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Correio da Manhã, 07.05.1964
Do dia 1º de abril até ontem, foram presas milhares de pessoas. Não sabemos os nomes, as profissões e os pensamentos dessas pessoas. Sabemos apenas que estão presas em algum lugar — ou em qualquer lugar. Pelas cartas que nos chegam, pelas informações que subitamente colhemos numa entrelinha de noticiário, sabemos que a maioria desses presos nem sequer foi interrogada ainda. Estão presos há mais de 30 dias e nem sequer sabem porque estão presos.
O drama dessa gente — infelizmente — é um assunto à parte. Tão perplexos quanto os presos, estão alguns cidadãos que tiveram seus direitos e mandatos cassados: não lhes foi pedido um esclarecimento, uma declaração. Muitos deles — tal como os presos — perderam tudo e não sabem que perderam tudo. Para citar alguns nomes: o prof. Anísio Teixeira, o economista Celso Furtado, o jornalista Edmar Morel. Exagero quando digo que perderam tudo. Muitos deles já receberam propostas do estrangeiro para cargos altamente honrosos.
Mas voltemos aos presos. João de Tal, pardo, 35 anos, metalúrgico, na manhã do dia 10 de abril chegou a seu local de trabalho e foi preso. Levado no tintureiro que ele viu lá no morro onde mora: no dia em que prenderam Tião Medonho e o retiraram, ferido do barraco-fortaleza. Pois no mesmo tintureiro destinado aos criminosos, João de Tal é carregado pelas ruas da cidade e, de repente, jogado num pátio onde duzentos ou trezentos Joões de Tal estão vivendo a mesma tragédia.
João de Tal é homem. Suporta estoicamente o cimento frio do pátio, o fedor das secreções em volta, a comida incerta e deteriorada. Suporta até mesmo o espancamento esporádico que os policiais ou os militares promovem para "baixar a moral da rapaziada". João de Tal não sofre por isso nem com isso.
Sofre mais, porém. Deixou em algum lugar a família. Mulher, sei lá quantos filhos, talvez um agregado, que tanto pode ser um amigo tuberculoso, um papagaio, um cachorro ou um parente afastado de sua mulher. Na tarde do dia 10, toda essa gente esperou inutilmente pelo chefe da casa — daquilo que com algum esforço se pode chamar de casa. A noite caiu e caíram também a incerteza e a impotência: desastre do trem, acidente no trabalho, ou simplesmente a emboscada estúpida em qualquer biboca por aí.
Talvez alguém tenha mencionado a polícia ou Exército. João de Tal gostava do PTB: vira um candidato a vereador, há tempos, distribuir flâmulas do Partido. Havia duas cores fatais: vermelho e negro. João de Tal entregou a alma e o corpo àquela flâmula rubronegra. Pendurou-a em sua sala, ao lado da outra flâmula — flâmula não, pavilhão rubronegro. Era a decoração e o orgulho da casa.
João de Tal não poderia ser preso por isso. Muita gente no morro também era PTB, era até comunista, e continuava solta, saía para o trabalho todos os dias e todos os dias inexoravelmente voltava.
Não foi preciso sindicar muito. Um vizinho trabalhava no Ministério da Educação. Não era doutor, era simplesmente ascensorista. Pois o ascensorista recebeu um papel para declarar o nome dos conhecidos que eram subversivos. O ascensorista perguntou a uma funcionária da biblioteca o que era subversivo, a funcionária respondeu firme: "É ser do PTB!" *
A delação foi feita e o ascensorista não sabe que ao lado de sua casa, por culpa na qual ele não chega a ter culpa, uma família inteira, mais o agregado — talvez apenas um papagaio — esperam inutilmente que João de Tal volte com seus braços fortes para o sustento de todos. Com seus dentes brancos para o sorriso de todos.
Para atender a essa gente, a todos os Joões de Tal que não voltaram ou não voltarão um dia, espero merecer a atenção e o respeito de todos. É preciso que alguém faça alguma coisa. E já que não se pode pedir mais justiça, peço caridade.
* Nota: Em outra
crônica, de 14.05.1964, Cony publica duas notas no rodapé. Uma é esta: “...
em crônica passada... citei uma bibliotecária como delatora. Foi um exemplo
apenas, sem que com isso pretendesse ferir a classe. Afinal, poderia citar,
para o exemplo, uma telefonista, um ascensorista, um dentista ou uma escriturária.
Foi coisa impessoal, genérica, hipotética.”
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O Ato e o Fato — crônicas
políticas, 3ª edição, 1964, Editora Civilização Brasileira, Rio de
Janeiro — RJ; Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926,
cursou humanidades e filosofia no Seminário São José, do Rio de Janeiro; escritor
e jornalista, trabalhou em jornais e revistas cariocas (Rádio Jornal do Brasil,
Correio da Manhã, revistas do Grupo Manchete), atualmente colunista da Folha de
São Paulo, é autor de extensa obra, ganhador de diversos prêmios literários, e
pertence à Academia Brasileira de Letras; entre outros títulos, escreveu O Ventre (romance, 1962), A verdade de cada dia (romance, 1959), Matéria de
memória (romance, 1962), Da arte de falar mal (crônicas, 1963), O Ato e o Fato (crônicas políticas, 1964), Antes, o Verão
(romance, 1964), Posto Seis (crônicas, 1965), Pesssach: a
travessia (romance, 1967), Sobre todas as coisas (contos, 1968), Pilatos (romance, 1973), Quase memória (romance,
1995), A Casa do Poeta Trágico (romance, 1999), O Tudo ou o Nada (crônicas,
2004), além de adaptações de textos clássicos da literatura universal, traduções,
textos para teatro e televisão (novela) e participação de coletâneas com outros
autores; durante a ditadura civil-militar foi preso diversas vezes por sua
atuação na imprensa.






