante feminista e abolicionista, foi educadora, escritora, tradutora, jornalista, ensaísta e poetisa atuante nas letras, no jornalismo e nos movimentos sociais de sua época; de sua biografia, com lacunas, consta ter sido a “primeira voz feminista, no Brasil, a se erguer contra os preconceitos da sociedade patriarcal, em relação à mulher.”; Dionísia casou-se aos treze anos [tido como normal e usual à época], em poucos meses largou o casamento, foi repreendida pela família, voltou a morar com os pais e recebeu a proteção da mãe; em 1824, partindo com a família rumo a Pernambuco, residiu em Goiana, Olinda e Recife; ainda de sua biografia, consta a sugestão de que tomara contato com seus primeiros estudos em Goiana PE, antes, Dionísia obtivera conhecimento de estudos iniciais através de seu pai, advogado e homem culto, visto que em Papari, onde a poeta nasceu, não havia escola; em Recife, conhece Manuel Augusto de Faria Rocha, estudante de Direito, de quem se apaixona e a ele se une sem formalidades legais em 1828, teve filhos, mudam-se para Porto Alegre [1832], “dedica-se ao magistério, e escreve artigos para a imprensa”, enviúva, ali permanecendo por quatro anos; posteriormente, já morando no Rio de Janeiro, fundou o Colégio Augusto, um colégio para moças, cujo nome é “em provável homenagem ao seu companheiro” que morrera no sul, colégio presidido por ela enquanto permaneceu no Brasil; em 1849, Nísia segue para a Europa, reside em Paris, Roma e Florença, passa a viver lá e cá, e vem a morrer em Rouen França, em 24.04.1885; em suas atividades literárias a poeta, feminista e abolicionista fez uso de muitos pseudônimos: Telezilla, Telesila, B. A., Une Brésiliene, Quotidiana Fidedigna e Nísia Floresta este último acabou por prevalecer e assim permanece conhecida até hoje; de seus traços biobibliográficos, ainda consta ter sido em Olinda e/ou Recife que a poeta feminista tomou contato com o mundo intelectual literário, leu clássicos portugueses e, em 1831, estreou na imprensa com a publicação de artigos que relatavam a posição social feminina em várias culturas, numa sequência de trinta números do Espelho das Brasileiras — jornal destinado às senhoras pernambucanas, de propriedade do tipógrafo francês Adolphe Émile de Bois Garin; a poeta falava o idioma francês e também conhecia o inglês e, aos 28 anos de idade (1838), em anúncio de jornal, disse “ser professora particular de latim, francês e italiano”; suas obras: Direito das mulheres e injustiça dos homens * (por atribuição da autora, tradução livre de Vindication of the rights of woman, publicação de 1792, de autoria de Mary Wollstonecraft, inglesa (1832), Conselhos à minha filha (coleção de ensaios, 1842 e em 1845, ora acrescidos de 40 pensamentos em versos), Daciz ou A jovem completa (1847), Fany ou O modelo das donzelas (romance, episódio da Revolução dos Farrapos no RS, 1847), Discurso que às suas educandas dirigia Nísia Floresta Brasileira Augusta (1847), A lágrima de um Caeté (poema de 712 versos, editado sob o pseudônimo Telezila, 1849), Dedicação a uma amiga (dois volumes, 1850), Consigli a mi figlia (1858), Conseils à ma fille (1859), Opúsculo humanitário (coleção de artigos sobre emancipação feminina, 1853), Páginas de uma vida obscura (1855), A Mulher (1859), Paris (1867), Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce (1870). Le Brésil (1871), Fragments d’un ouvrage inèdit: notes biographiques (1878) e outra incontável quantidade de fragmentos, “cujo manuscrito talvez permaneça com algum notário, em Rouen [França]”; teve obras traduzidas para o francês e o italiano, A lágrima de um Caeté, por exemplo, recebeu uma edição italiana, pela tradução do escritor florentino Ettore Marcucci, Le lagrime d'un Caeté (1860).

* Nota do blogue Verso e Conversa: A respeito de Direito das mulheres e injustiça dos homens, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe o seguinte:
“Por muito tempo considerou-se que a obra fosse uma adaptação livre de A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft, pois a própria Nísia havia dito que nela se inspirara, mas estudos de Pallares-Burke (1995) e Oliveira & Martins (2012) demonstraram que Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens é na verdade uma tradução integral de La femme n'est pas inferieure a l'homme — Traduit de l’Anglois, publicado em 1750, por sua vez uma tradução de Woman Not Inferior to Man — by Sophia, A Person of Quality (1739), de uma escritora que só assina como Sophia. A identidade desta Sophia tem sido debatida, surgindo várias proposições: lady Mary Wortley Pierremont, lady Sophia Fermor, Philippe-Florent de Puisieux ou Madeleine d'Ansant de Puisieux.” [extraído de wikipedia, fr.wikisource.org e commons.wikimedia.org]

terça-feira, 30 de abril de 2024

Narcisa Amália: Pesadelo — II


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A meu pai, o Sr. Jácome de Campos

II

Ton souffle du chaos falsait surtir les lois;
Ton image insultait aux dépouilles des rois.
Et, debout sur l’airain de leurs foudres guerrières,
Entretenait le ciel du bruit de tes exploits.
Casimir Delavigne

Salve! Oh! salve Oitenta-e-Nove
Que os obstáculos remove!
Em que o heroísmo envolve
O horror da maldição!
Rolam frontes laureadas,
Tombam testas coroadas
Pelo povo condenadas
Ao grito revolução!

Caem velhos privilégios
D’envolta co’os sacrilégios;
São troféus os cetros régios,
Mitra, burel e brasão!
E os três esquivos estados
Fundem-se em laços sagrados,
Que prendem os libertados
Aos pés da revolução!

No pedestal da igualdade
Firma o povo a liberdade,
Um canto à fraternidade
Entoa a voz da nação,
Que em delírio violento
Fita altiva o firmamento
E adora por um momento
A deusa Revolução!...

Os ódios secam o pranto,
A ira tem mago encanto,
E a morte sacode o manto
Lançando crânios no chão!
Aqui são longos gemidos
Desses que tombam feridos;
Ouvem-se além os rugidos
Da fera revolução.

Treme a humana potestade
Ante tua mortandade!
Proclama que a sociedade
Agoniza em convulsão!
Erguem-se estranhas fileiras
Vão devassar as fronteiras,
Bradando às hostes guerreiras:
Abaixo a Revolução!

O nobre povo oprimido
Supõe-se fraco e vencido,
Medem-lhe o sangue espargido
Nas vascas da confusão.
Não sabem que é mais veemente
Dos livres o grito ingente
Quando reboa fremente
À luz da revolução!

Levanta-se hirta a falange
E a louca marcha constrange;
Rindo-se aguça o alfanje
Tendo por guia a razão!
Ao sibilar da metralha
O obus gemendo estraçalha,
E o vasto campo amortalha
Quem fere a revolução!

Cobre a bandeira sagrada
A multidão lacerada,
E da França ensanguentada
Assoma Napoleão;
Surge da borda do abismo
O gênio do cristianismo,
E dos mártires o civismo
Confirma a Revolução.

(Nebulosas, 1872)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJNarcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende — RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

sábado, 2 de março de 2024

Narcisa Amália: Pesadelo — III


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III

Que palmas de valor não murcha a grande história!
O povo esquece um dia os ínclitos varões.
Pedro Luis

Contempla minha pátria sobranceira,
Dessas hostes os louros refulgentes;
E procurando a glória em teus altares
Entretece uma coroa a Tiradentes.

Viste marchar ao exílio acorrentados
Quais feras que teu seio rejeitava,
Os mais que desprender-te o pulso tentam,
E dormiste sorrindo sempre escrava!...

E quando retumbou no espaço um brado
Tentando sacudir-te a negra coma,
Curvaste-te ao flagício fratricida
E deste ao cadafalso o Padre Roma!

E não contente, após a exímia aurora
De tua amesquinhada independência,
Mais vítimas votaste em holocausto
Sufocando outra nobre inconfidência.

Não bastavam, porém, tantos horrores
Que enegrecem as brumas do passado;
Foi preciso que às mãos de um assassino
Caísse o grande herói Nunes Machado!

Foi preciso que em nome da justiça
De prisão em prisão vagando esquivo,
Acabasse final sem glória e nome,
Em martírio latente  Pedro Ivo!...

Mas se um dia o porvir abrir-te o livro
Que o presente te oculta temeroso;
Se com a vista medires a estacada
Em que o falso poder se ostenta umbroso;

Então, ó minha pátria, num lampejo
Os erros surgirão da majestade;
E arrojarás ao pó cetros e tronos
Bradando ao mundo inteiro  liberdade!

(Nebulosas, 1872)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Ana Amélia de Queiroz: Canção Banal

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Um grande amor se condensa
Em doces frases banais.
Ai de quem diz o que pensa!
Palavras são sempre iguais...

Dizei-me, árvores antigas
Que no vento soluçais,
As vossas tristes cantigas
Dizem coisas sempre iguais?

Fala-se de amor ardente
Em leves frases banais.
Ai de quem diz o que sente!
Palavras são sempre iguais...

Dizei-me, ó aves amigas,
Que pelos ramos cantais.
Nas vossas doces cantigas
Dizeis coisas sempre iguais?

E a gente vive tristonha,
Repetindo os mesmos ais...
Ai de quem diz o que sonha:
Palavras são sempre iguais...

(50 poemas de Ana Amélia, 1957,
Livraria  S. José, Rio de Janeiro, pág. 24.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Ana Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça (1896 1971), nascida no Rio de Janeiro RJ, poetisa, tradutora, conferencista, jornalista e feminista, teve poemas e crônicas publicados pelos mais importantes jornais do país; ajudou a fundar a Casa do Estudante do Brasil e a Associação Brasileira de Estudantes, foi a primeira mulher membro de um tribunal eleitoral do país e deixou-nos como legado Esperanças (1911), Alma (1922), Ansiedade (1926), Harmonia dos Seres e das Coisas (1936) Mal de Amor (1939), Poemas (1951), 50 Poemas de Ana Amélia (poemas escolhidos, 1957).

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Maria Eugênia Celso: Meu home

Antologia De Humorismo E Sátira - Raymundo Magalhães Júnior ...
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Nesse mundo toda gente
Vancês há de certamente
De cumigo aconcordá,
Só fala memo dereito
Daquilo que no seu peito
Lhe dá gosto ou lhe consome,
Pois eu falo do meu home
Do que havéra de falá?...

Pras muié, besta ou sabida,
E é o home que faz a vida
Seja uma praga ou um vidão,
Home ruim, que o parta o raio!
O meu, se me dá trabaio,
Também dá satisfação!

Meu home tem óio garço,
Num pode nunca sê farso
Uns óio bunito assim!
Quando entonces qué um agrado
E bota o oiá bem quebrado
Sinto logo arrevirado
Tudo aqui dentro de mim...

O meu home usa bigode
As moda diz que não pode,
Mas dexa as moda falá!...
Bigode dá fidarguia
E minha vó me dizia
Que beijo sem tê bigode
É feito sopa sem sá.

Meu home ronca drumindo
Que inté parece um truvão.
Tem gente que isso arrelia,
Eu chego achá ronco lindo!
E é mió roncá drumindo
Do que vivê todo dia
A lhe aturá roncação.

Meu home fala bunito
Prosá feito ele, ninguém!
Eu sei que as veis tá mintindo,
Mas ele minte tão bem
Que eu, sem querê, vô ingulindo
E afiná sempre aquerdito
Que rezão ele é que tem.

Os outro diz que ele é brabo,
Um mandão, que nem o diabo
Nunca medo lhe meteu!
Eu cá sei cumo é que eu ando,
Marombando, marombando,
Ele pensa que tá mandando,
Prú fim, quem manda sou eu.

Pra eu assim lhe querê tanto
Num me pois ele quebranto
Nem feitiço me botô,
Bastô só que ele queresse
Prá que dele logo sesse
Inteirinho o meu amô!

Mas se um dia adescubrisse
Que ele andava a me cinzá,
Se outra muié persentisse
Im redó dele a tentá,
Era capaz, — já lhe disse 
Era capaz de matá!
Mas o diacho tem tal ronha
E eu co'ele sô tão pamonha,
Meu Deus do céu, que vregonha,
Era capaz de perdoá!...

Nossa Senhora da Penha,
Nossa Senhora do Ó,
De meu amô pena tenha
E de seu Fio no nome
De mim também tenha dó!
Pras outra tem tantos home
Me guarda o meu pra mim só!

Blog do Castorp: Maria Eugênia Celso - Conformidade
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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) por R.Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro RJ; Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886 1963), que também utilizou o pseudônimo Baby-flirt, mineira de São João Del Rey, filha do Conde e Condessa Afonso Celso e neta do Visconde de Ouro Preto presidente do Gabinete Imperial por ocasião da deposição do Imperador Dom Pedro II , foi jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista; ainda criança, com a deposição da Família Imperial, mudou-se para Petrópolis RJ, e ali estudou no Colégio Sion, onde aprendeu o idioma francês, o qual dominava tão bem quanto à nossa língua; colaborou com os jornais da época, entre os quais o Correio da Manhã, O Jornal, Diário Carioca, Jornal do Comércio e Jornal do Brasil; participante ativa do Movimento Feminista, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se a trabalhos de assistência junto às Damas da Cruz Verde, tornou-se uma das lideranças a criarem a maternidade Pro Mater do Rio de Janeiro e batalhou pelo direito das mulheres ao voto; escreveu Em Pleno Sonho (poesia, 1920), Vicentinho (prosa, 1925), Fantasias e Matutadas (poesia, 1925), Desdobramento (contos, 1926), Alma Vária (poesia), Jeunesse (poesia), O Solar Perdido (poesia, 1945), O Diário de Ana Lúcia, De Relance (crônicas), Ruflo de Asas (teatro em verso), Síntese Biográfica da Princesa Isabel (biografia); uma de suas facetas na literatura foi o humorismo matuto; em 1955, teve suas Poesias Completas (sem conter os versos em francês) editadas por José Olímpio; representou o Brasil em Conferência da Unesco, em Paris, e em outras missões culturais.