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sábado, 12 de novembro de 2022

p. da silva: sonho & burrice

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as classes média e média baixa que vivem de salário levam a vida tentando ingressar no paraíso; às vezes conseguem, mas logo dali são expulsas; retornam então ao purgatório e já não são mais aceitas; desiludidas, tentam viver isoladas sem perceber que as estão mandando é para o inferno.

[Acatar se ... é um informativo ainda experimental
que mata a cobra e mostra a cobra morta
— nº quase zero, março e abril/2001 —]
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p. da silva e alguns outros silva que subscrevem neste blogue, além de genésio dos santos, são um só zigoto, uma só pessoa e um só aprendiz de blogueiro.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Max de Vasconcellos: Primeiro de Maio

Resultado de imagem para Ouve meu grito antologia de poesia operária 1894 1923
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Dia grande e cruel à memória operária
Hinos brancos de Paz. Hinos rubros de Guerra.
A Bandeira do Amor que se fez incendiária…

Data fatal que em si ao mesmo tempo encerra
A promessa do bem ao coração do Pária
E juramentos de Ódio aos senhores da Terra!

Olhar perdido além, num horizonte vago,
Num sonho em que se vê o Mundo Comunista,
Ou se lembram talvez os mortos de Chicago!

Grande marco miliário à suprema conquista
Do País ideal onde se esplaina o Lago
Verde-azul da Concórdia a consolar a vista.

Calendimaio! O Sol que te ilumina seja
O último a iluminar as grades da Prisão,
Os muros do Quartel e as fachadas da Igreja;

E amanhã, ao brotar do grande Astro o Clarão,
Que aos seus raios triunfais o Homem por fim se veja
Sobre a Terra, cantar, liberto do patrão!…

A Razão, 1º/5/1919, p.6.
A Voz do Trabalhador, 1º/5/1913, p.1.
(jornais do Rio de Janeiro)

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher (também com texto-Apresentação) e Eulalia Lahmeyer Lobo (também com Introdução), 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Max de Vasconcellos Azevedo (1891 — 1919), fluminense de Campos dos Goytacazes, estudou no Colégio Abílio, de Niterói, formou-se na Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, foi poeta, jornalista, militante anarquista e boêmio frequentador da Roda Literária do Café Paris, de Niterói, além de também fazer presença em outros cafés da Lapa carioca; o poeta trabalhou como jornalista em diversos periódicos niteroienses e da então capital do país, Rio de Janeiro; Max de Vasconcellos não publicou livros em vida, porém seus poemas, crônicas e resenhas ficaram registrados em inúmeros jornais e revistas da época, muitos deles de orientação anarquista: Athena Fluminense (hebdomedário literário e noticioso) e Gazeta da Manhã, ambos de Niterói, O Debate, A Razão, A Luta (Revista da Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro), Guerra Social, Gazeta de Notícias, A Voz do Trabalhador (Órgão da Confederação Operária Brasileira), La Rinascenza Latina — Settimanale politico dell’italo-americanismo in Brasile e ABC, todos do Rio de Janeiro, Fanal — revista do Novo Cenáculo, de Curitiba, A Plebe e A Lanterna (jornal anticlerical e de combate), ambos de São Paulo, O Dia, de Campos dos Goytacazes, etc; poliglota, o poeta também escreveu e deixou registrado versos em italiano, francês e romeno; a Roda Literária do Café Paris frequentada pelo poeta e boêmio, algum tempo depois passou a se chamar Cenáculo Ambulante (consta ter sido o poeta o primeiro a designá-la Cenáculo) e mais tarde (1923) deu origem ao Cenáculo Fluminense de História e Letras CFHL, ativo até os dias de hoje; o poeta simbolista, boêmio e jovem, morreu de tuberculose em 10 de abril de 1919.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Bertolt Brecht: Perguntas a um trabalhador que lê

Resultado de imagem para Bertolt Brecht poesia andré vallias introdução & tradução editora perspectiva
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[traduzido por André Vallias]

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedras?
E a mais de uma vez destruída Babilônia
Quem a construiu tantas vezes? Em que casas
Do ouro-radiante Lima residiam os peões de obra?
Para onde foram, na noite em que a muralha da China ficou
Pronta, os pedreiros? A grande Roma
Está repleta de arcos de triunfo. Quem os erigiu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? Tinha a tão decantada Bizâncio
Palácios só para seus moradores? Mesmo na lendária Atlântida
Na noite em que o mar a tragou, gritavam por seus
Escravos os que se afogavam.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César subjugou os gauleses.
Não tinha ao menos um cozinheiro ao seu lado?
Felipe de Espanha chorou quando sua frota
Afundou. Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem
Além dele, venceu?

Cada página uma vitória.
Quem preparou o festim da vitória?
Cada década um grande homem.
Quem pagou a conta?

Tantos relatos
Tantas perguntas.

Cinco frases e cinco livros de Bertolt Brecht | Estante Virtual Blog
Bertolt Brecht

Fragen eines lesenden Arbeiters

Wer baute das siebentorige Theben?
In den Büchern stehen die Namen von Königen.
Haben die Könige die Felsbrocken herbeigeschleppt?
Und das mehrmals zerstörte Babylon
Wer baute es so viele Male  auf? In welchen Häusern
Des goldstrahlenden Lima wohnten die Bauleute?
Wohin gingen an dem Abend, wo die chinesische Mauer fertig war
Die Maurer? Das große Rom
Ist voll von Triumphbögen. Wer errichtete sie? Über wen
Triumphierten die Cäsaren? Hatte das vielbesungene Byzanz
Nur Paläste für seine Bewohner? Selbst in dem sagenhaften Atlantis
Brüllten doch in der Nacht, wo das Meer es verschlang
Die Ersaufenden nach ihren Sklaven.

Der junge Alexander eroberte Indien.
Er allein?
Cäsar schlug die Gallier.
Hatte er nicht wenigstens einen Koch bei sich?
Philipp von Spanien weinte, als seine Flotte
Untergegangen war. Weinte sonst niemand?
Friedrich der Zweite siegte im Siebenjährigen Krieg. Wer
Siegte außer ihm?

Jede Seite ein Sieg.
Wer kochte den Siegesschmaus?
Alle zehn Jahre ein großer Mann.
Wer bezahlte die Spesen?

So viele Berichte
So viele Fragen.

[1935]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, bilíngue, 2019, Editora Perspectiva, 1ª edição, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina, em Munique, mas, tendo sido convocado pelo exército, na Primeira Guerra, trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixa a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, funda a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Lêdo Ivo: Quarta Lição

tesco aqui: 2016
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No jardim zoológico
Ivo num domingo
viu um dromedário.

Na segunda-feira
viu passar um trem
cheio de operários.

Ivo viu o ministro
plenipotenciário
coçar a urticária.

Ouviu o usurário
falar, apoplético,
da lei monetária

e a légua dormida
do latifundiário
crescer no notário.

Diante do sol sujo
Ivo viu o peixe
cativo no aquário.

E viu num enterro
a sucata do homem
na urna funerária.

Fora das igrejas
Ivo viu o Cristo
no alto do Calvário.

E viu o terror
das palavras presas
nos dicionários.

Ivo viu na rua
o gari achar
no lixo o salário.

Viu o salafrário
consultar o horóscopo
sob o Sagitário.

Na central elétrica
andando entre pilhas
Ivo leu de novo

a lição poética
de sua cartilha:
viu a energia

que ilumina o mundo
somar-se em partilha
nas subsidiárias.

e ser luz do povo.

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Antologia Poética — Coleção Prestígio, Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio Carlos Villaça, 1990, Ediouro — Editora Tecnoprint S.A., Rio de Janeiro — RJ; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; bibliografia: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Lêdo Ivo: A Marmita

Antologia Poética de Lêdo Ivo - Coleção Super Prestígio - Nova ...
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Em sua marmita
não leva o operário
qualquer metafísica.
Leva peixe frito,
arroz e feijão.
Dentro dela tudo
tem lugar marcado.
Tudo é limitado
e nada é infinito.
A caneca d'água
tem espaço apenas
para a sua sede.
E a marmita é igual
à boca do estômago,
feita sob medida
para a sua fome.
E quando termina
sua refeição,
ele ainda cata
todas as migalhas,
todo esse farelo
de um pão que suasse
durante o trabalho.
Tudo quanto ganha
o operário aplica
como um capital
em sua marmita.
E o que ele não ganha
embora trabalhe
é outro capital
que também investe:
palavra que diz
em seu sindicato,
frase que se escreve
no muro da fábrica,
visão do futuro
que nasce em seus olhos
que só com fumaça
se enchem de lágrimas.
Em sua marmita
não leva o operário
o caviar de
qualquer metafísica.
E sendo ele o mais
exato dos homens
tudo nele é físico
e material,
tem seu nome e forma,
seu peso e volume,
pode-se pegar.
Seu amor tem saia
pêlos e mucosas
e, fecundo, faz
novos operários.
As coisas se medem
pelo seu tamanho:
sono, mesa, trave.
No trem ou no bonde
nenhum operário
pode se espalhar
sem fazer esforço.
É como no mundo:
— tem que empurrar.
Vasilhame cheio
de matéria justa,
sua vida é exata
como uma marmita.
Nela cabe apenas
toda a sua vida.
E não cabe a morte
que esta não existe,
não sendo manual,
não sendo uma peça
de recauchutar.
(Artigo infinito,
sem ferro e sem aço,
qualquer um a embrulha
sem usar barbante
ou papel almaço.)
Fabril e imanente
o operário vive
do que sabe e faz
e, sendo vivente,
respira o que vê.
O tempo que o suja
de óleo e fuligem
é o mesmo que o lava,
tempo feito de água
aberta na tarde
e não de relógio.
E a própria marmita
também é lavada.
E quando ele a leva
de volta pra casa
ela, metal, cheira
menos a comida
do que a operário.

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Antologia Poética — Coleção Super Prestígio, Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio Carlos Villaça, 2002, edição reformulada, Ediouro, São Paulo — SP; Lêdo Ivo (1924  2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; produção literária: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

terça-feira, 26 de julho de 2011

26.07.1971 — Minha primeira anotação na tal da CTPS de origem getulista

Algumas datas eu não esqueço: 26.07.1971.

Hoje faz quarenta anos que ingressei no Bradesco, Cidade de Deus, em Osasco 
— SP. Lá permaneci até 02 de janeiro de 1973, como escriturário. Foi meu primeiro emprego registrado em carteira profissional de trabalho, a tal da CTPS.
 
Antes, morando em Iperó 
 SP, eu trabalhara em diversos serviços, mas sem registro, sem conseguir contabilizá-los como tempo para fins de aposentadoria. Ficaram de fora da contagem de tempo de previdência as ocupações que tive antes de eu embarcar, de trem, rumo à cidade grande:
  • trabalho de bóia-fria, na colheita de algodão e corte de cana;
  • serviço no plantio de grama e em aterros, na construção da Rodovia Castelo Branco;
  • curso técnico de telegrafista (CFT  Curso de Formação de Transportes) e estágio na extinta EFS  Estrada de Ferro Sorocabana;
  • serviço de ajudante de açougueiro, no comércio em Iperó;
  • serviço em escritórios de contabilidade, em Iperó e em Sorocaba — SP;
  • emprego de faturista em comércio de atacados, em Cesário Lange — SP.
Depois dos serviços prestados no Bradesco (Departamento Pessoal, Regional 3), prestei concurso e ingressei na SAEC (Superintendência de Águas e Esgotos da Capital), atual SABESP, em São Paulo — SP, também como escriturário.

Depois ainda, em agosto de 1974 e também por concurso, ingressei no Banco do Brasil e lá permaneci até abril de 2005. Requeri aposentadoria em 25 de abril de 2005, na função de caixa-executivo.

E tenho dito!
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Genésio dos Santos (1952), poeta e cronista, escreve desde os treze anos de idade.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Salathiel Muniz: O foguista

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Pobre foguista
quando trabalha
deitando fogo
nesta fornalha

Exposto às chuvas
às ventanias
só vê a fornalha
todos os dias

Imundo e sujo
como um carvão
tu tens no entanto
um coração

Enquanto sofres
nessa corrida
no trem de ferro
levas a vida

Pobre foguista
como padeces
sofrendo penas
que não mereces

Levas a vida
a tantas cidades
e tu não tens
felicidades

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Ferroviários, trabalho e poder Maria de Fátima Salum Moreira, 2008, Editora UNESP, São Paulo SP; Salathiel Muniz foi foguista da extinta EFS Estrada de Ferro Sorocabana, ex-Fepasa, e teve seu poema publicado no jornal O Apito (16.12.1931, pág.2), conforme citação em Ferroviários, trabalho e poder (pág.164).

domingo, 10 de outubro de 2010

Chauí fala sobre eleições, mídia, Governo PT/Lula e aliados, política...

Para leitura e reflexão dos leitores e eleitores, reproduzo parte da entrevista da pensadora Marilena Chauí dada à Rede Brasil Atual, parte esta divulgada em http://www.redebrasilatual.com.br.
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POLÍTICA

'Desinformação' não serve à democracia, diz Marilena Chauí

Em entrevista exclusiva à Rede Brasil Atual, a professora de filosofia da USP aponta setores ruralistas e classe média urbana como focos de anti-Lula. Ela faz reiteradas críticas à ameaça à liberdade de expressão provocada pela concentração dos meios de comunicação










Publicado em 10/10/2010, 13:22
Última atualização às 13:22

'Desinformação' não serve à democracia, diz Marilena Chauí
"Vão pintar a saracura, como diria minha mãe. Mas é isso aí. Deixa pintar a saracura que nós ficamos em pé", diz professora da USP (Foto: Filipe Chaves/UFMG)
São Paulo – Marilena Chauí pensa que a velha mídia está nos seus estertores. A filósofa e professora da Universidade de São Paulo (USP) entende que o surgimento da internet, o crescimento das alternativas e as atuais eleições delineiam o fim de um modelo.
A professora, que deixou de escrever e de falar para a velha mídia por não concordar com a postura de vários desses veículos, entende que a imprensa tem papel fundamental para a ausência de debate de temas-chave nas atuais eleições, alimentando questões que favorecem à candidatura de José Serra (PSDB).
Ela considera que não é possível falar de democracia quando se tem o poder da comunicação concentrado em poucas famílias, sem que a sociedade tenha a possibilidade de contestação. Após ato pró-Dilma Rousseff (PT), na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no centro da capital paulista, a filósofa manifestou à Rede Brasil Atual que os ruralistas e a classe média urbana são os setores que alimentam o ódio a Lula.
Marilena Chauí aponta, sempre em meio a muitos gestos e a uma fala enfática, que o presidente jamais será perdoado. O motivo? Combateu a desigualdade no país.
Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista.
Rede Brasil Atual – O único ponto aparente de consenso entre os institutos de pesquisa é quanto à aprovação do governo Lula. Que grupos estão entre os 4% da população que consideram ruim ou péssimo o desempenho do presidente?
Marilena Chauí - É um mistério para mim. Tudo que tenho ouvido, sobretudo no rádio, em entrevistas sobre os mais diversos temas, vai tudo muito bem. Os setores que eu imaginaria que diriam que o governo ruim não são. Surpreendentemente.
Mas há dois setores que são "pega pra capar". Um é evidentemente a agroindústria, mas é assim desde o primeiro governo Lula. Eles formam esse mundo ruralista que o DEM representa. Não são nem adversários, são inimigos. Inimigos de classe.
"A classe média urbana, que está apavorada com a diminuição da desigualdade social e que apostou todas suas fichas na ideia de ascensão social e de recusa de qualquer possibilidade de cair na classe trabalhadora. Ao ver o contrário, que a classe trabalhadora ascende socialmente e que há uma distribuição efetiva de renda, se apavorou porque perdeu seu próprio diferencial. E seu medo, que era de cair na classe trabalhadora, mudou. Foram invadidos pela classe trabalhadora." – Marilena Chauí
O segundo setor é a classe média urbana, que está apavorada com a diminuição da desigualdade social e que apostou todas suas fichas na ideia de ascensão social e de recusa de qualquer possibilidade de cair na classe trabalhadora. Ao ver o contrário, que a classe trabalhadora ascende socialmente e que há uma distribuição efetiva de renda, se apavorou porque perdeu seu próprio diferencial. E seu medo, que era de cair na classe trabalhadora, mudou. Foram invadidos pela classe trabalhadora.
Rede Brasil Atual – Os trabalhadores têm reconquistado direitos e, com isso, setores do empresariado reclamam que há risco de perda de competitividade pelo mercado brasileiro.
Marilena Chauí – Isso é uma conversa para a campanha eleitoral. É coisa da Folha, do Estadão, do Globo, da Veja, não é para levar a sério. E se você for lá e pedir para provar (que perderia competitividade), vão dizer que não falaram, que foi fruto das circunstâncias. Eles sabem que é uma piada isso que estão dizendo, não tem qualquer consistência.
Rede Brasil Atual – A senhora passou por uma situação parecida à da psicanalista Maria Rita Kehl, agora dispensada pelo Estadão por ter elogiado o governo Lula...
Marilena Chauí – Não foi parecida porque não fui demitida. Eu disse a eles que me recusava a escrever lá. Tanto no Estado quanto na Folha. Tomei a iniciativa de dizer a eles que não teriam minha colaboração.
Quando li o artigo da Maria Rita Kehl, pensei mesmo que poderia dar algum problema. Como é que o Estadão deixou o artigo sair? Era de se esperar que houvesse uma censura prévia.
Agora, se você tomar o que aconteceu nos últimos oito ou nove anos, vai ver que houve uma peneirada e uma parte das pessoas de esquerda simplesmente desistiu de qualquer relação com a mídia. Outras tiveram relação esporádica em momentos muito pontuais em que era preciso se expressar publicamente.
Houve, em um primeiro momento, um deslocamento das pessoas de esquerda para o Estadão, mas um deslocamento que não tinha como durar porque o jornal não tinha como abrigar esse tipo de pensamento.
Desapareceu para valer qualquer pretensão da mídia até mesmo de se oferecer sob uma perspectiva liberal. E sob uma perspectiva democrática. É formidável que no momento em que dizem que nós, do PT, ameaçamos a liberdade de imprensa, eles demitam a Maria Rita.
O que acho, com o segundo turno das eleições de Lula e as eleições da Dilma, é que há um estilo de mídia que está nos seus estertores. O fato de que haja internet e mídia alternativa que se espalha pelo Brasil inteiro muda completamente o padrão.
Passa-se de jornais que tinham função de noticiar para jornais que têm a função de opinar, o que é um contrassenso. A busca pela notícia faz com que não se vá mais em direção ao jornal, vá se buscar em outros lugares.
Rede Brasil Atual – Em períodos eleitorais, tem sido recorrente a associação entre mídia e partidos políticos. Qual a implicação disso na tentativa de consolidação da democracia?
Marilena Chauí – Isso é o que atrapalha a democracia do ponto de vista da liberdade do pensamento e de expressão. O que caracteriza uma sociedade democrática é o direito de produzir informação e de receber informação, de modo que possa circular, ser transformada. O que se tem é a ausência da informação, a manipulação da opinião e a mentira.
Acabo de ver em um site a resposta do Marco Aurélio Garcia (um dos coordenadores de campanha de Dilma) à manchete da Folha. Como é que a Folha dá manchete falando que Dilma vai tirar a questão do aborto do programa de governo se essa questão não está no programa? É dito qualquer coisa.
"Desapareceu o compromisso mínimo com a verdade, o compromisso mínimo com a informação. É uma coisa de partido, puramente ideológica, perversa, de produção da mentira. (...) A desinformação. Isso não serve para a democracia." – Marilena Chauí
Desapareceu o compromisso mínimo com a verdade, o compromisso mínimo com a informação. É uma coisa de partido, puramente ideológica, perversa, de produção da mentira. Isso me lembra muito um ensaio que Hannah Arendt escreveu na época da Guerra do Vietnã. Ela comentava as mentiras que a TV, o rádio e os jornais apresentavam. Apresentavam a vitória no Vietnã, até o instante em que a mentira encontrou um limite tal nos próprios fatos que a verdade teve que aparecer. Ela chamou isso de crise da República, que é quando tem a mentira no lugar da informação. Ou seja, a desinformação. Isso não serve para a democracia.
Rede Brasil Atual - O governo Lula teve, internamente, a convivência de polos opostos. Talvez tenha sido o primeiro a ter, por exemplo, Ministério de Desenvolvimento Agrário voltado a agricultura familiar e dialogando com o MST e o Ministério da Agricultura, voltado para o agronegócio. O governo e o presidente se saíram bem na tarefa de fazer opostos conviverem?
Marilena Chauí - Sim. E isso é um talento peculiar que o presidente Lula tem, de ser um negociador nato. Como uma boa parte do trabalho do governo foi feita pela Casa Civil, podemos dizer que Dilma Rousseff tem a capacidade de fazer esse trânsito e essa negociação.
Rede Brasil Atual - Mas como explicar as reações provocadas?
Marilena Chauí - Duas coisas são muito importantes com relação ao atual governo. A primeira é que o governo Lula jamais será perdoado por ter enfrentado a questão da desigualdade social. Lula enfrentou a partir da própria figura dele. O fato de você ter um presidente operário, que tem o curso primário (Lula tem o ensino médio completo), significou a ruína da ideologia burguesa. Todos os critérios da ideologia burguesa para ocupar este posto (Presidência da República), que é ser da elite financeira, ter formação universitária, falar línguas estrangeiras, ter desempenho de gourmet... Enfim, foi descomposta uma série de atrativos que compõem a figura que a burguesia compôs para ocupar a Presidência. Ponto por ponto.
"Alguém tinha de vir das classes trabalhadoras para dizer o que precisa fazer no Brasil. Os governos anteriores sequer levavam em conta que isso (desigualdade social) existia." – Marilena Chauí, professora de filosofia da USP
A burguesia brasileira e a classe média protofascista nunca vão perdoar isso ter acontecido. Imagine como eles se sentem. Houve (Nelson) Mandela, Lula, (Barack) Obama, (Hugo) Chávez. É muita coisa para a cabeça deles. É insuportável. É a sensação de fim de mundo.
Tudo que fosse possível fazer para destruir esse governo foi feito. Por que não caiu? Não caiu porque foi capaz de operar a negociação entre os polos contrários. Isso é uma novidade no caso do Brasil porque, normalmente, opera-se por exclusão. O que o governo fez foi operar por entendimento. E a possibilidade de corrigir uma coisa pela outra.
Agora, há milhares de problemas que o próximo governo vai ter de enfrentar. Não podemos cobrar de nós mesmos que façamos em oito ou em 16 anos o que não foi feito em 500. Mas quando se olha o que já foi feito, leva-se um susto. A redução da desigualdade, a inclusão no campo dos direitos de milhões de pessoas, o Luz para Todos, a casa (Minha Casa, Minha Vida), o Bolsa-Família, a (geração de empregos com) carteira assinada... É uma coisa nunca feita no Brasil.
Rede Brasil Atual - A sra. faz uma avaliação muito positiva do governo. Por que essas medidas não ocorreram antes?
Marilena Chauí - Alguém tinha de vir das classes trabalhadoras para dizer o que precisa fazer no Brasil. Os governos anteriores sequer levavam em conta que isso existia. O máximo que existia era o incômodo de ver essa gente pela rua, embaixo da ponte, fazendo greve, no ponto de ônibus, caindo pelas tabelas na condução pública. Era uma coisa assim que incomodava - (diziam:) "é meio feio, né? É antiestético". O máximo de reação que a presença de classes populares causava era por serem antiestéticos. É a primeira vez que essa classe foi levada a sério.
Eles vão estrebuchar, vão gritar, vão xingar. Vão pintar a saracura, como diria minha mãe. Mas é isso aí. Deixa pintar a saracura que nós ficamos em pé.
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Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.