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terça-feira, 24 de abril de 2012

O Sessentão de Bacaetava: O Andarilho


Minas e Manos,

Fim-de-semana passada encontrei o Sessentão de Bacaetava caminhando no Parque da Aclimação aqui em Sampa. Inicialmente eu o observei acompanhando-o um tanto à distância. Depois me aproximei. Só o fiz após ele e eu já termos completado alguns "8" nas duas pistas locais: a asfaltada, que rodeia o lago, e a de terra e saibro, inclinada, que serpenteia por debaixo das árvores no interior do bosque.

Aproximação feita, saudações de praxe, e ele me contou estar ultimando preparativos para uma caminhada de onze dias a iniciar-se em Santana do Parnaíba e a ser concluída 243 quilômetros além, em Águas de São Pedro. É o tal do Caminho do Sol.

No começo duvidei da prosa e da proeza. Achei que ele estivesse brincando. No fim, acreditei. Que disposição!

Comecei especulando pra sentir até onde ia sua firmeza de propósito. Argumentei:  Será que suas pernas aguentariam!? É muito tempo andando; estradas e caminhos são irregulares, com pirambeiras e subidas, barrancos e trancos, trilhas tortuosas... Tudo isso tenderia a atrapalhar seus planos.

Sem pestanejar ele informou que já vinha se preparando há mais de seis meses, desde outubro último, quando decidiu ir. De lá pra cá percorrera muito mais que os 240 quilômetros da caminhada, isso aqui na Aclimação e no Parque Ibirapuera além de por ruas e avenidas. Afinal, nem carro tinha. Garantiu-me que já rodara a pé mais de 600 km nestes percursos todos. Como exemplo, citou que só nos "8" aqui do Parque tinha andado mais de 100 km nas últimas cinco semanas.

Ouvi e continuei com meus poréns  e contudos:  E se chover, a probabilidade disso ocorrer não é pequena?! E se pegar uma gripe?! E se o pé sofrer um corte e inchar?! E se surgirem bolhas?! E se...?! Sem socorro ou conforto rápidos, longe da civilização da urbanicéia?!

Ele retrucou:  Nada que uma capucha não resolva. O que poderá ocorrer é que a marcha fique mais lenta, só isso. Se porventura gripar, não faltará um chazinho caseiro à base de plantas que na certa encontrará e saberá recolher nos caminhos por onde for. Pra curar uma bolha ou um possível corte no pé, rubim, manjericão ou alecrim darão um jeito. Homem da roça que foi, entende que tais plantinhas, bem amassadas, reduzem a chance de inflamação e facilitam a cicatrização, tudo conforme o caso.

Insisti:   E o coração, aguenta? Ele respondeu citando Pascal: — "O coração tem razões que a própria razão desconhece".  É, ele me pareceu bem decidido e com respostas na ponta da língua.

Mas o que deu no velhote que resolveu fazer isso agora? Promessa? Prescrição médica? Simples aventura? — Não é bem assim, emendou o Sessentão.

Se bem entendi do que ouvi, o fato é que desde criança ele andava muito por trilhos e trilhas: ora levando almoço pro pai no serviço; ora catando lenha no mato; ora dirigindo-se à cidade, rumo à missa, à escola e aos passeios. Todos esses trajetos eram feitos a pé.

E prosseguiu: ainda adolescente, enquanto a gurizada jogava bola e brilhava no futebol de campo e de salão, ele, que só se arriscava num futebol de botão, se entretia correndo seguidas vezes em torno do campo ou da quadra. 

Já adulto e cidadão urbano, quando em férias, muito caminhou pelas praias. Certa vez, em viagem de cinco dias à Chapada Diamantina no interior baiano, percorreu mais de 70 km por trilhas, escalou rochas, varou rios e cachoeiras, subiu e desceu morros, inclusive andou centenas de metros por cavernas e grutas.

Eu acreditei e lhe desejei boa sorte na caminhada. O Sessentão, que não se considera um andarilho de alta performance, agradeceu com um sorriso e arrematou:  Na volta nos encontraremos, e já fica combinado um relato da proeza. 

Só me resta aguardar o prometido. 

P. da Silva,
aprendiz de andarilho.

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P. da Silva, O Sessentão de Bacaetava, Genésio dos Santos, etecétera, etecétera, etecétera, aprendiz de andarilho e de blogueiro, são uma só pessoa.