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terça-feira, 28 de julho de 2015

Dora Ferreira da Silva: Nascimento do poema

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É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.

                         (Transcrito de Poesia Reunida  1999, pág. 39)

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Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século — Seleção de José Nêumanne Pinto, Textos introdutórias e Notas biobibliográficas de Rinaldo de Fernandes, 1a. edição, 2001, Geração Editorial, São Paulo — SP; Dora Ferreira da Silva (1918  2006), paulista de Conchas, foi poetisa e tradutora; foi co-fundadora da revista Diálogo (anos 50, ao lado do marido e filósofo Vicente Ferreira da Silva) e criou a revista Cavalo Azul (final dos anos 60) para difusão de poesias; escreveu e publicou Andanças (1970, reúne poemas de 1948 a 1970), Uma via de ver as coisas (1973), Menina seu mundo (1976), Jardins  esconderijo (1979), Talhamar (1982), Retratos da origem (1988), Poemas da estrangeira (1996), Poemas em fuga (1997), Poesia reunida (1999), Hídrias (2005) etc.; traduziu obras de Rainer Maria Rilke, Hölderlin, Carl Gustav Jung, San Juan de La Cruz, Angelus Silesius e outros; recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura (1996 e 2005) por Poemas da estrangeira e Hídrias e o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (1999), por Poesia Reunida.

domingo, 26 de julho de 2015

Affonso Ávila: Discurso da difamação do poeta 11 / Pobre velha música

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O poeta falava e as pessoas o ouviam atentamente

O poeta falava e as pessoas costumavam ouvi-lo atentamente

O poeta falava e as pessoas costumavam ouvi-lo com alguma atenção

O poeta falava e as pessoas às vezes o ouviam com alguma atenção

O poeta falava e algumas pessoas o ouviam com alguma atenção

O poeta falava mas raras pessoas o ouviam com alguma atenção

O poeta falava e as pessoas o ouviam sem atenção

O poeta falava e as pessoas já não o ouviam

O poeta falava e as pessoas já o olhavam sem ouvir

O poeta mal fala e as pessoas já abrem a boca em fastio

A ATITUDE DIANTE DO POETA É O BOCEJO

(Transcrito de Discurso da difamação
 do poeta  1978, pág. 103)

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Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século — Seleção de José Nêumanne Pinto, Textos introdutórias e Notas biobibliográficas de Rinaldo de Fernandes, 1a. edição, 2001, Geração Editorial, São Paulo — SP; Affonso Celso Ávila (1928  2012), mineiro de Belo Horizonte, foi ensaísta, jornalista, crítico, pesquisador e poeta; colaborou com os jornais Diário de Minas, Estado de Minas e foi colunista do Estado de São Paulo, entre outros periódicos; foi co-fundador da revista de vanguarda Tendência e participou da revista Invenção, voltada para o concretismo; escreveu e publicou O açude e Sonetos da descoberta (poesias, ambos em 1953), Carta do solo (poesias, 1961) Frases-feitas (poesias, 1963), Resíduos Seiscentistas em Minas (ensaio, dois volumes, 1967), O poeta e a consciência crítica (ensaio, 1969), Gertrude’s instante (poema-postal, 1969), Código de Minas e Poesia anterior (ambos em 1969), O lúdico e as projeções do mundo barroco (ensaio, 1971), Código nacional de trânsito (poesias, 1972), Cantaria barroca (1975), Modernismo (ensaio, 1975), Discurso da difamação do poeta (poesias, 1976), Delírios dos cinquent’anos (1984), e outros títulos; foi vencedor de prêmios por suas publicações.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Patatativa do Assaré: Cante lá que eu canto cá

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Poeta, cantô da rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mêxo aí,
Cante lá, que eu canto cá.

Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisa do sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma boa paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhecê bem,
Pois nesta penosa vida,
Só quem provou da comida
Sabe o gosto que ela tem.

Pra gente cantá o sertão,
Precisa nele morá,
Te armoço de fejão
E a janta de mucunzá,
Vivê pobre, sem dinhêro,
Trabaiando o dia intêro,
Socado dentro do mato,
De apragata currelepe,
Pisando inriba do estrepe,
Brocando a unha-de-gato.

Você é munto ditoso,
Sabe lê, sabe escrevê,
Pois vá cantando o seu gozo,
Que eu canto meu padecê.
Inquanto a felicidade
Você canta na cidade,
Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a miséra.
Pra sê poeta divera,
Precisa tê sofrimento.

Sua rima, inda que seja
Bordada de prata e de ôro,
Para a gente sertaneja
É perdido este tesôro.
Com o seu verso bem feito,
Não canta o sertão dereito
Porque você não conhece
Nossa vida aperreada.
E a dô só é bem cantada,
Cantada por quem padece.

Só canta o sertão dereito,
Com tudo quanto ele tem,
Quem sempre correu estreito,
Sem proteção de ninguém,
Coberto de precisão
Suportando a privação
Com paciença de Jó,
Puxando o cabo da inxada,
Na quebrada e na chapada,
Moiadinho de suó.

Amigo, não tenha quêxa,
Veja que eu tenho razão
Em lhe dizê que não mêxa
Nas coisa do meu sertão.
Pois, se não sabe o colega
De quá manêra se pega
Num ferro pra trabaiá,
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mêxo aí,
Cante lá que eu canto cá.

Repare que a minha vida
É deferente da sua.
A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente,
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obra da criação.

Mas porém, eu não invejo
O grande tesôro seu,
Os livro do seu colejo,
Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poeta
E fazê rima compreta,
Não precisa professô;
Basta vê no mês de maio,
Um poema em cada gaio
E um verso em cada fulô.

Seu verso é uma mistura,
É um tá sarapaté,
Que quem tem pôca leitura,
Lê, mais não sabe o que é.
Tem tanta coisa incantada,
Tanta deusa, tanta fada,
Tanto mistéro e condão
E ôtros negoço impossive.
Eu canto as coisa visive
Do meu querido sertão.

Canto as fulô e os abróio
Com todas coisa daqui:
Pra toda parte que eu óio
Vejo um verso se bulí.
Se as vêz andando no vale
Atrás de curá meus male
Quero repará pra serra,
Assim que eu óio pra cima,
Vejo um diluve de rima
Caindo inriba da terra.

Mas tudo é rima rastêra
De fruita de jatobá,
De fôia de gamelêra
E fulô de trapiá,
De canto de passarinho
E da poêra do caminho,
Quando a ventania vem,
Pois você já tá ciente:
Nossa vida é deferente
E nosso verso também.

Repare que deferença
Iziste na vida nossa:
Inquanto eu tô na sentença,
Trabaiando em minha roça,
Você lá no seu descanso,
Fuma o seu cigarro manso,
Bem perfumado e sadio;
Já eu, aqui tive a sorte
De fumá cigarro forte
Feito de paia de mio.

Você, vaidoso e facêro,
Toda vez que qué fumá,
Tira do bôrso um isquêro
Do mais bonito metá.
Eu que não posso com isso,
Puxo por meu artifiço
Arranjado por aqui,
Feito de chifre de gado,
Cheio de argodão queimado,
Boa pedra e bom fuzí.

Sua vida é divirtida
E a minha é grande pená.
Só numa parte de vida
Nóis dois samo bem iguá
É no dereito sagrado,
Por Jesus abençoado
Pra consolá nosso pranto,
Conheço e não me confundo
Da coisa mió do mundo
Nóis goza do mesmo tanto.

Eu não posso lhe invejá
Nem você invejá eu,
O que Deus lhe deu por lá,
Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié,
Me estima com munta fé,
Me abraça, beja e qué bem
E ninguém pode negá
Que das coisa naturá
Tem ela o que a sua tem.

Aqui findo esta verdade.
Toda cheia de razão:
Fique na sua cidade
Que eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um ispeio,
Já lhe dei grande conseio
Que você deve tomá.
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá que eu canto cá.


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Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século Seleção de José Nêumanne Pinto, Textos introdutórias e Notas biobibliográficas de Rinaldo de Fernandes, 1a. edição, 2001, Geração Editorial, São Paulo  SP; Patativa do Assaré (1909 2002), ou Antonio Gonçalves da Silva, cearense de Assaré, foi poeta popular, compositor, cantor e repentista, teve sua obra registrada em folhetos de cordel, discos e livros; frequentou por apenas alguns meses o banco escolar e, desde criança, mesmo trabalhando na roça para ajudar no sustento da família, aprendeu a ler e a escrever e se tornou um apaixonado pela poesia; projetou-se nacionalmente com a música "Triste Partida" gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, o rei do baião; teve seus poemas traduzidos em vários idiomas e foi tema de estudos na Sorbonne, na Cadeira de Literatura Popular Universal; obra poética: Inspiração Nordestina (1956), Inspiração Nordestina —  Cantos Patativa do Assaré (1967), Cante Lá que Eu Canto Cá (1978), Ispinho e Fulô (1988), Cordéis (caixa com 13 folhetos, 1993), Aqui Tem Coisa (1994), Ao Pé da Mesa (co-autoria de Geraldo Gonçalves de Alencar, 2001), Antologia Poética (organizada por Gilmar de Carvalho, 2002) entre outros; como poeta da oralidade, o que sempre foi, também teve seus poemas registrados em discografia: Poemas e Canções (1979), A Terra é Naturá (1981), Patativa do Assaré (Projeto Cultural do BEC, 1985), Canto Nordestino  80 Anos de Luz (1989), Patativa do Assaré  88 Anos de Poesia (1995), Patativa do Assaré (CD incluído no livro O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa de Assaré, de Assis Ângelo,1999) entre outros; pelo conteúdo de sua obra cultural, de cunho social e popular, o poeta recebeu inúmeros prémios e homenagens concedidos pelos poderes municipal e estadual, particularmente nos estados nordestinos, tendo sido agraciado ainda com o título de Doutor Honoris Causa em universidades daqueles estados.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Braulio Tavares: O caso dos dez negrinhos (romance policial brasileiro)

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Dez negrinhos numa cela
e um deles já não se move.
Fugiram de manhã cedo,
mas eram nove.

Nove negrinhos fugindo
e um deles, o mais afoito,
dançou, cruzou com uma bala...
Correram oito.

Oito negrinhos trabalham
de revólver e canivete:
roupa cáqui vem chegando,
fugiram sete.

Sete negrinhos passando
pela rua de vocês,
alguém chamou a polícia.
Correram seis.

Seis negrinhos dão o balanço:
Bolsa, anel, relógio, brinco...
Teve um erro na partilha,
sobraram cinco.

Cinco negrinhos de olho
na saída do teatro.
Um vacilou, deu bobeira...
Correram quatro.

Quatro negrinhos trombando,
todos quatro de uma vez,
Um deles a gente agarra,
mas fogem três.

Três negrinhos que batalham
feijão, farinha e arroz.
Um se deu mal: a comida
dava pra dois.

Dois negrinhos se embebedam
de pinga, cerveja e rum.
Discussão, briga, navalha...
E fica um.

E um negrinho vem surgindo
No meio da multidão.
Por trás desse derradeiro...
Vem um milhão.


O homem artificial  1999,
 págs. 60  61.

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Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século — Seleção de José Nêumanne Pinto, Textos introdutórios e Notas biobibliográficas de Rinaldo de Fernandes, 1a. edição, 2001, Geração Editorial, São Paulo — SP; Braulio Tavares, nascido em 1950, paraibano de Campina Grande, é escritor, poeta e compositor; escreveu e publicou Os baladas de Trupizupe (1980), Balada do andarilho Ramon e outros textos (1980), Cabeça elétrica, coração acústico (cordel, 1981), Sai do meio, que lá vem o filósofo (1982), O que é ficção científica (ensaio, 1986), A espinha dorsal da memória (contos, 1989), Mundo fantasmo (contos, 1994), A máquina voadora (romance, 1997), O homem artificial (poemas, 1999), A invenção do mundo pelo Deus curumim (literatura infantil, 2009) e outros títulos em verso e prosa; foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura na categoria literatura infantil, pela sua obra A invenção do mundo..., em 2009; é radicado no Rio de Janeiro e escreve uma coluna diária para o Jornal da Paraíba (Campina Grande  PB).