____________________
[traduzido por Renata Cordeiro]
À mesa, noutro dia, a rede de guipura,
Qual fios brancos sobre o mármore lançados,
Do teu colo, deixando o teu primor vedado,
Mostrava sob a neve, a neve tão mais pura.
Reinavas entre nós, deslumbrante figura,
E o beijo vesperal, levemente azulado,
Como ao redor de um fruto a flor do aveludado,
No teu ombro escorria em esguias ranhuras.
Misturando-se no jogo, a luz incandescente
Dava um beijo rosa ao beijo azul fulgente:
Como brilha ao luar um fogo alabastrino.
Pensava, em sonhos, ante o quadro esplendoroso,
Invejando o reflexo azul e o nacarino:
“Se cada qual soubesse e o quão, como é ditoso!”
Baiser rose, baiser bleu
A table, l’autre jour, un réseau de guipure,
Comme un filet d’argent sur un marbre jeté,
De votre sein, voilant à demi la beauté,
Montrait, sous sa blancheur, une blancheur plus pure.
Vous trôniez parmi nous, radieuse figure,
Et le baiser du soir, d’un faible azur teinté,
Comme au contour d’un fruit la fleur du velouté,
Glissait sur votre épaule en mince découpure.
Mais la lampe allumée et se mêlant au jeu,
Posait un baiser rose auprès du baiser bleu:
Tel brille au clair de lune un feu dans de l’albâtre.
À ce charmant tableau, je me disait, rêveur,
Jaloux du reflet rose et du reflet bleuâtre:
»Ô trop heureux reflets, s’ils savaient leur bonheur!«
[Dernières poésies]
____________________
Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa
— Concepção, Seleção, Introdução, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro,
2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., SãoPaulo — SP; Théophile Gautier
(1811 — 1872), francês de Tarbes, matriculado como aluno interno do Collège Louis-le-Grand,
Paris, logo o abandonou, ingressou como estudante externo no Collège Charlemagne
[também em Paris] foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte;
criança precoce, desde os cinco anos fez suas primeiras leituras: Robinson Crusoe,
Paul et Virginie ...; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto
à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier
transitou pelo romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; em diferentes
períodos trabalhou e/ou colaborou nos periódicos La Chronique de Paris, La Presse
[primeiro responsável pela crítica de arte], Moniteur Universel [crítico de arte
e espetáculo], Le Figaro, La Caricature, Musée des Familles, Revue de Paris [co-proprietário],
Revue des Deux Mondes, revue La France littéraire, Le Pays, L’Artist, L'Entr'acte
[foi diretor] e outros; andejou por várias regiões francesas e várias cidades da
Inglaterra, Holanda, Alemanha, Argélia, Itália, Espanha, Grécia, Egito, regiões
da Ásia menor, Rússia, produzindo relatos de viagem; suas obras: Poésies (livro
de estréia, 1830), La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias,
1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes: France (contos ou romances
zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le
Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica,
1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem [com o título Tras los montes, 1843],
e reedição em 1845), Émaux et camées (poesias, 1852 e várias edições incluindo novos
poemas), Voyage en Italie (relatos de viagem, 1852), Constantinopla (relatos de
viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica,
1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863),
Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867), Histoire du Romantisme [as dernière œuvre,
inachevée] (1874) e outros títulos; Théophile Gautier conviveu literariamente com
Gérard de Nerval, Victor Hugo ..., escreveu e publicou profusamente ensaios, estudos,
críticas [dramática, artística, literária], relatos de viagem, variedades, poemas,
em jornais e revistas, muitos dos quais compilados em livros, em edições e reedições
ampliadas; produziu libretos para ópera, dança, balé, entre estes Giselle, La
Péri, Paquerette...; o poeta participou de associações literárias e de artes,
dirigiu algumas, foi presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes.





