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sábado, 21 de novembro de 2020

Maria Firmina dos Reis: Dedicação

Resultado de imagem para memorial de maria firmina dos reis - livro 2 prosa completa & poesia
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Tributo de amizade

Je t’aime! je t’aime!
Oh ma vie.
(Byron)

Amo a donzela mimosa,
Com suas graças infantis,
Com seus lábios cor de rosa,
Com seus meneios gentis,
Como a garça vaporosa,
Como uns gestos senhoris.

Amo vê-la reclinada
Sobre a margem dum ribeiro,
Docemente acalentada,
Por um sonhar lisonjeiro,
Com a mente toda enlevada,
Em seu cismar feiticeiro.

Amo vê-la na arvorada,
Vagando por entre flores.
Ela flor mais bem-fadada,
Mais recamada de odores,
Colhendo a flor delicada,
Que meiga fala de amores.

Mas, melhor que todas elas,
Amo o ver-te, em teus fulgores,
Amo-te mais que as mais belas,
Amo-te mais do que as flores,
Que tanto atraem as donzelas,
Que tanto falam de amores,

Eu amo ouvir-te um suspiro
Um só, fugindo medroso,
Como em longínquo retiro,
Amo um som terno queixoso,
O qual com ânsia eu aspiro,
Repetir-se, melindroso.

Eu amo ver-te ligeira
Como a corça fugitiva,
Casta, mimosa, e esquiva:
Cada vez mais feiticeira,
Cada vez mais casta, e diva.

Amo ver-te, fresca rosa,
Com sua doce formosura,
Com sua fragrância odorosa,
Com seu encanto e doçura,
Entre as outras mais mimosa,
Cobrando amor, e ternura.

Eu amo ver-te entre as belas,
Vagando como senhora,
Como o mimo das donzelas,
Como fada sedutora:
Amo-te mais do que a elas,
Casto perfume da aurora.

Amo em ti, quanto há na vida,
Que inspira melancolia,
Quanto pode ser querida
D’uma harpa a doce harmonia,
D’uma virgem a voz sentida,
Dos anjos, a melodia.

Guimarães, 20 de setembro de 1861.

(transcrita por José Nascimento Morais Filho)
A Verdadeira Marmota, ano [?], n. [?], Maranhão:
 Tip. Temperança. [?] set. 1861, p. [?].

Mulheres Escritoras #1: Maria Firmina dos Reis
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Memorial de Maria Firmina dos Reis: Prosa Completa & Poesia — Livro 02, Organização, Apresentação e Estabelecimento de Texto de Lucciani M. Furtado, 2019, Editora Uirapuru, São Paulo — SP; Maria Firmina dos Reis (1822 1917, maranhense de São Luís, formada professora, por concurso público foi aprovada para a Cadeira de Instrução Primária em Guimarães MA, exerceu o magistério por muitos anos, foi educadora, folclorista, compositora, romancista e poeta; no início da década de 1880, funda no Povoado Maçaricó a primeira escola mista e gratuita do Maranhão e uma das primeiras do país; Maria Firmina, presença constante na imprensa local, publicou poesias, ficção, crônicas e outros textos em muitos jornais literários, colaborando com A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, Pacotilha, O Federalista e Diário do Maranhão; bibliografia: Úrsula (romance, 1859), Gupeva (romance, 1861), Cantos à beira-mar (poemas, 1871), A escrava (conto, 1887); seu romance Úrsula, é considerado a primeira obra publicada por escritora mulher, negra e brasileira em toda a América Latina, e também o primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa; Maria Firmina dos Reis morreu em 11.11.1917, pobre e cega, em Guimarães  MA, onde viveu.

domingo, 18 de outubro de 2020

Maria Firmina dos Reis: Embora eu goste

Memorial de Maria Firmina dos Reis - Livro 2
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Embora eu goste de escutar sozinha,
O mago acento da ternura tua:
Embora em meus transportes eu te adore,
Embora sobre mim teu ser influa;

Embora eu folgue por te ver risonho,
Cativo ao meu querer, a mim rendido;
Embora amor te abrase o peito em sonho,
E meu peito o adivinhe enternecido;

Embora venha a flor desses teus lábios,
Essa frase sonhada, e misteriosa;
Essa palavra mágica, que enleva
Como perfume de orvalhada rosa;

Embora em escutá-la eu despertasse
Deste longo torpor, desta apatia;
Embora de meu peito transbordasse
Em ondas de prazer louca alegria;

Sepulta-a no mais imo da tua alma,
Volvê-la à custo embora ao coração:
Imponho-te o silêncio, que me imponho,
Embora eu sinta por te amar paixão.

Talvez, sim, que minh’alma te compreenda;
Talvez que nos estreite um só querer;
Talvez... mas, ah! porque rasteira grama
Intentas, louco! de seu leito erguer!...

Não sabes que isolada ela vegeta
Deserdada por Deus de afeto, e amor?
Ah! não lhe toques, não lhe dês teu pranto:
Deixa-a isolada, emurchecer de dor.

A hora em que nasci sumiu-se o disco
Do sol luzente e uma estrela pura
Não fulgiu no lençol azul do céu,
Amenizando-me a existência dura:

E avara* de gozos foi-me a infância,
Para os demais idade venturosa...
A primeira expressão da minha vida,
Foi do infindo pesar dor venenosa.

A custo hei arrastado os longos dias
De penosa aflição já bem eivados;
Custei-me a dominar não formo queixas
Contra o capricho de meus agros fados.

Deixa que eu sofra sem que o saibas tu,
Paixão ardente me ondear no peito:
E que se exalte o coração de afetos,
E que se estremeça por amor sujeito.

Deixa em segredo repetir minh’alma
Que o meu ouvido não me escute o acento,
Que és o doce enlevo do meu peito,
O bem que me absorve o pensamento.

Mas nunca intentes arrancar-me aos lábios
De amor a misteriosa confissão.
Impossível me fora... oh! impossível!
Sem que o saibas é teu meu coração.

Posso dar-te a existência a vida inteira;
Contigo partilhar ventura, ou dor;
Mas, nunca a teus ouvidos murmurara
Com mago acento esta palavra amor!

Embora em repeti-la eu despertasse
Deste longo torpor, desta apatia;
Embora de meu peito transbordasse
Em ondas de prazer minha alegria.

Sepulto-a no mais fundo de minh’alma,
Volva-a a custo embora ao coração;
Imponho-me o silêncio que te imponho,
Embora sinta por ti amor, paixão.

Cantos à beira-mar (poemas, 1871)

Quem foi Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista brasileira - Revista  Galileu | Cultura

* Nota da edição: Que revela zelo ou ciúme.
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Memorial de Maria Firmina dos Reis: Prosa Completa & Poesia — Livro 02, Organização, Apresentação e Estabelecimento de Texto de Lucciani M. Furtado, 2019, Editora Uirapuru, São Paulo — SP; Maria Firmina dos Reis (1822 1917), maranhense de São Luís, formada professora, por concurso público foi aprovada para a Cadeira de Instrução Primária em Guimarães MA, exerceu o magistério por muitos anos, foi educadora, folclorista, compositora, romancista e poeta; no início da década de 1880, funda no Povoado Maçaricó a primeira escola mista e gratuita do Maranhão e uma das primeiras do país; Maria Firmina, presença constante na imprensa local, publicou poesias, ficção, crônicas e outros textos em muitos jornais literários, colaborando com A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, Pacotilha, O Federalista e Diário do Maranhão; bibliografia: Úrsula (romance, 1859), Gupeva (romance, 1861), Cantos à beira-mar (poemas, 1871), A escrava (conto, 1887); seu romance Úrsula, é considerado a primeira obra publicada por escritora mulher, negra e brasileira em toda a América Latina, e também o primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa; Maria Firmina dos Reis morreu em 11.11.1917, pobre e cega, em Guimarães MA, onde viveu.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Maria Firmina dos Reis: Tu e eu

Memorial de Maria Firmina dos Reis - Livro 2
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Tu e eu! que ventura e vida imensa!
Que lindo céu! que bela primavera!
Pudesse eu ver-te ainda! Oh! quem me dera
Tua alma remoçar, e a minha crença!...
Aquecer-me ao clarão esmorecido
Dessa réstia do sol que é já sumido!

Bem vês que estas lembranças não morreram,
Mas é já tarde para falar de amores!
Os nossos sonhos, nossas pobres flores,
Em seu triste jardim já ofereceram!
Fui d’ânsia de viver, não sei de quê;
Decifra o mito, e se o não podes, crê!

Inda te escuto a voz, inda à noitinha
Vejo a tua sombra que se segue os passos;
Inda em meu sonho em plácidos abraços
Eu te procuro na loucura minha!
Mas da tarde a serene claridade
Quero chamar-te, chamo-te Saudade!

N’outro tempo, meu Deus, não era assim,
Tudo então nos falava de amor.
O sonho, a fonte, a luz, a estrela, a flor,
A natureza inteira, o mar sem fim!
E a cada rubor dos arvoredos
Era um hino de amor, tinha segredos!

Em nossa vasta solidão sem termos
Nisso ouvia do mundo um só respiro;
Tu tinhas em meu peito o teu repouso;
És em teu coração meus doces
Meu ser era o teu ser, tudo era vida,
Minha alma era tua alma refletida!

Que importavam dos homens no vaivém
A festa, a dança, a luz, as estrelas, a flor?!
Só viviam meu [ilegível]
Tu e eu tão somente e mais ninguém
Eu tinha ao teu rosto tão pálido
Inda mais belo céu no teu sorriso!

Dormi, sonhei demais, a vista me arde!
Vi um altar, ouvi um juramento...
De uma meiga voz o doce acento
Murmurou-me um adeus... era já tarde!
Ah! despertei do sonho em que vivi,
Sem luz... sem sol... quero dizer sem ti.

Porto Livre. ano II, nº 76, Maranhão:
Tip. Do Commercio, 21 mai. 1863, p. 02.

MARIA FIRMINA DOS REIS, A PRIMEIRA ESCRITORA NEGRA BRASILEIRA | by Thayane  Maria | Medium
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Memorial de Maria Firmina dos Reis: Prosa Completa & Poesia — Livro 02, Organização, Apresentação e Estabelecimento de Texto de Lucciani M. Furtado, 2019, Editora Uirapuru, São Paulo — SP; Maria Firmina dos Reis (1822 1917), maranhense de São Luís, formada professora, por concurso público foi aprovada para a Cadeira de Instrução Primária em Guimarães MA, exerceu o magistério por muitos anos, foi educadora, folclorista, compositora, romancista e poeta; no início da década de 1880, funda no Povoado Maçaricó a primeira escola mista e gratuita do Maranhão e uma das primeiras do país; Maria Firmina, presença constante na imprensa local, publicou poesias, ficção, crônicas e outros textos em muitos jornais literários, colaborando com A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, Pacotilha, O FederalistaDiário do Maranhão e outros; bibliografia: Úrsula (romance, 1859), Gupeva (romance, 1861), Cantos à beira-mar (poemas, 1871), A escrava (conto, 1887); seu romance Úrsula, é considerado a primeira obra publicada por escritora mulher, negra e brasileira em toda a América Latina, e também o primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa; Maria Firmina dos Reis morreu em 11.11.1917, pobre e cega, em Guimarães MA, onde viveu.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Maria Firmina dos Reis: O pedido

Memorial de Maria Firmina dos Reis - Livro 2
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Oh! dessas flores que te adornam virgem,
Embora esposa de um momento, atende!
Uma somente, eu te suplico dá-ma;
Dos seios dela meu sossego pende.

Assim dizia adolescente belo,
Cuja afeição o conduzia a ela,
E com uma rosa perfumada, e leda
Brincava a jovem, festival donzela.

Ela fitou-o com um sorriso mago,
Cheio de encanto, de afeição singela,
E deu-lhe grata desfolhando a rosa,
As meigas pétalas dessa flor tão bela!

Não sei, se o jovem estremeceu beijando-a;
Sei que guardou-as: fraternal abraço!
Era essa rosa desfolhada as notas
Últimas d’harpa, que se esvai no espaço.

Cantos à beira-mar (poemas, 1871)

Professora da USP participa de nova edição de “Úrsula” – Jornal da USP
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Memorial de Maria Firmina dos Reis: Prosa Completa & Poesia — Livro 02, Organização, Apresentação e Estabelecimento de Texto de Lucciani M. Furtado, 2019, Editora Uirapuru, São Paulo — SP; Maria Firmina dos Reis (1822 1917), maranhense de São Luís, formada professora, por concurso público foi aprovada para a Cadeira de Instrução Primária em Guimarães MA, exerceu o magistério por muitos anos, foi educadora, folclorista, compositora, romancista e poeta; no início da década de 1880, funda no Povoado Maçaricó a primeira escola mista e gratuita do Maranhão e uma das primeiras do país; Maria Firmina, presença constante na imprensa local, publicou poesias, ficção, crônicas e outros textos em muitos jornais literários, colaborando com A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, Pacotilha, O Federalista, Diário do Maranhão e outros; bibliografia: Úrsula (romance, 1859), Gupeva (romance, 1861), Cantos à beira-mar (poemas, 1871), A escrava (conto, 1887); seu romance Úrsula, é considerado a primeira obra publicada por escritora mulher, negra e brasileira em toda a América Latina, e também o primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa; Maria Firmina dos Reis morreu em 11.11.1917, pobre e cega, em Guimarães MA, onde viveu.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Maria Firmina dos Reis: Melancolia

Memorial de Maria Firmina dos Reis - Livro 2
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Oh! se eu morresse no calor da tarde,
Da tarde amena... quando a lua vem
Chovendo prata sobre lisos mares,
Trajando as vestes que a pureza tem.

Então, talvez, eu merecesse afetos
Desses que apenas alcancei sonhando:
Talvez um pranto bem sentido, e triste
Meu frio rosto rociasse brando.

Sim, poetisa mais te vale a morte
Na flor da vida a sepultura, os céus...
Porque na terra teu sofrer, tuas mágoas,
Martírios, dores só compreende Deus.

Oh! venha a morte no cair da tarde
Roubar-me a vida, que a ninguém comove;
Venha impassível... me penetre o seio,
A crua fouce* que sua destra move.

E o sepulcro! Tão gelado, e mudo,
Eu o saúdo! Companheiro nu!
Oh! sim, sepulcro, te darei meus cantos,
Se terno afeto me dispensas tu.

Na vida é estéril meu amargo canto;
Um peito humano a me escutar não vem,
Me apraz a campa, que em silêncio eterno,
Bebe esses prantos, que a alvorada tem.

Inda me resta o correr da vida
Essa esperança de morrer... é só
A que me alenta, que me guia os passos,
Té que meu corpo se desfaça em pó.

Cantos à beira-mar (poemas, 1871)

Abolicionista, negra e feminista: conheça Maria Firmina dos Reis, a  primeira romancista do Brasil - Jornal O Globo

* Nota da edição: O mesmo que foice.
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Memorial de Maria Firmina dos Reis: Prosa Completa & Poesia — Livro 02, Organização, Apresentação e Estabelecimento de Texto de Lucciani M. Furtado, 2019, Editora Uirapuru, São Paulo — SP; Maria Firmina dos Reis (1822 1917), maranhense de São Luís, formada professora, por concurso público foi aprovada para a Cadeira de Instrução Primária em Guimarães MA, exerceu o magistério por muitos anos, foi educadora, folclorista, compositora, romancista e poeta; no início da década de 1880, funda no Povoado Maçaricó a primeira escola mista e gratuita do Maranhão e uma das primeiras do país; Maria Firmina, presença constante na imprensa local, publicou poesias, ficção, crônicas e outros textos em muitos jornais literários, colaborando com A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, Pacotilha, O FederalistaDiário do Maranhão e outros; bibliografia: Úrsula (romance, 1859), Gupeva (romance, 1861), Cantos à beira-mar (poemas, 1871), A escrava (conto, 1887); seu romance Úrsula é considerado a primeira obra publicada por escritora mulher, negra e brasileira em toda a América Latina, e também o primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa; Maria Firmina dos Reis morreu em 11.11.1917, pobre e cega, em Guimarães MA, onde viveu.