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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Olegário Mariano: O Enterro da Cigarra *

Nossos Clássicos 97: Olegário Mariano
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As formigas levavam-na… Chovia…
Era o fim… Triste outono fumarento!...
Perto, uma fonte, em suave movimento,
Cantigas de água trêmula carpia.

Quando eu a conheci, ela trazia
Na voz um triste e doloroso acento.
Era a cigarra de maior talento,
Mais cantadeira desta freguesia.

Passa o cortejo entre árvores amigas…
Que tristeza nas folhas… Que tristeza!
Que alegria nos olhos das formigas!…

Pobre cigarra! Quando te levavam,
Enquanto te chorava a Natureza,
Tuas irmãs e tua mãe cantavam…


* Nota de Herman LimaEste soneto como “Água Corrente”,
 “As Duas Sombras”, “A Boêmia Triste” e “O Meu Brasil” é
 das composições mais conhecidas de Olegário Mariano, citado
 de norte a sul do Brasil. A seu respeito escreveu Manuel
 Bandeira, no ensaio dedicado ao poeta, citado neste volume: 
“Nunca me esquecerei de uma tarde em que, numa tranqüila varanda
 de Petrópolis, uma boa velhinha me contou que lera num jornal
 uns versos tão bonitos, tão simples, que só de os ler uma vez
 os decorara. Como eram? Lembra-se? perguntei. “E fiquei enternecidíssimo quando ela começou: “As formigas levavam-na...
 Chovia...” Desde esse dia passei a querer grande bem à poesia de
 Olegário. Compreendi instantaneamente que ela haveria de ficar.” 

Olegário Mariano,
por Cândido Portinari
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Olegário Mariano poesia, Coleção Nossos Clássicos Volume 97, Organização, Apresentação e Notas de Herman Lima, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1968, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; obra literária: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913); Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos, 1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); A Vida que já vivi (memórias, 1945); e tantos outros títulos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Manuel Bandeira: A Estrela

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
Poesias Completas
(1944, Rio de Janeiro - RJ)


Manuel Bandeira *


* Desenho de Cândido Portinari
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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke — Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Manuel Bandeira (1886  1968), pernambucano de Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversos autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas (Edição do Autor, 1917, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro  RJ), Carnaval (Edição do Autor, 1919, Rio de Janeiro), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924, Rio de Janeiro), Libertinagem (Edição do Autor, 1930, Rio de Janeiro), Estrela da Manhã (Edição do Autor, 1936, Rio de Janeiro), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos (Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poemas Traduzidos (1945, Rio de Janeiro), Opus 10 (1952, Niterói  RJ), Alumbramentos (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Tarde (1960, Rio de Janeiro) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936, Rio de Janeiro), Guia de Ouro Preto (1938, Rio de Janeiro), Noções de História das Literaturas (1940, Rio de Janeiro), Autoria das Cartas Chilenas (1940, Rio de Janeiro), Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Rio de Janeiro), Literatura Hispano-Americana (1949, Rio de Janeiro), Gonçalves Dias, Biografia (1952, Rio de Janeiro), De Poetas e de Poesia (1954, Rio de Janeiro), A Flauta de Papel (1957, Rio de Janeiro), Andorinha, Andorinha (1966, José Olympio, Rio de Janeiro), Itinerário de Pasárgada (1966, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968, Editora Record, Rio de Janeiro), Berimbau e Outros Poemas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro) e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna — Volume 1, da Fase Moderna — Volume 2 (todas editadas pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia Poética (1961, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Poesia do Brasil (1963, Editora do Autor, Rio de Janeiro) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiler, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford e outros.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Quixote e Sancho, de Portinari (excerto)


XI / Disquisição na Insônia

Que é loucura: ser cavaleiro andante
               ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
               O que, mesmo vendado,
               vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou — que doideira — um louco de juízo.
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As Impurezas do Branco, obra publicada originalmente em 1973  Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, Quinta Edição, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro  RJ; Drummond (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa: Alguma Poesia; Brejo das Almas; Sentimento do Mundo; José; A Rosa do Povo; Novos Poemas; Claro Enigma; Fazendeiro do Ar; A vida Passada a Limpo; Lição de Coisas; A Falta que Ama; As Impurezas do Branco; Boitempo; Menino Antigo (Boitempo II); Versiprosa; Viola de Bolso; Discurso de Primavera, e algumas sombras; Contos de Aprendiz; Confissões de Minas; Passeios na Ilha; Fala, Amendoeira; A Bolsa e a Vida; Cadeira de Balanço; Caminhos de João Brandão; O Poder Ultrajovem; De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica; ...