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Quando, pelo clamor dos meus pecados, tive
de, à Treva Inferior, descer, à voz do Eterno,
ralando-me do Mal no aspérrimo declive,
como um deus rebelado e tonto de falerno,
sobre os antros mais nus, como Alighieri, estive
suspenso, a contemplar o delírio eviterno
das pompas sensuais de Gomorra e Nínive,
situadas ao pé do Stramboli do Inferno...
Gritos e imprecações, que as chamas retalhavam,
como gládios de bronze, em bárbaras campanhas,
de entre as lavas de sangue e sulfo se elevavam,
enquanto, aos olhos meus, nos infernais retiros,
o fogo, devorando o ventre das montanhas,
dava uns tons de gangrena às asas dos vampiros...
Com as unhas lacerando a púrpura
sangrenta,
que, dos ombros de auroque, em pregas, lhe caía,
vi Nero, inda exibindo a mesma fronte odienta
que, no incêndio de Roma, às chamas exibia...
Raivava como um cão, mostrando a saburrenta
língua e, a espaços, também, às escâncaras, ria
epiléptico, ao ver as almas em tormenta
atravessando o horror da satânica orgia
de fogo, no solar do Príncipe Demônio,
para, empós, como os cães corridos, lazarentos,
encolher-se, entrevendo o vulto do Petrônio,
que, arrepanhando a toga e erguendo a ebúrnea fronte,
ia e vinha, a cantar, nos antros* pestilentos
do Inferno, uma canção de amor de Anacreonte...
Entre uma legião de cetro e tonsuras,
Voltaire, viu-me e sorriu, com um sorriso endiabrado
de caveira, a expelir das órbitas escuras
ironias, de um tom de bronze avermelhado...
Blasfemava, estalando as hirtas ossaturas
do esqueleto e mostrando o braço descarnado,
num gesto de rebelde às lívidas alturas
e a enterrar-se ainda mais no Inferno, brado a brado...
Erguia, empós, o olhar da treva aos coruchéus
e escarrava, dizendo, em nojo, que o fazia
no orgulho de Lusbel, sobre a fronte de Deus!
E, quando assim falavam os seus lábios, à míngua
de fé, de gota em gota, assombrado, eu via
como um visgo de fogo a escorrer-lhe da língua...
Também lá te encontrei, Tristan Corbière, nas grutas
do Demônio, cantando umas canções remotas
como o oceano, que morde as praias de oiro, enxutas,
no virente esplendor das vivas bergamotas...
Tremia-te entre as mãos, em púrpuras volutas
de sons, a Harpa do Mal, fazendo sob as cotas
dos hoplitas do Inferno, o amor ao sangue e às lutas
triunfar transluminoso, em túmidos Eurotas...
Os seus olhos cruéis, em flamas de palhetas
de oiro jalde, varando as vastidões aflitas
silenciavam do fogo as púrpuras trombetas
de bronze, que, a planger, nas místicas oblatas
sangrentas do Demônio, em helicinas malditas,
acordavam do Inferno as furnas escarlatas...
Desbordes e Mallarmé oscularam-me a fronte
e passaram, por uma azul chama impelidos;
chamei-os e o rumor das lavas do Aqueronte
triste abafou-me a voz, cerceando-me os sentidos...
Quando acordei-me vi perto da negra fonte,
entre um vivo clamor de pragas e gemidos,
diante do inquieto olhar de um cérebro bifronte
com os olhos como dois santelmos acendidos...
Vi, momentos depois, em palidez
exangue,
Rimbaud e Villiers de L’Isle-Adam, chorando,
e o seu pranto infernal era de lodo e sangue...
E, quando recuei de agro pavor, Lelian**
surgiu-me e, empós, se foi pelas trevas clamando:
Satã! Satã! Satã! Satã! Satã! Satã!
(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do Simbolo,
págs. 169-176 — 1908)
Notas do Organizador Andrade Muricy:
* Está: “outros”;
** Está “Lilian”. A alusão é a Verlaine.
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Panorama do Movimento Simbolista
Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio,
Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação
e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti
dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 — 1915), maranhense de Barra do Corda,
“frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”,
matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou
o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário
público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos
[instituição precursora da AML — Academia Maranhense de Letras, agregava literatos],
“boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim
ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São
Luís — MA a Belém — PA e Manaus — AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou
na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados,
entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos
pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de
inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três
estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou
funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia
Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de
Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras],
1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores
de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane
Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de
transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e
abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.