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terça-feira, 2 de setembro de 2025

Gabriela Mistral: O pensador de Rodin

 
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[traduzido por Agmar Murgel Dutra]

Queixo pendido sobre a rude mão,
pensa na carne, feita de fraqueza.
Carne que odeia a morte e ama a beleza
e que há de um dia apodrecer no chão...

Vibrou, na Primavera, de paixão,
mas agora, no Outono, com tristeza,
de que a carne é mortal, sente a certeza
no agudo bronze, ao vir da solidão...

A angústia põe-lhe os músculos retesos,
rompem-se os sulcos pelas dores presos
como folhas de Outono, a um Senhor forte

que o chama... E não existe criatura
cujos nervos se crispem na tortura
como os deste homem a pensar na morte...

Gabriela Mistral

El Pensador de Rodin

[A Laura Rodig]

Con el mentón caído sobre la mano ruda,
el Pensador se acuerda que es carne de la huesa,
carne fatal, delante del destino desnuda,
carne que odia la muerte, y tembló de belleza.

Y tembló de amor, toda su primavera ardiente,
ahora, al otoño, anégase de verdad y tristeza.
El "de morir tenemos" pasa sobre su frente,
en todo agudo bronce, cuando la noche empieza.

Y en la angustia, sus músculos se hienden, sufridores.
cada surco en la carne se llena de terrores.
Se hiende, como la hoja de otoño, al Señor fuerte

que le llama en los bronces... Y no hay árbol torcido
de sol en la llanura, ni león de flanco herido,
crispados como este hombre que medita en la muerte.

(Desolación — 1922)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Gabriela Mistral *: O menino só

 
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[traduzido por  Agmar Murgel Dutra

Parei, ouvindo um choro, em meio da subida,
e então me aproximei da choça do caminho.
Com doçura, do leito, olhou-me um garotinho;
e a ternura me deu a ebriez da bebida.

Lá na lavoura a mãe se retardou na lida;
e o infante, ao acordar, procurou logo o ninho
do róseo seio... e pôs-se a chorar... Com carinho
ao peito o aconcheguei, ninando-o enternecida.

Pela janela aberta a lua nos fitava.
A criança dormia, e a canção me banhava
como um outro luar, o peito enriquecido.

E, assim, quando a mulher a porta abriu, aflita,
em minha face viu tanta ventura escrita,
que em meus braços deixou o filho adormecido.

Gabriela Mistral

El niño solo

Como escuchase un llanto, me paré en el repecho
y me acerqué a la puerta del rancho del camino.
Un niño de ojos dulces me miró desde el lecho.
¡Y una ternura inmensa me embriagó como un vino!

La madre se tardó, curvada en el barbecho;
el niño, al despertar, buscó el pezón de la rosa
y rompió en llanto... Yo lo estreché contra el pecho,
y una canción de cuna me subió, temblorosa...

Por la ventana abierta la luna nos miraba.
El niño ya dormía, y la canción bañaba,
como otro resplandor, mi pecho enriquecido...

Y cuando la mujer, trémula, abrió la puerta,
me vería en el rostro tanta ventura certa
¡que me dejó el infante en los brazos dormido!

* Nota de Vasco de Castro Lima, Organizador e Autor deste O Mundo Maravilhoso do Soneto: Tanto na prosa, como na poesia, é inigualável em riqueza e harmonia. Romântica e mística. Escreveu, entre outros livros, "Sonetos da Morte". Prêmio Nobel de Literatura, em 1945. O suicídio do noivo ensombrou sua poesia para sempre.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Friedrich Nietzsche: Ecce homo & Assim me disse uma mulher . . .

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Ecce homo

[traduzido por Agmar Murgel Dutra]

Sim, sei que origem me reclama.
Insaciável como a chama,
Ardo e me acabo com presteza;
Converto em luz tudo o que toco,
E, tudo o que deixo, em carvão:
Sim, eu sou chama, com certeza!

[(Brincadeira, Astúcia e Vingança. Prelúdio em rimas
alemãs, aforismo 62), A Gaia Ciência  1882]
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Assim me disse uma mulher . . .

[traduzido por Geir Campos]

Assim me disse uma mulher, tímida,
à luz do amanhecer:
“Já és tão feliz, na sobriedade...
Bêbedo, como não hás de ser?”

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Friedrich Nietzsche

Ecce homo

Ja! Ich weiss, woher ich stamme!
Ungesättigt gleich der Flamme
Glühe und verzehr ich mich.
Licht wird alles, was ich fasse;
Kohle alles, was ich lasse:
Flamme bin ich sicherlich!

[(Scherz, List und Rache.Vorspiel in deutschen Reimen,
Aphorismen 62), Die fröliche Wissenschaft — 1882]
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So sprach ein Weib . . .

So sprach ein Weib voll Schüchternheit
Zu mir im Morgenschein:
"Bist schon du selig vor Nüchternheit
Wie selig wirst du  trunken sein!"
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologias de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.