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[traduzido
por João Moura Jr.]
Pacientemente
nos adaptamos
Bastam-nos
consolações ocasionais
como
as que o vento deposita
em
vastos bolsos fundos como poços.
Pois
ainda pode amar o mundo quem
vê
um gato faminto à porta
e
o protege da fúria lá de fora
no
ângulo do cotovelo roto.
Esquivando-nos,
adiaremos
até
o último esgar a lenta fatalidade
do
dedo enrugado que para nós aponta,
sempre
encarando o olhar abúlico
com
inocência e surpresa.
E
no entanto esses belos tombos não são mentira,
assim
como as piruetas de uma bengala elástica.
Nossas
exéquias não são, no fundo, uma empresa.
Podemos
escapulir-te, escapulir de tudo — menos do coração.
Não
é culpa nossa. O coração sobrevive.
Os
esgares fazem parte do jogo. Mas vimos
a
lua em alamedas desertas
transformar
num graal de risco uma lixeira vazia
e,
em meio a tanta algazarra de buscas e alegria,
ouvimos
o solitário miar de um gato.
[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 02.01.83
Chaplinesque
We make our meek adjustments,
Contented with such random consolations
As the wind deposits
In slithered and too ample pockets.
For we can still love the world, who find
A famished kitten on the step, and know
Recesses for it from the fury of the street,
Or warm torn elbow coverts.
We will sidestep, and to the final smirk
Dally the doom of that inevitable thumb
That slowly chafes its puckered index toward
us,
Facing the dull squint with what innocence
And what surprise!
And yet these fine collapses are not lies
More than the pirouettes of any pliant cane;
Our obsequies are, in a way, no enterprise.
We can evade you, and all else but the heart:
What blame to us if the heart live on.
The game enforces smirks; but we have seen
The moon in lonely alleys make
A grail of laughter of an empty ash can,
And through all sound of gaiety and quest
Have heard a kitten in the wilderness.
[White Buildings: Poems — 1926]
Notas do blogue Verso e Conversa:
* este audacioso aprendiz de blogueiro registra o exposto por Augusto de Campos, em Poesia da Recusa, acerca do poeta Hart Crane: “um dos mais notáveis poetas norte-americanos da nossa época. Um poeta que, se não se alçou às alturas de Pound, Eliot ou Cummings, não fica nada a dever a Wallace Stevens, Marianne Moore ou William Carlos Williams. E que pode conversar de igual para igual com o poeta galês Dylan Thomas, a personalidade que mais se lhe assemelha, em vida e obra.”;
** este atrevidíssimo aprendiz também expõe que Folhetim foi um suplemento dominical de
cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro,
trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha
editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989;
o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim,
periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização
de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987,
Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Harold Hart Crane (1899 — 1932), estadunidense de Garretsville,
Ohio, foi poeta e escritor; de sua biografia, por seus principais estudiosos,
ficamos sabendo que o poeta, que em parte de sua infância e juventude morou com
a avó, nunca superou seu problema psicológico originado pelos desentendimentos
com o pai e, deste, com a mãe, problema de resto não resolvido, e talvez daí derivasse
a raiz de seu homossexualismo e também de seu alcoolismo incontrolável; obras:
White Buildings: Poems (Edifícios Brancos, 1926), The Bridge (A Ponte, 1930),
The Collected Poems of Hart Crane (Os poemas coletados de Hart Crane, 1933); o
poeta, depois de ter obtido uma bolsa de estudos no México e lá ter permanecido
por algum tempo, em sua viagem de retorno por via marítima, cometeu suicídio
atirando-se às águas.






