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Escrevo há cinquenta anos
Poesia popular,
Poesia de cordel,
Em modesto versejar,
Sem riqueza de linguagem,
Levando ao povo a mensagem,
Sem pretensão de brilhar.
Escrevo há cinquenta anosInspirado no repente.E usando minha poesiaVivo na linha de frente,Contra o sistema impudicoQue torna o homem mais ricoE o pobre mais decadente.
Escrevo há cinquenta anos,
A combater a opressão,
Pondo na minha poesia
Anseios da multidão.
Muito embora perseguido,
Jamais me dei por vencido,
Pois não temo a reação.
A minha poesia é simples,Mas contém sinceridade.Falta-lhe o vocabulárioQue se aprende em faculdade.Com ela canto a belezaE exalto toda a grandezaDe nossa brasilidade.
É o canto de nossa gente,
A raiz nacionalista,
Que vibra com nosso povo
Na marcha socialista,
Denunciando a opressão
Dos agentes da traição
Em sua voragem entreguista.
Poesia nacional,Sem interferência estrangeira.É o canto do camponêsQue exalta a mulher rendeira.É a poesia da alpercata,Que sem proferir bravataSe torna bem brasileira.
É a mensagem inspirada
Nos anseios populares,
Que combate e não aceita
Os nefastos lupanares,
É a poeira das estradas,
É o deslizar das jangadas
Nas ondas dos verdes mares.
Literatura do povo,Refletindo a grande lidaDe um sertão abandonado,Com sua gente sofridaQue luta por liberdade,Fraternidade, igualdade,Indispensáveis na vida.
Não é poesia de salão
Do mundo intelectual.
É a poesia do repente
Espontâneo e natural.
É mensagem brasileira
De nossa gente guerreira
Com ardor nacional.
Poesia do bumba-meu-boi,Poesia do pastoril,Poesia das vaquejadas,Que com arrojo viril,Sem a riqueza verbal,Tem por sublime idealValorizar o Brasil.
* [Zé Gamela traçou este cordel autobiográfico por ocasião do seu cinquentenário como cordelista, conforme Wanderlino Teixeira Leite Netto, no tópico Literatura de cordel deste Passeio das Letras...]
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Passeio das Letras na Taba de Araribóia: A literatura em Niterói no século
XX — Wanderlino Teixeira Leite Netto, Apresentação de Marcos Gomes, 2003, Niterói
Livros: Fundação de Artes de Niterói — FAN, Niterói — RJ; de pseudônimo Zé Gamela,
ou Divaldo Gomes Ribeiro (1914 — 2002), baiano de Lençóis, aos 13 anos começou a labutar,
“foi quase tudo: garimpeiro, cangaceiro, aprendiz de marinheiro, sargento, carregador
de malas, administrador de empresas, jornalista, gerente de hotel, autor, contrarregra”,
além de, também desde cedo, ter-se dedicado às artes circenses, ao teatro e à literatura
de cordel; assim, Zé Gamela ampliou seus ofícios: foi ator, diretor de teatro e
cordelista autor de mais de duas centenas de cordéis; depois de mambembear pelo
país afora, chegou em Niterói em 1956, fundou o TET — Teatro Experimental do Trabalhador,
em parceria com Dety Ribeiro, sua esposa e atriz-vedete, criou e construiu ele próprio
oito circos-teatro — o Circo Orion, também chamado Pavilhão do Zé Gamela, tendo
sido um deles —, escreveu e apresentou dezenas de peças, entre
as quais as do gênero-revista Rumo ao Ingá, Garotas do Bambolê, O Negócio é Fofoca,
Cartões Turísticos de Niterói; com seu circo-teatro itinerante, Zé Gamela e suas
apresentações fizeram périplo por diversas cidades, vilas e pequenos povoados; o
ator e autor também trabalhou nos circos Garcia, Tihany, Teatro-Show...; Zé Gamela foi preso várias vezes, por suas convicções políticas: mostrava sua indignação contra os opressores e dava voz aos anseios populares através de seus cordéis.