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quarta-feira, 4 de março de 2026

Théophile Gautier: A caravana

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

A caravana humana ao Saara do mundo,
Nesse trilhar dos anos sem mais retomada
Vai arrastando o pé em fogo solar queimada,
E bebendo nos braços o suor que inunda.

Ruge o grande leão e a tormenta retumba:
No horizonte que foi, nem minarete ou torre;
Só uma sombra lá está, a do abutre que percorre
O céu a procurar a sua presa imunda.

Caminha sempre em frente e eis que ela se defronta
Com um algo de verde para o qual se aponta:
É um bosque de ciprestes de pedras alvéreas.

Deus, pra vos repousar no deserto do tempo,
Assim como os oásis, fez os cemitérios:
Deitai-vos e dormis andantes sem alento.

Théophile Gautier

La Caravane

La caravane humaine au Sahara du monde,
Par ce chemin des ans qui n'a pas de retour,
S'en va traînant le pied, brûlée aux feux du jour,
Et buvant sur ses bras la sueur qui l'inonde.

Le grand lion rugit et la tempête gronde;
A l'horizon fuyard, ni minaret, ni tour;
La seule ombre qu'on ait, c'est l'ombre du vautour,
Qui traverse le ciel cherchant sa proie immonde.

L'on avance toujours, et voici que l'on voit
Quelque chose de vert que l'on se montre au doigt:
C'est un bois de cyprès semé de blanches pierres.

Dieu, pour vous reposer, dans le désert du temps,
Comme des oasis, a mis les cimetières:
Couchez-vous et dormez voyageurs haletants.
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Poetas Franceses do Século XIX — Seleção, Organização, Tradução e Nota Introdutória de José Lino Grünewald, 1991, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, matriculado como aluno interno do Collège Louis-le-Grand, Paris, logo o abandonou, ingressou como estudante externo no Collège Charlemagne [também em Paris] foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; criança precoce, desde os cinco anos fez suas primeiras leituras: Robinson Crusoe, Paul et Virginie ...; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou pelo romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; em diferentes períodos trabalhou e/ou colaborou nos periódicos La Chronique de Paris, La Presse [primeiro responsável pela crítica de arte], Moniteur Universel [crítico de arte e espetáculo], Le Figaro, La Caricature, Musée des Familles, Revue de Paris [co-proprietário], Revue des Deux Mondes, revue La France littéraire, Le Pays, L’Artist, L'Entr'acte [foi diretor] e outros; andejou por várias regiões francesas e várias cidades da Inglaterra, Holanda, Alemanha, Argélia, Itália, Espanha, Grécia, Egito, regiões da Ásia menor, Rússia, produzindo relatos de viagem; suas obras: Poésies (livro de estréia, 1830), La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Les Jeunes: France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mor (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852 e várias edições incluindo novos poemas), Voyage en Italie (relatos de viagem, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867), Histoire du Romantisme [as dernière œuvre, inachevée] (1874) e outros títulos; Théophile Gautier conviveu literariamente com Gérard de Nerval, Victor Hugo ..., escreveu e publicou profusamente ensaios, estudos, críticas [dramática, artística, literária], relatos de viagem, variedades, poemas, em jornais e revistas, muitos dos quais compilados em livros, em edições e reedições ampliadas; produziu libretos para ópera, dança, balé, entre estes Giselle, La Péri, Paquerette...; o poeta participou de associações literárias e de artes, dirigiu algumas, foi presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes.

domingo, 14 de agosto de 2022

Théophile Gautier: A Arte

 
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[traduzido por Carlindo Lellis]

Sai mais perfeita e trabalhada
             E nobre e rara,
A obra, entre esforços, acabada:
Esmalte, verso, ônix, carrara…

Nada de adorno contrafeito
             E jóia falsa,
E, para que marches direito,
Musa, um coturno estreito calça!

Despreza esse ritmo vulgar,
Como um sapato largo, a modo
             Que o possa todo
Pé descalçar e recalçar.

O próprio barro que na tua
Mão, escultor, vive se dele
Teu pensamento além flutua,
             Forte, repele!

Luta e porfia contra o paros
Duro e o carrara, a jeito, apura,
Esses, os fiéis guardas avaros
             Da Forma pura.

Toma emprestado a Siracusa
O bronze fino e eterno, por
             Onde se acusa
O traço firme e encantador.

Tu, de mão leve, cuidadosa,
Na ágata firme, de buril
Talha em figura esplendorosa
             Fébeo perfil.

Pintor, despreza as aquarelas,
             E fixa a cor
Leve, das coisas mais singelas
No forno de um esmaltador.

             E, das sereias
Azuis, voltando em convulsões,
As caudas leves, de algas cheias,
Faze as figuras dos brasões.

Dentro em seu limbo triobado,
A Imaculada e o seu Jesus
Coloca e o Globo, este encimado
             Da mesma cruz.

Tudo passa! Mas o robusto
Traço do Artista à eternidade
             Resiste: o busto
Resta onde, outrora, foi cidade.

E, na medalha soterrada
Que acha, no campo, o lavrador
             Fina, gravada,
Fica a imagem do imperador.

Os próprios deuses morrem… Não
Morrem, no entanto, os soberanos
             Versos, que são
Bronzes eternos, contra os anos.

Talha, cinzela, lima e grava...
Teu sonho imenso, atormentado,
             Na Forma escrava
Fique num bloco eternizado!

Théophile Gautier

L’Art

Oui, l'oeuvre sort plus belle
D'une forme au travail
Rebelle,
Vers, marbre, onyx, émail.

Point de contraintes fausses!
Mais que pour marcher droit
Tu chausses,
Muse, un cothurne étroit.

Fi du rythme commode,
Comme un soulier trop grand,
Du mode
Que tout pied quitte et prend!

Statuaire, repousse
L'argile que pétrit
Le pouce
Quand flotte ailleurs l'esprit:

Lutte avec le carrare,
Avec le paros dur
Et rare,
Gardiens du contour pur;

Emprunte à Syracuse
Son bronze où fermement
S'accuse
Le trait fier et charmant;

D'une main délicate
Poursuis dans un filon
D'agate
Le profil d'Apollon.

Peintre, fuis l'aquarelle,
Et fixe la couleur
Trop frêle
Au four de l'émailleur.

Fais les sirènes bleues,
Tordant de cent façons
Leurs queues,
Les monstres des blasons;

Dans son nimbe trilobe
La Vierge et son Jésus,
Le globe
Avec la croix dessus.

Tout passe. L'art robuste
Seul a l'éternité.
Le buste
Survit à la cité.

Et la médaille austère
Que trouve un laboureur
Sous terre
Révèle un empereur.

Les dieux eux-mêmes meurent,
Mais les vers souverains
Demeurent
Plus forts que les airains.

Sculpte, lime, cisèle;
Que ton rêve flottant
Se scelle
Dans le bloc résistant!

[Émaux et Camées — 1852]
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou no romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; colaborou com os periódicos La Chronique de Paris, La Presse, entre vários outros jornais da época; suas obras: La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes-France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867) e outros títulos.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Théophile Gautier: As Pombas

 
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[traduzido por Álvaro Reis]

Além, sobre a colina, entre as campas que alvejam,
Verde palmeira ao vento agita-se de leve,
Onde, ao vir da tardinha, aos arrulhos voltejam
À procura de abrigo as pombas cor de neve.

Mas, à luz da manhã, abandonando as palmas,
Como um solto colar de pérolas brilhantes,
Espalham-se pelo ar as níveas pombas calmas
E aos beijos vão pousar nos telhados distantes.

Minh’alma é a árvore, onde alvas pombas em bando,
Todas as noites vêm, sorridentes visões,
De misteriosos céus, as asas tatalando,
Para fugirem logo aos primeiros clarões!

Théophile Gautier

Les colombes

Sur le coteau, là-bas où sont les tombes,
Un beau palmier, comme un panache vert,
Dresse sa tête, où le soir les colombes
Viennent nicher et se mettre à couvert.

Mais le matin elles quittent les branches;
Comme un collier qui s'égrène, on les voit
S'éparpiller dans l'air bleu, toutes blanches,
Et se poser plus loin sur quelque toit.

Mon âme est l'arbre où tous les soirs, comme elles,
De blancs essaims de folles visions
Tombent des cieux en palpitant des ailes,
Pour s'envoler dès les premiers rayons.
____________________
Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou no romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; colaborou com os periódicos La Chronique de Paris, La Presse, entre vários outros jornais da época; suas obras: La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes-France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867) e outros títulos.

domingo, 3 de abril de 2022

Théophile Gautier: Coerulei Oculi

 
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[traduzido por Raimundo Correia]

Certa mulher misteriosa,
Que me alucina, costuma
Manter-se em pé, silenciosa,
Junto ao mar, que ferve e espuma...

No olhar onde o céu se pinta,
Que palheta singular,
Ao amargo azul, a tinta
Glauca mistura do mar?

Na langorosa pupila
Bóia uma tristeza vaga,
E a lágrima que vacila
E rola, o seu lume apaga.

A palpitar, branca e exul,
Lembram-me os cílios suaves
Tribo de aquáticas aves
Sobre o indefinido azul...

Qual dágua no transparente
Prisma, do olhar se devassa
No fundo, nitidamente,
Do rei de Tule a áurea taça;

E, entre a alga e o sargaço, a gema
Mais rara deslumbra e estão
De Cleópatra o diadema
E o anel do rei Salomão;

E irradiação frisada
Das pedrarias se acende;
E a coroa da balada
De Schiller fulge e resplende.

Mago prestígio me enleia
E ao fundo abismo de luz
Me arrasta, como a sereia
Que a Harald Harfagar seduz;

Me arrasta à ignota voragem,
Até que eu nela me arroje
Trás de impalpável imagem,
Que, aérea e flátua, me foge...

Nágua esconde a ninfa bela
A cauda argêntea; e o brancor
Da espádua lisa revela,
Corando, da espuma à flor...

Incha e, como um seio, arqueja
A vaga; em mórbido acento,
Na cava concha solfeja,
Soluça, ressona o vento...

“Vem reclinar-te em meu leito
De âmbar, e o saibo de fel
Das ondas verás, desfeito,
Manar-te da boca, em mel;

“O pélago estoura e zune
Por cima; e a paz aqui mora,
Sem que o rumor a importune
Das tempestades de fora...

“Vem, sem tédio, nem bocejos.
O esquecimento imortal
Bebamos juntos, dos beijos
Pelo copo de coral!”

Assim é que a voz me fala,
Desse olhar, que me extasia;
E ao fundo dágua, a escutá-la,
Desço... E o himeneu principia...

Théophile Gautier

Caerulei oculi

Une femme mystérieuse,
Dont la beauté trouble mes sens,
Se tient debout, silencieuse,
Au bord des flots retentissants.

Ses yeux, où le ciel se reflète,
Mêlent à leur azur amer,
Qu'étoile une humide paillette,
Les teintes glauques de la mer.

Dans les langueurs de leurs prunelles,
Une grâce triste sourit;
Les pleurs mouillent les étincelles
Et la lumière s'attendrit;

Et leurs cils comme des mouettes
Qui rasent le flot aplani,
Palpitent, ailes inquiètes,
Sur leur azur indéfini.

Comme dans l'eau bleue et profonde,
Où dort plus d'un trésor coulé,
On y découvre à travers l'onde
La coupe du roi de Thulé.

Sous leur transparence verdâtre,
Brille parmi le goémon,
L'autre perle de Cléopâtre
Prés de l'anneau de Salomon.

La couronne au gouffre lancée
Dans la ballade de Schiller,
Sans qu'un plongeur l'ait ramassée,
Y jette encor son reflet clair.

Un pouvoir magique m'entraîne
Vers l'abîme de ce regard,
Comme au sein des eaux la sirène
Attirait Harald Harfagar.

Mon âme, avec la violence
D'un irrésistible désir,
Au milieu du gouffre s'élance
Vers l'ombre impossible à saisir.

Montrant son sein, cachant sa queue,
La sirène amoureusement
Fait ondoyer sa blancheur bleue
Sous l'émail vert du flot dormant.

L'eau s'enfle comme une poitrine
Aux soupirs de la passion;
Le vent, dans sa conque marine,
Murmure une incantation.

"Oh! viens dans ma couche de nacre,
Mes bras d'onde t'enlaceront;
Les flots, perdant leur saveur âcre,
Sur ta bouche, en miel couleront.

"Laissant bruire sur nos têtes,
La mer qui ne peut s'apaiser,
Nous boirons l'oubli des tempêtes
Dans la coupe de mon baiser."

Ainsi parle la voix humide
De ce regard céruléen,
Et mon coeur, sous l'onde perfide,
Se noie et consomme l'hymen.
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio a desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou no romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; colaborou com os periódicos La Chronique de Paris, La Presse, entre vários outros jornais da época; obras: La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes-France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867) e outros títulos.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Théophile Gautier: Anacreôntica

 
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[traduzido por Raimundo Correia]

Poeta! Sofreia os ímpetos!
Não faças que o meu amor
Fuja e evole-se ave tímida
Ao róseo do pudor.

O amor é medroso e alígero;
Pomba, que treme e que arrulha...
Se cauteloso; ela espanta-se
E foge à mínima bulha...

Mudo, como Hermes de mármore
Da árvore ao pé; hás de ver,
Aos poucos, sem sustos, da árvore
A pomba descer, descer...

Sentirás nas fontes, flácido,
Um sopro de alma frescura,
E um palpitar de asas, trêmulo,
Num turbilhão de brancura...

E em teu ombro a ave selvática,
Já mansa, hás de ver pousar;
E o seu róseo bico, sôfrego,
Nos beijos teus se fartar...

Théophile Gautier

Odelette anacréontique

Por que je t’aime, ô mon poète,
Ne fais pas fuir par trop d'ardeur
Mon amour, colombe inquiète,
Au ciel rose de la pudeur.

L'oiseau qui marche dans l'allée
S'effraye et part au moindre bruit;
Ma passion est chose ailée
Et s'envole quand on la suit.

Muet comme l'Hermès de marbre,
Sous la charmille pose-toi;
Tu verras bientôt de son arbre
L'oiseau descendre sans effroi.

Tes tempes sentiront près d'elles,
Avec des souffles de fraîcheur,
Une palpitation d'ailes
Dans un tourbillon de blancheur,

Et la colombe apprivoisée
Sur ton épaule s'abattra,
Et son bec à pointe rosée
De ton baiser s'enivrera.
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou no romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; colaborou com os periódicos La Chronique de Paris, La Presse, entre vários outros jornais da época; obras: La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes-France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867) e outros títulos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Théophile Gautier: A Nuvem

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[traduzido por Guilherme Martins]

No horizonte a nuvem forma-se
No azul, branca, a se esculpir;
Dir-se-ia corpo virgíneo
De ondas de um lago a emergir.

Na concha de madrepérola
Em pé no azul a vogar,
Como na Afrodita etérea
Feita de espuma do ar!

Vê-se ondular linha flácida
Do torso cor de jasmim;
Dá-lhe a aurora chuva rósea
Sobre a espádua de cetim.

Brancuras de neve e mármore
Com amor a se fundir;
Claro escuro de Corrégio
Na “Antíope a dormir”...

Mais alta, na luz expande-se
Do que o pio apeninal,
Reflete a beleza, a gêmea
Do feminino eternal!

A minh’alma sai do envólucro
Sobre as asas da paixão,
A nuvem buscando, evola-se
E a abraça como Ixião.

Diz a razão: Fumo tênue
A nuvem sonhos faz ver;
Sombra ao vento, incerta, vária
Bolha de ar a morrer!

Diz o sentimento: Efêmera
Não é a beleza, enfim?
Espetro, já foi esplêndida
E nada mais é por fim!

Põe no peito o âmbito célico,
Abre tu’alma ao ideal!
Mulher ou nuvem diáfana
Ama. O amor é o essencial.

Théophile Gautier

La Nue

À l’horizon monte une nue,
Sculptant sa forme dans l’azur:
On dirait une vierge nue
Émergeant d’un lac au flot pur.

Debout dans sa conque nacrée,
Elle vogue sur le bleu clair,
Comme une Aphrodite éthérée,
Faite de l’écume de l’air.

On voit onder en molles poses
Son torse au contour incertain,
Et l’aurore répand des roses
Sur son épaule de satin.

Ses blancheurs de marbre et de neige
Se fondent amoureusement
Comme, au clair-obscur du Corrège,
Le corps d’Antiope dormant.

Elle plane dans la lumière
Plus haut que l’Alpe ou l’Apennin;
Reflet de la beauté première,
Sœur de «l’éternel féminin.»

À son corps, en vain retenue,
Sur l’aile de la passion
Mon âme vole à cette nue
Et l’embrasse comme Ixion.

La raison dit: «Vague fumée,
Où l’on croit voir ce qu’on rêva,
Ombre au gré du vent déformée,
Bulle qui crève et qui s’en va!»

Le sentiment répond: «Qu’importe!
Qu’est-ce après tout que la beauté,
Spectre charmant qu’un souffle emporte,
Et qui n’est rien, ayant été!

«À l’Idéal ouvre ton âme;
Mets dans ton cœur beaucoup de ciel,
Aime une nue, aime une femme,
Mais aime! C’est l’essentiel!»
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou no romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; colaborou com os periódicos La Chronique de Paris, La Presse, entre vários outros jornais da época; obras: La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes-France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867) e outros títulos.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Théophile Gautier: Vaso de flores

 
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[traduzido por Alfredo de Souza]

Certa criança um grão encontra por acaso
E encantada por ver vívidas cores,
Toma, para o plantar, de porcelana um vaso
Ornado de dragões e de bizarras flores.
 
Planta-o em parte. A raiz, como serpes, se alonga,
Sai da terra e se torna em arbusto frondente;
Dia a dia seu pé se estende e se prolonga
Té que o bojo do vaso estala de repente.
 
Volta a criança; e vê, erguido arbusto
Punhais verdes brandir nos cacos; e raiventa
Quer derrubá-lo; o tronco é robusto;
Persiste, e finalmente os dedos ensanguenta.
 
Assim cresceu o amor que minh’alma celebra;
Elementar, eu julguei, róseas singelas;
É um enorme aloés cuja raiz já quebra
De porcelana o vaso onde há figuras belas!

Théophile Gautier

Le pot de fleurs

Parfois un enfant trouve une petite graine,
Et tout d’abord, charmé de ses vives couleurs,
Pour la planter, il prend un pot de porcelaine
Orné de dragons bleus et de bizarres fleurs.
 
Il s’en va. La racine en couleuvres s’allonge,
Sort de terre, fleurit et devient arbrisseau;
Chaque jour, plus avant, son pied chevelu plonge
Tant qu’il fasse éclater le ventre du vaisseau.
 
L’enfant revient; surpris, il voit la plante grasse
Sur les débris du pot brandir ses verts poignards;
II la veut arracher, mais la tige est tenace;
II s’obstine, et ses doigts s’ensanglantent aux dards.
 
Ainsi germa l’amour dans mon âme surprise;
Je croyais ne semer qu’une fleur de printemps:
C’est un grand aloès dont la racine brise
Le pot de porcelaine aux dessins éclatants.
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Théophile Gautier (1811 1872), francês de Tarbes, foi escritor, jornalista, poeta, crítico literário e de arte; defensor e propulsionador da “arte pela arte”, pelo culto à beleza da forma poética, que veio a desaguar no surgimento do parnasianismo, Gautier transitou no romantismo, parnasianismo, simbolismo e decadentismo; colaborou com os periódicos La Chronique de Paris, La Presse, entre vários outros jornais da época; suas obras: La Cafetière (contos, 1831), Albertus ou L’Ame et le pêché (poesias, 1833), Mademoiselle de Maupin (romance, 1835), Le Jeunes-France (contos ou romances zombeteiros, 1833), La Comédie de la mort (poesias, 1838), Une tear du diable, Le Tricorne Enchanté, Pierrot Posthume (teatro, todos em 1839), Les Grotesques (crítica, 1843), Le Voyage en Espagne (relatos de viagem, 1843), Émaux et camées (poesias, 1852), Constantinopla (relatos de viagem, 1853), Les Beaux-Arts en Europe (crítica, 1855), L’Art Moderne (crítica, 1856), Honoré de Balzac (biografia, 1859), Le Capitaine Fracasse (romance, 1863), Voyage en Russe (relatos de viagem, 1867) e outros títulos.