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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Paul Éluard: Domingo à tarde

 
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[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge}

Enlaçavam-se os domínios arqueados de uma aurora cinzenta, num país cinzento, sem paixão, tímido.

Enlaçavam-se os céus implacáveis, os mares proibidos, as terras estéreis.

Enlaçavam-se os galopes incansáveis de cavalos magros, as ruas onde já não passavam os carros, os cães e os gatos moribundos.

Aureolavam-se de encantadora palidez as mulheres, as crianças de sentidos límpidos.

Aureolavam-se as aparências, os dias infindáveis, dias sem luz, as noites absurdas.

Aureolava-se a esperança de uma neve definitiva, marcando na fronte o ódio.

Adensavam-se os astros, adelgavam-se os lábios, alargavam-se as frontes como mesas inúteis.

Curvavam-se os cumes acessíveis, adoçavam-se os mais insípidos tormentos, comprazia-se a natureza numa única função.

Respondiam-se os mudos, escutavam-se os surdos, olhavam-se os cegos.

Nestes domínios confundidos onde até as lágrimas só se miravam em espelhos lamacentos, neste país eterno que reunia os países futuros, neste país onde o sol ia sacudir as suas cinzas.

Paul Éluard

Dimanche après-midi

S'enlaçaient les domaines voûtés d'une aurore grise dans un pays gris, sans passions, timide,

S'enlaçaient les cieux implacables, les mers interdites, les terres stériles,

S'enlaçaient les galops inlassables de chevaux maigres, les rues où les voitures ne passaient plus, les chiens et les chats mourants,

S'auréolaient de pâleur charmante les femmes, les enfants et les malades aux sens limpides,

S'auréolaient les apparences, les jours sans fin, jours sans lumière, les nuits absurdes,

S'auréolait l'espoir d'une neige définitive, marquant au front la haine,

S'épaississaient les astres, s'amincissaient les lèvres, s'élargissaient les fronts comme des tables inutiles,

Se courbaient les sommets accessibles, s'adoucissaient les plus fades tourments, se plaisait la nature a ne jouer qu'un rôle,

Se répondaient les muets, s'écoutaient les sourds, se regardaient les aveugles

Dans ces domaines confondus où même les larmes n'avaient plus que des miroirs boueux, dans ce pays éternel qui mêlait les pays futurs, dans ce pays où le soleil allait secouer ses cendres.

(Le Livre ouvert — 1940-1942)
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Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, bilíngue, Organização, Seleção e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, ou Paul Eugène Grindel, francês de Saint-Denis, subúrbio parisiense, ainda adolescente contraiu tuberculose, teve que interromper seus estudos, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; em 1914, foi “mobilizado” para a Primeira Guerra Mundial e atuou como enfermeiro militar; o poeta também lutou na segunda grande guerra; desde 1926, ele e a maioria dos surrealistas haviam se filiado ao Partido comunista francês, mas, mesmo Éluard sendo expulso depois, nunca deixou de marcar presença e apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée(Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; suas obras: Premiers poèmes (1913), De devoir et l’inquiétude (1917), Poèmes pour la paix (1918), Les animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La dame de carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’amour la poésie (1929), À toute épreuve (1930), La vie immédiate (1932), La rose publique (1934), Facile (1935), Les yeux fertiles (1936), Évidence poétique habitude de la poésie (1937), Cours naturel (1938), Le livre ouvert (1940-1942), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1942-1945), Le lit la table (1944), Une longue réflexion amoureuse (1945), Le dur désir de durer (1946), Poésie ininterrompue (1946), Corps mémorable (1948), Une leçon de morale (1949), Ode a Staline (1950), Le phénix (1951), Picasso (dessins, 1952), Poésie ininterrompue (1953); teve poemas adaptados e musicados por mais de um compositor; Paul Éluard teve relação conturbada com Gala (Elena Ivanovna Diakonova), jovem russa que havia conhecido em 1913 em um sanatório suíço, que se tornara sua musa, e com quem se casou em 1916; em 1930, Gala o deixou, e se uniu a Salvador Dali; após isso, Eluárd teve outras duas musas: Maria Benz, apelidada de "Nusch", uma artista de music hall de origem alsaciana, que veio a morrer algum tempo depois, e Dominique (Odette Lemort), francesa que havia conhecido em um Congresso da Paz, no México, e com ambas também se casou.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Paul Éluard: Para nunca mais estarem sós

 
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[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge}

Como uma vaga de escuros pássaros dançavam na noite
E todos os corações eram puros
Já não se distinguiam
Quais eram os rapazes quais as raparigas

Traziam todos a espingarda às costas

De mãos dados dançavam e cantavam
Uma ária antiga e nova uma ária de liberdade
E a sombra iluminava-se flamejava

O inimigo tinha adormecido

E o eco repetia o seu amor à vida
E a sua juventude era como uma praia imensa
Onde o mar vem oferecer todos os beijos do mundo

Só alguns tinham visto o mar

No entanto viver bem é uma viagem sem fronteiras
Eles viviam bem vivendo uma com os outros e para os seus irmãos
Seus irmãos de todo o mundo e com eles sonhavam alto

E a montanha estendia-se para a planície e para a praia
Reproducindo os seus sonhos e a sua louca conquista
A mão correndo para as mãos mesmo a nascente para o mar.

Paul Éluard

Pour ne plus être seuls

Comme un flot d’oiseaux noirs ils dansaient dans la nuit
Et leur cœur était pur on ne voyait plus bien
Quels étaient les garçons quelles étaient les filles

Tous avaient leur fusil au dos

Se tenant par la main ils dansaient ils chantaient
Un air ancien nouveau un air de liberté
L’ombre en était illuminée elle flambait

L’ennemi s’était endormi

Et l’écho répétait leur amour de la vie
Et leur jeunesse était comme une plage immense
Où la mer vient offrir tous les baisers du monde

Peu d’entre eux avaient vu la mer

Pourtant bien vivre est un voyage sans frontières
Ils vivaient bien vivant entre eux et pour leurs frères
Leurs frères de partout ils en rêvaient tout haut

Et la montagne allait vers la plaine et la plage
Reproduisant leur rêve et leur folle conquête
La main allant aux mains comme source à la mer.

[Juin 1949]
(Une leçon de morale — 1949)
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Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, bilíngue, Organização, Seleção e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, ou Paul Eugène Grindel, francês de Saint-Denis, subúrbio parisiense, ainda adolescente contraiu tuberculose, teve que interromper seus estudos, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; em 1914, foi “mobilizado” para a Primeira Guerra Mundial e atuou como enfermeiro militar; o poeta também lutou na segunda grande guerra; desde 1926, ele e a maioria dos surrealistas haviam se filiado ao Partido comunista francês, mas, mesmo Éluard sendo expulso depois, nunca deixou de marcar presença e apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée (Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; suas obras: Premiers poèmes (1913), De devoir et l’Inquiétude (1917), Poèmes pour la paix (1918), Les animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La dame de carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’amour la poésie (1929), À toute épreuve (1930), La vie immédiate (1932), La rose publique (1934), Facile (1935), Les yeux fertiles (1936), Évidence poétique habitude de la poésie (1937), Cours naturel (1938), Le livre ouvert (1940-1942), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1942-1945), Le lit la table (1944), Une longue réflexion amoureuse (1945), Le dur désir de durer (1946), Poésie ininterrompue (1946), Corps mémorable (1948), Une leçon de morale (1949), Ode a Staline (1950), Le phénix (1951), Picasso (dessins, 1952), Poésie ininterrompue (1953); teve poemas adaptados e musicados por mais de um compositor; Paul Éluard teve relação conturbada com Gala (Elena Ivanovna Diakonova), jovem russa que havia conhecido em 1913 em um sanatório suíço, que se tornara sua musa, e com quem se casou em 1916; em 1930, Gala o deixou, e se uniu a Salvador Dali; após isso, Eluárd teve outras duas musas: Maria Benz, apelidada de "Nusch", uma artista de music hall de origem alsaciana, que veio a morrer algum tempo depois, e Dominique (Odette Lemort), francesa que havia conhecido em um Congresso da Paz, no México, e com ambas também se casou.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Paul Éluard: Identidades

 
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[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]

a Dora Maar

Vejo os campos e o mar cobertos por um dia igual
Não há diferenças
Entre a areia que dormita
O machado à beira da ferida
O corpo em feixe desatado
E o vulcão da saúde

Vejo mortal e boa
O orgulho que retira o seu machado
E o corpo que respira a plenos desdéns sua glória
Vejo mortal e desolada
A areia que volta ao leito de partida
E a saúde que tem sono
O vulcão palpitante como um coração desvendado
E as barcas respigadas pelos ávidos pássaros
As festas sem reflexos as dores sem eco
Frontes olhos atormentados pelas sombras
Risos como encruzilhadas
Os campos o mar o tédio torres silenciosas sem fim
Vejo leio esqueço
O livro aberto das minhas janelas fechadas


Identités

à Dora Maar

Je vois les champs la mer couverts d'un jour égal
Il n'y a pas de différences
Entre le sable qui sommeille
La hache au bord de la blessure
Le corps en gerbe déployée
Et le volcan de la santé

Je vois mortelle et bonne
L'orgueil qui retire sa hache
Et le corps qui respire á pleins dédains sa gloire
Je vois mortelle et désolée
Le sable qui revient á son lit de départ
Et la santé qui a sommeil
Le volcan palpitant comme un coeur dévoilé
Et les barques glanées par des oiseaux avides
Les fétes sans reflet les douleurs sans écho
Des fronts des yeux en proie aux ombres
Des rires comme des carrefours
Les champs la mer I'ennui tours silencieuses tours sans fin
Je vois je lis j'oublie
Le livre ouvert de mes volets fermés.

[Cours naturel — 1938)
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Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, bilíngue, Organização, Seleção e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, ou Paul Eugène Grindel, francês de Saint-Denis, subúrbio parisiense, ainda adolescente contraiu tuberculose, teve que interromper seus estudos, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; em 1914, foi “mobilizado” para a Primeira Guerra Mundial e atuou como enfermeiro militar; o poeta também lutou na segunda grande guerra; desde 1926, ele e a maioria dos surrealistas haviam se filiado ao Partido comunista francês, mas, mesmo Éluard sendo expulso depois, nunca deixou de marcar presença e apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée(Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; suas obras: Premiers poèmes (1913), De devoir et l’inquiétude (1917), Poèmes pour la paix (1918), Les animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La dame de carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’amour la poésie (1929), À toute épreuve (1930), La vie immédiate (1932), La rose publique (1934), Facile (1935), Les yeux fertiles (1936), Évidence poétique habitude de la poésie (1937), Cours naturel (1938), Le livre ouvert (1940-1942), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1942-1945), Le lit la table (1944), Une longue réflexion amoureuse (1945), Le dur désir de durer (1946), Poésie ininterrompue (1946), Corps mémorable (1948), Une leçon de morale (1949), Ode a Staline (1950), Le pPhénix (1951), Picasso (dessins, 1952), Poésie ininterrompue (1953); teve poemas adaptados e musicados por mais de um compositor; Paul Éluard teve relação conturbada com Gala (Elena Ivanovna Diakonova), jovem russa que havia conhecido em 1913 em um sanatório suíço, que se tornara sua musa, e com quem se casou em 1916; em 1930, Gala o deixou, e se uniu a Salvador Dali; após isso, Eluárd teve outras duas musas: Maria Benz, apelidada de "Nusch", uma artista de music hall de origem alsaciana, que veio a morrer algum tempo depois, e Dominique (Odette Lemort), francesa que havia conhecido em um Congresso da Paz, no México, e com ambas também se casou.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Paul Éluard: Ó meus irmãos contrários . . .

 
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[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]

Ó meus irmãos contrários que guardais nas vossas pupilas
A noite infusa e o seu horror
Onde vos deixei eu
Com vossas pesadas mãos no azeite preguiçoso
Dos vossos actos antigos
Com tão pouca esperança que a morte tem razão
Ó meus irmãos perdidos
Eu vou para a vida tenho aparência de homem
Para provar que o mundo é feito à minha medida

E não estou só
Mil imagens de mim multiplicam a luz
Mil olhares semelhantes igualam a carne
É a ave é a criança é a rocha é a planície
Que se misturam a nós
O ouro desata a rir ao ver-se fora do abismo
A água o fogo despem-se por uma única estação
Já não há eclipse na fronte do universo.

Paul Éluard

Ó mes frères contraires . . .

Ô mes frères contraires gardant dans vos prunelles
La nuit infuse et son horreur
Où vous ai-je laissés
Avec vos lourdes mains dans l’huile paresseuse
De vos actes anciens
Avec si peu d’espoir que la mort a raison
Ô mes frères perdus
Moi je vais vers la vie j’ai l’apparence d’homme
Pour prouver que le monde est fait à ma mesure

Et je ne suis pas seul
Mille images de moi multiplient ma lumière
Mille regards pareils égalisent la chair
C’est l’oiseau c’est l’enfant c’est le roc c’est la plaine
Qui se mêlent à nous
L’or éclate de rire de se voir hors du gouffre
l’eau le feu se dénudent pour une seule saison
Il n’y a plus d’éclipse au front de l’univers.

[Cours naturel —  1938)
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Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, bilíngue, Organização, Seleção e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, ou Paul Eugène Grindel, francês de Saint-Denis, subúrbio parisiense, ainda adolescente contraiu tuberculose, teve que interromper seus estudos, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; em 1914, foi “mobilizado” para a Primeira Guerra Mundial e atuou como enfermeiro militar; o poeta também lutou na segunda grande guerra; desde 1926, ele e a maioria dos surrealistas haviam se filiado ao Partido comunista francês, mas, mesmo Éluard sendo expulso depois, nunca deixou de marcar presença e apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée(Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; suas obras: Premiers poèmes (1913), De devoir et l’Inquiétude (1917), Poèmes pour la paix (1918), Les animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La dame de carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’amour la poésie (1929), À toute épreuve (1930), La vie immédiate (1932), La rose publique (1934), Facile (1935), Les yeux fertiles (1936), Évidence poétique habitude de la poésie (1937), Cours naturel (1938), Le livre ouvert (1940-1942), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1942-1945), Le lit la table (1944), Une longue réflexion amoureuse (1945), Le dur désir de durer (1946), Poésie ininterrompue (1946), Corps mémorable (1948), Une leçon de morale (1949), Ode a Staline (1950), Le phénix (1951), Picasso (dessins, 1952), Poésie ininterrompue (1953); teve poemas adaptados e musicados por mais de um compositor; Paul Éluard teve relação conturbada com Gala (Elena Ivanovna Diakonova), jovem russa que havia conhecido em 1913 em um sanatório suíço, que se tornara sua musa, e com quem se casou em 1916; em 1930, Gala o deixou, e se uniu a Salvador Dali; após isso, Eluárd teve outras duas musas: Maria Benz, apelidada de "Nusch", uma artista de music hall de origem alsaciana, que veio a morrer algum tempo depois, e Dominique (Odette Lemort), francesa que havia conhecido em um Congresso da Paz, no México, e com ambas também se casou.

domingo, 11 de abril de 2021

Paul Éluard: E um sorriso

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[traduzido por Cláudia Longhi Farina]

A noite nunca está completa
Há sempre já que o digo
Já que o afirmo
No fim da tristeza uma janela aberta
Uma janela iluminada
Há sempre um sonho que vela
Desejo a satisfazer fome a saciar
Um coração generoso
Uma mão estendida uma mão aberta
Uns olhos atentos
Uma vida a vida a se partilhar.

Paul Éluard

Et un sourire

La nuit n’est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l’affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un cœur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.

(Le Phénix, 1951.)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, francês de Saint-Denis, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; ainda com 16 anos de idade, ao contrair tuberculose, teve que interromper seus estudos; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Raye Chagall, atuantes na vida cultural francesa e européia da época; bibliografia: Premiers poèmes (1913), De Devoir (1916), Les Animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’Amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La Dame de Carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’Amour la Poésie (1930), À toute é preuve (1930), La Vie immédiate (1932), La Rose publique (1934), Facile (1935), L’Évidence Poétique Habitude de la Poésie (1937), Cours naturel (1938), La victoire de Guernica (1938), Le Livre ouvert (1941), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1944), Le lit la table (1944), Poésie ininterrompue (1946), Ode à Staline (1950), Le Phénix (1951), Picasso (dessins, 1952) e outros títulos; o poeta lutou tanto na primeira quanto na segunda grande guerra mundial; filiou-se ao partido comunista francês, mas, sendo excluído depois, nunca deixou de apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée’ (Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

José Paulo Paes: Eluardiana

 
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uma criança ri na clareira dos tempos
um pássaro voa mais alto do que o céu
no cofre sem portas o azinhavre cobre
pilhas de moedas que ninguém mais quer

pelas ruas há vestígios de combate
grilhões sem prisioneiro crepúsculos no chão
o rato rói o rei descoroado
num bosque que se chama solidão

enquanto lava os feridos da culpa
a inocência penteia-lhe os cabelos
faça sol faça chuva a luz não pára
de acender o fundo dos espelhos

a geometria irmã da liberdade
ensina a árvore a pular o muro
cansado de esperar revolta-se o relógio
e começa a marcar as horas do futuro

como o papel recuse confidências
a poesia liberta-se afinal
do poeta e a nudez vencedora
revoga a aporia do bem e do mal

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Um ironismo como outro qualquer: A ironia na poesia de José Paulo Paes — João Carlos Biella, Prefácio de Sylvia Helena Telarolli de Almeida Leite, 2008, Editora UNESP, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; escreveu e publicou: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Paul Éluard: A alvorada dissolve os monstros

 
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[traduzido por Cláudia Longhi Farina]

Ignoravam
Que a beleza do homem é maior do que o homem

Viviam para pensar pensavam para calar-se
Viviam para morrer eles eram inúteis
Recobravam a inocência na morte

Tinham posto em ordem
Sob o nome de riqueza
Sua miséria sua bem-amada

Mascavam flores e sorrisos
Coração só encontravam na ponta dos seus fuzis

Não compreendiam as injúrias dos pobres
Dos pobres reunidos amanhã

Sonhos sem sol os tornavam eternos
Mas para que a nuvem virasse lama
Desciam não faziam mais frente ao céu

Toda noite deles sua morte sua bela sombra miséria
Miséria para os outros

Esqueceremos esses inimigos indiferentes
E logo uma multidão
Repetirá a chama clara com a voz bem doce
A chama para nós dois só para nós paciência
Para nós dois em toda a parte o beijo dos vivos.

Paul Éluard

L'aube dissout les monstres

Ils ignoraient
Que la beauté de l'homme est plus grande que l'homme

Ils vivaient pour penser ils pensaient pour se taire
Ils vivaient pour mourir ils étaient inutiles
Ils recouvraient leur innocence dans la mort

Ils avaient mis en ordre
Sous le nom de richesse
Leur misère leur bien-aimée

Ils mâchonnaient des fleurs et des sourires
Ils ne trouvaient de cœur qu'au bout de leur fusil

Ils ne comprenaient pas les injures des pauvres
Des pauvres sans soucis demain

Des rêves sans soleil les rendaient éternels
Mais pour que le nuage se changeât en boue
Ils descendaient ils ne faisaient plus tête au ciel

Toute leur nuit leur mort leur belle ombre misère
Misère pour les autres

Nous oublierons ces ennemis indifférents
Une foule bientôt
Répétera la claire flamme à voix très douce
La flamme pour nous deux pour nous seuls patience
Pour nous deux en tout lieu le baiser des vivants.

(Le lit la table — 1944)
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, francês de Saint-Denis, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; ainda com 16 anos de idade, ao contrair tuberculose, teve que interromper seus estudos; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Raye Chagall, atuantes na vida cultural francesa e européia da época; bibliografia: Premiers poèmes (1913), De Devoir (1916), Les Animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’Amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La Dame de Carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’Amour la Poésie (1930), À toute é preuve (1930), La Vie immédiate (1932), La Rose publique (1934), Facile (1935), L’Évidence Poétique Habitude de la Poésie (1937), Cours naturel (1938), La victoire de Guernica (1938), Le Livre ouvert (1941), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1944), Le lit la table (1944), Poésie ininterrompue (1946), Ode à Staline (1950), Le Phénix (1951), Picasso (dessins, 1952) e outros títulos; o poeta lutou tanto na primeira quanto na segunda grande guerra mundial; filiou-se ao partido comunista francês, mas, sendo excluído depois, nunca deixou de apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée’ (Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Paul Éluard: De um e de dois, de todos

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[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]

Sou o espectador o actor e o autor
Sou a mulher o marido e o filho
E o primeiro amor e o derradeiro amor
E o furtivo transeunte e o amor confundido

E de novo a mulher seu leito e seu vestido
E seus braços partilhados e o trabalho do homem
E seu prazer em flecha e a fêmea ondulação
Simples e dupla a carne nunca se exila

Pois onde começa um corpo ganho eu forma e consciência
E mesmo quando na morte um corpo se desfaz
Eu repouso em seu cadinho desposo o seu tormento
Sua infâmia me honra o coração e a vida.

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Paul Éluard

D’un et de deux, de tous

Je suis le spectateur et l'acteur et l'auteur
Je suis la femme et son mari et leur enfant,
Et le premier amour et le dernier amour,
El la passant furtif et l’amour confondu.

Et de nouveu la femme et son lit et sa robe,
Et ses bras partagés et le travail de l’homme,
Et son plaisir en flèche et la houle femelle.
Simple et double, ma chair n’est jamais en exil.

Car, où commence un corps, je prends forme et conscience.
Et, même quand un corps se défait dans la mort,
Son infamie honore et mon coeur et la vie.

(Corps memorable — 1948)
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Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, Organização e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, edição bilíngue, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, francês de Saint-Denis, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; ainda com 16 anos de idade, ao contrair tuberculose, teve que interromper seus estudos; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; bibliografia: Premiers poèmes (1913), De Devoir (1916), Les Animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’Amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La Dame de Carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’Amour la Poésie (1930), À toute épreuve (1930), La Vie immédiate (1932), La Rose publique (1934), Facile (1935), L’Évidence Poétique Habitude de la Poésie (1937), Cours naturel (1938), La victoire de Guernica (1938), Le Livre ouvert (1941), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1944), Le lit la table (1944), Poésie ininterrompue (1946), Ode à Staline (1950), Le Phénix (1951), Picasso (dessins, 1952) e outros títulos; o poeta lutou tanto na primeira quanto na segunda grande guerra mundial; filiou-se ao partido comunista francês, mas, sendo excluído depois, nunca deixou de apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée’ (Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada.