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quarta-feira, 1 de abril de 2020

Lucifer Ekant: Descoloniza

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Quem disse que ser trans me torna passiva?
Que roteiro diz que a feminilidade me torna submissa?
Hierarquia sexo social, que capitaliza até meu jeito de foder.
Indústria do pornô que diz que meu sexo é pra vender.
A única forma permitida de desviar é se for pra gerar lucro,
e me comercializar?

Essa indústria também é responsável
por endeusarem macho
e iconizar.

Aaaaaah, se manca.
Seu sistema é frágil e não vai me dominar.
Nem pense em impor desejo para o seu comércio.
As bixa não vai deixar passar.

A sua ideia de ser homem não é suficiente
para todos os corpos com os quais eu vou transar.
E como vou transar?

Pega seu sexo baunilha, de papai e mamãe e afasta pra lá.
A minha foda não é para reprodução.
É para emancipação.
Adeus, colonização.

Conhecer os corpos, experimentar, compartilhar.
E viado, nem venha demonizar nossa vagina.
Ele pode ser homem de xoxota e consegue, sim, me realizar.

Afasta de mim esse falo.
Não me diga o que é ser macho.
Invisibilizar transhomem, só revela
o quanto seu desejo é manipulado.

Para o corpo como objeto do simulacro,
desejo de consumo do patriarcado.
Na base do teu sexo social,
o corpo do viado feminino,
se torna invisível e solitário.

O macho branco forte rico e musculoso tá no topo.
E quando ela é bixa, trans, preta, gorda e pobre:
“joga pra margem, pro esgoto”.

Estamos na base dessa cadeia,
mas não é por isso que eu abaixo a cabeça.
E nem me peça pra foder.
Sou desejada,
mas só quando ninguém vê.

Hahaha
sei que não somos opção,
só nos escolhe quando somos resto.
Pensa que vou foder só pra te satisfazer?

O meu prazer não importa quando
a sua pica goza
no escuro do banheiro já quer me esconder,
só pra defender que bixa é depósito de porra,
que não é de merecer andar ao teu lado,
nem de reconhecer.

Somos transbixa e temos poder.
E você, gay, não é obrigado a “enviadecer”.
Até porque, ninguém quer perder
O PRIVILÉGIO
de parecer
e nem quer ser atacado por outros machos
que não aceitam um corpo de pau feminino.

Agora me diga, macho:
 Quando você foi proibido de ser homem?
 Quando te condenaram por homem cis?
 Quantas vezes te forçaram a ser homem?
 Quantas vezes ouviu que não pode?

É.
Bem diferente de ser transviado.
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Antologia Trans — 30 poetas trans, travestis e não binários, Apresentação do espaço Aquilo que a nós veio, gerado do Cursinho Popular Transformação e do TRANSarau, texto-introdução de Linn da quebrada e Prefácio de Amara Moira, 2017, Editora Invisíveis Produções, São Paulo — SP; sobre Lucifer Ekant, assim como sobre todos os demais autor(e)s dos demais textos desta Antologia Trans, nenhum traço biobliográfico foi registrado pela edição; em pesquisa ‘googleana’, o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa também nada encontrou; a visitant(e)s e leitor(e)s deste blogue, fica a dica: quem encontrar alguma notícia referente a autor(e)s aqui editados, e quiser/puder compartilhar, o blogueiro-piloto desta página agradece.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Bernardo Enoch Mota: Eu não

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Eu não odeio meu corpo.
Eu não nasci no corpo errado.
Não me venha falar que ele é inadequado.
Se eu mudo é para melhorar o que sinto
que possa ser melhorado.
Se eu mudo é porque mudança faz parte da vida
e eu não quero me sentir parado.
Cada forma.
Cada traço.
São todos pedaços
de quem eu sou.
Comecei só como um rabisco.
Agora estou transcendendo o padrão fabricado.
E ninguém tem nada com isso.
E não tem nada de errado.
Eu sou eterno rascunho da vida.
Nunca vou ser terminado.
Apaga.
Refaz.
Tira.
Acrescenta.
Só não deixa igual,
porque aí ninguém aguenta.
Eu não odeio meu corpo.
Eu não nasci no corpo errado.
Sou eterno rascunho da vida, estou aqui
para ser melhorado.
Na eterna busca do buscar por toda eternidade.
Rabisco
Rascunho
Desenho
Obra prima
Transbordando
Transcendendo
Transgredindo
Apenas sendo mais eu
Mais meu a cada dia.

Resultado de imagem para fotos bernoch
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Antologia Trans 30 poetas trans, travestis e não binários, Apresentação do espaço Aquilo que a nós veio, gerado do Cursinho Popular Transformação e do TRANSarau, texto-introdução-orelha de Linn da quebrada e Prefácio de Amara Moira, 2017, Editora Invisíveis Produções, São Paulo SP; sobre Bernardo Enoch Mota, assim como sobre todos os demais autor(e)s dos demais textos desta Antologia Trans, nenhum traço biobliográfico foi registrado pela edição; no entanto, em pesquisa ‘googleana’, o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa encontrou que Bernardo Enoch Mota, ou Bernoch, é fotógrafo, poeta e vídeotuber quando dá vontade; a visitant(e)s e leitor(e)s deste blogue, fica a dica: quem encontrar alguma notícia referente a autor(e)s aqui editados, e quiser/puder compartilhar, o blogueiro-piloto desta página agradece.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Teodoro Albuquerque: Construção

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Não eu não sou um homem de verdade.
Definitivamente não sou, nunca serei.
Vou te falar o que eu sei sobre homem de verdade.

É forma viva da sapiência e erudição que urina fora do vaso,
senta de perna muito aberta no busão,
te agride se sente que está perdendo o altar em que se fez macho,
escarra forte no chão.
Tá sempre calculando o nível de esculacho
que vai direcionar sem dó
para todo e qualquer ser vivo desviante da condição de submissão
cis-heteronormativa.

E eu juro que não tô gastando palavra bonita,
que comigo o verbo é torto mesmo,
como eu sempre fui.

Não, homem de verdade eu não sou, não.
Eu saí de uma outra fornada.
Eu nasci e fui criado
na feminilidade,
me ensinaram que a minha genitália foi criada
para se invadir.

Fecha a perna, garota.
Não usa esse short perto do menino,
é curto demais.
Não adiantou.

Eu tô vivendo a consequência da minha invasão
desde 1999.
Hoje eu tenho 23 anos
Cês tão fazendo a conta?
Porque homem que é homem de verdade, não faz.
Nem da idade, nem do consentimento.
Palavras que vários deles não conhecem,
tipo clitóris, orgasmo, fazer gozar
e pode parar,
para agora mesmo.

Nesse poema não tem espaço pra problematização
nem pra feminista radical sorrir de escárnio
pensando em socialização.

Eu tô falando de masculinidade.
Vamo combinar que é um problema maior que
a vulnerabilidade da buceta.
Até porque eu conheço homens de buceta que
a cada dia que passa
estão se esforçando pra ser homens de verdade
jogando no vento a carta da criação,
justificando incansavelmente a reprodução
daquilo que os fez sofrer tanto quanto eu.

Pronto, falei.
Saiu direto das minhas tetas indesejadas,
da minha ausência de pelo e falo,
da minha voz aguda,
da baixa estatura,
da inconfundível distribuição muscular,
dos meus quadris largos,
da minha raxa.

Tá bem aqui o boy que vai humilhar a masculinidade de vocês.
E cês pode crer que a minha arma
tá pronta e empunhada
por mim e pelas minhas irmãs.
Quem tá apontando é cada mina cis, trans e travesti,
cada transviado, cada bicha,
cada uma das pessoas afeminadas que vocês querem destruir.
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Antologia Trans — 30 poetas trans, travestis e não binários, Apresentação do espaço Aquilo que a nós veio, gerado do Cursinho Popular Transformação e do TRANSarau, texto-introdução de Linn da quebrada e Prefácio de Amara Moira, 2017, Editora Invisíveis Produções, São Paulo — SP; sobre Teodoro Albuquerque, assim como sobre todos os demais autor(e)s dos demais textos desta Antologia Trans, nenhum traço biobliográfico foi registrado pela edição; em pesquisa ‘googleana’, o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa também nada encontrou; a visitant(e)s e leitor(e)s deste blogue, fica a dica: quem encontrar alguma notícia referente a autor(e)s aqui editados, e quiser/puder compartilhar, o blogueiro-piloto desta página agradece.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Luq Souto Ferreira: Olhem para mim

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Olhem para mim e vejam
que no meu masculino
meu feminino é lindo.

Ornamental,
para a sociedade tão sacal,
a minha alma tão natural.

Experimento,
já que no fluido que sou
tudo está em movimento.

És lindo.
Mas eu tenho que ser findo?
Para quem me resumi a um menino?

Para rodar a saia
tenho que ter uma vagina?
Deixar que me determinem
a um ponto na esquina?

Para ser viril
tenho que negar
a flor do meu gentil?

Em ideologias brigar?
E rezar pra um dia estar
onde eu sempre pude transitar?

Porque tenho que ser Marina?
Ou me conformar em ser Roberto?
Mas se tudo no ser é incerto,
eu só não posso ser liberto?

Sou, fui.
Serei, seremos.
Será que o mundo todo
está em dois extremos?

Em duas caixas?
Só por fugir disso tenho uma moral baixa?
Mas, e se minha alma não se encaixa?

Querido, querida, queride,
E se eu lhe contar que ainda há quem duvide?
Da identidade de pessoas
que só querem ser felizes,
reconhecides e ouvides.

Bom, mas e se eu for
quem dizem quem eu sou

Tudo bem, me deixe que eu vou
aos poucos descobrir.
Só me deixe fluir
para nessa ideologização
de homem e mulher
eu não sucumbir.

Não precisamos ser eternamente
o que nos determinaram
quando nascemos.
Nós somos transformação,
tudo isso é construção.
É que para o capital
para onde eu vou é contra-mão!

Tudo isso é nascer.
Tudo isso é viver.
Tudo isso é ser.
Na boa, quem tá recitando isso aqui
não é Lucas,
é Luq, muito prazer!

Eu quero nascer
Quero viver

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar”. *


* Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que os versos em itálico são fragmentos da composição ‘Preciso me encontrar’, letra e música de Candeia; clique no título lá em cima, veja o vídeo e ouça a música nas vozes de Zeca Pagodinho e Marisa Monte e instrumentação musical de Yamandu Costa e Hamilton de Holanda.
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Antologia Trans 30 poetas trans, travestis e não binários, Apresentação do espaço Aquilo que a nós veio, gerado do Cursinho Popular Transformação e do TRANSarau, texto-introdução de Linn da quebrada e Prefácio de Amara Moira, 2017, Editora Invisíveis Produções, São Paulo SP; sobre Luq Souto Ferreira, assim como sobre todos os demais autor(e)s dos demais textos desta Antologia Trans, nenhum traço biobliográfico foi registrado pela edição; em pesquisa ‘googleana’, o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa também nada encontrou; a visitant(e)s e leitor(e)s deste blogue, fica a dica: quem encontrar alguma notícia referente a autor(e)s aqui editados, e quiser/puder compartilhar, o blogueiro-piloto desta página agradece.