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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Carlos Alberto de Araújo *: Salvar

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Mais um desejo, amigo!
              É preciso soltar,
Pelas florestas frias e adormecidas,
Todos os nossos desejos tímidos,
Procurando mesmo assombrá-los,
Para que fujam, para que corram
E se desviem por todos os lados...

Mais um desejo!
              É preciso que a pálida vida,
Nos seus longos passeios desoladores,
Encontre sempre um desejo perdido
Que ela saiba salvar...

[revista KLAXON  nº 6,
15 de outubro de 1922, São Paulo (pág. 6)]

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* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados”.
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta bissexto; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos com o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

sábado, 26 de maio de 2018

Tácito de Almeida: Meditação [Sobre a Morte]

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Melancolia!
                       A noite desenrola lentamente
                       a peça infinita, de veludo negro...
Melancolia!
                       Fugiram os desejos incertos,
                       fugiram as alegrias insensíveis...

                       Mas ainda existe o mistério?
                       ainda existe a vida? existe a morte?
Melancolia!
                       Mais um silêncio, melancolia!
                       Um silêncio último, um silêncio pequeno
                       para ouvirmos aquele “outro” silêncio...

Mais uma sombra, uma grande sombra,
para diluir, suavizar aquelas “outras” sombras...

Mais olhos, melancolia,
               olhos claros, brilhantes, olhos noturnos,
               para avistarmos e conduzirmos,
               silenciosamente,
               ATÉ AO NOSSO DESEJO,
               aquela grande imagem cega
               que nos procura,
               que nos espera...

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Tácito de Almeida — Túnel e Poesias Modernistas — 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, Coleção Toda Poesia 3, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; Carlos  Tácito  Alberto de Almeida Araújo (1889 — 1940), paulista de Campinas,  formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Tácito de Almeida: A mesma tempestade

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I

Os relâmpagos chicoteiam com fúria
os cavalos cinzentos das nuvens,
para chegar mais depressa à terra.

As trovoadas longínquas parecem
Caminhões cheios de água em disparada
por velhas ruas mal calçadas.

E o vento rasteiro,
vestido de poeira,
passa faminto como um cão,
farejando a terra.

II

A chuva já passou.

A noite límpida é um menino,
saindo detrás das montanhas.

E ele vem correndo, vem correndo,
alegremente,
todo molhado.

Os homens assombrados,
julgando-o perdido,
estavam já desanimados.

Mas ele vem correndo, vem correndo,
alegremente,
todo molhado.

Vem correndo… E, quando encontra
os homens cheios de olhares,
ele pára e estende os braços úmidos,
e vai espalhando pelo céu,
cheio de orgulho,
os mil pedaços ainda móveis
da verde cobra fosforescente
que matou na floresta, atrás das montanhas…

(Klaxon, nº 4, São Paulo, 15 ago. 1922, p. 6.)

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Klaxon  Revistas do Modernismo 1922  1929 (edição fac-similar), Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr. e Ensaio de Gênese Andrade, 2014, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo  SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Tácito de Almeida: Crianças

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                Rápido comboio escorregando pelos trilhos,
                escorregando suavemente.

Rápido comboio,
                como a pena, como a vida de um poeta,
copiando um poema e copiando um destino
                já decorados pela imaginação fugitiva...

Rápido comboio...
                       Ó o ponto negro das cidades pobrezinhas,
sentadas como crianças,
tristemente,
nos degraus mais baixos das montanhas...

                       Onde ficarão os pontos finais?...

Como crianças... Pálidas crianças,
crianças mendigas, enfraquecidas,
estendendo o braço de uma estrada mais longa,
de uma estrada que sobe, que foge, que some,
muito vermelha, muito esmagada,
como o interior das veias fracas
onde o sangue luta para não se coagular.

                Pobres crianças
                braços frágeis, caminhos magros,
                caminhos que fogem,
                crianças tísicas,
                famintas,
                corroídas pela miséria,
                crianças que morrem pedindo esmolas,
                pedindo esmolas para viver.

Pobres crianças...

                       RÁPIDO COMBOIO. . .

E o mundo feliz, o mundo elétrico,
cheio de brilho, cheio de luzes, cheio de noites alegres,
o mundo feliz cheio de leitos!

Cidades pobrezinhas, pequeninas,
que não poderão nunca mais crescer!...

Caminhos vermelhos e estreitos que lutam, que fogem, que sobem,
caminhos que somem e só vão parar,
desfalecidamente,
cada vez mais surdos, mais desertos,
à porta gelada, gelada dos cemitérios.

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Tácito de Almeida — Túnel e Poesias Modernistas — 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, Coleção Toda Poesia 3, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; Carlos  Tácito  Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas,  formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Tácito de Almeida: Tempestade

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Princípio de tarde. Carnaval no céu.
Máscaras negras, máscaras brancas,
máscaras cinzentas,
o sol experimenta todas as máscaras,
até que se esconde sob uma delas
e não aparece mais.

Desvairamento invisível.

Serpentinas de relâmpagos
atravessam o espaço.
E atrás dos montes longínquos,
mãos imponderáveis, mãos pobres
procuram em vão recolhê-las.

Serpentinas, mais serpentinas!

E as nuvens rápidas
agitam-se tanto,
tão nervosamente,
que já não têm mais forças.

Pobres braços desarticulados,
braços cansados,
descendo sem querer...

E a chuva fria cai, cai longamente,
cheia do perfume das folhas lustrosas,
cheia de éter, vaporosa,
cheia de céu...

E a chuva fria cai, cai docemente,
cada vez mais calma, cada vez mais fria,
até morrer...

E o magro céu, branco como um palhaço,
ergue e começa a arquear sobre a cidade
o arco-íris alegre e violento,
sob o qual vai passar triunfalmente,
nos cavalos lustrosos da noite,
o préstito invisível dos astros...

(Klaxon, nº 2, São Paulo, 15 jun. 1922, p. 56.)

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Klaxon  Revistas do Modernismo 1922  1929 (edição fac-similar), Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr. e Ensaio de Gênese Andrade, 2014, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo  SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

domingo, 27 de agosto de 2017

Tácito de Almeida: Desenho

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Vamos vivendo, vamos vivendo...

Não imaginamos como deve ser,
como queremos que seja a nossa vida...

Vamos vivendo, vamos vivendo...

Deixemos que a nossa vida
seja como essas figuras despreocupadas
que a nossa mão vai desenhando sem querer...

Essas figuras que só depois de terminadas
começamos a achar parecidas com alguém...

Vamos vivendo, vamos vivendo...

(Túnel)

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Tácito de Almeida — Túnel e Poesias Modernistas — 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, 1987, Coleção Toda Poesia 3, Art Editora, São Paulo — SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889 1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos com o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Tácito de Almeida: Meditação [Noturno da Sorocabana]

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“O céu que alimenta a ciência dos Homens
Porque nada lhes diz...”
Carlos Alberto de Araújo
 (d’A planta flexível)

I

Ó as noites aladas!

Como o comboio longo voa,
todo solto,
mastigando a treva!

Uma brasa leve, livre, ardente,
cada vez mais viva,
toda entregue ao vento...

Ó os sonhos dos velhos pobres!

Ó meu céu, meu bom São Jorge,
como é b elo o teu capacete cheio de plumas,
e como está brilhante a tua armadura escamada!

II

Ó as noites aladas!

Um choque mole,
um silvo afiado
e a serpente luminosa que para,
tonta, perdida na paisagem silenciosa...

Ó os sonhos dos olhos pobres!

Porque baixaste, meu bom São Jorge,
a estrela cadente de tua espada
contra o ar azul, contra o mundo frágil
e contra a minha serpente encantada?

III

Ó as noites aladas!

O silêncio vazio dos campos parados...

O céu largo, de asas fosforescentes,
debatendo-se no espaço inviolável...

Imobilidade,
perfume das planícies noturnas.

Rumor surdo,
rumor rouco
no peito da noite crivada de setas.

Rumor surdo...

A noite é uma grande bobina elétrica,
muito encerrada,
dentro de fortes cilindros de aço polido...

A noite é uma usina,
uma enorme fábrica negra, invisível...

Rumor surdo,
rumor rouco
das grandes máquinas loucas que fervem,
que trabalham desesperadamente,
interminavelmente,
para fabricar silêncio...

Silêncio!
Porque tanto silêncio?...

Porque vigiar tanto a terra,
vigiar tanto os homens que pensam, que sofrem
e espreita, todos os gestos do Mistério?...

Ó céu, meu bom São Jorge,
quando terminará essa velha cruzada?

Porque tanto silêncio? tanto silêncio?...

Porque vigiar tanto a voz fraca dos homens?!...

(Túnel)

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Tácito de Almeida  Túnel e Poesias Modernistas 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, 1987, Coleção Toda Poesia 3, Art Editora, São Paulo  SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos com o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).