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Um fino apito, estrídulo sibila,
rangem as rodas num arranco perro,
e, lentamente, a se arrastar,
desfila,
fumegante e luzente, o trem de
ferro.
Soa no espaço um derradeiro berro
e tão rápido corre que horripila,
esse monstro a rolar de cerro em
cerro,
apavorando a solidão tranqüila.
Vence choupanas, matagais
tristonhos,
despenhadeiros, báratros medonhos,
nada lhe amaina o rábido furor.
Corre, corre veloz, nada o embaraça,
desfraldando a bandeira de fumaça,
como um bravo guerreiro vencedor!
* Nota do
atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco,
organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista
Cepelos:
“De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.”
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco
de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987,
Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel
Batista Cepelos (1872 — 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se
em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público,
poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia,
1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra
prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911),
Os Corvos (prosa, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela,
1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos
é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro,
o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire,
Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos
trabalhou em Apiaí — SP, Itapetininga — SP e Cantagalo — RJ.