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Tributo de amizade
Amo a donzela mimosa,
Com suas graças infantis,
Com seus lábios cor de rosa,
Com seus meneios gentis,
Como a garça vaporosa,
Como uns gestos senhoris.
Amo vê-la reclinada
Sobre a margem dum ribeiro,
Docemente acalentada,
Por um sonhar lisonjeiro,
Com a mente toda enlevada,
Em seu cismar feiticeiro.
Amo vê-la na arvorada,
Vagando por entre flores.
Ela flor mais bem-fadada,
Mais recamada de odores,
Colhendo a flor delicada,
Que meiga fala de amores.
Mas, melhor que todas elas,
Amo o ver-te, em teus fulgores,
Amo-te mais que as mais belas,
Amo-te mais do que as flores,
Que tanto atraem as donzelas,
Que tanto falam de amores,
Eu amo ouvir-te um suspiro
Um só, fugindo medroso,
Como em longínquo retiro,
Amo um som terno ― queixoso,
O qual com ânsia eu aspiro,
Repetir-se, melindroso.
Eu amo ver-te ligeira
Como a corça fugitiva,
Casta, mimosa, e esquiva:
Cada vez mais feiticeira,
Cada vez mais casta, e diva.
Amo ver-te, ― fresca rosa,
Com sua doce formosura,
Com sua fragrância odorosa,
Com seu encanto e doçura,
Entre as outras mais mimosa,
Cobrando amor, ― e ternura.
Eu amo ver-te entre as belas,
Vagando como senhora,
Como o mimo das donzelas,
Como fada sedutora:
Amo-te mais do que a elas,
Casto perfume da aurora.
Amo em ti, quanto há na vida,
Que inspira melancolia,
Quanto pode ser querida
D’uma harpa a doce harmonia,
D’uma virgem a voz sentida,
Dos anjos, a melodia.
Tributo de amizade
Je t’aime! je t’aime!
Oh ma vie.
(Byron)
Amo a donzela mimosa,
Com suas graças infantis,
Com seus lábios cor de rosa,
Com seus meneios gentis,
Como a garça vaporosa,
Como uns gestos senhoris.
Amo vê-la reclinada
Sobre a margem dum ribeiro,
Docemente acalentada,
Por um sonhar lisonjeiro,
Com a mente toda enlevada,
Em seu cismar feiticeiro.
Amo vê-la na arvorada,
Vagando por entre flores.
Ela flor mais bem-fadada,
Mais recamada de odores,
Colhendo a flor delicada,
Que meiga fala de amores.
Mas, melhor que todas elas,
Amo o ver-te, em teus fulgores,
Amo-te mais que as mais belas,
Amo-te mais do que as flores,
Que tanto atraem as donzelas,
Que tanto falam de amores,
Eu amo ouvir-te um suspiro
Um só, fugindo medroso,
Como em longínquo retiro,
Amo um som terno ― queixoso,
O qual com ânsia eu aspiro,
Repetir-se, melindroso.
Eu amo ver-te ligeira
Como a corça fugitiva,
Casta, mimosa, e esquiva:
Cada vez mais feiticeira,
Cada vez mais casta, e diva.
Amo ver-te, ― fresca rosa,
Com sua doce formosura,
Com sua fragrância odorosa,
Com seu encanto e doçura,
Entre as outras mais mimosa,
Cobrando amor, ― e ternura.
Eu amo ver-te entre as belas,
Vagando como senhora,
Como o mimo das donzelas,
Como fada sedutora:
Amo-te mais do que a elas,
Casto perfume da aurora.
Amo em ti, quanto há na vida,
Que inspira melancolia,
Quanto pode ser querida
D’uma harpa a doce harmonia,
D’uma virgem a voz sentida,
Dos anjos, a melodia.
Guimarães, 20 de setembro de 1861.
(transcrita por José Nascimento Morais Filho)
A Verdadeira Marmota, ano [?], n. [?], Maranhão:
Tip.
Temperança. [?] set. 1861, p. [?].

Memorial de Maria Firmina dos Reis: Prosa Completa & Poesia — Livro 02, Organização, Apresentação e Estabelecimento de Texto de Lucciani M. Furtado, 2019, Editora Uirapuru, São Paulo — SP; Maria Firmina dos Reis (1822 — 1917, maranhense de São Luís, formada professora, por concurso público foi aprovada para a Cadeira de Instrução Primária em Guimarães — MA, exerceu o magistério por muitos anos, foi educadora, folclorista, compositora, romancista e poeta; no início da década de 1880, funda no Povoado Maçaricó a primeira escola mista e gratuita do Maranhão e uma das primeiras do país; Maria Firmina, presença constante na imprensa local, publicou poesias, ficção, crônicas e outros textos em muitos jornais literários, colaborando com A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, Pacotilha, O Federalista e Diário do Maranhão; bibliografia: Úrsula (romance, 1859), Gupeva (romance, 1861), Cantos à beira-mar (poemas, 1871), A escrava (conto, 1887); seu romance Úrsula, é considerado a primeira obra publicada por escritora mulher, negra e brasileira em toda a América Latina, e também o primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa; Maria Firmina dos Reis morreu em 11.11.1917, pobre e cega, em Guimarães — MA, onde viveu.


