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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Afonso Schmidt: Simpatia

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Numa tarde longa e mansa,
os dois pela estrada vão:
o cão estima a criança
e a criança estima o cão.

Que delicada aliança
dos seres da criação:
uma risonha criança,
um robustíssimo cão.

Deus percebeu a lembrança
e sorriu lá na amplidão:
ele gosta da criança
que trata bem o seu cão.

Por isso, na tarde mansa,
os dois, felizes, lá vão:
a delicada criança
e o robustíssimo cão.

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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, não concluiu o curso primário, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; Afonso Schmidt, por vezes, assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Fagundes Varela: Cantiga

 
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[Poesia cantada em qualquer ária e geralmente dividida em estrofes iguais. Na sua forma tradicional é composta de quadras para cantar.]

Viajante que deixaste
As ondas do Panamá.
Vela1 ao entrares no porto
Aonde o gigante está.

Ele dorme, dorme, dorme,
Mas nem sempre dormirá,
Basta um bafejo, um sussurro,
Que o gigante acordará.

Viste as montanhas e os vales
Daquelas terras de lá,
Talvez as veigas da Itália
E as rosas de Bagdá.

Mas uma plaga como está
Nunca enxergaste quiçá2,
Viajante que deixaste
As ondas do Panamá!

Contempla os índios valentes
Das florestas do Pará,
Escuta os sons das cascatas
E os cantos do sabiá.

Curva-te ao guarda soberbo
que junto da barra está,
mede as vagas do Amazonas
E os campos do Paraná.

Colhe do rio nas margens
As brancas flores do ingá,
Dorme à sombra majestosa
Do excelso jequitibá.

Volta depois a teus lares,
Conta o que viste por cá,
Viajante que deixaste
As ondas do Panamá!

Mas olha que junto ao porto
Soberbo gigante está,
Ele dorme, dorme, dorme,
mas nem sempre dormirá.

[Vozes da América — 1864]


Notas da edição deste Poesia Brasileira para a Infância... — Vocabulário:
1. Velar — Vigiar;
2. Quiçá — Talvez.
Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Em 60 Poetas Trágicos [L&PM Editores, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca de Fagundes Varela:
“[...] se casou com uma artista de circo, escandalizando sua família conservadora. Com a morte prematura do filho, a má saúde da esposa e as agruras da subsistência, recorreu ao álcool e sua vida se desregrou. Em 1865, o pai o enviou para Recife e lá cursou o 3º ano do Direito, mas com a morte da esposa, que ficara em São Paulo, retornou e, entre uma bebedeira e outra, inscreveu-se no 4º ano. Logo desistiu e, em 1866, voltou a morar com os pais. Em 1869 casou-se com uma prima, com a qual teve duas meninas e outro menino, que também faleceu. Já residia em Niterói, onde morreria aos 33 anos de apoplexia. Nome celebrado de nosso romantismo, era um poeta eclético. Segundo o professor Celso Luft, era naturista e indianista como Gonçalves Dias, byroniano como Álvares Penteado e poeta social como Castro Alves.”
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 1875), nascido em Rio Claro RJ, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Direito de Recife, abandonou os estudos no 4º ano, foi poeta romântico e boêmio inveterado; é considerado um dos expoentes da poesia brasileira em seu tempo (terceira geração do Romantismo); obras poéticas: Noturnas (1860), Vozes da América (1864), Pendão Auri-verde (poemas patrióticos), Cantos e Fantasias (1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou O Evangelho nas Selvas (publicação póstuma, 1875), Obras Completas — 3 volumes (1886?, Editora Garnier, Le Havre França); morreu de alcoolismo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Ascenso Ferreira: A cavalhada

 
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Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…

                 Roxas,
                        verdes,
                                brancas,
                                        azuis,

Alegria nervosa de bandeirinhas trêmulas!
Bandeirinhas de papel bulindo no vento!…
Foguetes do ar…

"De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai começar!"

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…

                 Roxas,
                        verdes,
                                brancas,
                                        azuis…

Lá vem Papa-Légua em toda carreira
e vem com os arreios luzindo no sol!
Danou-se! Vai tirar a argolinha!
Pra quem será?

Lá vem Pé-de-Vento!
Lá vem Tira-Teima!
Lá vem Fura-Mundo!
Lá vem Sarará!

Passou lambendo!
Se tivesse cabelo tirava!…
Andou beirando!…
Tirou!!!

Música, seu mestre!

Foguetes, moleque!
Palmas, negrada!
Tiraram a argolinha!
Foi Sarará!

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…

                 Roxas,
                        verdes,
                                brancas,
                                        azuis…

Viva a cavalhada!
Vivoôôô!!!
“De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai terminar!”


* Nota da edição — Vocabulário:
Cavalhada — Desfile a cavalo, corrida de cavaleiros, jogo de canas, jogo de argolinhas ou de manilha (**). O autor assistiu em Bebedouro, arredores de Maceió, Alagoas, janeiro de 1952, a uma cavalhada. “Os cavaleiros, sempre em número par, vestem branco, e os prêmios simbólicos são faixas de fazendas vistosas, na maioria azuis e encarnadas, cores que dividem as duas alas. Cada ala tem o seu maquinador, reminiscência do “mantenedor” clássico. O maquinador da direita é do cordão encarnado, e denomina-se Roldão obrigatoriamente, e o da esquerda, do azul, Oliveiros. Depois da corrida de argolinhas, os cavaleiros em ordem foram render graças diante da Capela, etc.”.
(**) Do “Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895 1965), pernambucano de Palmares, Zona da Mata, foi funcionário público, poeta, letrista-compositor, declamador e cantador dos próprios versos; em 1911, publicou seu primeiro poema ‘Flor fenecida’ no jornal A Notícia, de Palmares e, depois, colaborou com o Diário de Pernambuco e outros jornais; participou do Movimento Modernista de Pernambuco; suas obras: Catimbó (1927), Cana Caiana (1939), Xenhenhém (1951), Poemas 1922 — 1951 (1951), O Maracatu (publicação póstuma, 1986) ...; como letrista, teve poemas musicados por Heitor Villa Lobos (O Trem de Alagoas), Alceu Valença (Vou danado pra Catende, refrão de ‘O trem de Alagoas’), Hekel Tavares (Chove chuva!), Capiba (Onde o sol descamba) e outros compositores.

domingo, 3 de agosto de 2025

Ricardo Gonçalves: Cromo

 
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A casa onde mora aquela
Menina cor de açucena
É uma casinha pequena,
Casa de porta e janela.

Tão pequenina e singela!
Ao vê-la, a idéia me acena
De quebrar o bico à pena
E fazer uma aquarela! *

Pintar a casa, a colina...
Mas, sobretudo a menina,
O ar descuidado e feliz,

Dando relevo à pintura
Numa ridente moldura
De cravos e bogaris.


* Nota da edição  Vocabulário: Aquarela — Pintura com tintas aguadas, e sem sobreposição de umas e outras.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Ricardo Mendes Gonçalves (1893 1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São Paulo, Estadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido à bala no braço; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; o poeta e anarquista também assinou seus textos com os pseudônimos D. Ricardito e Bruno de Cadiz; deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Tasso da Silveira: Rua do Assunguy

 
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Eu vou pela avenida ampla
e longa, e iluminada,
em que há palácios e torres,
e cúpulas1 de ouro erguidas
como as de velha estampa
da infância iluminada,
como as de velha estampa
que tanto me fez sonhar!

Eu vou pela avenida longa,
mas vou indiferente...
Porque no êxtase dos meus olhos,
como numa água morta,
uma beleza mágica
outrora se refletiu...
Outra mais linda imagem
outrora se refletiu...

Oh, não foi assim como esta
uma ampla avenida cheia
de palácios, torres, cúpulas.
Mas uma rua da aldeia
com a luz de um lampião morrente...

Que são estas luzes vivas
da avenida esplandecente2
perto daquele lampião,
que iluminava até o fundo
o grande abismo profundo
da minha imaginação?!...

E a minha ruela humilde
era mais longa... ia além...
Quando a noite se adensava
perdia-se ela na sombra,
uma sombra longa, infinita,
muito longe, para além,

... de onde eu, trêmulo, esperava
as coisas que nunca vêm...


Notas da edição:
1. Cúpulas Parte superior côncava de alguns edifícios;
2. Esplandecente Resplandecente, brilhante.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Tasso Azevedo da Silveira (1895 1968), paranaense e curitibano, fez o estudo secundário no Colégio D. Pedro II, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito da UFRJ), ambos no Rio, foi poeta ‘representante da ala espiritualista’ do modernismo, ensaísta e professor universitário, dedicou-se “principalmente à literatura e ao ensino de literatura”, e trabalhou como diretor de propaganda em “empresa de aviação”; foi cofundador da revista curitibana Fanal, periódico literário do Novo Cenáculo, e participou da Revista Festa, Rio de Janeiro, da qual também foi um dos fundadores; colaborou em várias revistas literárias do Rio e de São Paulo e na luso-brasileira Atlântico; foi professor de Literatura portuguesa na Universidade Católica e na Faculdade Santa Úrsula, ambas no Rio; publicações: em poesia: Fio d’Água (1918), A Alma Heróica dos Homens (1924), Alegorias do Homem Novo (1926), As Imagens Acesas (1928), Cântico do Cristo do Corcovado (1931), Discurso ao Povo Infiel (1933), Puro Canto (1956), em prosa: A Igreja Silenciosa (ensaios, 1922), Alegria Criadora, Definição do Modernismo Brasileiro (crítica literária, 1932), Caminhos do Espírito (ensaios, 1937), Sombras no Caos (romance, 1959), e outros títulos em verso e prosa; em 1957, recebeu o Prêmio Machado de Assis — ABL, pelo conjunto da obra.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Ascenso Ferreira: Folha verde

 
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Folha verde meninice,
deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...

Cavalos correndo,
engenhos moendo,
Japarandubas, Trombetas, Pirangi...
Banhos no rio!
Lavandeiras!
Jangadas de bananeiras!
Pescarias de ovo e de jequi*...

Folha verde! Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...

Os sinos sonoros que falam do céu!
A feira, o mercado, bananas, cajus!
Imbaúbas macias como veludo,
ingás, mais macios do que veludo!

Babá-do-Arroz-Doce, Sá-Biu-dos-Cuscus,
“o home dos caranguejo e dos siri!”

Folha verde! Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...

Lua cheia! Lua-por-do-sol”
desfazendo-se em luar...

Manja Real!
Saltar e pegar!
Boca de forno!
Forno!
Pai do Poço!
Olha a cobra que te morde!
Sai do caminho deixa eu passar!
Vamos brincar de esconder!
Pronto, já me escondi...

Folha verde! Deliciosa meninice das gentes da minha terra,
que eu tanto amei e senti...


* Nota da edição — Vocabulário: Jequi — Cesto para pesca, muito oblongo e afunilado.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895 1965), pernambucano de Palmares, Zona da Mata, foi funcionário público, poeta, letrista-compositor, declamador e cantador dos próprios versos; em 1911, publicou seu primeiro poema ‘Flor fenecida’ no jornal A Notícia, de Palmares e, depois, colaborou com o Diário de Pernambuco e outros jornais; participou do Movimento Modernista de Pernambuco; suas obras: Catimbó (1927), Cana Caiana (1939), Xenhenhém (1951), Poemas 1922 — 1951 (1951), O Maracatu (publicação póstuma, 1986) ...; como letrista, teve poemas musicados por Heitor Villa Lobos (O Trem de Alagoas), Alceu Valença (Vou danado pra Catende, refrão de ‘O trem de Alagoas’), Hekel Tavares (Chove chuva!), Capiba (Onde o sol descamba) e outros compositores.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Henriqueta Lisboa: Pomar

 
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Menino madruga
o pomar não foge!
(Pitangas maduras
dão água na boca).

Menino descalço
não olha onde pisa.
Trepa pelas árvores
agarrando pêssegos.
(Pêssegos macios
como paina e flor.
Dentadas de gosto!)

Menino, cuidado,
jabuticabeiras
novinhas em folha
não aguentam peso.

Rebrilham cem olhos
agrupados, negros.
E as frutas estalam
espuma de vidro
nos lábios de rosa.
Menino guloso!

Menino guloso,
ontem vi um figo
mesmo que um veludo,
redondo, polpudo,
e disse: este é meu!
Meu figo onde está?

Passarinho comeu,
passarinho comeu…

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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Henriqueta Lisboa (1901 1985), mineira de Lambari, ali fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. João Bráulio Júnior, cursou o secundário no Colégio Sion, em Campanha MG, tornou-se catedrática de Literatura Hispano-Americana na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Maria [hoje, PUC Minas], em Belo Horizonte MG, foi poeta, ensaísta, tradutora e professora universitária, dedicando sua vida à poesia e sendo considerada um dos grandes nomes da lírica modernista; a autora manteve-se sempre ativa e em contato com os literatos de sua geração, angariando, assim, muitos leitores ilustres, dentre eles, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Gabriela Mistral; deixou-nos extenso legado de poesias, ensaios, coletâneas e traduções; em 1924, acompanhando os pais, mudou-se para o Rio de Janeiro, ali viveu até 1935 e, depois, outra mudança, agora para Belo Horizonte; escreveu e publicou: em poesia, Fogo-fátuo (1925), Enternecimento (1929), Velário (1936), Prisioneira da noite (1941), O menino poeta (1943), A face lívida (1945), Flor da morte (1949), Madrinha Lua (1952), Lírica (1958) e outros títulos; ensaios: Convívio Poético (1955), Vigília Poética (1968) e Vivência Poética (1979); organizou antologias: Antologia poética para a infância e a juventude (1961 e 1967 [edição ampliada]) e Literatura oral para a infância e a juventude (lendas, contos e fábulas, 1968); pelo seu livro Enternecimento, recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia (1929), e, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis (1984), honrarias concedidas pela ABL Academia Brasileira de Letras; em 1963, foi eleita para a Academia Mineira de Letras, tendo sido a primeira mulher a ocupar uma cadeira ali; lecionou Literatura Hispano-Americana e Literatura Brasileira nas faculdades mineiras Pontifícia Universidade Católica e Universidade Federal; colaborou com várias revistas e jornais mineiros e fluminenses: O Malho, Revista da Semana, A Manhã, O Jornal, revista Kosmos, revista Festa, ...; sua poesia recebeu traduções para o francês, inglês, italiano, espanhol, alemão, latim ...; Henriqueta Lisboa, por sua vez, traduziu obras de Dante Alighieri, Gabriela Mistral e Jorge Guíllen.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Henriqueta Lisboa: Tempestade

 
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Menino, vem para dentro,
olha a chuva lá na serra,
olha como vem o vento!

Ah, como a chuva é bonita
e como o vento é valente!

Não sejas doido, menino,
esse vento te carrega,
essa chuva te derrete!

Eu não sou feito de açúcar
para derreter na chuva.
Eu tenho força nas pernas
para lutar contra o vento!

E enquanto o vento soprava
e enquanto a chuva caía,
que nem um pinto molhado,
teimoso como ele só:

Gosto de chuva com vento,
gosto de vento com chuva!

(Lírica — 1958)

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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Henriqueta Lisboa (1901 1985), mineira de Lambari, ali fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. João Bráulio Júnior, cursou o secundário no Colégio Sion, em Campanha MG, tornou-se catedrática de Literatura Hispano-Americana na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Maria [hoje, PUC Minas], em Belo Horizonte MG, foi poeta, ensaísta, tradutora e professora universitária, dedicando sua vida à poesia e sendo considerada um dos grandes nomes da lírica modernista; a autora manteve-se sempre ativa e em contato com os literatos de sua geração, angariando, assim, muitos leitores ilustres, dentre eles, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Gabriela Mistral; deixou-nos extenso legado de poesias, ensaios, coletâneas e traduções; em 1924, acompanhando os pais, mudou-se para o Rio de Janeiro, ali viveu até 1935 e, depois, outra mudança, agora para Belo Horizonte MG; escreveu e publicou: em poesia, Fogo-fátuo (1925), Enternecimento (1929), Velário (1936), Prisioneira da noite (1941), O menino poeta (1943), A face lívida (1945), Flor da morte (1949), Madrinha Lua (1952), Lírica (1958) e outros títulos; ensaios: Convívio Poético (1955), Vigília Poética (1968) e Vivência Poética (1979); organizou antologias: Antologia poética para a infância e a juventude (1961 e 1967 [edição ampliada]) e Literatura oral para a infância e a juventude (lendas, contos e fábulas, 1968); pelo seu livro Enternecimento, recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia (1929), e, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis (1984), honrarias concedidas pela ABL — Academia Brasileira de Letras; em 1963, foi eleita para a Academia Mineira de Letras, tendo sido a primeira mulher a ocupar uma cadeira ali; lecionou Literatura Hispano-Americana e Literatura Brasileira nas faculdades mineiras Pontifícia Universidade Católica e Universidade Federal; colaborou com várias revistas e jornais mineiros e fluminenses: O Malho, Revista da Semana, A Manhã, O Jornal, revista Kosmos, revista Festa, ...; sua poesia recebeu traduções para o francês, inglês, italiano, espanhol, alemão, latim ...; Henriqueta Lisboa, por sua vez, traduziu obras de Dante Alighieri, Gabriela Mistral e Jorge Guíllen.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Afonso Schmidt: Alegria de menina que gosta de leite de cabra

 
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Quando acorda a corruíra do pessegueiro,
eu acordo também;
é a hora dourada em que passa o cabreiro
com suas cabrinhas tão bonitinhas…
São cerca de quarenta mas, contando bem,
talvez não passem de trinta…
A pintada, aquela que vai correndo na frente
e que não tem medo da gente
é a que leva o guizo alegre que tilinta.
As outras vão correndo atrás,
vão pulando,
vão chifrando,
vão berrando
                    bé, bé, bé…
Eu pego no copo e vou para o portão
chamar o cabreiro:
Seu cabreiro, me tire este copo de leite,
mas quero daquela cabrinha malhada
que leva na boca uma folha dourada.
E o cabreiro chama a cabrinha:
                    bit, bit, bit…
Põe-se a tirar o leite:
puxa que puxa,
espicha que espicha,
escorrupicha…
Mamãe, que me espia sob o pé de brincos-de-princesa,
me fala:
Menina que gosta de leite de cabra vira cabrita!
(mas isso é bobagem, ninguém acredita).
Depois o cabreiro e suas cabrinhas vão
pelas ruas do bairro, encharcadas de sol.

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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), paulista de Cubatão, não concluiu o curso primário, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso em várias ocasiões por expressar o que pensava como ativista libertário; Afonso Schmidt, por vezes, assinava seus textos em A Plebe com o pseudônimo Cottin.

domingo, 6 de abril de 2025

Cecília Meireles: A canção dos tamanquinhos

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Troc... troc... troc... troc…
ligeirinhos, ligeirinhos,
troc... troc... troc. troc…
vão cantando os tamanquinhos…

Madrugada. Troc... troc...
pelas portas dos vizinhos
vão batendo, Troc... troc...
vão cantando os tamanquinhos…

Chove. Troc... troc... troc...
no silêncio dos caminhos
alagados, troc... troc...
vão cantando os tamanquinhos...

E até mesmo, troc... troc...
os que têm sedas e arminhos,
sonham, troc... troc... troc...
com seu par de tamanquinhos…

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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), carioca, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora de Literatura Luso-Brasileira da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919 publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; além das já citadas, outras obras: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto e outros poemas (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

domingo, 23 de março de 2025

Juvenal Galeno: Jangada

 
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Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
tu queres vento de terra,
ou queres vento do mar?

Minha jangada de vela,
que vento queres levar?

Aqui no meio das ondas,
das verdes ondas do mar
és como que pensativa,
duvidosa a bordejar!1

Saudades tens lá das praias,
queres na areia encalhar?
ou no meio do oceano
apraz-te2 as ondas sulcar3?

Minha jangada de vela,
que vento queres levar?


Notas da edição — Vocabuilário:
1. Bordejar  Navegar, mudando com frequência de rumo;
2. Aprazer  Agradar;
3. Sulcar  Fazer sulcos em. Sulco: rego aberto pelo arado ou charrua; depressão que um navio faz nas águas, cortando-as.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836 1931), cearense de Fortaleza, fez seus estudos primários numa escola de Pacatuba CE, cursou Humanidades no Liceu do Ceará, foi escritor, poeta e folclorista; em 1855, a mando do pai, com o intuito de ampliar conhecimentos na área agrícola, viajou para o Rio de Janeiro e ali tornou-se amigo de Paula Brito, dono de tipografia, conheceu Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, passou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de propriedade do tipógrafo; de volta à Fortaleza, levou impresso o seu primeiro livro de poemas, Prelúdios Poéticos (1856); depois vieram A Machadada (poema, considerada a primeira obra literária impressa no Ceará, 1860), Quem com ferro fere com ferro será ferido (teatro, drama sociológico, 1861), Lendas e Canções Populares (1865), Cenas Populares e Canções da Escola (ambos em 1871), Lira Cearense (1872) Folhetins de Silvanus (1891) e outros títulos; colaborou nos jornais cearenses A Constituição e Pedro II; acometido de glaucoma, ficou cego em 1906.