sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Poesia sem deuses


A MÁQUINA de fazer versos foi invenção de um moço do Pará, que levou cinco anos para torná-la perfeita. Os poetas locais e do país protestaram contra a novidade, alegando que a poesia é negócio de deuses, e baixa pra cada um em hora imprevisível. Estácio, o inventor, nem ligou. Produzia sonetos, baladas, rondéis, haicais, martelos agalopados, vilancicos, da melhor fatura.
          Quem desejasse assumir a autoria de um poema encomendava-o a Estácio e, sob sigilo, era atendido. Cobrava caro. Os clientes ganhavam prêmios acadêmicos e distinções várias, justificando a tabela. Em dezembro, os negócios atingiam o ápice. Junho era mês de renovação de estoque, para poetas menores.
          Estácio enriqueceu e morreu, deixando aos filhos a máquina maravilhosa. Eles não souberam acioná-la, e daí resulta que a produção corrente de poesia, divulgada no país, não é de qualidade superior.
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Carlos Drummond de Andrade  Contos Plausíveis (com 150 ilustrações de Márcia e Irene), José Olympio Editora, 2ª edição, 1985, Rio de Janeiro  RJ; o poeta Drummond (1902  1987) deixou-nos como legado vastíssima obra em verso e prosa publicada em livros e em jornais; em Contos Plausíveis, o cronista nos informa que tais contos "(serão contos?) são plausíveis no sentido de que tudo neste mundo, e talvez em outros, é crível, provável, verossímil. Todos os dias a imaginação humana confere seus limites, e conclui que a realidade ainda é maior do que ela. Não posso dizer, verdadeiramente, que os escrevi. Escreveram-se no dia-a-dia do Jornal do Brasil, sem intermediação de forças misteriosas. Queriam existir como estórias, ocuparam papel e hoje formam livro."; quanto às 150 figuras que "quiseram viver com independência, e soltaram-se no volume, sem obediência aos contos a que se ligavam", Drummond nos propõe um "quebra-cabeça inocente": descobrir a qual conto cada ilustração se refere;  e o autor arremata: "Parece que na vida também é assim: as pessoas e coisas nem sempre andam de par constante.";

Eu, Genésio dos Santos, um ativista da palavra e atrevido aprendiz de blogueiro que possibilita ao leitor este texto drummondiano ainda não me ocupei com a tarefa de ligar às figuras as palavras contidas em Contos Plausíveis; no entanto, prometo, já, a mim mesmo, que um dia me ocuparei de  tão inocente quebra-cabeça.

Millôr Fernandes: Cinco HaiKais

Busca poesia, ansiosa,
E descobre, já tarde,
Que a vida é em prosa.
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É tudo natural:
A montanha, discreta;
O mar, tão teatral.
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Eu me assemelho
ao que se reflete
neste espelho?
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Esta é a verdade:
Já sou um homem
Da minha idade.
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É sério:
O sol morre
Lá no cemitério.
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Millôr Fernandes (1923  2012), ou Milton Viola Fernandes, carioca do Méier, nascido em 16 de agosto de 1923 mas registrado em 27 de maio de 1924, transitou por inúmeras áreas ligadas às artes e a outros ofícios: foi escritor, dramaturgo, jornalista, humorista, tradutor, chargista, frasista, desenhista, poeta (de haikais) e caricaturista; os cinco haikais desta postagem foram extraídas de Hai-Kais  Millôr Fernandes (1968, Editora Senzala, São Paulo  SP.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Patatativa do Assaré: Cante lá que eu canto cá

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Poeta, cantô da rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mêxo aí,
Cante lá, que eu canto cá.

Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisa do sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma boa paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhecê bem,
Pois nesta penosa vida,
Só quem provou da comida
Sabe o gosto que ela tem.

Pra gente cantá o sertão,
Precisa nele morá,
Te armoço de fejão
E a janta de mucunzá,
Vivê pobre, sem dinhêro,
Trabaiando o dia intêro,
Socado dentro do mato,
De apragata currelepe,
Pisando inriba do estrepe,
Brocando a unha-de-gato.

Você é munto ditoso,
Sabe lê, sabe escrevê,
Pois vá cantando o seu gozo,
Que eu canto meu padecê.
Inquanto a felicidade
Você canta na cidade,
Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a miséra.
Pra sê poeta divera,
Precisa tê sofrimento.

Sua rima, inda que seja
Bordada de prata e de ôro,
Para a gente sertaneja
É perdido este tesôro.
Com o seu verso bem feito,
Não canta o sertão dereito
Porque você não conhece
Nossa vida aperreada.
E a dô só é bem cantada,
Cantada por quem padece.

Só canta o sertão dereito,
Com tudo quanto ele tem,
Quem sempre correu estreito,
Sem proteção de ninguém,
Coberto de precisão
Suportando a privação
Com paciença de Jó,
Puxando o cabo da inxada,
Na quebrada e na chapada,
Moiadinho de suó.

Amigo, não tenha quêxa,
Veja que eu tenho razão
Em lhe dizê que não mêxa
Nas coisa do meu sertão.
Pois, se não sabe o colega
De quá manêra se pega
Num ferro pra trabaiá,
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mêxo aí,
Cante lá que eu canto cá.

Repare que a minha vida
É deferente da sua.
A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente,
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obra da criação.

Mas porém, eu não invejo
O grande tesôro seu,
Os livro do seu colejo,
Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poeta
E fazê rima compreta,
Não precisa professô;
Basta vê no mês de maio,
Um poema em cada gaio
E um verso em cada fulô.

Seu verso é uma mistura,
É um tá sarapaté,
Que quem tem pôca leitura,
Lê, mais não sabe o que é.
Tem tanta coisa incantada,
Tanta deusa, tanta fada,
Tanto mistéro e condão
E ôtros negoço impossive.
Eu canto as coisa visive
Do meu querido sertão.

Canto as fulô e os abróio
Com todas coisa daqui:
Pra toda parte que eu óio
Vejo um verso se bulí.
Se as vêz andando no vale
Atrás de curá meus male
Quero repará pra serra,
Assim que eu óio pra cima,
Vejo um diluve de rima
Caindo inriba da terra.

Mas tudo é rima rastêra
De fruita de jatobá,
De fôia de gamelêra
E fulô de trapiá,
De canto de passarinho
E da poêra do caminho,
Quando a ventania vem,
Pois você já tá ciente:
Nossa vida é deferente
E nosso verso também.

Repare que deferença
Iziste na vida nossa:
Inquanto eu tô na sentença,
Trabaiando em minha roça,
Você lá no seu descanso,
Fuma o seu cigarro manso,
Bem perfumado e sadio;
Já eu, aqui tive a sorte
De fumá cigarro forte
Feito de paia de mio.

Você, vaidoso e facêro,
Toda vez que qué fumá,
Tira do bôrso um isquêro
Do mais bonito metá.
Eu que não posso com isso,
Puxo por meu artifiço
Arranjado por aqui,
Feito de chifre de gado,
Cheio de argodão queimado,
Boa pedra e bom fuzí.

Sua vida é divirtida
E a minha é grande pená.
Só numa parte de vida
Nóis dois samo bem iguá
É no dereito sagrado,
Por Jesus abençoado
Pra consolá nosso pranto,
Conheço e não me confundo
Da coisa mió do mundo
Nóis goza do mesmo tanto.

Eu não posso lhe invejá
Nem você invejá eu,
O que Deus lhe deu por lá,
Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié,
Me estima com munta fé,
Me abraça, beja e qué bem
E ninguém pode negá
Que das coisa naturá
Tem ela o que a sua tem.

Aqui findo esta verdade.
Toda cheia de razão:
Fique na sua cidade
Que eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um ispeio,
Já lhe dei grande conseio
Que você deve tomá.
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá que eu canto cá.


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Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século Seleção de José Nêumanne Pinto, Textos introdutórias e Notas biobibliográficas de Rinaldo de Fernandes, 1a. edição, 2001, Geração Editorial, São Paulo  SP; Patativa do Assaré (1909 2002), ou Antonio Gonçalves da Silva, cearense de Assaré, foi poeta popular, compositor, cantor e repentista, teve sua obra registrada em folhetos de cordel, discos e livros; frequentou por apenas alguns meses o banco escolar e, desde criança, mesmo trabalhando na roça para ajudar no sustento da família, aprendeu a ler e a escrever e se tornou um apaixonado pela poesia; projetou-se nacionalmente com a música "Triste Partida" gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, o rei do baião; teve seus poemas traduzidos em vários idiomas e foi tema de estudos na Sorbonne, na Cadeira de Literatura Popular Universal; obra poética: Inspiração Nordestina (1956), Inspiração Nordestina —  Cantos Patativa do Assaré (1967), Cante Lá que Eu Canto Cá (1978), Ispinho e Fulô (1988), Cordéis (caixa com 13 folhetos, 1993), Aqui Tem Coisa (1994), Ao Pé da Mesa (co-autoria de Geraldo Gonçalves de Alencar, 2001), Antologia Poética (organizada por Gilmar de Carvalho, 2002) entre outros; como poeta da oralidade, o que sempre foi, também teve seus poemas registrados em discografia: Poemas e Canções (1979), A Terra é Naturá (1981), Patativa do Assaré (Projeto Cultural do BEC, 1985), Canto Nordestino  80 Anos de Luz (1989), Patativa do Assaré  88 Anos de Poesia (1995), Patativa do Assaré (CD incluído no livro O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa de Assaré, de Assis Ângelo,1999) entre outros; pelo conteúdo de sua obra cultural, de cunho social e popular, o poeta recebeu inúmeros prémios e homenagens concedidos pelos poderes municipal e estadual, particularmente nos estados nordestinos, tendo sido agraciado ainda com o título de Doutor Honoris Causa em universidades daqueles estados.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Fernando Pessoa: Autopsicografia

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente. 

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm. 

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.


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Fernando Pessoa  Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 1 (seleção e organização de Adolfo Casais Monteiro), 4ª edição, 1968, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro  RJ; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888  1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário e tradutor; fez seus estudos escolares no Convento de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária valeu-se de inúmeros heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em vida, além do livro Mensagem, única obra sua publicada em português, publicou, em inglês, Antinous, 35 Sonnets, English Poems I e II, English Poems III; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.

domingo, 26 de agosto de 2012

Manuel Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água.
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


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Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século  seleção de Ítalo Moriconi, 2001, Editora Objetiva, Rio de Janeiro  RJ; Manuel Bandeira (1886 1968), pernambucano de Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversas autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas (Edição do Autor, 1917, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro  RJ), Carnaval (Edição do Autor, 1919, Rio de Janeiro), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924, Rio de Janeiro), Libertinagem (Edição do Autor, 1930, Rio de Janeiro), Estrela da Manhã (Edição do Autor, 1936, Rio de Janeiro), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos (Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poemas Traduzidos (1945, Rio de Janeiro), Opus 10 (1952, Niterói  RJ), Alumbramentos (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Tarde (1960, Rio de Janeiro) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936, Rio de Janeiro), Guia de Ouro Preto (1938, Rio de Janeiro), Noções de História das Literaturas (1940, Rio de Janeiro), Autoria das Cartas Chilenas (1940, Rio de Janeiro), Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Rio de Janeiro), Literatura Hispano-Americana (1949, Rio de Janeiro), Gonçalves Dias, Biografia (1952, Rio de Janeiro), De Poetas e de Poesia (1954, Rio de Janeiro), A Flauta de Papel (1957, Rio de Janeiro), Andorinha, Andorinha (1966, José Olympio, Rio de Janeiro), Itinerário de Pasárgada (1966, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968, Editora Record, Rio de Janeiro), Berimbau e Outros Poemas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro) e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna Volume 1, da Fase Moderna  Volume 2 (todas editadas pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros  Poesia Simbolista (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia Poética (1961, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Poesia do Brasil (1963, Editora do Autor, Rio de Janeiro) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiler, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford e outros.

sábado, 25 de agosto de 2012

Luís Vaz de Camões: Amor é fogo que arde sem se ver

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


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Camões  200 Sonetos, Coleção L&PM Pocket, Volume 109, L&PM Editores, 1998, Porto Alegre  RS; Luís Vaz de Camões (1524 1580), português, teria nascido em Lisboa ou em Coimbra, foi poeta e é considerado um dos maiores vultos da literatura em língua portuguesa da Renascença e um dos grandes poetas do mundo ocidental; foi através de sua obra poética que a língua portuguesa passou a expressar sentimentos, sensações, fatos e idéias de uma forma até então jamais alcançada por ninguém; retratou o humanismo e a expansão ultramarina, dois elementos que caracterizaram o Renascimento Português; celebrizou-se não tão somente por ter escrito Os Lusíadas, longo poema épico que expõe a história e a cultura portuguesa até à época vigentes, mas também pelo desenvolvimento de uma obra lírica na qual se encontram, entre os poemas mais famosos, os sonetos; foi só após a sua morte que teve reunida, na coletânea Rimas, sua obra lírica.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Castro Alves: A Cruz da Estrada

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Invideo quia quieuscunt.                 
Luthero (Worms)     

Tu que passas, descobre-te! Ali dorme
 O forte que morreu.                     
A. Herculano (Trad.)      

Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.

Que vale o ramo do alecrim cheiroso
Que lhe atiras nos braços ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
Das borboletas, que lá vão pousar.

É de um escravo humilde sepultura,
Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Deixa-o dormir no leito de verdura,
Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.

Não precisa de ti. O gaturamo
Geme, por ele, à tarde, no sertão.
E a juriti, do taquaral no ramo,
Povoa, soluçando, a solidão.

Dentre os braços da cruz, a parasita,
Num abraço de flores, se prendeu.
Chora orvalhos a grama, que palpita;
Lhe acende o vaga-lume o facho seu.

Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
A sepultura fala a sós com Deus.
Prende-se a voz na boca das cascatas,
E as asas de ouro aos astros lá nos céus.

Caminheiro! do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado,
Há pouco a liberdade o desposou.

Recife, 22 de junho de 1865.
(Os Escravos)

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Castro Alves  Obra completa em um volume, quinta edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro  RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847  1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; Em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Cito Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, Bandido Negro, Mater Dolorosa, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...