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quinta-feira, 7 de novembro de 2024

T. S. Eliot: Maneja o ferro o cirurgião ferido . . . [trecho de ‘East Coker’, em Quatro Quartetos]

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

[ . . . ]

IV

Maneja o ferro o cirurgião ferido
A esmiudear a infectada parte;
Sob as sangrentas mãos é percebido
O agudo pesar da esculápia arte
Dilucidando o gráfico do enfarte.

Nossa saúde é tão-só nossa doença
Se contentarmos a enfermeira à morte
Que jamais em desenfastiar-nos pensa
Mas lembrar-nos da nossa, e de Adão, sorte,
Que há-de o mal, pra sararmos, ser mais forte.

Todo o planeta, eis o nosso hospital
Conferido pelo creso arruinado,
Onde, se não nos comportarmos mal,
Morreremos do paternal cuidado
Que não nos larga, mas guiará por outro lado.

Sobe dos pés aos joelhos o arrepio,
A febre preludia em fios mentais.
Pra aquecer-me, força é engrunhir de frio,
Tremer em purgatórios glaciais,
Cuja áscua é rosa e o fumo são sarçais.

Nosso só néctar, o sangue exsudante,
O só repasto, a carne ensanguentada:
Sem embargo, crer é-nos confortante
Que somos sangue ileso, carne sustanciada
E, entanto, esta data, de Endoenças é por nós chamada.

[ . . . ]

T. S. Eliot

East Coker

[ . . . ]

IV

The wounded surgeon plies the steel
That questions the distempered part;
Beneath the bleeding hands we feel
The sharp compassion of the healer’s art
Resolving the enigma of the fever chart.

    Our only health is the disease
If we obey the dying nurse
Whose constant care is not to please
But to remind of our, and Adam’s curse,
And that, to be restored, our sickness must grow worse.

    The whole earth is our hospital
Endowed by the ruined millionaire,
Wherein, if we do well, we shall
160Die of the absolute paternal care
That will not leave us, but prevents us everywhere.

    The chill ascends from feet to knees,
The fever sings in mental wires.
If to be warmed, then I must freeze
And quake in frigid purgatorial fires
Of which the flame is roses, and the smoke is briars.

    The dripping blood our only drink,
The bloody flesh our only food:
In spite of which we like to think
That we are sound, substantial flesh and blood
Again, in spite of that, we call this Friday good.

[ . . . ]

"East Coker", in Four Quartets (poems, 1943)
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T. S. Eliot: Crime na Catedral [peça teatral, tradução de Maria da Saudade Cortesão] e Quatro Quartetos [poesias, tradução de Oswaldino Marques], Estudo Introdutivo e Vida e Obra de T. S. Eliot  por Francis Scarfe [Tradução de Emanuel Brasil], Ilustração de Carzou e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a T. S. Eliot, por Kjell Strömberg [Tradução de Emanuel Brasil], — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1970, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, naturalizado inglês em 1927, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; Eliot também esteve na Alemanha por dois anos, em um período de pesquisas, e fez estágio em Oxford Inglaterra; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

T. S. Eliot: Aqui é um lugar nu de afeto . . . [trecho de Burnt Norton, Quarteto nº 1]

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

[ . . . ]

III

Aqui é um lugar nu de afeto
O tempo antes e o tempo depois
Numa luz turva: nem a luiz diurna
Revestindo a forma de lúcida imobilidade
Transmutando a sombra em beleza fugaz
Com lenta rotação a sugerir permanência
Nem a treva para purificar a alma
Em privação esvaziando o sensual
Purgando do temporal a afeição.
Nem a plenitude, nem o vácuo. Só o estertor da luz
Sobre os rostos rijos, flagelados pelo tempo,
Distraído da distração pela distração
Cheios de fantasias e vazios de sentido
Túmida apatia sem a menor concentração
Homens e pedacinhos de papel, tangidos em torvelinho pelo vento frio
Que sopra antes e depois do tempo,
Sopro que entra e sai de pulmões enfermos
Tempo antes e tempo depois.
Eructação de almas malsãs
A difundir-se no ar lívido, pestilências
Carreadas pelo vento que assola as soturnas colinas de Londres,
Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney,
Highgate, Primrose e Ludgate. Não aqui
Não aqui a escuridão, neste mundo gorjeante.

Desce mais fundo, desce somente
Ao mundo da perpétua solidão,
Mundo não mundo, a não ser aquilo que não é mundo,
Obscuridade interior, privação
E destituição de toda propriedade,
Dessecação do mundo do sentido,
Egressão do mundo da fantasia,
Inoperância do mundo do espírito;
Eis a única maneira, e a outra
É o mesmo, não em movimento
Mas abstenção do movimento, enquanto o mundo se move
Em apetência, em seus caminhos metálicos
De tempo passado e tempo futuro.

[ . . . ]

T. S. Eliot

Burnt Norton [Quartet nº 1]

[ . . . ]

III

Here is a place of disaffection
Time before and time after
In a dim light: neither daylight
Investing form with lucid stillness
Turning shadow into transient beauty
With slow rotation suggesting permanence
Nor darkness to purify the soul
Emptying the sensual with deprivation
Cleansing affection from the temporal.
Neither plenitude nor vacancy. Only a flicker
Over the strained time-ridden faces
Distracted from distraction by distraction
Filled with fancies and empty of meaning
Tumid apathy with no concentration
Men and bits of paper, whirled by the cold Wind
That blows before and after time,
Wind in and out of unwholesome lungs
Time before and time after.
Eructation of unhealthy souls
Into the faded air, the torpid
Driven on the wind that sweeps the gloomy hills of London,
Hampstead and Clerkenwell, Campden and Putney,
Highgate, Primrose and Ludgate. Not here
Not here the darkness, in this twittering world.

    Descend lower, descend only
Into the world of perpetual solitude,
World not world, but that which is not world,
Internal darkness, deprivation
And destitution of all property,
Desiccation of the world of sense,
Evacuation of the world of fancy,
Inoperancy of the world of spirit;
This is the one way, and the other
Is the same, not in movement
But abstention from movement; while the world moves
In appetency, on its metalled ways
Of time past and time future.

[ . . . ]

"Burnt Norton", in Collected Poems: 1909—1935 (1936),
Four Quartets (poems, 1943)
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T. S. Eliot: Crime na Catedral [peça teatral, tradução de Maria da Saudade Cortesão] e Quatro Quartetos [poesias, tradução de Oswaldino Marques], Estudo Introdutivo e Vida e Obra de T. S. Eliot  por Francis Scarfe [Tradução de Emanuel Brasil], Ilustração de Carzou e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a T. S. Eliot, por Kjell Strömberg [Tradução de Emanuel Brasil], — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1970, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, naturalizado inglês em 1927, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; Eliot também esteve na Alemanha por dois anos, em um período de pesquisas, e fez estágio em Oxford Inglaterra; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

T. S. Eliot: As palavras deslocam-se, a música se move . . . [trecho de Burnt Norton, Quarteto nº 1]

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

[ . . . ]

V

As palavras deslocam-se, a música se move
Apenas no tempo, mas tão-só aquilo que é vivente
Pode morrer. As palavras, depois do discurso, culminam
No silêncio. Apenas graças à forma, o molde,
Podem as palavras ou a música atingir
A quietude, tal perpetuamente se move em sua inércia
Um inerte jarro chinês.
Não a inércia do violino, enquanto a nota perdura,
Não isso unicamente, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim ao começo preceda
E o final e o começo estejam sempre lá
Antes do começo e depois do final.
E tudo é sempre agora. As palavras retesam-se,
Sob a tensão, resvalam, deslizam, perecem,
Degeneram na imprecisão, não se mantêm no lugar,
Não ficam em sossego. Vozes lancinantes
A descompor, a motejar, ou apenas proseando,
Assediam-nas sempre. A Palavra no deserto
É alvo de maior ataque das vozes de tentação,
A sombra lacrimosa na dança funérea,
O alto lamento da quimera inconsolada.

O pormenor do arquipélago é movimento,
Como na imagem dos dez degraus.
O desejo em si mesmo é movimento
Não em si mesmo desejável;
O amor, em si, é não-movente,
Somente a causa e o fim do movimento,
Intemporal e carecente de desejo
Exceto no aspecto do tempo
Colhido na forma da limitação
Entre não-ser e ser.
Súbito, num dardo de luz solar
Mesmo enquanto o pó se move
A oculta risada se eleva
Das crianças na folhagem
Rápida agora, aqui, agora, sempre
Ridículo o tempo triste, esbanjado,
Espraiando-se em antes e depois.

T. S. Eliot

Burnt Norton [Quartet Nº 1]

[ . . . ]

V

Words move, music moves
Only in time; but that which is only living
Can only die. Words, after speech, reach
Into the silence. Only by the form, the pattern,
Can words or music reach
The stillness, as a Chinese jar still
Moves perpetually in its stillness.
Not the stillness of the violin, while the note lasts,
Not that only, but the co-existence,
Or say that the end precedes the beginning,
And the end and the beginning were always there
Before the beginning and after the end.
And all is always now. Words strain,
Crack and sometimes break, under the burden,
Under the tension, slip, slide, perish,
Decay with imprecision, will not stay in place,
Will not stay still. Shrieking voices
Scolding, mocking, or merely chattering,
Always assail them. The Word in the desert
Is most attacked by voices of temptation,
The crying shadow in the funeral dance,
The loud lament of the disconsolate chimera.

The detail of the pattern is movement,
As in the figure of the ten stairs.
Desire itself is movement
Not in itself desirable;
Love is itself unmoving,
Only the cause and end of movement,
Timeless, and undesiring
Except in the aspect of time
Caught in the form of limitation
Between un-being and being.
Sudden in a shaft of sunlight
Even while the dust moves
There rises the hidden laughter
Of children in the foliage
Quick now, here, now, always —
Ridiculous the waste sad time
Stretching before and after.

"Burnt Norton", in Collected Poems: 1909—1935 (1936),
Four Quartets (poems, 1943) 
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T. S. Eliot: Crime na Catedral [peça teatral, tradução de Maria da Saudade Cortesão] e Quatro Quartetos [poesias, tradução de Oswaldino Marques], Estudo Introdutivo e Vida e Obra de T. S. Eliot  por Francis Scarfe [Tradução de Emanuel Brasil], Ilustração de Carzou e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a T. S. Eliot, por Kjell Strömberg [Tradução de Emanuel Brasil], — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1970, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, naturalizado inglês em 1927, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; Eliot também esteve na Alemanha por dois anos, em um período de pesquisas, e fez estágio em Oxford Inglaterra; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; suas obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected Poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

sábado, 19 de janeiro de 2019

João Cabral de Melo Neto: Uma faca só lâmina

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Para Vinícius de Moraes

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

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João Cabral de Melo Neto

[translated by Galway Kinnell]

A Knife All Blade

For Vinícius de Moraes

Like a bullet
buried in flesh
weighting down one side
of the dead man,

like a bullet
made of a heavier lead
lodged in some muscle
making the man tip to one side,

like a bullet fired
from a living machine
a bullet which had
its own heartbeat,

like a clock's
beating deep down in the body
of a clock who once lived
and rebelled,

clock whose hands
had knife-edges
and all the pitilessness
of blued steel.

Yes, like a knife
without pocket or sheath
transformed into part
of your anatomy,

a most intimate knife
a knife for internal use
inhabiting the body
like the skeleton itself

of the man who would own it,
in pain, always in pain,
of the man who would wound himself
against his own bones.
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An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut — USA; João Cabral de Melo Neto (1920  1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

domingo, 6 de janeiro de 2019

João Cabral de Melo Neto: O sertanejo falando

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A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

2.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.

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João Cabral de Melo Neto

[translated by W. S. Merwin]

The man from up-country talking

The man from up-country disguises his talk:
the words out of him like wrapped-up candy
(candy words, pills) in the icing
of a smooth intonation, sweetened.
While under the talk the core of stone
keeps hardening, the stone almond
from the rocky tree back where he comes from:
it can express itself only in stone.

2.

That’s why the man from up-country says little:
the stone words ulcerate the mouth
and it hurts to speak in the stone language;
those to whom it’s native speak by main force.
Furthermore, that’s why he speacks slowly:
he has to take up the words carefully,
he has to sweeten them with his tongue, candy them;
well, all this work takes time.
____________________
An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut — USA; João Cabral de Melo Neto (1920  1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Carlos Drummond de Andrade: Infância

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____________________
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz urna voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala  e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
 Psiu . . . Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro . . . que fundo!

La longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Alguma Poesia — 1930

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Carlos Drummond de Andrade

[Translated by Elizabeth Bishop]

Infancy

My father got on his horse and went to the field.
My mother stayed sitting and sewing.
My little brother slept.
A small boy alone under the mango trees,
I read the story of Robinson Crusoe,
the long story that never comes to an end.

At noon, white with light, a voice that had learned
lullabies long ago in the slave-quarters  and never  forgot 
called us for coffee.
Coffee blacker than the black old woman
delicious coffee
good coffee.

My mother stayed sitting and sewing
watching me:
Shh  don't wake the boy.
She stopped the cradle when a mosquito had lit
and gave a sigh . . . how deep!
Away off there my father went riding
through the farm's endless wastes.

And I didn't know that my story
was prettier than that of Robinson Crusoe.
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An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut — USA; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo; sua obra:  Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos PoemasClaro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...