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terça-feira, 12 de maio de 2026

Elizabeth Barrett Browning: Como eu te amo

 
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(traduzido por Fernando Torquato Oliveira)

De que maneira eu te amo? Impossível dizer.
Eu te amo em dimensões de abismo e de altitude,
onde a alma ainda alcança o azul da plenitude,
no limite do ideal, além do próprio ser.

Eu te amo dia a dia, em nímia beatitude,
desde a luz da manhã à luz do anoitecer;
eu te amo livremente, ou sem leis nem poder;
eu te amo com orgulho, e com terna atitude.

Eu te amo com o raro amor dos desencantos,
com a fé infantil, que permanece forte,
com o estranho calor dos crentes e dos santos.

Eu te amo com paixão, com lágrimas, transporte.
E se Deus o quiser, implorando em meus prantos,
amar-te-ei, também, depois da própria morte!

Elizabeth Barrett Browning

Sonnet 43
How do I love thee?

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of being and ideal grace.

I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for right;
I love thee purely, as they turn from praise.

I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose

With my lost saints. I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life; and, if God choose,
I shall but love thee better after death.

(Sonnets from the Portuguese — 1847)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Elizabeth Barrett Browning (1806 1861), inglesa de Coxhoe Hall, Durham, foi poetisa do Romantismo e da época vitoriana; autodidata, exceto por ter recebido “algumas instruções de grego e latim de um tutor que vivia com a família e ajudava seu irmão Edward”, ainda aos dez anos de idade, já havia lido várias peças de Shakespeare, traduções homéricas, de Pope, histórias da Inglaterra, Grécia e Roma e, logo após, peças de Racine e Molière, o Inferno, de Dante; todo o Antigo Testamento, em hebraico, Tom Paine, Voltaire, Rousseau e Mary Wollstonecraft; aos 15 anos de idade, tornou-se praticamente inválida por problemas de coluna e, depois, teve sua saúde agravada por complicações pulmonares; em 1846, casando-se com o também poeta Robert Browning, mudou-se para Florença Itália, ali vivendo pelo resto da vida; Elizabeth escreveu seu primeiro poema aos 12 anos, The Battle of Marathon (A Batalha de Maratona), em 4 tomos, que seu pai mandou imprimir; suas obras: An Essay on Mind and Other Poems (Um Ensaio sobre a Mente e Outros Poemas, 1826), Prometheus e Outros Poemas (1833), The Seraphim and Other Poems (Serafim e Outros Poemas, 1838), Sonnets from the Portuguese (Sonetos da Portuguesa, 1847), Casa Guidi Windows (Janelas da Casa Guidi, 1851), Aurora Leigh (1856), Poems Before Congress (Poemas Perante o Congresso, 1860) e outros, além de textos em prosa; traduziu a peça Prometeu Acorrentado (Prometheus Bound) atribuída a Ésquilo, dramaturgo da Grécia Antiga.

sábado, 11 de abril de 2026

Luis de Góngora: Enquanto, a competir com teu cabelo, . . . [soneto]

 
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[traduzido por Delson Tarlé]

Enquanto, a competir com teu cabelo,
o ouro brunido ao Sol reluz em vão
e, pálido de inveja, quedo ao chão,
perde-se a contemplar-se o lírio belo,

e o rubro de teus lábios deixa em zelo
mais olhos do que o cravo temporão,
e o colo altivo traz um ar loução
como o cristal luzente aspira tê-lo;

goza lábios, cabelo, colo albente,
antes que tudo, em tua idade alada
ouro, lírio, cristal, cravo rubente

não só se acabe em prata e flor crestada,
mas tu e a tua vida, juntamente,
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

não só se acabe em prata e flor crestada,
mas tu e a tua vida, juntamente,
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

Luis de Góngora

Mientras por competir con tu cabello, . . .

13 — 1582

      Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano,
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;

      mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano,
y mientras triunfa con desdén Lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;

      goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fué en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,

      no sólo en plata o víola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Luis de Góngora y Argote (1561 1627), espanhol e cordobês, estudou no Colegio de la Compañía de Jesús de Córdoba, foi poeta do período barroco, dramaturgo e padre; foi/é considerado líder da corrente literária autodenominada cultismo e desenvolvedor de um estilo, o gongorismo, reconhecido pelo uso sistemático continuado de ‘hipérboles, metáforas obscuras e dubiedades’ em seus textos; fez estudos religiosos em Salamanca, matriculou-se em Cânones, ordenou-se sacerdote; sabia latim, lia italiano e português; desde 1580, o ambiente literário da época já reconhecia Gôngora, mencionava-o e citava parte dos textos gongorianos, reproduzindo soneto em obra de outro literato; em 1603, em Valladolid, Gôngora teve “incansável carreira como poeta da nobreza e da realeza”, em 1605, já em Córdoba, seus poemas compuseram a antologia Flores de Poetas Ilustres; andejou por Madrid, Alcalá, Álava, Pontevedra, Granada, sempre expondo seus poemas e criando outros; em 1617, já poeta renomado, ordenou-se padre, tinha 56 anos de idade, assumiu o cargo de Capelão Real em Madrid e também foi cônego da Catedral de Córdoba; consta de sua biografia que, em vida, o poeta não publicou nenhum livro, suas poesias circularam em manuscritos; antologias publicadas no século XX foram baseadas no “manuscrito Chacón ([3 tomos], 1625-1628)”, feito/compilado por dom Antonio Chacón [y Ponce de Léon], amigo de Góngora; obra poética (“94 romances, 121 ‘letrillas’ e outras composições de ‘arte menor’, 167 sonetos, 33 composições de ‘arte maior’ e 3 poemas longos): Fábula de Polifemo y Galatea (1612 1613), Soledades (1612 1613), Panegírico Al Duque de Lerma (longo poema “de estilo elevado”, 1617), Fábula de Píramo y Tisbe (1618); Góngora, além dos sonetos e dos romances poéticos, também compôs duas peças teatrais: Las finezas de Isabela e El doctor Carlino; quase sempre o poeta passou por dificuldades e “angústias” financeiras, particularmente na velhice quando, doente, se viu “incapaz até mesmo de segurar a pena”; no ambiente literário, conviveu e rivalizou com os também poetas e dramaturgos Francisco de Quevedo (1580 1645) e Lope de Vega (1562 — 1635).

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Ronald de Carvalho: O filho pródigo

 
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Volta! ainda é tempo! Branca, no horizonte,
tua aldeia sorri sobre a colina.
Cumpra-se nesses vales tua sina,
seja teu mundo esse tranqüilo monte.

Seja teu mundo essa encurvada ponte
que sobre o rio, trêmula, se inclina,
e esse trecho do céu que te ilumina
a larga, franca e pensativa fronte.

A vida aí fora, em ondas tumultua.
Ouve teu rude coração. Recua!
Volta aos humildes, mas felizes tetos!

Que as estrelas terão mais calmos brilhos
para velar o sono de teus filhos,
e a terra sorrirá para teus netos!

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Ronald de Carvalho (1893 1935), carioca, formado em Direito pela Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro (atual Direito UFRJ), foi jornalista, escritor, poeta, crítico e diplomata; um dos expoentes do Modernismo no Brasil, participou da Semana de Arte Moderna de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo; no Rio de Janeiro, colaborou com os periódicos Diário de Notícias, O Jornal, e com as revistas Alma Nova e Atlântida; anteriormente, em Portugal, fora um dos fundadores da revista literária Orpheu (Lisboa, 1915), contribuindo para a introdução do Modernismo naquele país; em 1933, regressando ao Brasil, foi secretário do presidente Getúlio Vargas; escreveu e publicou Luz Gloriosa (poesias, 1913), Pequena História da Literatura Brasileira (1919), Poemas e Sonetos (1919), Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922), Espelho de Ariel (1923), Toda a América e Jogos Pueris (poesias, ambos em 1926), Estudos Brasileiros (três séries, 1924 1931) e outros títulos; foi agraciado duas vezes por prêmios da Academia Brasileira de Letras pelas obras Pequena História da Literatura Brasileira e Poemas e Sonetos (publicados e premiados em 1919); morreu em acidente automobilístico no Rio de Janeiro; na ocasião, era Chefe da Casa Civil da Presidência da República no governo de Getúlio Vargas.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Jean Richepin: Tuas palavras


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[traduzido por Álvaro Reis]

Tuas palavras têm melodias divinas,
acordes de cristal, pianíssimo, vibrando!
De olhos cerrados fico, imerso em gozo, quando,
dizendo-me um segredo, o alvo pescoço inclinas...

Então não me inebria o olor das balsaminas
de tua boca é, mais o tom límpido e brando,
que dás a uma palavra, a um simples "sim", falando...
Tuas palavras têm meiguices peregrinas!

Eis, pois, o que me faz dormentes os sentidos;
ouço-te, sem saber o que estás a dizer-me,
qual numa língua estranha e suave aos meus ouvidos!...

E em pleno arrebatar dos êxtases radiosos
sinto invisível mão percorrer-me a epiderme...
Tuas palavras, flor! têm dedos cariciosos...

Jean Richepin

[Tes paroles ont des musiques . . . ]

XX

Tes paroles ont des musiques cristallines.
Rien qu’à les écouter, que de fois j’ai joui!
Je pâme, les yeux clos, et presque évanoui,
Quand, pour me parler bas, dans le cou, tu t’inclines.

Ce n’est pas de ton souffle embaumant les pralines
Que je me grise alors; c’est du ton inouï
Que tu mets dans un mot quelconque, un simple oui.
Ta bouche a des façons de prononcer câlines.

Voilà ce qui me fait tous les sens engourdis.
Je t’écoute, mais sans savoir ce que tu dis,
Comme si tu parlais une langue inconnue;

Je me laisse couler dans l’extase; et je sens
Une invisible main passer sur ma peau nue,
Car tes paroles même ont des doigts caressants.

(Les Caresses [groupement Thermidor] — 1877)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Auguste-Jules Richepin, ou Jean Richepin (1849 1926), franco-argelino nascido em Medeia Argélia, à época departamento francês no norte da África, diplomou-se em Literatura na École Normale Supérieure, Paris, foi poeta, romancista, dramaturgo, marinheiro, estivador, porteiro, professor ...; frequentador do Quartier Latin a Montmartre, bairros parisienses, sua vida boêmia e marginal acabou por inspirá-lo na criação das primeiras e provocativas poesias, as quais, já na estréia com sua obra La chanson de Gueux (poemas, 1876), tal como o ocorrido com Baudelaire (na publicação de Les Fleurs du Mal), lhe renderam uma condenação à prisão, além do pagamento de 600 francos de multa, pelo fato de alguns dos poemas terem sido considerados ofensivos e terem causado escândalo social; suas obras: coleções de poemas: Chanson des gueux (1876), Les Caresses (groupements: Floréal, Thermidor, Brumaire et Nivôse, 1877), Les Blasphemes (1884), La Mer (1886), Les Litanies de la mer (1894), Mes Paradis (1894), La Bombarde (1899), Poèmes durant la guerre: 1914-1918, (1919), Les Glas (1922) ..., romances: Les Morts bizarres (1876), Madame André (1878), La Glu (1881), Le Pave (1883), Miarka la fille à l'ours (1883), Les braves gens (1886), Césarine (1888) ..., e peças teatrais: Nana Sahib (drame en vers en 7 tableaux, 1883), Le Chemineau (drame en 5 actes, 1897), etc.; o poeta também compôs textos para músicos, colaborou em vários jornais, pertenceu à Académie Française (Academia Francesa); um “viajante incansável”, andejou por Londres, viajou pela Itália, Espanha, Alemanha, Escandinávia, Norte da África, ocasiões em que proferia conferências e redigia artigos para a imprensa parisiense.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Batista Cepelos: A espera

 
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Com sua voz assustadinha e doce,
doce como um trinar de passarinho,
ela me disse que esperá-la fosse,
fosse esperá-la à beira do caminho.

Mas o tempo da espera prolongou-se,
prolongou-se demais! E, então, sozinho,
passei o dia. Veio a tarde e trouxe,
trouxe arrulhos de amor, de ninho em ninho.

Desespero. O silêncio me tortura.
Mas, de repente, alvoroçado, escuto
um farfalhar de folhas na espessura.

Ela chega e tão linda, de maneira
que só para gozar este minuto
eu a esperara a minha vida inteira.


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista Cepelos:
De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos (prosa, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou em Apiaí SP, Itapetininga SP e Cantagalo RJ.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Paulo Bomfim: Atiro aos vossos pés a mocidade . . . [soneto]

 
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Atiro aos vossos pés a mocidade
e a vida que me destes sem saber.
Senhora, se por vós posso morrer,
a morte me será felicidade.

Coloco ao vosso lado esta saudade
que a distância, entre nós, me faz sofrer.
Senhora, só por vós quero viver
o instante que será de eternidade.

Se a vida, noivo encanto, inda oferece
ao meu olhar atônito, fitando,
o dia inesperado que amanhece,

reponho em vosso peito esta alegria,
pois é do vosso olhar que vem raiando
o encantamento desse novo dia.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Paulo Lébeis Bomfim (1926 2019), paulista e paulistano, foi jornalista, poeta e diretor de rádio e TV; desde criança escrevia seus versos e iniciou-se no jornalismo, em 1945, no Correio Paulistano e, logo após, no Diário de São Paulo (coluna Luz e Sombra), colaborou também com o Diário de Notícias (Notas Paulistas), do Rio; sua obra de estréia, Antônio Triste (poemas, com Ilustrações de Tarsila do Amaral e Prefácio de Guilherme de Almeida, 1946), foi agraciada no ano seguinte com o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras; foi diretor da Fundação Cásper Líbero, produzindo para rádio e televisão, e participando nos programas Universidade na TV, no Canal 2, Crônica da Cidade e Mappin Movietone, no Canal 4 e Hora do Livro e Gazeta é Notícia, na TV Gazeta; escreveu e publicou Transfiguração (1951), Relógio de  sol (1952), Cantiga do desencontro e Poema do silêncio (ambos em 1954), Sinfonia branca (1955), Armorial (1956), Poema da descoberta (1958), Sonetos (1959), Colecionador de minutos (1960), Sonetos da vida e da morte (1963), Tempo reverso (1964), Canções (1966), Aquele menino — livro de memórias (2000), Tecido de lembranças, crônicas e memórias (2004), Cancioneiro (2007) e outros títulos; teve obras traduzidas para os idiomas alemão, francês, inglês, italiano e espanhol [castelhano]; teve poemas musicados por Camargo Guarnieri, Dinorah de Carvalho, Oswaldo Lacerda e mais compositores; em 1982, recebeu o Troféu Juca Pato, de intelectual do ano, concedido pela UBE União Brasileira de Escritores.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Shakespeare: Aniquilado pela adversidade, . . . [soneto]

 
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[traduzido por Heitor P. Fróes]

"Soneto XXIX"

Aniquilado pela adversidade,
dos homens desprezado e solitário,
deploro este penar desnecessário,
dos céus ante a passiva crueldade;

e, comparando com realidade
a sorte dos demais e o meu fadário,
invejo quem se fez depositário
de esperança, prazer, felicidade...

Mas, quando assim lamento os meus pesares,
recordo-me de ti, e eis que o meu tédio
qual calhandra desperta corta os ares;

e encontro em teu amor tal refrigério,
que minha pobre vida sem remédio
já não trocara nem por um império!

Shakespeare

Sonnet XXIX

When in disgrace with fortune and men's eyes
I all alone beweep my outcast state,
And trouble deaf heaven with my bootless cries,
And look upon myself, and curse my fate,
Wishing me like to one more rich in hope,
Featured like him, like him with friends possessed,
Desiring this man's art, and that man's scope,
With what I most enjoy contented least;
Yet in these thoughts my self almost despising,
Haply I think on thee, and then my state,
Like to the lark at break of day arising
From sullen earth, sings hymns at heaven's gate;
   For thy sweet love remembered such wealth brings
   That then I scorn to change my state with kings.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; William Shakespeare (1564 1616), inglês nascido em Stratford upon-Avon, “provavelmente” tenha iniciado seus estudos em casa, frequentou a Petty School até os sete anos de idade, foi poeta, ator e dramaturgo profissional, e é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; em seus traços biográficos conhecidos há a especulação de que possa ter seguido para Londres por volta de 1592, época em que, com suas peças encenadas, se consolidou como dramaturgo ali; consta que com o fim da epidemia de peste que assolou na época, Shakespeare e outros atores, antes pertencentes a diferentes companhias, se uniram e formaram a Companhia do Lorde Chamberlaim, que os patrocinava, e, por quase vinte anos, passaram a participar dos lucros da empresa; o dramaturgo também se tornou membro dos consórcios que administravam o Globe Theatre e o Blackfriars Theatre; como escritor e poeta, suas primeiras obras impressas foram dois longos poemas: Vênus e Adônis (Venus and Adonis, 1593) e O Estupro de Lucrécia (The Rape of Lucrece, 1594); do poeta, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura — que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias: Sonho de Uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Dream), O Mercador de Veneza (The Merchant of Venice), A Comédia de Erros (The Comedy of Errors), A Megera Domada (Taming of the Shrew), A Tempestade (The Tempest), Os Dois Cavalheiros de Verona (The Two Gentlemen of Verona), Cimbelino, e tantas outras, tragédias: Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc., dramas históricos: Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III.

domingo, 30 de novembro de 2025

Batista Cepelos: O trem de ferro

 
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Um fino apito, estrídulo sibila,
rangem as rodas num arranco perro,
e, lentamente, a se arrastar, desfila,
fumegante e luzente, o trem de ferro.

Soa no espaço um derradeiro berro
e tão rápido corre que horripila,
esse monstro a rolar de cerro em cerro,
apavorando a solidão tranqüila.

Vence choupanas, matagais tristonhos,
despenhadeiros, báratros medonhos,
nada lhe amaina o rábido furor.

Corre, corre veloz, nada o embaraça,
desfraldando a bandeira de fumaça,
como um bravo guerreiro vencedor!


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador do livro 60 Poetas Trágicos, ali registrou acerca do poeta Batista Cepelos:
De origem humilde e paternidade que desconhecia, teve seu curso de Direito custeado pelo advogado e professor Francisco de Assis Peixoto Gomide, senador e governador de São Paulo. O poeta, então promotor público, frequentava a casa do benfeitor e começou a namorar uma de suas filhas. De início não houve oposição familiar, mas quando os namorados resolveram se casar, o senador se opôs com inaudita veemência e, às vésperas da cerimônia, exigiu um rompimento. A moça se negou a obedecer, e então o pai, fora de si, matou-a com um tiro de revólver, suicidando-se em seguida. Com o tresloucado gesto, quisera evitar uma relação incestuosa: Batista Cepelos era seu filho natural. Chocado com tamanha insânia, mudou-se o ex-noivo para o Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido como poeta simbolista e tradutor de Mallarmé, Verlaine e Gôngora. Nove anos após a tragédia, foi encontrado morto aos pés de um penhasco no Catete. Ignora-se se foi suicídio ou acidente, pois [o poeta] era míope.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Batista Cepelos (1872 1915), ou Baptista Cepellos, paulista de Cotia, formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, foi soldado, advogado, promotor público, poeta, romancista, tradutor e teatrólogo; escreveu e publicou A Derrubada (poesia, 1896), O Cisne Encantado (poesia, 1902), Os Bandeirantes (poesia, obra prefaciada por Olavo Bilac, 1906, e 3ª edição refundida e modificada em 1911), Os Corvos (prosa, 1907), Vaidades (poesia, 1908), O Vil Metal (romance e novela, 1910), Maria Madalena (drama bíblico, em versos); como tradutor, Batista Cepelos é tido como o primeiro autor brasileiro a verter para a língua portuguesa, em livro, o poema ‘Azul’, da obra de Stéphane Mallarmé; traduziu também Gôngora, Baudelaire, Paul Verlaine e Lorenzo Stecchetti; como promotor público, Batista Cepelos trabalhou em Apiaí SP, Itapetininga SP e Cantagalo RJ.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Emílio Moura: Formas que em vão persigo: se é que alguma . . . [soneto]

 
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Formas que em vão persigo: se é que alguma
coisa ainda sois, mostrai-a ao pensamento.
Quando mais me procuro, mais me invento,
perco-me todo, esfaço-me na bruma.

Nem um raio de luz neste momento.
Que aconteceu, que a sombra se avoluma?
Porque tudo se perde como a espuma?
Porque a vida se esvai como um lamento?

Formas que em vão procuro: ardo em meu sonho,
quero fixar-vos. Luto. Que medonho
pânico em tudo! Que clamor profundo

sobe da treva! Que estertor imenso!
Por que tudo agoniza quando penso?
A solidão sem fim de antes do mundo!

(O Instante e o Eterno — 1953)

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Emílio Guimarães Moura (1902 1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editou A Revista, primeiro órgão literário modernista mineiro; suas obras: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros; Emílio Moura também exerceu as funções de Secretário do Tribunal de Contas e Diretor da Imprensa Oficial, ambos em Belo Horizonte MG.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Hermes Fontes: Transviver

 
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Eu, decerto, a esqueci... Meu sonho, entanto,
jamais a esquecerá. Ela é o motivo
das horas que revivo e em que transvivo
pela imaginação o extinto encanto.

Escolho um astro no Estelário: e, enquanto
o astro esplende nos céus, eu penso, e vivo
nesse longo silêncio evocativo
do pensamento, as coisas que descanto.

Algum dia, quem sabe? hei de revê-la,
não para perturbá-la, ou possuí-la,
que é um crime perturbar a luz da estrela.

Mas, para, vendo-a, ver, um só momento,
o contraste de sua luz tranquila
com a chama inquieta do meu sofrimento...

(A Fonte da Mata — 1930)

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e foi oficial de gabinete do ministro da Viação ; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; Hermes Fontes ainda foi caricaturista do jornal O Bibliógrafo; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930; sua poesia é de estética simbolista; teve poemas musicados e cantados por Vicente Celestino.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Narcisa Amália: O Lago

 
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[I]

Calmo, fundo, translúcido, amplo, o lago
longe, trêmulo, trêmulo, morria...
No seu límpido espelho a ramaria,
curva, de um bosque punha sombra e afago.

Terra e céu, ondulando, eram na fria
tela fundidos! O queixume vago
que a água modula, de ambos parecia,
solto, ululante, intérmino, pressago!

"Trecho vulgar de sítio abstruso e agreste"
talvez; mas todo o encanto que o reveste
sentisses; contemplasses-lhe a beleza;

comigo ouvisses-lhe a mudez, que fala,
e sorverias no frescor que o embala
todo o alento vital da Natureza!

(Nebulosas — 1872)

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Oliveira Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitá “que tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.