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sábado, 8 de dezembro de 2018

Eugenio Montale: Tanque

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[traduzido por Renato Xavier]

Passou no trêmulo vidro
um riso de beladona florida,
dentre os ramos as nuvens apressadas
à vista reassomavam
do fundo em flocos embaçados.
Um de nós atirou um seixo
que desfez essa tona luzidia:
as frouxas aparências se romperam.

Contudo eis que algo se arrasta
à flor do espelho que se alisa e refaz:
de irromper não é capaz,
quer viver e não sabe como;
nasceu e morreu, e não teve nome.

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Eugenio Montale

Tanque

Passò sul tremulo vetro
un riso di belladonna fiorita,
di tra le rame urgevano le nuvole,
dal fondo ne riassommava
la vista fioccosa e sbiadita.
Alcuno di noi tirò un ciottolo
che ruppe la tesa lucente:
le molli parvenze s’infransero.

Ma ecco, c’è altro che striscia
A fior della spera rifatta lisca:
di erompere non ha virtù,
vuol vivere e non sa come;
se lo guardi si stacca, torna in giù:
è nato e morto, e non ha avuto un nome.
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Ossos de Sépia Eugenio Montale, Tradução, Prefácio e Notas de Renato Xavier e Apresentação de Dora Ferreira da Silva, edição bilíngue, 2002, Companhia das Letras, São Paulo SP; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere della Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; bibliografia: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre versi del 194042 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 19621970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Eugenio Montale: Atraca junto à crestada margem . . .

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[traduzido por Renato Xavier]

Atraca junto à crestada margem
os barcos de papel; vai dormir
patrão menino: não deves ouvir
os bandos de espíritos que no ar malévolos pairem.

No recesso do horto o mocho esvoaça
e pesam nos tetos penachos de fumaça.
O instante que arruína meses de lavor lento
chega: ora eiva em segredo, ora arranca num vento.

Aparece a fratura; sem alarde talvez.
Quem construiu, sente-se condenado.
É quando só se salva o barco parado.
Amarra a tua frota entre as sebes.

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Eugenio Montale

Arremba su la strinata proda
le navi di cartone, e dormi,
fanciulletto padrone: che non oda
tu i malevoli spiriti che veleggiano a stormi.

Nel chiuso dell'ortino svolacchia il gufo
e i fumacchi dei tetti sono pesi.
L'attimo che rovina l'opera lenta di mesi
giunge: ora incrina segreto, ora divelge in un buffo.

Viene lo spacco; forse senza strepito.
Chi ha edificato sente la sua condanna.
È l'ora che si salva solo la barca in panna.
Amàrra la tua flotta tra le siepi.
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Ossos de Sépia Eugenio Montale, Tradução, Prefácio e Notas de Renato Xavier e Apresentação de Dora Ferreira da Silva, edição bilíngue, 2002, Companhia das Letras, São Paulo SP; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere della Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; bibliografia: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre versi del 194042 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 19621970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Eugenio Montale: Quase uma fantasia

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[traduzido por Renato Xavier]

Amanhece, eu pressinto
pelo alvor da prata
frusta nas paredes:
risca um vislumbre as janelas fechadas.
De novo advento
do sol e as difusas
vozes, ruídos do hábito não traz.

Por quê? Penso num dia encantado
e do carrossel de horas sempre iguais
me reparo. Transbordará a força
que me intumescia, mago inconsciente,
há muito tempo. Agora hei de ir lá fora,
arrasar altas casas, nuas avenidas.

Diante mim terei terra de intactas neves
mas leves como vistas em tapeçaria.
Deslizará do céu cotonoso um raio tardio.
Prenhes de luz invisível, florestas e montes
far-me-ão o louvor dos regressos festivos.

Lerei contente os negros
signos de ramo no branco
como um essencial alfabeto.
Há o passado em conjunto
de ser-me adiante bem visto.
Não há de turvar som algum
essa alegria solitária.
Cruzará o ar
ou pousará numa estaca
algum galinho de março.

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Eugenio Montale

Quasi una fantasia

Raggiorna, lo presento
da un albore di frusto
argento alle pareti:
lista un barlume le finestre chiuse.
Torna l’avvenimento
del sole e le diffuse
voci, i consueti strepiti non porta.

Perché? Penso ad un giorno d’incantesimo
e delle giostre d’ore troppo uguali
mi ripago. Traboccherà la forza
che mi turgeva, incosciente mago,
da grande tempo. Ora m’affaccerò,
subisserò alte case, spogli viali.

Avrò di contro un paese d’intatte nevi
ma lievi come viste in un arazzo.
Scivolerà dal cielo bioccoso un tardo raggio.
Gremite d’invisibile luce selve e colline
mi diranno l’elogio degl’ilari ritorni.

Lieto leggerò i neri
segni dei rami sul bianco
come un essenziale alfabeto.
Tutto il passato in un punto
dinanzi mi sarà comparso.
Non turberà suono alcuno
quest’allegrezza solitaria.
Filerà nell’aria
o scenderà s’un paletto
qualche galletto di marzo.
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Ossos de Sépia  Eugenio Montale, Tradução, Prefácio e Notas de Renato Xavier e Apresentação de Dora Ferreira da Silva, edição bilíngue, 2002, Companhia das Letras, São Paulo  SP; Eugenio Montale (1896 —  1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere della Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; bibliografia: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre  versi del 194042 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 19621970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Eugenio Montale: Quisera ter-me sentido tosco e essencial . . .

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[traduzido por Renato Xavier]

Quisera ter-me sentido tosco e essencial
assim como esses seixos que revolves,
comidos por salsugem;
lasca fora do tempo, testemunho
de uma vontade fria que não passa.
Outro fui: homem fito que repara
em si, nos outros, a efervescência
da vida fugaz  homem demorado
nos atos que ninguém, depois, destrói.
Quis procurar o mal
que corrói o mundo, a pequena torção
de alavanca que pára
o engenho universal; e vi a todos
os eventos do minuto
prestes a desjuntar-se num abalo.
Na trilha dum caminho eu quis o rumo
inverso, convidativo; e talvez
precisasse do gesto incisivo,
da mente que decide e se determina.
Eram-me necessários outros livros
não tua página estrondosa.
Mas nada posso lamentar: teu canto
desata ainda os nós interiores.
O teu delírio então sobe aos astros.

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Eugenio Montale

Avrei voluto sentirmi scabro ed essenziale
siccome i ciottoli che tu volvi,
mangiati dalla salsedine;
scheggia fuori del tempo, testimone
di una volontà fredda che non passa.
Altro fui: uomo intento che riguarda
in sé, in altrui, il bollore
della vita fugace  uomo che tarda
all’atto, che nessuno, poi, distrugge.
Volli cercare il male
che tarla il mondo, la piccola stortura
d’una leva che arresta
l’ordegno universale; e tutti vidi
gli eventi del minuto
come pronti a disgiungersi in un crollo.
Seguìto il solco d’un sentiero m’ebbi
l’opposto in cuore, col suo invito; e forse
m’occorreva il coltello che recide,
la mente che decide e si determina.
Altri libri occorrevano
a me, non la tua pagina rombante.
Ma nulla so rimpiangere: tu sciogli
ancora i groppi interni col tuo canto.
Il tuo delirio sale agli astri ormai.
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Ossos de Sépia Eugenio Montale, Tradução, Prefácio e Notas de Renato Xavier e Apresentação de Dora Ferreira da Silva, edição bilíngue, 2002, Companhia das Letras, São Paulo SP; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere della Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; bibliografia: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre versi del 194042 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 19621970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Eugenio Montale: O que de mim soubestes . . .

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[traduzido por Renato Xavier]

O que de mim soubestes
foi somente a cobertura,
a túnica que reveste
a nossa humana ventura.

E talvez além do véu
houvesse um azul tranquilo;
a vedar o límpido céu
só um sigilo.

Ou ao invés fosse fantástica
a mudança em minha vida,
o descortinar de incendida
plaga que não verei mais.

Restou assim esta capa
da minha real substância;
o fogo que não se apaga
para mim se chamou ignorância.

Se sombras avistardes, não será
uma sombra  eu hei de ser.
Pudesse arrancá-la de mim,
eu vos haveria de a oferecer.

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Eugenio Montale
Ciò che di me sapeste
non fu che la scialbatura,
la tonaca che riveste
la nostra umana ventura.

Ed era forse oltre il telo
l’azzurro tranquillo;
vietava il limpido cielo
solo un sigillo.

O vero c’era il falòtico
mutarsi della mia vita,
lo schiudersi d’un’ignita
zolla che mai vedrò.

Restò così questa scorza
la vera mia sostanza;
il fuoco che non si smorza
per me si chiamò: l’ignoranza.

Se un’ombra scorgete, non è
un’ombra  ma quella io sono.
Potessi spiccarla da me,
offrirvela in dono.
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Ossos de Sépia Eugenio Montale, Tradução, Prefácio e Notas de Renato Xavier e Apresentação de Dora Ferreira da Silva, edição bilíngue, 2002, Companhia das Letras, São Paulo SP; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere della Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; bibliografia: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre versi del 194042 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 19621970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.