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domingo, 18 de junho de 2023

Hart Crane*: Chaplinesque


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[traduzido por João Moura Jr.]

Pacientemente nos adaptamos
Bastam-nos consolações ocasionais
como as que o vento deposita
em vastos bolsos fundos como poços.

Pois ainda pode amar o mundo quem
vê um gato faminto à porta
e o protege da fúria lá de fora
no ângulo do cotovelo roto.

Esquivando-nos, adiaremos
até o último esgar a lenta fatalidade
do dedo enrugado que para nós aponta,
sempre encarando o olhar abúlico
com inocência e surpresa.

E no entanto esses belos tombos não são mentira,
assim como as piruetas de uma bengala elástica.
Nossas exéquias não são, no fundo, uma empresa.
Podemos escapulir-te, escapulir de tudo  menos do coração.
Não é culpa nossa. O coração sobrevive.

Os esgares fazem parte do jogo. Mas  vimos
a lua em alamedas desertas
transformar num graal de risco uma lixeira vazia
e, em meio a tanta algazarra de buscas e alegria,
ouvimos o solitário miar de um gato.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 02.01.83

Hart Crane

Chaplinesque

We make our meek adjustments,
Contented with such random consolations
As the wind deposits
In slithered and too ample pockets.

For we can still love the world, who find
A famished kitten on the step, and know
Recesses for it from the fury of the street,
Or warm torn elbow coverts.

We will sidestep, and to the final smirk
Dally the doom of that inevitable thumb
That slowly chafes its puckered index toward us,
Facing the dull squint with what innocence
And what surprise!

And yet these fine collapses are not lies
More than the pirouettes of any pliant cane;
Our obsequies are, in a way, no enterprise.
We can evade you, and all else but the heart:
What blame to us if the heart live on.

The game enforces smirks; but we have seen
The moon in lonely alleys make
A grail of laughter of an empty ash can,
And through all sound of gaiety and quest
Have heard a kitten in the wilderness.

[White Buildings: Poems — 1926]

Notas do blogue Verso e Conversa:
* este audacioso aprendiz de blogueiro registra o exposto por Augusto de Campos, em Poesia da Recusa, acerca do poeta Hart Crane: “um dos mais notáveis poetas norte-americanos da nossa época. Um poeta que, se não se alçou às alturas de Pound, Eliot ou Cummings, não fica nada a dever a Wallace Stevens, Marianne Moore ou William Carlos Williams. E que pode conversar de igual para igual com o poeta galês Dylan Thomas, a personalidade que mais se lhe assemelha, em vida e obra.”;
** este atrevidíssimo aprendiz também expõe que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Harold Hart Crane (1899 — 1932), estadunidense de Garretsville, Ohio, foi poeta e escritor; de sua biografia, por seus principais estudiosos, ficamos sabendo que o poeta, que em parte de sua infância e juventude morou com a avó, nunca superou seu problema psicológico originado pelos desentendimentos com o pai e, deste, com a mãe, problema de resto não resolvido, e talvez daí derivasse a raiz de seu homossexualismo e também de seu alcoolismo incontrolável; obras: White Buildings: Poems (Edifícios Brancos, 1926), The Bridge (A Ponte, 1930), The Collected Poems of Hart Crane (Os poemas coletados de Hart Crane, 1933); o poeta, depois de ter obtido uma bolsa de estudos no México e lá ter permanecido por algum tempo, em sua viagem de retorno por via marítima, cometeu suicídio atirando-se às águas.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Hart Crane: Em louvor de uma urna

 
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[traduzido por Oswaldino Marques]

Era um rosto meigo e setentrional
Que em expatriado semblante reunia
Os perenes olhos de Pierrot
E, de Gargantua, o riso farto.

Seus pensamentos, a mim confiados
No travesseiro e colcha brancos,
Percebo agora, heranças eram 
Cavaleiros frágeis da tormenta.

No monte oblíquo a lua oblíqua
Acordou em nós pressentimentos
Do que os mortos conservam, ainda a viver,
E de outras avaliações da alma

Que o relógio insistente comentava
Suspenso no átrio do crematório,
Aludindo também aos nossos louvores
A glórias apropriadas ao tempo.

Quieto, tendo na mente os áureos cabelos,
Não posso ver a derreada pálpebra
E escapa-me o som áspero das abelhas
Traspassando o espaço lúcido.

Dispersai estas palavras bem intencionadas
Pela fumarenta primavera que envolve
Os subúrbios, onde, de certo, se perderão.
Troféus do sol, elas não são.

Hart Crane

Praise for an urn

It was a kind and northern face
That mingled in such exile guise
The everlasting eyes of Pierrot
And, of Gargantua, the laughter.

His thoughts, delivered to me
From the white coverlet and pillow,
I see now, were inheritances
Delicate riders of the storm.

The slant moon on the slanting hill
Once moved us toward presentiments
Of what the dead keep, living still,
And such assessments of the soul

As, perched in the crematory lobby,
The insistent clock commented on,
Touching as well upon our praise
Of glories proper to the time.

Still, having in mid gold hair,
I cannot see that broken brow
And miss the dry sound of bees
Stretching across a lucid space.

Scatter these well-meant idioms
Into the smoky spring that fills
The suburbs, where they will be lost.
They are to trophies of the sun.
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Poemas Famosos de Língua Inglesa [diversos autores], Compilação, Tradução, Prefácios das 1ª e 2ª edições e Notas de Oswaldino Marques, edição bilíngue, volume 599 da Coleção Antologia de Poetas Universais, 1968, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Harold Hart Crane (1899 1932), estadunidense de Garretsville, Ohio, foi poeta e escritor; de sua biografia, por seus principais estudiosos, ficamos sabendo que o poeta, que em parte de sua infância e juventude morou com a avó, nunca superou seu problema psicológico originado pelos desentendimentos com o pai e, deste, com a mãe, problema de resto não resolvido, e talvez daí derivasse a raiz de seu homossexualismo e também de seu alcoolismo incontrolável; obras: White Buildings (Edifícios Brancos, 1926), The Bridge (A Ponte, 1930), The Collected Poems of Hart Crane (Os poemas coletados de Hart Crane, 1933); o poeta, depois de ter obtido uma bolsa de estudos no México e lá ter permanecido por algum tempo, em sua viagem de retorno por via marítima, cometeu suicídio atirando-se às águas.

domingo, 9 de maio de 2021

hart crane*: a planta do ar

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[traduzido por Augusto de Campos]

Grand Cayman

Esse tufo que nasce de um salobro nada,
Polvo invertido, braços para o céu,
Rebento ressequido de palmeira de angra,
Quase ave de ave quase um escarcéu,

É pulmonar ao vento que lhe move
Os tentáculos num meneio traiçoeiro.
A goela do lagarto, absorto com a mosca,
Infla-se, cauta, nesse trêmulo poleiro.

Serras e acúleos do cactus sangram
Leite da terra quando os vão cortar,
Mas este, sem espinhos, não espalha sangue,
Quase nem sombra, só a fala do ar.

Dínamo angelical! Ventríloquo do Azul!
Enquanto o mar, covil de tubarões, se esgueira
Na praia, que conjuração dos ventos urde
O furacão a apoteose derradeira!

1927

Hart Crane

the air plant

Grand Cayman

This tuft that thrives on saline nothingness,
Inverted octopus with heavenward arms
Thrust parching from a palm-bole hard by the cove
A bird almost of almost bird alarms,

Is pulmonary to the wind that jars
Its tentacles, horrific in their lurch.
The lizard’s throat, held bloated for a fly,
Balloons but warily from this throbbing perch.

The needles and hack-saws of cactus bleed
A milk of earth when stricken off the stalk;
But this, defenseless, thornless, sheds no blood,
Almost no shadow but the air’s thin talk.

Angelic Dynamo! Ventriloquist of the Blue!
While beachward creeps the shark-swept Spanish Main
By what conjunctions do the winds appoint
Its apotheosis, at last the hurricane!

1927

* Nota do Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz notar que Augusto de Campos, tradutor e organizador deste poesia da recusa, nos traços biobibliográficos de Crane, a poesia sem troféus, expõe ser o autor “um dos mais notáveis poetas norte-americanos da nossa época. Um poeta que, se não se alçou às alturas de Pound, Eliot ou Cummings, não fica nada a dever a Wallace Stevens, Marianne Moore ou William Carlos Williams. E que pode conversar de igual para igual com o poeta galês Dylan Thomas, a personalidade que mais se lhe assemelha, em vida e obra.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Harold Hart Crane (1899 1932), estadunidense de Garretsville, Ohio, foi poeta e escritor; de sua biografia, por seus principais estudiosos, ficamos sabendo que o poeta, que em parte de sua infância e juventude morou com sua avó, nunca superou seu problema psicológico originado pelos desentendimentos com o pai e, deste, com a mãe, problema de resto não resolvido, e talvez estivesse aí a raiz do seu homossexualismo e também de seu alcoolismo incontrolável; bibliografia: White Buildings (Edifícios Brancos, 1926), The Bridge (A Ponte, 1930), The Collected Poems of Hart Crane (Os poemas coletados de Hart Crane, 1933); o poeta, depois de ter obtido uma bolsa de estudos no México e lá ter permanecido por algum tempo, em sua viagem de retorno por via marítima, cometeu suicídio atirando-se às águas.

domingo, 18 de abril de 2021

hart crane *: imperatur victus

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Canhões ainda.
Claro calão
Que se deslinda.

Ainda. ainda 
Denunciarão
Ao Mar a vinda

Do Dólar e da Cruz.

Canhões ainda.
Repousa em paz.
Cabeça andina.

Ainda. ainda 
A estranha paz
Do rei da Espanha.

Que morto jaz.

Canhões ainda.
Ataualpa.
Imperator Inca 

Finda.

[1927]

Hart Crane

imperator victus

Big guns again.
No speakee well
But plain.

Again, again —
And they shall tell
The Spanish Main

The Dollar from the Cross.

Big guns again.
But peace to thee,
Andean brain.

Again, again —
Peace from his Mistery
The King of Spain,

That defunct boss.

Big guns again,
Atahualpa,
Imperator Inca —

Slain.

[1927]

* Nota do Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz notar que Augusto de Campos, tradutor e organizador deste poesia da recusa, nos traços biobibliográficos de Crane, a poesia sem troféus, expõe ser o autor “um dos mais notáveis poetas norte-americanos da nossa época. Um poeta que, se não se alçou às alturas de Pound, Eliot ou Cummings, não fica nada a dever a Wallace Stevens, Marianne Moore ou William Carlos Williams. E que pode conversar de igual para igual com o poeta galês Dylan Thomas, a personalidade que mais se lhe assemelha, em vida e obra.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Harold Hart Crane (1899 1932), estadunidense de Garretsville, Ohio, foi poeta e escritor; de sua biografia, por seus principais estudiosos, ficamos sabendo que o poeta, que em parte de sua infância e juventude morou com a avó, nunca superou seu problema psicológico originado pelos desentendimentos com o pai e, deste, com a mãe, problema de resto não resolvido, e talvez daí derivasse a raiz de seu homossexualismo e também de seu alcoolismo incontrolável; bibliografia: White Buildings (Edifícios Brancos, 1926), The Bridge (A Ponte, 1930), The Collected Poems of Hart Crane (Os poemas coletados de Hart Crane, 1933); o poeta, depois de ter obtido uma bolsa de estudos no México e lá ter permanecido por algum tempo, em sua viagem de retorno por via marítima, cometeu suicídio atirando-se às águas.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Hart Crane *: Passagem

Antologia da Nova Poesia Norte-Americana | Livro Editora ...
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[traduzido por Jorge Wanderley]

Ali onde a folha do cedro divide o céu
Eu ouvi o mar.
Nas arenas de safira das montanhas
Recebi a promessa de uma infância melhor.

Enfadada, corroborando o sol,
Minha memória deixei numa ravina:
Piolho casual que tece o trigal,
Veste rochedos, congrega peras
Em alqueires enluarados
E acorda as alamedas com uma tosse oculta.

O verão queimou perigosamente
(Eu me reunira ao roldão do vento).
As sombras dos penedos alongavam meu dorso:
Nos gongos de bronze de minhas faces
A chuva secava sem odor.

“Não demora, não demora;
Veja os vales negros e vermelhos
Eriçados de vinhas” ... Mas o vento
Morreu falando através das idades que conheces
E abraças, ó coração do homem, fuliginoso!
Assim, me voltei sobre mim ao modo de teus fumos,
Revisando uma biografia por demais conhecida.

O entardecer era um dardo na ravina
Florescendo dentro de um carvalho. Teria eu
Percorrido a exata dúzia de decimais do tempo?
Tocando um loureiro que se abria, encontrei
Debaixo dele um ladrão com o livro que me roubara.

“Para que retornas sorrindo um esquife de ferro?”
“Para discutir com o loureiro”, respondi.
“Justifica-me o transitório, vivo a fugir
Sob o vagar constante dos teus olhos...”

Ele fechou o livro. E desde a areia
De Ptolomeu despenhou-se comigo num abismo resplandecente.
Uma serpente fez nadar um vértice para o sol
E sobre praias virgens estendeu a língua tamborilante.
Que fontes ouvira eu? Que discurso de gelo?
Minha memória, confinada à página ruíra.

Hart Crane

Passage

Where the cedar leaf divides the sky
I heard the sea.
In sapphire arenas of the hills
I was promised an improved infancy.

Sulking, sanctioning the sun,
My memory I left in a ravine,
Casual louse that tissues the buckwheat,
Aprons rocks, congregates pears
In moonlit bushels
And wakens alleys with a hidden cough.

Dangerously the summer burned
(I had joined the entrainments of the wind).
The shadows of boulders lengthened my back:
In the bronze gongs of my cheeks
The rain dried without odour.

“It is not long, it is not long;
See where the red and black
Vine-stanchioned valleys “: but the wind
Died speaking through the ages that you know
And hug, chimney-sooted heart of man!
So was I turned about and back, much as your smoke
Compiles a too well-known biography.

The evening was a spear in the ravine
That throve through very oak. And had I walked
The dozen particular decimals of time?
Touching an opening laurel, I found
A thief beneath, my stolen book in hand.

''Why are you back here-smiling an iron coffin?”
“To argue with the laurel,” I replied:
“Am justified in transience, fleeing
Under the constant wonder of your eyes .“

He closed the book. And from the Ptolemies
Sand troughed us in a glittering, abyss.
A serpent swam a vertex to the sun
On unpaced beaches leaned its tongue and drummed.
What fountains did I hear? What icy speeches?
Memory, committed to the page, had broke.

* Nota do Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página faz notar que Augusto de Campos, tradutor e organizador de Poesia da Recusa (Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP), nos traços biobibliográficos de Crane, A Poesia sem troféus, expõe ser o autor “um dos mais notáveis poetas norte-americanos da nossa época. Um poeta que, se não se alçou às alturas de Pound, Eliot ou Cummings, não fica nada a dever a Wallace Stevens, Marianne Moore ou William Carlos Williams. E que pode conversar de igual para igual com o poeta galês Dylan Thomas, a personalidade que mais se lhe assemelha, em vida e obra.
____________________
Antologia da Nova Poesia Norte-Americana — Seleção, Tradução e Notas de Jorge Wanderley, edição bilíngue, 1992, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Harold Hart Crane (1899 1932), estadunidense de Garretsville, Ohio, foi poeta e escritor; de sua biografia, por seus principais estudiosos, ficamos sabendo que o poeta, que em parte de sua infância e juventude morou com a avó, nunca superou seu problema psicológico originado pelos desentendimentos com o pai e, deste, com a mãe, problema de resto não resolvido, e talvez daí derivasse a raiz de seu homossexualismo e também de seu alcoolismo incontrolável; bibliografia: White Buildings (Edifícios Brancos, 1926), The Bridge (A Ponte, 1930), The Collected Poems of Hart Crane (Os poemas coletados de Hart Crane, 1933); o poeta, depois de ter obtido uma bolsa de estudos no México e lá ter permanecido por algum tempo, em sua viagem de retorno por via marítima, cometeu suicídio atirando-se às águas.