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sábado, 8 de julho de 2023

William Shakespeare: A morte muda


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[traduzido por Renato Janine Ribeiro]

Thomas Mowbray, Duque de Norfolk, acaba de ser sentenciado pelo rei ao desterro perpétuo.

Pesada é a pena, Senhor meu suserano,
E tão inesperada na boca de Vossa Alteza!
Melhor recompensa, que a profunda mutilação
De ver-me exposto ao ar vago do mundo.
Merecera eu das mãos de Vossa Alteza.
A fala que aprendi estes quarenta anos
O meu inglês nativo, devo agora abjurar,
E minha língua só me valerá
De viola ou harpa sem cordas,
Ou será como sutil instrumento em sua caixa guardado,
E, se aberto, tomado em mãos
De quem com sua harmonia não sabe atinar.
Em minha boca foi trancafiada a língua,
Sob dupla trava, de lábios e dentes;
E Ignorância  aborrecida, insensível, estéril 
Cuidará de mim feito carcereira.
Sou velho demais, para uma babá afagar,
Avançado em anos, para tornar a aluno.
Que é tua sentença, sendo muda morte
Que rouba à minha língua o seu ar nativo?

(do Ato 1, cena 3, de “Ricardo 2º”)

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 13.03.83

William Shakespeare

A heavy sentence, my most sovereign liege,
And all unlook'd for from your highness' mouth:
A dearer merit, not so deep a maim
As to be cast forth in the common air,
Have I deserved at your highness' hands.
The language I have learn'd these forty years,
My native English, now I must forego:
And now my tongue's use is to me no more
Than an unstringed viol or a harp,
Or like a cunning instrument cased up,
Or, being open, put into his hands
That knows no touch to tune the harmony:
Within my mouth you have engaol'd my tongue,
Doubly portcullis'd with my teeth and lips;
And dull unfeeling barren ignorance
Is made my gaoler to attend on me.
I am too old to fawn upon a nurse,
Too far in years to be a pupil now:
What is thy sentence then but speechless death,
Which robs my tongue from breathing native breath?

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Edmond Rostand: Mas que fazer então? Buscar um protetor poderoso, um patrão? . . . [fragmento]

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[trecho da cena VIII do segundo ato da comédia dramática Cyrano de Bergerac, com parte da fala do personagem Cyrano, em diálogo com o personagem Le Bret]

[traduzido por Ricardo Gonçalves]

. . .

                                        Mas que fazer então?
Buscar um protetor poderoso, um patrão?
Ser como a hera que enlaça o carvalho robusto,
E lambe-lhe a cortiça e trepa então sem custo?
Usar, para atingir o cimo desejado,
De astúcia em vez de força? Oh! Não, muito obrigado.
Entrar para o canil dos poetas rafeiros,
Como eles dedicar versos aos financeiros
E fazer de bufão para que um potentado
Haja por bem servir? Oh! Não, muito obrigado.
Almoçar cada dia um sapo sem ter nojo,
Rustir o ventre por andar sempre de bojo,
Ter a rótula suja e fazer menos mal
Prontas deslocações da coluna dorsal?
Obrigado. Trazer o incensório suspenso
A um ídolo que viva entre nuvens de incenso,
Ganhar celebridade, aplausos e coroas
Num círculo de trinta ou quarenta pessoas?
Navegar, tendo em vez de remos madrigais
E, a tufarem-se a vela, os suspiros fatais
Das velhas, num derriço? Obrigado, obrigado.
Ganhar fama de autor por haver publicado
Meus versos, mas pagando o livro aos editores,
Obrigado. Viver de esmolas e favores,
Ser papa nas reuniões que, em baiúcas sem nome,
Fazem alguns sandeus? Ver se alcanço renome
Com um soneto, se tanto, em vez de fazer mil,
Achar muito talento em qualquer imbecil?
Obrigado. Ter medo aos jornais, ser amigo
De elogios, dizer de mim para comigo:
“Ah! se o meu nome vier no Mercúrio francês”...
Calcular, ter na face impressa a palidez
Dos poltrões, preferir fazer uma visita
A bordar, carinhoso, uma estrofe bonita,
Ser da matilha, hedionda e vil, dos pretendentes,
Redigir petições e mendigar presentes?
Obrigado. Obrigado. Obrigado. Obrigado.
Mas... cantar, mas viver num sonho alcandorado,
Calmo e feliz, o olhar seguro, a voz vibrante,
De quando em vez, e, por capricho, petulante,
Por de través o feltro, e, por um quase nada,
Dar um beijo na Musa ou dar uma estocada.
Nem um verso escrever que a mim me não pertença,
E, apesar disso tudo, uma modéstia imensa:
Pagar-me com uma flor, ou um fruto apetecido,
Contanto que no meu pomar seja colhido,
[E se enfim algum triunfo vier, mediante a sorte,
Não devê-lo a algum César por ser parte da corte.]
E, em suma, desdenhando a hera vil que se esconde,
Não conseguindo ser o roble, cuja fronde
Mora perto do Azul e distante do pó,
Subir pouco, mas só, completamente só.
. . .

Edmond Rostand

Non, merci!
. . .

Et que faudrait-il faire?
Chercher un protecteur puissant, prendre un patron,
Et comme un lierre obscur qui circonvient un tronc
Et s'en fait un tuteur en lui léchant l'écorce,
Grimper par ruse au lieu de s'élever par force?
Non, merci. Dédier, comme tous ils le font,
Des vers aux financiers? se changer en bouffon
Dans l'espoir vil de voir, aux lèvres d'un ministre,
Naître un sourire, enfin, qui ne soit pas sinistre?
Non, merci. Déjeuner, chaque jour, d'un crapaud?
Avoir un ventre usé par la marche? une peau
Qui plus vite, à l'endroit des genoux, devient sale?
Exécuter des tours de souplesse dorsale?...
Non, merci. D'une main flatter la chèvre au cou
Cependant que, de l'autre, on arrose le chou,
Et donneur de séné par désir de rhubarbe,
Avoir un encensoir, toujours, dans quelque barbe?
Non, merci! Se pousser de giron en giron,
Devenir un petit grand homme dans un rond,
Et naviguer, avec des madrigaux pour rames,
Et dans ses voiles des soupirs de vieilles dames?
Non, merci! Chez le bon éditeur de Sercy
Faire éditer ses vers en payant? Non, merci!
S'aller faire nommer pape par les conciles
Que dans les cabarets tiennent des imbéciles?
Non, merci! Travailler à se construire un nom
Sur un sonnet, au lieu d'en faire d'autres? Non,
Merci! Ne découvrir du talent qu'aux mazettes?
Etre terrorisé par de vagues gazettes,
Et se dire sans cesse: "Oh, pourvu que je sois
Dans les petits papiers du Mercure François?"...
Non, merci! Calculer, avoir peur, être blême,
Préférer faire une visite qu'un poème,
Rédiger des placets, se faire présenter?
Non, merci! non, merci! non, merci! Mais... chanter,
Rêver, rire, passer, être seul, être libre,
Avoir l'oeil qui regarde bien, la voix qui vibre,
Mettre, quand il vous plaît, son feutre de travers,
Pour un oui, pour un non, se battre,  ou faire un vers!
Travailler sans souci de gloire ou de fortune,
Á tel voyage, auquel on pense, dans la lune!
N'écrire jamais rien qui de soi ne sortît,
Et modeste d'ailleurs, se dire: mon petit,
Sois satisfait des fleurs, des fruits, même des feuilles,
Si c'est dans ton jardin à toi que tu les cueilles!
Puis, s'il advient d'un peu triompher, par hasard,
Ne pas être obligé d'en rien rendre à César,
Vis-à-vis de soi-même en garder le mérite,
Bref, dédaignant d'être le lierre parasite,
Lors même qu'on n'est pas le chêne ou le tilleul,
Ne pas monter bien haut, peut-être, mais tout seul!
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Edmond Eugène Alexis Rostand (1868 1918), francês de Marselha, formado em Direito, sem nunca ter exercido a profissão, foi poeta, escritor e dramaturgo; tornou-se conhecido como dramaturgo, pela autoria da peça Cyrano de Bergerac; obras: Le Gant Rouge (peça, A Luva Vermelha, 1888), Ode à la Musique (poesia, 1890), Les Musardises (Divagações, poesia, 1891), Les Deux Pierrots (Os Dois Pierrôs, 1893), Les Romanesques (comédia, 1893), La Princesse Lontaine (A Princesa Longínqua, 1895), La Samaritaine (A Samaritana, 1897), Pour la Grèce (poesia, 1897), Cyrano de Bergerac (comédia dramática, 1897), L’Aiglon (O Filhote de Águia, drama, 1900), Un Soir à Hernani (poesia, 1902), La Dernière Nuit de Don Juan (A Última Noite de Don Juan, peça, 1911) e outros textos; toda obra teatral de Edmond Rostand foi escrita em versos; em 1902, o poeta foi eleito membro da Academia Francesa.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Edmond Rostand: Maneira de Fazer Pastéis de Amêndoa Doce*

 
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[traduzido por Ricardo Gonçalves]

Com três ovos cada clara
Bem batida, uma por uma,
Se prepara
Uma xícara de espuma
Branca e leve qual se fosse
Neve pura; põe-se então,
Com leite de amêndoa doce,
Quinze gotas de limão.

Depois se bate e adelgaça,
Visando-se obra perfeita,
Fina massa
Que se deita
Numas formas especiais.
E em cada pastel brocado
Lado a lado,
Põe-se a espuma e nada mais.

Os pastéis assim obtidos
São no forno muito quente,
Docemente,
Com cautela introduzidos.
Espera-se um pouco e, após,
Na bandejinha que os trouxe,
Enfileiram-se ante nós
Os pastéis de amêndoa doce.

Edmond Rostand

Comment on fait les tartelettes amandines

Battez, pour qu'ils soient mousseux,
Quelques oeufs;
Incorporez à leur mousse
Un jus de cédrat choisi;
Versez-y
Un bon lait d'amande douce;
Mettez de la pâte à flan
Dans le flanc
De moules à tartelette;
D'un doigt preste, abricotez
Les côtés;
Versez goutte à gouttelette
Votre mousse en ces puits, puis
Que ces puits
Passent au four, et, blondines,
Sortant en gais troupelets,
Ce sont les
Tartelettes amandines!

* Nota do Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que o poema-receita Maneira de Fazer Pastéis de Amêndoa Doce (Comment on fait les tartelletes amandines) é apresentado na comédia teatral Cyrano de Bergerac (Acte II, Scene 4) como parte de uma fala de Ragueneau, poeta e pasteleiro, um dos personagens da peça.
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Edmond Eugène Alexis Rostand (1868 1918), francês de Marselha, formado em Direito, sem nunca ter exercido a profissão, foi poeta, escritor e dramaturgo; tornou-se conhecido como dramaturgo, pela autoria da peça Cyrano de Bergerac; obras: Le Gant Rouge (peça, A Luva Vermelha, 1888), Ode à la Musique (poesia, 1890), Les Musardises (Divagações, poesia, 1891), Les Deux Pierrots (Os Dois Pierrôs, 1893), Les Romanesques, comédia, 1893), La Princesse Lontaine (A Princesa Longínqua, peça escrita em versos, 1895), La Samaritaine (A Samaritana, peça escrita em versos, 1897), Pour la Grèce (poesia, 1897), Cyrano de Bergerac (comédia dramática escrita em versos, 1897), L’Aiglon (O Filhote de Águia, drama, 1900), Un Soir à Hernani (poesia, 1902), La Dernière Nuit de Don Juan (A Última Noite de Don Juan, peça, 1911) e outros textos.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Bertolt Brecht: E que ganhou a mulher do soldado?

Resultado de imagem para Bertolt Brecht Poemas e Canções Civilização Brasileira
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[traduzido por Geir Campos]

E que ganhou a mulher do soldado,
dessa vetusta capital que é Praga?
De Praga ela ganhou sapatos altos:
um cumprimento com os sapatos altos
que recebeu da cidade de Praga.

E que ganhou a mulher do soldado
de Varsóvia, banhada pelo Vístula?
De Varsóvia veio a blusa de linho:
exótica e colorida, uma blusa polaca
foi que lhe veio das margens do Vístula.

E que ganhou a mulher do soldado
de Oslo, no Mar do Norte?
De Oslo ganhou ela uma echarpe de peles;
tomara que lhe agrade essa echarpe de peles
vinda de Oslo, no Mar do Norte.

E que ganhou a mulher do soldado
da opulenta Roterdão?
De Roterdão ganhou ela o chapéu;
tão bem lhe fica o chapéu holandês
que veio de Roterdão!

E que ganhou a mulher do soldado
de Bruxelas, metrópole dos belgas?
De Bruxelas chegaram rendas raras:
ah, poder tê-las, rendas assim raras!
Ela ganhou-as da terra dos belgas.

E que ganhou a mulher do soldado
de Paris, a grande Cidade-Luz?
Recebeu de Paris o vestido de seda;
como as vizinhas invejam esse vestido de seda
que ela ganhou de Paris!

E que ganhou a mulher do soldado
de Trípoli, na Líbia?
De Trípoli ganhou ela um cordão:
breve amuleto num cordão de cobre,
que ela ganhou de Trípoli, na Líbia.

E que ganhou a mulher do soldado
do vasto país dos russos?
Da Rússia ganhou ela o manto de viúva:
para o velório, o manto de viúva
que ela recebeu dos russos.



Und was bekam des Soldaten Weib?

Und was bekam des Soldaten Weib
Aus der alten Hauptstadt Prag?
Aus Prag bekam sie die Stöckelschuh.
Einen Gruss und dazu die Stöckelschuh
Das bekam sie aus der Stadt Prag.

Und was bekam des Soldaten Weib
Aus Warschau am Weichselstrand?
Aus Warschau bekam sie das leinene Hemd
So bunt und so fremd, ein polnisches Hemd!
Das bekam sie vom Weichselstrand.

Und was bekam des Soldaten Weib
Aus Oslo über dem Sund?
Aus Oslo bekam sie das Kräglein aus Pelz.
Hoffentlich gefällt‘s, das Kräglein aus Pelz!
Das bekam sie aus Oslo am Sund.

Und was bekam des Soldaten Weib
Aus dem reichen Rotterdam?
Aus Rotterdam bekam sie den Hut.
Und er steht ihr gut, der holländische Hut.
Den bekam sie aus Rotterdam.

Und was bekam des Soldaten Weib
Aus Brüssel im belgischen Land?
Aus Brüssel bekam sie die seltenen Spitzen.
Ach, das zu besitzen, so seltene Spitzen!
Sie bekam sie aus belgischem Land.

Und was bekam des Soldaten Weib 
Aus der Lichterstadt Paris?
Aus Paris bekam sie das seidene Kleid.
Zu der Nachbarin Neid das seidene Kleid
Das bekam sie aus Paris.

Und was bekam des Soldaten Weib
Aus dem libyschen Tripolis?
Aus Tripolis bekam sie das Kettchen.
Das Amulettchen am kupfernen Kettchen
Das bekam sie aus Tripolis.

Und was bekam des Soldaten Weib 
Aus dem weiten Russenland?
Aus Russland bekam sie den Witwenschleier.
Zu der Totenfeier den Witwenschleier
Das bekam sie aus Russenland.

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Bertolt Brecht
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Bertolt Brecht — Poemas e Canções, Tradução de Geir Campos, 1966, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898  1956), alemão de Augsburg  Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina, em Munique, mas, tendo sido convocado pelo exército, na Primeira Guerra, trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixa a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, funda a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 31 de outubro de 2015

Artur Azevedo: Impressões de Teatro

A Guimarães Passos

Que dramalhão! Um intrigante ousado,
Vendo chegar da Palestina o conde,
Diz-lhe que a pobre da condessa esconde
No seio o fruto de um amor culpado.

Naturalmente o conde fica irado
"O pai quem é?" pergunta.  "Eu", lhe responde
Um pajem que entra.  "Um duelo!"  "Sim! Quando? Onde?"
No encontro morre o amante desgraçado..

Folga o intrigante... Porém surge um mano,
E vendo morto o irmão, perde a cabeça,
Crava o punhal no peito do tirano.

É preso o mano, mata-se a condessa,
Endoidece o marido... e cai o pano,
Antes que outra catástrofe aconteça.

(Rimas, edição da Cia. Industrial
 Americana, Rio, 1909, p.179  180.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira e Nota Editorial de Alexei Bueno, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855 1908), maranhense de São Luís, foi jornalista, romancista, comediógrafo, contista, poeta e uma das grandes figuras do humorismo brasileiro; escreveu e publicou Carapuças (poesia, 1871), Sonetos (1875), Uma Véspera de Reis (teatro, 1876), A Capital Federal (teatro, 1897), O Escravocrata (teatro, 1884), O Dote (teatro, 1896), Um Dia de Finados (sátira, 1880), Contos Fora da Moda (contos, 1897), Contos em Verso (1898) etc.; como jornalista, trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido A Gazetinha, Vida Moderna e O Álbum; na elaboração de sua obra, multiplicava-se em pseudônimos: Elói o herói, Gavroche, Petrônio, Cosimo, Juvenal, Dorante, Frivolino, Batista o trocista e outros.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Circo dos Bancários: O Gruda-gruda — um laboratório, uma peça teatral.

Manos e minas,

Eis um naquinho de história do sindicalismo bancário em São Paulo para os que têm hoje menos de quarenta anos de idade mas também para os que passaram disso e andam um tanto esquecidos e/ou não cultivam a memória. Na segunda metade da década de 70 e começo da de 80 do século e milênio passados, o Sindicato dos Bancários de São Paulo já teve um circo-teatro sob sua coordenação cultural: o TESB Teatro do Sindicato dos Bancários.


Aliás, este espaço de cultura já existia mesmo antes da vitória da então Oposição Bancária (*) que tomou posse em 12.03.1979. Foi César Vieira, teatrólogo do Teatro Popular União e Olho-Vivo  ou Idibal Piveta, defensor de presos políticos e militante! , quem esteve à frente do grupo teatral que atuava no circo e, pelo que sei, e que não me desmintam!, ali se deu a montagem/apresentação da peça "O Evangelho Segundo Zebedeu", escrita e dirigida pelo próprio César Vieira e cujos atores/atrizes eram da categoria bancária e/ou ligados ao sindicato.

Mas a peça "O Gruda-gruda", cujo texto está reproduzido abaixo, não é de autoria de César Vieira nem foi montada por ele, foi sim uma criação coletiva (**), e que também não me desmintam!, de um grupo de bancários militantes ligados ao Cultural do Sindicato, coordenados pelo ator Celso Frateschi contratado para essa tarefa pela diretoria recém eleita.

Quanto ao Circo dos Bancários, que ficava na Rua Voluntários da Pátria, próximo à Estação Tietê do Metrô, durou pouco. Deixou de existir por pendengas (políticas!), falta de licença etc, da Prefeitura contra o Sindicato. O grupo teatral também deixou de existir, ficou só naquela experiência. A diretora responsável pelo Cultural foi Sandra Cajazeira, do BB.

Meninos e meninas, eu vivi aquela época!

(*) Oposição Bancária que tomou posse em 1979: Augusto Campos (Banespa), Luiz Gushiken (Banespa), Rui Sá (BB), Sandra Cajazeira (BB), Gilmar Carneiro (Banerj), Luiz Azevedo (BB), Tita Dias (Real), Edson Campos (BCN), Lucas Buzato (Banespa), Vitor Benda (BB), Rubens dos Santos (Safra), Antonio Rodrigues (Boston), Álvaro (Finasa), Washington (Mercapaulo), Ademar Lopes (Bamerindus), Acácio (Itaú), Geraldo Sanches (Itaú), Dumara Marques (Itaú), Claudio Ernesto (Banespa), Rui Soares (Sudameris), Lélio (Bemge), Camilo Pontes (Comind), David Ratcov (Banespa), Artur Quadros (Unibanco, foi destituído em assembléia e devolvido ao Banco, acusado de malversação no Setor de Compras), 

(**) Alguns dos bancários e militantes sindicais envolvidos na criação do texto e também participantes da peça: Ronei, Mirtes (Banespa), Levi, Jacyra e Sandrinha (Safra) ...
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Teatro

Personagens por ordem de entrada: Burguês, Intelectual, Operário, Hippie, Mulher, Bêbado, Marido, Bicha, Trombadinha, Policial, Louco.
.....................
Entram em cena por lados opostos o burguês e o intelectual, o primeiro mais apressado que o segundo. Quando se aproximam um pouco, o intelectual percebe conhecer o burguês, que passa por ele indiferente. O intelectual então levanta o braço e chama o burguês.

          Intelectual  Ô meu! 
(o burguês pára). Ô meu! (o burguês volta-se para o intelectual, encara-o mas não diz nada). (Continua o intelectual) 
Você não é o Roberto, que fez sociologia comigo na PUC? Não se lembra de mim?
          Burguês — (depois de ficar fitando um pouco o intelectual agora descontraído e sorrindo) - Sim, sou eu mesmo. Você não é aquele cara... o...
          Intelectual — É, isto mesmo, o Carlos. Como vai você?

"Aproximam-se e apertam as mãos."

          Burguês — (agora descontraído e sorrindo) Claro, amigo, há quanto tempo a gente não se vê, desde a formatura, né?!
          Intelectual — É, faz muito tempo mesmo. (e olhando o burguês de cima a baixo) Pô, que estica, hem? Subiu na vida, né? Olha o terno do cara! O que você anda fazendo?
          Burguês — Agora sou gerente administrativo da filial brasileira de uma grande empresa americana.
          Intelectual — O quê! Transando umas de multinacional, hem? Se vendeu pro sistema. Deve estar faturando uma nota (e mostra com os dedos).
          Burguês — É, eu vou levando. Mas e você, que anda fazendo?
          Intelectual — Eu estou fazendo pós-graduação em Sociologia e a noite dou aula em um cursinho.
          Burguês — Mas você que era um dos melhores alunos da turma trabalhando numa porcaria dessas! Deixa eu te dar o meu cartão, quem sabe te arranjo alguma coisa melhor.
          Intelectual — Não! Pode deixar, estou fazendo o que eu gosto, dinheiro pra mim é o de menos.
          Burguês — Bom, você vai me desculpar porque eu estou com um pouco de pressa (tenta soltar a mão e nota que está grudado). Deixe de brincadeira que eu estou atrasado, vê se me solta!
          Intelectual — E sou eu que estou te segurando?
          Burguês — Hiiii!! Parece que estamos presos, que é isso? Maldita hora que fui me encontrar com você. Estou com pressa, tenho um cliente à minha espera e agora por sua causa vou perder um bom negócio.
          Intelectual — Sai dessa xará, que culpa tenho eu? Eu também não tenho tempo pra perder, ainda mais com um cara chato como você. Eu tinha uma reunião do PT neste instante, e vou perder por sua causa.

"Entra em cena o operário, sem se dar conta do intelectual e do burguês. O burguês dirige-se a ele."

          Burguês — Ô peão, ajuda a gente a se soltar.
          Operário — Claro seu dotô, mas cumé que oceis ficaram preso aí?
          Intelectual — Companheiro, não sabemos como aconteceu, mas o importante agora é ver se a gente se solta daqui. Será que você pode nos dar uma mão?
          Operário — Pois não seu dotô, é pra já (e vai tentar soltá-los)
          Burguês — (enquanto o operário tenta soltá-lo) Cuidado pra não sujar meu terno Pierre Cardin com esta mão cheia de graxa!
          Operário — Xiiii!! Dotô, além de sujá seu terno e num conseguí sortá oceis, inda fiquei preso tamém. Acho que num tem jeito.
          Burguês — (enérgico) Como não tem jeito? Não podemos desistir! Eu, gerente administrativo de uma importante firma, grudado aqui com dois tipos vulgares. Imaginem se meus subalternos me virem aqui; o que não vão dizer!
          Intelectual — (ofendido) Vá a merda! seu gerentezinho de bosta, pensa que é alguma coisa aqui? estamos no mesmo barco, tá sabendo?
          Burguês — (escandalizado) escuta aqui ô ralé, quem você pensa que é pra falar assim comigo?
          Intelectual — Eu sabia! Eu sabia! Desde os tempos de faculdade dava pra ver que você ia sair um nojento capitalista.
          Burguês — Ora, seu fracassado... (o operário o interrompe)
          Operário — Carma, pessoár, num dianta se brigá agora; bamo tentá resorvê as coisa na paiz...

"O hippie entra em cena, chega numa boa pra curtir com o pessoal. Dá uma volta em torno dos três grudados antes de começar a falar."

          Hippie — Que barato! Tão curtindo umas de cola-cola aí?

          Operário — Ô seu moço, num tamo curtino não, tamo aqui pregado memo. Ocê num dá uma mão pra mode nóis se sortá?
          Hippie — Tá legal! Tá legal! Numa boa! Tô cum vocês. Mas olha, tá um barato vocês grudados aí, dá até dó de soltar.
          Burguês — Ô moleque, não temos tempo pra perder, eu sou um homem muito ocupado. Vê se dá um jeito de soltar logo a gente que eu te arrumo uma grana.
          Hippie — Falou, patrão! (e o hippie tenta soltá-los e também fica preso) Pô, que barato, entrei nessa de gruda-gruda também.
          Burguês — Mas é só isso que faltava!

"Entra em cena a mulher. Pàra, vê o grupo grudado e exclama"

          Mulher  Meu Deus, que horror! O que está acontecendo? Todos esses homens agarrados em plena luz do dia! Que falta de vergonha! (ela aproxima-se do grupo) Vocês podem me explicar o que está acontecendo aqui?
          Hippie — Hiiiiiiii! esta coroa num tá cum nada! Que tremenda caretice.
          Intelectual — Por favor, senhora, poderia colaborar com a gente?
          Mulher  Se for dinheiro, não-vem-que-não-tem; agora, em outra coisa, ajudo com prazer.
          Hippie — Então será que a coroa num arranja um rolinho pra mim?
          Mulher  Meu Deus, que horror!
          Intelectual — Não é nada disso, minha senhora, esse cara aí é um alienado. Estamos precisando de ajuda pra ver se a gente se desgruda daqui.
          Mulher  Mas como vocês ficaram presos aí? Nunca vi gente grudada deste jeito! Vige Maria, é o fim do mundo. Vamos ver se isso desgruda mesmo. (e a mulher vai tentar soltá-los e fica também presa) Pai nosso, fiquei grudada também! Jesus, tenho que sair daqui, porque se meu marido me pega  grudada com outro homem, vocês nem imaginam o que pode acontecer! Ele é bem capaz de matar todo mundo que está aqui.
          Hippie — Já vi que seu marido deve ser careta que nem a senhora. Não tem nada demais ficar grudada aqui com a gente, nós tamos grudados numa boa.
          Mulher  Ai, meu Deus, como esse moleque é atrevido!

"O intelectual começa a conversar com o operário, esquecendo-se da situação em que se encontram"

          Intelectual — Calor, né companheiro! Será que chove hoje? Esse tempo não dá pra entender mesmo!
          Operário — Sei não, dotô. Um dia faz frio, outro dia faz calor!
          Intelectual  É dura essa vida de trabalhador.
          Operário — Nem quera sabê, seu dotô. Hoje memo já vô perdê meu dia, porque toda vez que a gente chega atrasado num pode entrá na fábrica.
          Intelectual 
 Esses patrões são mesmo uns exploradores, além de pagarem um salário de fome ainda não perdoam nem um atraso dos empregados. Agora, pra pedir pra ficar trabalhando até tarde eles servem.
          Operário — Sabe, seu dotô, a gente trabaia 12 horas por dia e só tem meia hora de almoço; lá num tem lugar nem pra isquentá a marmita, a gente, além de comê cumida fria ainda tem que comê num lugar que tem até rato.
          Intelectual  (escandalizado) Não pode ser, isso é um abuso! Você precisa denunciar isso pro Sindicato.
          Operário — Sindicato? O que é isso, dotô?!
          Intelectual — Então você não sabe? Isso não é possível! O Sindicato é a força dos trabalhadores pra fazer frente aos patrões... (e é interrompido bruscamente pelo burguês)
          Burguês — Chega de papo-furado!! (grita) A gente com esse problema pra resolver e vocês aí falando besteira! Saibam que já perdi milhões por causa dessa brincadeira!

"O intelectual olha com raiva para o burguês, mas não responde nada. Quem toma a palavra é o hippie, dirigindo-se ao burguês"

          Hippie — O negócio é o seguinte, cara, já que tamos aqui vamos curtir essa transa de corpo numa boa. Sente só o calor da mão dele na sua, a gente tem mais é que ficar nessa até o fim e curtir o momento, não se sabe quando vai pintar outra do tipo.

"Neste momento entra em cena o bêbado, completamente embriagado. Roupa toda em desalinho, garrafa na mão e barba por fazer. Canta, cambaleando"

          Bêbado  Eu bebo sim, estou... bebendo. Tem gente... que não deve estar... bebeu... bebendo.
          Intelectual — Hiiiii, olha quem vem aí!
          Todos — Não!!!
          Bêbado  (pára diante dos outros, perplexo diante da situação que tem diante de si. Faz gestos característicos de bêbado. Depois, dirige-se ao grupo, eufórico) Mas o que é isso, gente boa!?
          Mulher  Nosso Senhor Jesus Cristo! O que é isso!
          Operário — (dirigindo-se ao bêbado) Mas é o Zé!
          Burguês — O quê! Você conhece este bebum? (apontando para o bêbado) Não tem jeito, essa ralé é tudo igual.
          Operário — Nada disso, seu dotô. O Zé é boa praça. Nós já trabaiemo junto. O pobrema é que ele bebe demais. Bebe o dia todo, quase num come.
          Bêbado  (Finalmente reconhecendo o operário) Ernesto! É tu mesmo! Deixa eu te abraçar, compadre! (abre os braços e caminha cambaleante em direção ao operário)
          Todos  Não, não!! Chega pra lá!! (todos recuam)
          Bêbado  Mas o que é isso, pessoal! Deixa eu me confraternizar com vocês, somos todos amigos, né?! (o bêbado se agarra com o operário e o burguês)
          Bêbado  (Ri e solta um hálito de aguardente bem na cara do burguês) Meus amigos do peito!! Como é bom abraçar vocês.
          Burguês  Puá! Que cheiro horrível!
          Bêbado  Pô, Ernesto, o teu amigo aqui é grã, né? E da alta (dirigindo-se ao burguês) O amigo aceita um gole? (e oferece a garrafa ao burguês)
          Burguês  Não, não, não!!! Não é possível! Deve ser um sonho! Não pode estar acontecendo!
          Intelectual  (divertindo-se muito com a situação em que o burguês se encontra) Ah! Ah! Ah! Doutorzinho!... Vamos, aceita um trago do moço!... Ah! Ah! Ah!
          Burguês  (Grita irritado) 
Você me paga, seu rato de biblioteca!

"Nisto vai passando o marido da mulher que se esconde, mas é reconhecida. Ao perceber que sua mulher está grudada em outras pessoas, o marido avança furioso."

          Marido  Muito bonito, então é isso que a senhora faz quando diz que vai ao dentista?! Sua sem-vergonha! (e avança de punhos fechados para a mulher)
          Mulher  Não, meu bem, não interprete mal, você tem que me deixar explicar (enquanto isso o marido a segura pelo braço e a sacode). ( A mulher olha para o intelectual, pedindo ajuda, mas quem toma a palavra é o hippie)
          Hippie  Qualé, meu, sem essa de ciúmes. Venha pra cá curtir esse tremendo barato.
          Marido  Quem é esse sujeitinho? (apontando para o hippie). Não quer falar? Vamos já pra casa, lá a gente acerta as contas (diz, sacudindo a esposa). (Puxa a mulher pelo braço e nota o gruda-gruda) 
 Mas o que que está acontecendo aqui? Eu exijo uma explicação.

"começa então um zum-zum entre eles que, depois de um certo tempo, é interrompido perla entrada do bicha. Ele entra todo desmunhecado e rebolando, quando dá com o grupo pára deslumbrado."

          Bicha  Cruzes!!! Mas que é isso, que horror!
          Operário  Ô, moço, qué dizê... bom, é que a gente tá grudado aqui um no outro e num pode saí.
          Bicha  O quê!! Vocês estão grudados; então deixa eu aproveitar!(aproximando-se do marido) Ah, gostosão! (e passa a mão no pau do marido e vê que ficou grudado) Meu Deus! Nova moda, adorei. Pelo menos não preciso mais fazer ponto na Praça da República.é só passar a mão e grudar: divino! Não quero mais sair daqui.
          Marido  (irritadíssimo com o bicha) O que é isso, meu senhor! Eu exijo mais respeito. O senhor não tem vergonha na cara!
          Bicha  Eu, heim! Fica na tua, bonitão! Adoro machões. Se me bater, aí que eu grudo mesmo.
          Mulher  Em vez de vocês ficarem aí nesse bate-boca, porque a gente não pensa num meio de se soltar?
          Marido  Como é que eu posso pensar em uma solução com essa... com esse... grudado em mim?!
          Bicha  Por mim está ótimo, queridinho.

"Recomeça o zum-zum. O trombadinha entra cauteloso e não o interrompe. Entra como não quer nada, aproxima-se do burguês que está distraído falando com um outro, enfia a mão rápido no bolso do burguês e tenta fugir, mas fica grudado. O burguês reage."

          Burguês  Ôpa, o que é isso! Pega ladrão... pega ladrão... pega ladrão... (continua repetindo enquanto o trombadinha desesperado tenta se soltar)

"O policial entra em cena correndo, atendendo aos gritos do burguês. Logo que o policial entra o burguês pára de gritar."

          Policial  O que está acontecendo aqui?
          Burguês  Seu guarda, é esse delinqüente que, se aproveitando desta situação ridícula, tentou me assaltar. Eu exijo providências imediatas.
          Policial  (Agarrando o trombadinha pelo pescoço) Vamos pro distrito ter uma conversinha, seu malandro! (e dirigindo-se ao burguês) O senhor me acompanhe pra registrar a queixa.
          Burguês  Mas acompanhar como, se estamos aqui grudados!
          Policial  O senhor está tentando obstruir um policial no cumprimento do dever! (o policial tenta puxar o trombadinha e vê que também está grudado) Mas o que é isso? O que está acontecendo aqui? Eu, um representante da lei, grudado neste pivete!
          Trombadinha  Cumé, tira, cê num falô que ia me grampiá? Agora tô isperano!
          Policial  (ameaça bater no trombadinha) Peraí, seu moleque, que eu te mostro! Te viro no avesso... (o intelectual intervém para impedir a agressão, enquanto o trombadinha se encolhe todo)
          Intelectual  (dirigindo-se ao policial) Pára aí! Se o senhor agredir este menor, eu vou denunciar isso num ato público. O senhor deveria saber que o problema deste garoto não é de polícia, é um grave problema social. Assim como este menino, existem milhares que são como ele, fruto do canibalismo selvagem.
          Burguês  Não dá bola pra este cara, não, seu guarda. Tem mesmo é que acabar com essa raça! São marginais de alta periculosidade.
          Mulher  Coitadinho! Tão novinho e já no mau caminho. Onde será que está a mãe desta criança, que não dá educação pra ele!
          Marido  Cala a boca, mulher! Isso é assunto de polícia.
          Intelectual (dirigindo-se à mulher)  a mãe desta criança, minha senhora, se ele tiver, deve estar  lavando roupa pra fora.e o pai, se tiver, deve estar trabalhando por aí por um salário de fome. Eis o fruto da exploração da classe dominante.
          Trombadinha  É isso aí, dotô, tô cuntigo e não abro.
          Operário (dirigindo-se ao marido e ao burguês)  Vocês diz que o pobrema do muleque é de puliça porque não conhecem a miséria de perto.

"O burguês, o marido e o policial respondem juntos ao operário e assim recomeça o zum-zum, com todo mundo falando ao mesmo tempo. Um grito do bicha põe todos em silêncio."

          Bicha  Aiiiiii!!!! Não aguento mais  esta história! Estou ficando louca! Isto aqui está cansando a minha beleza! (e olhando para o marido) Se eu não tivesse grudado em você, queridinho, já estava morta de tédio.
          Mulher (irritada)  O senhor quer fazer o favor de parar com essa indecência!
          Hippie (dirigindo-se ao trombadinha)  Já que tamos neste barato e pelo jeito não vamos sair daqui tão cedo, cê num tem uma coisinha pra me arrumar? (e faz um gesto como se estivesse com um cigarro na mão)
          Trombadinha  Olha, meu chapa, aqui num tem não, mas se tu for lá na Febem...
          Mulher  Meu Deus, será que ninguém tem uma solução pra esse caso? Como é que a gente vai conseguir sair daqui? Isso é o que importa!

"Ninguém responde à mulher. Todos estão cansados, exaustos com a situação, alguns aparentam mesmo uma certa sonolência. É quando o louco entra em cena rindo, circula em torno das pessoas que se entreolham assustadas. Finalmente começa a falar."

          Louco (ainda rindo)  Mas o que é isso? (aponta o grupo) Estão todos grudados uns aos outros!
          Burguês (irritado)  E você ainda acha engraçado? Por que ao invés de ficar aí rindo não vem nos ajudar?
          Louco  Ajudar? Mas ajudar como? Quem sou eu? Ou vocês querem que eu fique preso aí também. A única coisa que eu posso fazer é aliviar o sofrimento de vocês, diverti-los  com a minha figura de idiota. Sim, porque eu sou um perfeito idiota.
          Mulher  Acho que esse cara é louco!
          Louco  Sim, sim, louco. E o que é a loucura senão uma idiotice crônica? Todas as pessoas fazem idiotices às vezes, isto é normal, mas só um louco as faz sempre. É por isso que eu sou louco, é por isso que eu não estou grudado em vocês. Como é que eu posso ficar grudado em gente normal como vocês? (pausa) Uma vez eu conheci um homem que pensava que era um elefante. Mas em torno dele havia muitas pessoas  que achavam que ele não era um elefante, aliás, essas pessoas tinham certeza de que ele não era um elefante. Ora, acontece que o homem que se achava elefante também tinha certeza de que era um elefante. Mas as pessoas que tinham certeza de que ele não era um elefante eram muitas, enquanto só ele é quem tinha certeza que era um elefante.. Aí trancaram o homem-elefante em uma cela, para que ele não pudesse contaminar ninguém com a sua certeza rebelde. Trancaram o elefante, digo, o homem-elefante em um lugar cheio de gente que não aceitava as certezas mesquinhas do mundo e que tinha as suas próprias certezas. E lá onde prenderam o homem que pensava ser elefante 
 e agia como um elefante havia outras pessoas que acreditavam nos próprios sonhos e nos dos outros e que por isso aceitaram o homem-elefante como elefante. Todos eles viviam como um homem que dorme e sonha um sonho bom e que por isso adia indefinidamente a hora de acordar. (pára de falar e fica pensativo)
          Bicha (horrorizado)  Meu Deus! Não é que o cara é mesmo lelé-da´cuca!
          Operário  Chiiii! Num fartava mais nada!
          Hippie  Ô, da marmita, sem essa! Este negócio de loucura é o maior barato. Quando eu levo uma "picada" também fico doidão assim.
          Intelectual 
(gritando)  Mas será possível! Deve haver alguma solução, não podemos ficar presos aqui.
          Louco (assustado)  Ah! Vocês querem se soltar? Pois então se soltem, o que os mantém presos?! Meu Deus (cospe no chão), de onde vem essa estranha solidariedade? Que estranha força mantém vocês tão fortemente atados uns aos outros? (Aproxima-se e olha nos olhos de cada um) E esse estranho brilho de ódio no olhar de cada um de vocês? Será que é o ódio que os prende assim? (todos se entreolham) É necessário muita força para atar assim gente que se odeia tanto. Mesmo se eu tocar em vocês eu não fico colado (e toca em uma das pessoas e não fica grudado), porque eu pertenço a um outro mundo, o dos insanos, um mundo que não se amarra a nada e voa dentro da cabeça de quem o habita. Por isso eu sou livre. Agora, vocês... vocês vão ficar eternamente aí grudados, pois é só assim que conseguem viver. Vocês vão ficar indefinidamente assim, colados uns aos outros pelo ódio que carregam dentro de si  quanto mais ódio, mais forte fica a cola. Vocês estão condenados a se verem sempre, condenados a compartilhar todos os instantes, a morar juntos, a trabalhar juntos, a comer juntos; sempre se odiando, mas sempre juntos. Dentro de cada um de vocês há um mundo individual que fabrica o ódio e assim mantém vivo o elo que os prende, da mesma forma que as células contribuem para manter vivo o organismo que as encerra. (As pessoas grudadas abaixam a cabeça, depois vão se abaixando até todos ficarem no chão. E o louco continua a falar, pensativo) Gente se odiando mas vivendo junto, pessoas opostas mas atadas, inimigos que travam lado a lado uma guerra surda e cada instante. Será que há um nome que se possa dar a uma coisa como essa? (fica um minuto pensativo) Um nome que resumisse em si todo esse absurdo. Será que há uma palavra suficientemente forte para exprimir isso? (fica mais um pouco pensando, e depois dá um pulo, animado, como se tivesse descoberto enfim o que procurava.) Não tem importância se não existir nenhuma palavra, pois eu a invento. (dirigindo-se ao público) Vamos inventar alguma palavra que possa exprimir isso (aponta para os grudados). Eu tenho a palavra na ponta da língua (mostra a língua). Que tal a palavra... a palavra... sociedade? Parece-me boa. Sim, sim, fica sendo isso: sociedade. Sociedade! (ri bastante, chega até a gargalhar, e finalmente sai de cena.)

FIM