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Chove
sobre a cidade
e a chuva
inunda o asfalto, difunde o desastre e o desencontro
e procura
abater as palmeiras que do fim da tarde
queriam
apenas — graça plena — as estrelas.
Os
trovões reboam, espantando os pássaros
que
vieram refugiar-se no meu quarto.
Os
relâmpagos, fotógrafos do absoluto, iluminam as pessoas que
passam
— são
outros rostos, minha irmã, são as faces
revoltadas
porque as divindades impossibilitaram os idílios,
a chegada
pontual a uma casa, o já adiado trespasse com o inefável.
As
sarjetas recebem finalmente a Poesia. Como são belos
e nítidos
os barcos de papel
que
navegam buscando os reinos fantásticos, os inacessíveis!
A chuva
tem uma canção. Jamais uma elegia
para
saudar sua gentileza. Jamais uma ode,
um
himeneu, uma écloga deploratória.
Meu
irmão, deixa que a goteira molhe tuas últimas
poesias. Pouco
importa que amanhã te reconcilies com os grandes
temas poéticos.
O amanhã
é inconsumível. A chuva te ensina
a ser
invariável sem se repetir.
La pluie
sur la ville
Il pleut sur la ville
et la
pluie inonde la chaussée, répand le désastre
et le
manque de rencontre
et elle
cherche à abattre les palmiers qui à la fin de l’aprés-midi
voulaient
à peine — grâce pleine — les étoiles.
Le
tonerre retentit, em épouvantant les oiseaux
qui sont
venus se réfugier dans ma chambre.
Les
éclairs, photographes de l’absolu, illuminent les gens qui passent
— ce sont d’autres visages, ma soeur, ce sont
les faces
révoltées
parce que les divinités ont rendu impossibles les idylles,
l’arrivée à l’heure dans une maison, le dejà ajourné
transperce
l’ineffable.
Les rigoles d’écoulements reçoivent finalement la
Poésie. Comme ils sont beaux
et nets
les bateaux en papiers
qui
naviguent en cherchant les règnes fantastiques, les inaccessibles!
La pluie
a une chanson. Jamais une élégie
pour
saluer sa gentillesse. Jamais une ode,
un
hyménée, une églogue qui déplore.
Mon
frère, laisse la gouttière tremper tes dernières
poésies. Peu
importe que demain tu te reconcilies avec les grands
thèmes poétiques.
Le
lendemain n’est pas consommable. La pluie t’enseigne
à
être invariable sans se répéter.
* Nota da edição: Poema compilado
por Henrique Alves / Poème compilé par Henrique Alves
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Chemins Scabreux — revue littéraire
bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion
de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores:
Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris
— França; Lêdo Ivo (1924 — 2012), alagoano de Maceió,
foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em
1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional
de Direito — hoje UFRJ —, passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar
como jornalista; bibliografia: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945),
Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano
(1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças
(romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade
(ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio,
1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio — apresentação,
seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do
General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque
(crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio,
1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia,
1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990),
O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995),
e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados
em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias,
teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco
e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.