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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]
Diante dessa dor curvam-se os montes,
O grande rio já não corre,
Mas são fortes as trancas das prisões,
E atrás delas os “covis de forçados”*.
E uma angústia mortal.
Para quem sopra a vida leve,
A quem enternece o pôr-do-sol —**
Não sabemos, por toda parte iguais,
Ouvimos só o hediondo estridor das chaves
E os passos pesados dos soldados.
Levantávamos como para a missa da manhã,
Íamos pela cidade embrutecida,
Nos víamos lá, mais exânimes que os mortos,
O sol mais baixo e mais nublado o Nieva,
Mas a esperança ainda cantando ao longe.
A sentença... E as lágrimas irrompem,
De todos já afastada,
A vida arrancada do coração aos gritos.
Derrubada de costas, brutalmente,
Mas ela anda... Cambaleia... Só...
Onde estão as amigas prisioneiras
Dos meus dois anos de inferno?***
O que eles vêem na tormenta siberiana,
O que tremeluz no halo da lua?
A elas, meu adeus de despedida.
Março 1940.
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| Ana Akhmátova |
ПОСВЯЩЕНИЕ
Перед этим горем гнутся горы,
Не течет великая река,
Но крепки тюремные затворы,
А за ними «каторжные норы»
И смертельная тоска.
Для кого-то веет ветер свежий,
Для кого-то нежится закат —
Мы не знаем, мы повсюду те же,
Слышим лишь ключей постылый скрежет
Да шаги тяжелые солдат.
Подымались как к обедне ранней.
По столице одичалой шли,
Там встречались, мертвых бездыханней,
Солнце ниже и Нева туманней,
А надежда все поет вдали.
Приговор... И сразу слезы хлынут,
Ото всех уже отделена,
Словно с болью жизнь из сердца вынут,
Словно грубо навзничь опрокинут,
Но идет… шатается… одна…
Где теперь невольные подруги
Двух моих осатанелых лет?
Что им чудится в сибирской вьюге,
Что мерещится им в лунном круге?
Им я шлю прощальный свой
привет.
Март 1940
Notas dos tradutores:
* A expressão foi retirada da penúltima quadra do poema “Voglubiné
Sibírskikh rud” (“No fundo das minas siberianas”), espécie de carta em verso
escrita por Púchkin em 1827 aos “decabristas” exilados pelo czar Nicolau I,
exortando-os a resistir à provação e prevendo tempos melhores. A quadra é a seguinte:
O amor e a amizade a vós
Virão atravessando obscuros cadeados,
Como a vossos covis de forçados,
Chega minha livre voz.
A diferença de tom entre a carta de Púchkin e a dedicatória de Akhmátova
é, entretanto, patente. No primeiro caso, a voz do poeta incita à coragem, no
segundo ela é tão-somente um adeus.
** Essas duas linhas, inciadas por uma anáfora inesperadamente primária,
são, de acordo com Susan Amert (cf. Akhmatova’s “Song of the motherland”:
rereading the opening texts of Rekviem.
Slavic Rewiew, 49, n. 3, 1990), uma paródia de dois versos semelhantes de Pesnia o rodine (Canção da pátria)
(1935), composição de Vassíli Lebedev-Kumach, famosa nos tempos de Stálin:
Nad stranói vesénnii véter véet,
S kájdim dniom vse rádostnee jit’.
Por sobre a pátria sopra o vento primaveril,
A cada dia viver é mais alegre.
Assim, como a segunda linha da dedicatória de Akhmátova, “O grande rio
já não corre”, seria uma alusão subversiva de “Tochno Volga pólnaia, tetchót”
(“Qual Volga caudaloso, corre”), da mesma canção do autor citado.
*** As duas linhas ecoam o começo do poema de Púchkin, escrito em 1826,
“Nianie” (“À babá”) — “Podruga dnei moickh suróvikh” (“Amiga de meus dias
sombrios”) — dedicado a Arina Rodiônovna, babá do poeta, inspiradora e fiel
companheira do exílio em Mikháilovskoie, onde Púchkin permaneceu dois anos, sob
a tutela política do pai.
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi
Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição
bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana
Akhmatóva (1889 — 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo
Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos,
inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se
para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer
(1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI
(1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas,
1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi
publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a
poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para
circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União
Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana
Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.