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terça-feira, 17 de outubro de 2023

Zé Gamela: Confissão de poeta*


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Escrevo há cinquenta anos
Poesia popular,
Poesia de cordel,
Em modesto versejar,
Sem riqueza de linguagem,
Levando ao povo a mensagem,
Sem pretensão de brilhar.
Escrevo há cinquenta anos
Inspirado no repente.
E usando minha poesia
Vivo na linha de frente,
Contra o sistema impudico
Que torna o homem mais rico
E o pobre mais decadente.
Escrevo há cinquenta anos,
A combater a opressão,
Pondo na minha poesia
Anseios da multidão.
Muito embora perseguido,
Jamais me dei por vencido,
Pois não temo a reação.
A minha poesia é simples,
Mas contém sinceridade.
Falta-lhe o vocabulário
Que se aprende em faculdade.
Com ela canto a beleza
E exalto toda a grandeza
De nossa brasilidade.
É o canto de nossa gente,
A raiz nacionalista,
Que vibra com nosso povo
Na marcha socialista,
Denunciando a opressão
Dos agentes da traição
Em sua voragem entreguista.
Poesia nacional,
Sem interferência estrangeira.
É o canto do camponês
Que exalta a mulher rendeira.
É a poesia da alpercata,
Que sem proferir bravata
Se torna bem brasileira.
É a mensagem inspirada
Nos anseios populares,
Que combate e não aceita
Os nefastos lupanares,
É a poeira das estradas,
É o deslizar das jangadas
Nas ondas dos verdes mares.
Literatura do povo,
Refletindo a grande lida
De um sertão abandonado,
Com sua gente sofrida
Que luta por liberdade,
Fraternidade, igualdade,
Indispensáveis na vida.
Não é poesia de salão
Do mundo intelectual.
É a poesia do repente
Espontâneo e natural.
É mensagem brasileira
De nossa gente guerreira
Com ardor nacional.
Poesia do bumba-meu-boi,
Poesia do pastoril,
Poesia das vaquejadas,
Que com arrojo viril,
Sem a riqueza verbal,
Tem por sublime ideal
Valorizar o Brasil.

* [Zé Gamela traçou este cordel autobiográfico por ocasião do seu cinquentenário como cordelista, conforme Wanderlino Teixeira Leite Netto, no tópico Literatura de cordel deste Passeio das Letras...]

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Passeio das Letras na Taba de Araribóia: A literatura em Niterói no século XX — Wanderlino Teixeira Leite Netto, Apresentação de Marcos Gomes, 2003, Niterói Livros: Fundação de Artes de Niterói — FAN, Niterói — RJ; de pseudônimo Zé Gamela, ou Divaldo Gomes Ribeiro (1914 2002), baiano de Lençóis, aos 13 anos começou a labutar, “foi quase tudo: garimpeiro, cangaceiro, aprendiz de marinheiro, sargento, carregador de malas, administrador de empresas, jornalista, gerente de hotel, autor, contrarregra”, além de, também desde cedo, ter-se dedicado às artes circenses, ao teatro e à literatura de cordel; assim, Zé Gamela ampliou seus ofícios: foi ator, diretor de teatro e cordelista autor de mais de duas centenas de cordéis; depois de mambembear pelo país afora, chegou em Niterói em 1956, fundou o TET Teatro Experimental do Trabalhador, em parceria com Dety Ribeiro, sua esposa e atriz-vedete, criou e construiu ele próprio oito circos-teatro o Circo Orion, também chamado Pavilhão do Zé Gamela, tendo sido um deles , escreveu e apresentou dezenas de peças, entre as quais as do gênero-revista Rumo ao Ingá, Garotas do Bambolê, O Negócio é Fofoca, Cartões Turísticos de Niterói; com seu circo-teatro itinerante, Zé Gamela e suas apresentações fizeram périplo por diversas cidades, vilas e pequenos povoados; o ator e autor também trabalhou nos circos Garcia, Tihany, Teatro-Show...; Zé Gamela foi preso várias vezes, por suas convicções políticas: mostrava sua indignação contra os opressores e dava voz aos anseios populares através de seus cordéis.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Ariano Suassuna: A Onça


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Poema escrito na forma do "martelo gabinete"1 dos Cantadores nordestinos e onde se trata a Onça — animal heráldico brasileiro por excelência — como símbolo da Morte

Essa Flecha cruel que despedaça
a carne dos Carneiros e bezerros.
Eis o Bicho sagrado, o velho Medo,
no Sangue mal cravado dos meus erros:
a Romã coroada, o doido Fruto,
a mordida do Sono e do Desterro.

O vermelho Clarão, o Verde escuro
e o Mundo ouro e enxofre envenenado.
Possesso da serpente, asas de Arcanjo.2
olhos cegos no Sol incendiado.
Que maldade se encerra na Beleza?
Que sangrento no Molde iluminado?

Do Rebanho maldito, um verde Musgo,
e às Pedras, a ferrugem verde tinge.
À luz azul do Cérebro inquieto,
o Crime dorme, oculto na meninge.
É divina essa Chaga que o Sol cura
e o Anjo é soletrado em cega Esfinge.

O topázio dos olhos, das Estrelas,
a pele de ouro e negro, Espinhos brancos.
A luxúria de púrpura e Desejo
na polpa rubra do macio Flanco.
Canta em meu sangue a Flauta dos meus ossos,
a cometa da Títia e o Punho manco.

Quem me sopra o Traspasse3 e a solução?
Que me sussurra o fogo desta Voz?
Ai, perigo de ser do meu cansaço!
Ai, papoula da vida, sangra os Nós!
E vai, e esquiva foge, e espreita a Sombra
na Cabeça de cacto4 feroz!

16/6/1962


Notas do Organizador Silviano Santiago:
1. Forma popular de composição poética que comporta estrofes de seis versos, cada um contendo dez sílabas (cf.: “Notas sobre o Romanceiro Popular”);
2. Representação simbólica da Morte também encontrada no teatro: ao mesmo tempo o Mal (serpente) e o Bem (arcanjo);
3. Morte, dor penetrante;
4. Seria interessante a leitura do poema de Manuel Bandeira que leva o título “Cacto”, em cuja poesia também o tema da morte é capital.
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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna, Apresentação/Prefácio, Organização, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Ariano Suassuna: Décimas ante um retrato de Camões


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Escritas por Ariano Suassuna em forma de Martelo agalopado1 e enviadas a Aloísio Magalhães2, em retribuição ao desenho que inspirou o poema

Se, na noite de chuva, a Tempestade
em solitários galhos açoitados,
revivesse os Navios naufragados3
e o travoso gemer da Soledade;
se, da grave assonância da Vontade
entrevesse se pudesse o sacrifício
nesse claro e cansado Frontispício
quem, mais do que teus Olhos4, cantaria
da vida o Caso cego e a galhardia,
a Luz flamante e o sacro Desperdício?

Teus olhos! Mas quem pode apaziguá-los?
Se, num, a Flecha agónica demora,
noutro há bruma, salgueiro e Harpa sonora,
entre os passos do Rei5 com seus vassalos.
O pó e o sangue, as patas dos Cavalos
repousam nesse Sulco fatigado.
E, se o bravo Queixume informulado
evoca os destroçados areais,
o ressonar dos Bosques provençais
doura na Morte a mágoa do Pecado.

Pensar que foste criança e que aspiraste
o cheiro da Madeira mal queimada;
que, ao perseguir, insone, a Madrugada,
a chama do Desterro desejaste.
O Sal marinho, as folhas que esmagaste,
e vida e nome, pássaro e Memória.
Pois, se Fortuna e treva derrisória
urdiram tua Sorte alada e escura,
foi que o porvir tecera, na Espessura,
da Cadência já morta o Canto e a glória.

Pureza e dolo. A Sombra se amontoa
destroço ressurreto e trespassado
na prisão6 a quem um tempo foste atado,
no Barco que te chama e te enevoa.
Debalde! A Fronte é cortadora Proa,
barba barroca é Quilha e madeirame.
E o Cedro, a Infanta7, a coifa de beirame8,
tudo isso e tudo mais que não se exprime
que não se diz e é o que talvez redime
o atravessar das águas e o Velame.

Assim, não mais o som desse Acalanto,
não mais o Apelo, só, do já passado:
que teu Anjo o receba, dissipado,
numa Páscoa de fogo e tenso Canto.
Pois se o Eco de sono e louro acanto
não te pôde levar o que pressente,
num sussurro fraterno e Sopro ardente
chegue a ti meu Duende extraviado
e o Sonho, anseio extinto e renovado,
que é Pena e mudez de meu presente.

[O Pasto incendiado — 1953.]


Notas do Organizador Silviano Santiago:
1. Segundo Luís da Câmara Cascudo, o martelo de dez sílabas é “legítima obra-prima para o cantador nordestino”, e acrescenta “cantar martelo, improvisá-lo ou declamá-lo, respondendo ao adversário no embate do desafio, é o título mais ambicionado pelos cantadores”;
2. Programador visual contemporâneo, radicado no Rio de Janeiro, mas de origem pernambucana. Faleceu a 13 de junho de 1982;
3. Alusão poética ao célebre naufrágio em que Camões quase perde a vida e os originais de Os Lusíadas;
4. Camões, tendo optado pela carreira militar, foi fazer seu primeiro estágio na Costa da África. Um golpe inimigo ou um acidente (não se sabe ao certo) inutilizou-lhe um olho (cf. ainda segunda estrofe);
5. Possível alusão ao rei Dom Sebastião, a quem é dedicado Os Lusíadas. Devido às circunstâncias misteriosas da sua morte e à decadência político-econômica de Portugal a partir de 1580, criou-se nesse país um movimento político-sentimental que prega o culto a dom Sebastião e que leva o nome de “sebastianismo” (de enorme importância para o bom entendimento da ficção de Suassuna);
6. Logo depois do acidente de que foi vítima, Camões, segundo os biógrafos, levou vida boêmia e desregrada. Por isso, diversas vezes foi preso;
7. Alusão aos possíveis amores entre o poeta e a Infante Dona Maria, filha de Dom Manuel;
8. Referência ao poema de Camões em que a jovem amorosa se queixa de Joane por este se interessar mais pelo beirame (chita da índia) do que por ela.
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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna, Apresentação/Prefácio, Organização, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Ariano Suassuna: Galope à beira mar*!


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escrito no estilo dos Cantadores nordestinos, para comemorar a restauração da Fortaleza de Pau-Amarelo, em Olinda, e dedicado ao poeta Marcus Accioly.

Aqui, neste Forte de Pau-Amarelo
eu sonho o Brasil em seu sangue de Brasa.
Reforço o alicerce de pedra da Casa
e ao sol do Sertão, este Azul desmantelo.
Que eu canto o Paudarco, o paudarco amarelo
velando as entradas da Serra e do Mar.
E a minha Viola se põe a esturrar,
ferida no sangue do Povo que é pobre,
que é grande, que é raça, que é Onça que é nobre,
cantando Galope na beira do Mar!

Eu moldo o Sertão em teu sol, Litoral,
e o verde da Mata florada do Engenho
é outro dos Reinos que forjo e que tenho,
bebendo, do Mar, estes verdes e o Sal.
Eu sopro meu Fogo na trompa de Cal
e imito os estalos do Vento a queimar.
No som dos Canhões vejo o Bronze sagrar
os Fortes de pedra da Guerra Holandesa
e a negra e vermelha da Nau portuguesa
cantando Galope na beira do Mar!

Porque, no Sertão, as três onças sinadas
a Negra, a Vermelha e a Branca da Moura
cruzaram seus Sangues de ferro, em tesoura,
parindo no Sol, a Fiel, a Pintada.
Castanha da parda, vermelha e malhada,
seu pelo é dos ouros da Rosa lunar!
Uns olhos acesos, a Brasa solar!
E eu, sangue do Sol de uma Onça-Malhada,
celebro esta Raça castanha e sagrada,
cantando Galope na beira do Mar!

Ariano Suassuna


* Nota do Organizador Silviano Santiago: Ao poema [acima], A[riano]. S[uassuna]. aduziu estas notas:
     “Trata-se, evidentemente, das décimas em 11 sílabas (hendecassílabos) do galope à beira-mar. Para ampliação da pesquisa, consultem-se as características também do galope (sextilhas em decassílabos), do martelo agalopado e do ritmo de repouso. Observe-se que, aqui, nós encontraremos as tônicas em — < — — < — | — < — — < — portanto 2ª, 5ª, 8ª e 11ª, predominantemente; combinações de redondilhas menores em hemistíquios isorrítmicos (ao gosto também do Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende):

          /_         /_           /_           /_
Can-tan-do-ga-lo-pe-na-bei-ra-do-mar
        (2ª)       (5ª)      (8ª)     (11ª)

     Trata-se, portanto, de compasso temário, e o galope à beira-mar é um dos raros gêneros em que o acento musical normalmente corresponde ao acento natural das palavras. 1. O Forte do Pau-Amarelo foi construído na luta que os Nordestinos empreenderam contra a invasão holandesa no século XVII, e considerada o início da Independência do Brasil. 2. A Casa, está aí, no sentido de o País, o Brasil. 3. Azul é o Mar, oposto ao Sertão pardo-vermelho. 4. É o ipê de folhas amarelas (também Ipê-tabaco). 5. O Povo do qual se fala aí, é o brasileiro. 6. As três Onças sinadas, isto é, assinaladas, são a raça negra, a indígena e a ibérica, esta chamada, aí, de “Branca da moura” porque, na Península Ibérica, os espanhóis e portugueses se cruzaram com os árabes, isto é, com os mouros. 7. A fiel, a Pintada, é a raça brasileira, originada dos outros três. 8. A Raça castanha é, ainda, alusão ao Povo brasileiro.
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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna [mais Depoimento "Notas sobre o Romanceiro Popular do Nordeste"], Organização, Apresentação/Prefácio, Seleção de Textos, Notas e Dados biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, O Santo e a Porca, Auto da Compadecida, ...); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980) ..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra e foi traduzido para o polonês, inglês, francês, holandês, alemão, espanhol, ...; o dramaturgo e poeta também se formou em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Ariano Suassuna: A Morte do Touro Mão-de-Pau


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À memória de meu pai, que também preferiu a morte à desonra, tendo sido assassinado a 9 de outubro de 1930

Corre a Serra Joana Gomes
galope desesperado:
um Touro se defendendo,
homens querendo humilhá-lo,
um Touro com sua vida,
os homens em seus Cavalos.

Cortava o gume das Pedras
um bramido angustiado,
se quebrava nas Catingas
um Galope surdo e pardo
e os Cascos pretos soavam
nas pedras de Fogo alado,
enquanto o clarim da Morte,
ao Vento seco e queimado,
na poeira avermelhada
envolvia os velhos Cardos.

Os negros cascos soavam
em chamas de Fogo alado!
Rasgavam a Serra bruta
aboios mal arquejados
e, nas trilhas já cobertas
pelo Pó quente e dourado,
um gemido de desgraça,
um gemido angustiado:

Adeus, Lagoa dos Velhos!
adeus, vazante do gado!
adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
O touro só tem a vida:
os homens têm seus cavalos!

O galopar recrescia:
brilhavam Ferrões farpados
e Algemas de baraúna
para o Touro preparados.
Seu Sabino tinha dito:
Ele há de vir amarrado!

Miguel e Antônio Rodrigues,
de guarda-peito e encourados,
na frente do grupo vinham,
montados em seus Cavalos
de pernas finas, ligeiras,
ambos de prata arreados.
E, logo à frente, corria
o grande Touro marcado,
manquejando Sangue limpo
nos caminhos mal rasgados,
cortadas as bravas ancas
por Ferrões ensangüentados.

A Serra se despenhava
nas asas de seus penhascos
e a respiração fogosa
dos dois fogosos Cavalos
já requeimava, de perto,
as ancas do Manco macho
quando ele, vendo a Desonra,
tentando subjugá-lo,
mancando da mão preada
subiu num Rochedo pardo:

Num grito, todos pararam,
pelo horror paralisados,
pois sempre, ao rebanho, espanta
que um touro do nosso gado
às teias da Fama-negra
prefira o gume do Fado.
E mal seus perseguidores
esbarravam seus Cavalos,
viram o Manco selvagem
saltar do Rochedo pardo:

Houve um grande torvelinho
de terno olhar assustado
e de aspas enfurecidas
reviradas para o alto.
E o Touro lançou seu último
bramir de morrer encrespado:

Adeus, Lagoa dos Velhos!
Adeus, vazante do gado!
Adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
Assim vai-se o Touro manco,
morto mas não desonrado!

Silêncio. A Serra calou-se
no Poente ensangüentado.
Calou-se a voz dos aboios,
cessou o troar dos Cascos.
E agora, só, no silêncio
deste Sertão assombrado,
o Touro sem sua vida,
os homens em seus Cavalos..

1946-1948

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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna [mais Depoimento "Notas sobre o Romanceiro Popular do Nordeste", Organização, Apresentação/Prefácio, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do ReinoO Santo e a Porca, Auto da Compadecida...); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra e foi traduzido para o polonês, inglês, francês, holandês, alemão, espanhol, ...; o dramaturgo e poeta também se formou em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 25 de junho de 2023

Ariano Suassuna: Martelo Agalopado

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O galope sem freio dos Cavalos,
os punhais reluzentes do Cangaço,
a prata dos Bordões, no seu traspasso,
o pipocar do Rifle e seus estralos.
O Sino, com seus toques de badalo,
as Onças com seus olhos amarelos,
o Lajedo que é trono e que é Castelo,
o ressonar do Mundo esta Onça parda,
o vento, o sangue, o Sol, a madrugada,
e eu tinindo o galope do Martelo.

Na prisão destas Pedras fui atado,
aos olhos garça duma Cega fera.
O sangue da pobreza é uma Pantera
que estraçalha meu Povo injustiçado
Onde reina a justiça do Sonhado,
senhores do baraço e do Cutelo?
Ela vem! E eu, ao fogo do Flagelo,
mesmo em dura Prisão assim metido,
na cadeia dos anos vou, detido,
retinindo o galope do Martelo.

E as abelhas, o Mel acre e dourado,
e o angico, e o tambor, e a baraúna.
O concriz auri-rubro, a caraúna,
os cardeiros de frutos estrelados.
Chora a Vida: “Ai meu sangue assassinado!”
Grita o Mundo: “Na pedra eu me cinzelo!”
E o Tempo: “Tudo eu queimo e esfarelo!”
Quanto a mim, aos açoites da Virola,
vou, nas cordas de prata da Viola,
retinindo o galope do Martelo.

(1961 1972)

(Poemas. Seleção, organização e notas de Carlos
Newton Júnior. Recife: Editora da Universidade
Federal de Pernambuco, 1999, pp. 246—247.)

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Ariano Suassuna — Série Essencial 93, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Carlos Newton Júnior, 2018, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Leandro Gomes de Barros: O povo na cruz


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Alerta, Brasil, alerta!
Desperta o sono pesado
Abre os olhos que verás
Teu povo sacrificado
Entre peste, fome e guerra
De tudo sobressaltado.

O brasileiro hoje em dia
Luta até para morrer,
Porque depois dele morto
Tudo nele quer roer,
De forma que até a terra
Não acha mais que comer.

A fome come-lhe a carne
O trabalho gasta o braço
Depois o governo pega-o
Há de o partir a compasso
Alfândega, Estado, Intendência
Cada um tira um pedaço.

O médico cobra a receita
O boticário a mezinha
O juiz confisca logo
Alguns bens se acaso tinha
Inda ficando uma parte
Diz a Intendência, é minha.

Assim morre o brasileiro
Como o bode exposto à chuva,
Tem por direito o imposto
E palmatória por luva,
Família só herda dele
Nome de órfão e viúva.

Morrendo um pobre diabo
Se acaso deixar dinheiro
Ainda deixando um filho
Este não é seu herdeiro
Só herda dele o juiz
O escrivão, o coveiro.

E o governo bem vê
Nossos martírios cruéis
Só faz é nos botar selo
Da cabeça até os pés,
Diz de manhã morre um
Ao meio-dia nasce dez.

E grita vá o imposto
Morra quem estiver doente
Morrem cem nascem dez mil,
O Brasil tem muita gente
O tempo vai muito bem
Toca o banquete p’ra frente.

O governo estraga o pão
Dizendo não custou nada
Dinheiro nasce no mato,
Acha-se em qualquer estrada
Vendo o mendigo morrer
Como fosse ao pé da estrada.

Porque o pobre infeliz
A quem a fome deu cabo
Diz o prefeito morreu
Pode levar o diabo
Diz o coveiro: de graça
A sepultura não abro.

São essas as garantias
Que competem ao brasileiro
Ter fome em cima do pão
Ser pobre tendo dinheiro
Ser mandando pelos servos
Isto causa desespero.

Como vive o brasileiro
Com três impostos a pagar
Um corpo com três feridas
Como assim pode escapar?
Um ser escravo de três
Se acaba de trabalhar.

São tantas as perseguições
Dos impostos que se paga
Que um fiscal p’ra nação
Não pode haver maior praga
É como bala de rifle
Onde vai fura ou esmaga.

Não há mesmo quem resista,
Estes impostos d’agora
Diz o governo que tem
Que morra tudo em u'a hora?
Quando o norte se acabar
Eu boto bagaço fora.

E se não houver inverno,
Como o povo todo espera,
De Pernambuco não fica
Nem os esteios da tapera,
Paraíba fica em nada
Rio Grande desespera.

O Rio de Janeiro, hoje
Parece um grande condado,
Ri-se o rico, chora o pobre,
Lamentando o seu estado
Diz o governo eu vou bem,
Tudo vai do meu agrado.

São Paulo para o governo
É primor da criação,
Eu acho até parecido
Com sítio da maldição,
Aquele que Judas comprou
Com o ouro da traição.

Filho de chefe político
Inda bem não é gerado
Diz o pai minha mulher
Já tem no ventre um soldado
Mas antes de sentar praça
Eu o quero reformado.

Assim antes de ser casa,
Já podia ser tapera,
Ou caju que antes da fruta,
Já a semente prospera,
Ou é raça de pescada
Que antes de ser já era.

Nosso Pernambuco velho
Há anos anda caipora,
Vendo-se a hora e o instante
Que a capital vai embora
O governo está marcando
Em botar-lhe o bagaço fora.

Paraíba, coitadinha!
Já perdeu toda esperança,
É mesmo que uma boneca
Nas unhas d’uma criança,
Faz toda súplica ao governo
Mas suplica e nada alcança.

Em que hoje está tornado
O país da Santa Cruz!
Está igual à mariposa
No calor do fogo ou luz,
O brasileiro é um verme,
O estrangeiro é mastruz.

O Brasil hoje só presta,
Para inglês, padre e soldado,
Médicos, feiticeiros e brabos,
O mais vive acabrunhado,
De forma que fica o mundo,
Por só estes situado.

O rico matando um pobre,
Nem se recolhe a prisão,
Diz logo o advogado,
Matou com muita razão
Se passa um mês na cadeia,
Tem a gratificação.

(O povo na cruz, cordel, s/d)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Leandro Gomes de Barros (1865  1918), paraibano nascido em Pombal Fazenda da Melancia , educado pela família do Padre Vicente Xavier de Farias, proprietários da fazenda, foi poeta cordelista; em companhia da família de quem foi “adotivo”, mudou-se para a Vila do Teixeira, futuro berço da Literatura Popular nordestina, e ali permaneceu até os 15 anos de idade; conheceu vários cantadores e poetas ilustres, seguiu para Jaboatão, Vitória de Santo Antão e Recife, passou a imprimir seus versos no próprio prelo ou em diversas tipografias; sua atividade poética o fez viajar por todo aquele sertão, sempre divulgando e vendendo seus poemas, tendo sido um dos poucos poetas populares a viver unicamente de suas centenas de histórias rimadas; suas obras: O cachorro dos mortos, O cavalo que defecava dinheiro, História de Juvenal e o Dragão, Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, A confissão de Antônio Silvino, A vida de Pedro Cem, Os sofrimentos de Alzira, Como Antônio Silvino fez o diabo chorar, Vida e testamento de Cancão de Fogo, A mulher roubada, Suspiros de um sertanejo, e dezenas de outros textos, abordando variados temas e com múltiplas edições; no Jornal do Brasil  9 de setembro de 1976, Carlos Drummond de Andrade publicou em sua coluna a crônica Leandro x Olavo Bilac, na qual acentuou sobre o poeta cordelista: “Não foi príncipe de poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro”.