
As formigas levavam-na… Chovia…
Era o fim… Triste outono fumarento!...
Perto, uma fonte, em suave movimento,
Cantigas de água trêmula carpia.
Era o fim… Triste outono fumarento!...
Perto, uma fonte, em suave movimento,
Cantigas de água trêmula carpia.
Quando eu a conheci, ela trazia
Na voz um triste e doloroso acento.
Na voz um triste e doloroso acento.
Era a cigarra de maior talento,
Mais cantadeira desta freguesia.
Mais cantadeira desta freguesia.
Passa o cortejo entre árvores
amigas…
Que tristeza nas folhas… Que tristeza!
Que alegria nos olhos das formigas!…
Que tristeza nas folhas… Que tristeza!
Que alegria nos olhos das formigas!…
Pobre cigarra! Quando te levavam,
Enquanto te chorava a Natureza,
Tuas irmãs e tua mãe cantavam…
Tuas irmãs e tua mãe cantavam…
* Nota de Herman Lima: Este soneto — como “Água Corrente”,
“As Duas Sombras”, “A Boêmia Triste” e “O Meu Brasil” — é
das composições mais conhecidas de Olegário Mariano, citado
de norte a sul do Brasil. A seu respeito escreveu Manuel
Bandeira, no ensaio dedicado ao poeta, citado neste volume:
“Nunca me esquecerei de uma tarde em que, numa tranqüila varanda
de Petrópolis, uma boa velhinha me contou que lera num jornal
uns versos tão bonitos, tão simples, que só de os ler uma vez
os decorara. “— Como eram? Lembra-se? — perguntei. “E fiquei enternecidíssimo quando ela começou: “As formigas levavam-na...
“As Duas Sombras”, “A Boêmia Triste” e “O Meu Brasil” — é
das composições mais conhecidas de Olegário Mariano, citado
de norte a sul do Brasil. A seu respeito escreveu Manuel
Bandeira, no ensaio dedicado ao poeta, citado neste volume:
“Nunca me esquecerei de uma tarde em que, numa tranqüila varanda
de Petrópolis, uma boa velhinha me contou que lera num jornal
uns versos tão bonitos, tão simples, que só de os ler uma vez
os decorara. “— Como eram? Lembra-se? — perguntei. “E fiquei enternecidíssimo quando ela começou: “As formigas levavam-na...
Chovia...” Desde esse dia passei a querer grande bem à poesia de
Olegário. Compreendi instantaneamente que ela haveria de ficar.”
Olegário. Compreendi instantaneamente que ela haveria de ficar.”
Olegário Mariano,
por Cândido Portinari
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Olegário
Mariano — poesia, Coleção Nossos Clássicos — Volume 97, Organização, Apresentação e Notas de Herman Lima, publicados
sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1968,
Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Olegário Mariano Carneiro
da Cunha (1889 — 1958), pernambucano de Recife, político e
diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos
com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para
o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo
de João da Avenida; obra literária: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho
da Sombra e do Silêncio (1913); Água corrente (prefácio de Olavo Bilac,
1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos,
1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida,
caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); A Vida que já vivi (memórias,
1945); e tantos outros títulos.
