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sexta-feira, 5 de junho de 2020

Jorge de Lima: Poema da encantação

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Arraial d’Angola de Paracatu,
Arraial de Mossâmedes de Goiás,
Arraial de Santo Antônio do Bambé,
vos ofereço quibebê, quiabo, quitanda, quitute, quingombô.
Tirai-me essa murrinha, esse gogo, esse urufá,
que eu quero viver molecando, farreando, tocando meus ganzás!

Arroio dos Quilombolas de Palmares,
Arroio do Desemboque do Quizongo,
Arroio do Exu do Bodocô,
vos ofereço maconha de pito, quitunde, quibembe, quingombô.
                                Assim, sim!
Arraial d’Angola de Paracatu,
Arraial do Campo de Goiás,
Arraial do Exu do Aussá,
vos ofereço quisama, quinanga, quilengue, quingombô.
Tomai acaçá, abará, aberém, abaú!
                                Assim, sim!
Tirai-me essa murrinha, esse gogo, esse urufá!
Vos ofereço quitunde, quitumba, quelembe, quingombô.

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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, 2016, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

domingo, 5 de abril de 2020

Jorge de Lima: Democracia

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Punhos de redes embalaram o meu canto
para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
carumã me alimentou quando eu era criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
moleque me ensinou safadezas,
massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,
bebi cachaça com caju para limpar-me,
tive maleita, catapora e ínguas,
bicho-de-pé, saudade, poesia;
fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
dizendo coisas, brincando com as crioulas,
vendo espíritos, abusões, mães-d água,
conversando com os malucos, conversando sozinho,
emprenhando tudo que encontrava,
abraçando as cobras pelos matos,
me misturando, me sumindo, me acabando,
para salvar a minha alma benzida
e meu corpo pintado de urucu,
tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas,
de nomes de amor em todas as línguas de branco, de mouro ou pagão.

(Poemas Negros — 1947)

Jorge de Lima
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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, 2016, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

domingo, 22 de março de 2020

Jorge de Lima: Quando ele vem

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Quando ele vem,
vem zunindo como o vento,
como mangangá, como capeta,
como bango-balango, como marimbondo.
Donde que é que ele vem?
Vem de Oxalá, vem de Oxalá,
vem do oco do mundo,
vem do assopro de Oxalá,
vem do oco do mundo.
Quer é comer.
Quer é caruru de peixe,
quer é efó de inhame,
que é oguedé de banana,
quer é olubó de macaxeira,
quer é pimenta malagueta.
Quando ele chega, tudo fica banzando à toa,
esbodegado, enquizilado, enguiçado, enfezado.
Quando ele entra,
dá vontade na gente de embrenhar-se no mato,
de esparramar-se no chão,
de encalombar o rosto com as mãos,
de amunhecar no cansanção,
de esbanguelar os dentes nas pedras,
virar pé-de-vento,
sumir no assopro de Oxalá.
E dentro do assopro de Oxalá
virar cochicho nos ouvidos dela,
xodozar todo o santo dia,
catar cafunés invisíveis,
rolar dentro das suas anáguas,
bambeando o corpo dela,
babatando sem rumo,
amuxilado,
acuado diante das suas mungangas,
engambelado, tatambeado, fumado.

(Poemas Negros — 1947)

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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, 2016, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Jorge de Lima: Diabo brasileiro

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Enxofre, botijas galinha preta!
Credo em cruz, capeta, pé-de-pato!
Diabo brasileiro, dente-de-ouro, botija, onde está?
Credo, capeta, pé-de-pato!

Diabo brasileiro quero saber quando dá
a dezena do carneiro?
Enxofre, botija, galinha preta!
Credo em cruz, capeta, pé-de-pato!

Capeta, dente-de-ouro, tome galinha preta,
quero dormir com a Zefa!
Capeta, bode preto, quero dormir com a Zefa!

Capeta, diabo brasileiro, só lhe dou galinha preta!
Capeta, quero casar com a Zefa, quero que Sêo Vigário
me case logo com a Zefa!

Capeta, tome galinha preta!
Capeta, diabo brasileiro, quando dá
a centena do macaco?
Quero quebrar banqueiro, capeta danado, pé-de-pato,
dente-de-ouro, cheiro de enxofre, tome galinha preta!
Capeta, pé-de-pato, quero acertar com o bicho,
quero comprar gravata, botina de bico fino,
terno de casimira pra quando a Zefa me ver!
Capeta, pé-de-pato, tome galinha preta!

Capeta, pé-de-pato, dente-de-ouro, quero dente de ouro,
quero capa de borracha, punho engomado, camisa,
bengala castão de ouro, capeta, pé-de-pato,
tome galinha-preta!
Quero saber suas partes, suas sabedorias,
quero saber mandingas,
capeta, pé-de-pato, tome galinha preta,
que eu quero quebrar banqueiro, que eu quero tirar botija,
que eu não quero trabalhar, que eu também sou brasileiro!

Capeta, tome galinha preta,
que eu quero saber embolada,
quero saber martelo, quero ser um cantador,
capeta, quero dizer à Zefa essa quentura de amor!
Capeta, tome galinha preta, que eu quero casar com a Zefa.
Por Deus, que eu quero, capeta, pé-de-pato!
Tome galinha preta!

(Poemas Negros — 1947)

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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, 2016, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Jorge de Lima: Distribuição da poesia

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Mel silvestre tirei das plantas,
sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Escutai, meus irmãos: poesia tirei de tudo
para oferecer ao Senhor.
Não tirei ouro da terra
nem sangue de meus irmãos.
Estalajadeiros não me incomodeis.
Bufarinheiros e banqueiros
sei fabricar distâncias
para vos recuar.
A vida está malograda,
creio nas mágicas de Deus.
Os galos não cantam,
a manhã não raiou.
Vi os navios irem e voltarem.
Vi os infelizes irem e voltarem.
Vi homens obesos dentro do fogo.
Vi ziguezagues na escuridão.
Capitão-mor, onde é o Congo?
Onde é a Ilha de São Brandão?
Capitão-mor que noite escura!
Uivam molossos na escuridão.
Ó indesejáveis, qual o país,
qual o país que desejais?
Mel silvestre tirei das plantas,
sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Só tenho poesia para vos dar.
Abancai-vos, meus irmãos.

(Tempo e eternidade)

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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, 2016, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Jorge de Lima: A noite desabou sobre o cais

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A noite desabou sobre o cais
pesada, cor de carvão.
Rangem guindastes na escuridão.
Para onde vão essas naus?
Talvez para as Índias.
Para onde vão?

Capitão-mor, capitão-mor,
quereis me dizer onde é que fica
a ilha de São Brandão?

A noite desabou sobre o cais
pesada, cor de carvão.
Rangem guindastes na escuridão.
Donde é que vêm essas naus?

Serão caravelas? Serão negreiros?
São caravelas e são negreiros.
Há sujos marujos na caravelas.

Há estrangeiros que ficaram negros
de trabalharem no carvão.
Homens da estiva trabalham, trabalham,
sobem e descem nos porões,
Para onde vão essas naus?

Saltam emigrantes embuçados,
mulheres, crianças na escuridão.
De onde vêm essa gente?
Não há mais terras de Santa Cruz gente valente!

Ó indesejáveis qual o país,
qual o país que desejais?
Como é o nome dessas naus
que não se lê na escuridão?
Vão descobrir o Preste João?
Na minha geografia existe apenas
perdido no mar o cabo Não.

A noite desabou sobre o cais
pesada, cor de carvão.

Essas naus vão para o Congo?
Castelo de Sagres ficou aonde?
Capitão-mor onde é o Congo?
Será no leste, no mar tenebroso?
Capitão-mor perdi-me no mar.
Onde é que fica a minha ilha?

Para onde vão os degredados,
os que vão trabalhar dentro da noite,
ouvindo ranger esses guindastes?
Capitão-mor que noite escura
desabou sobre o cais,
desabou nesse caos!

(Tempo e eternidade)

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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, 2016, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

sábado, 16 de novembro de 2019

Jorge de Lima: Comidas

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Comer efó,
pimenta, jiló!
Iaiá me coma,
sou quimbombô!
Cobrei sustância
com mocotó!
Iaiá me diga,
nessa comida
você botou
mulata em pó?

                    Iaiá me coma
                    sou quimbombô!

Ai Bahia de Todos os Santos,
até nos pecados das comidas,
você botou nome santo?

Papos-de-anjo,
Peitinhos-de-freira,
Quindins-de-convento,
Fatias-da-sé!

Ai! Bahia de Todos os Santos,
o poema das suas comidas
foi São Benedito quem lhe ensinou?

Baba-de-moça,
Olho-de-sogra,
Levanta-marido,
Fatias-paridas,
Trouxinhas, Suspiros,
e Mimos-do-céu!

Bahia, estas comidas têm mandinga!
Bahia, esse tempero tem mocô!
Lá vem tabuleiro!
Cocadas, pipocas!
Lá vem verdureiro:
Pimenta, jiló!
Lá vem Frei Tomé:
Barriga-de-freira,
Toicinho-do-céu!

Bênção, Frei Tomé!
Moqueca, dendê,
Arroz com efó,
Pimenta, jiló!
Me coma Iaiá
que eu sou quimbombô!
       que eu sou quimbombô!

Lá vem tabuleiro
de amendoim!
Comidas gostosas
mexidas por mim!

Me compre Iaiá
por São Bom Jesus
Senhor do Bonfim!

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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, 2016, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Jorge de Lima: Serra da Barriga

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Serra da Barriga!
Barriga de negra-mina!
As outras montanhas se cobrem de neve,
de noiva, de nuvem, de verde!
E tu, de Loanda, de panos-da-costa,
de argolas, de contas, de quilombos!

Serra da Barriga!
Te vejo da casa em que nasci.
Que medo danado de negro fujão!

Serra da Barriga, buchuda, redonda,
do jeito de mama, de anca, de ventre de negra!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
Cadê teus bumbuns, teus sambas, teus jongos?
Serra da Barriga,
Serra da Barriga, as tuas noites de mandinga,
cheirando a maconha, cheirando a liamba?
Os teus meios-dias: tibum nos peraus!
Tibum nas lagoas!

Pixains que saem secos, cobrindo
sovacos de sucupira,
barrigas de baraúna!
Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu!
De noite: tantãs, curros-curros
e bumbas, batuques e baques!
E bumbas!
E cucas: ô ô!
E bantos: ê ê!
Aqui não há cangas, nem troncos, nem banzos!
Aqui é Zumbi!
Barriga da África! Serra da minha terra!
Te vejo bulindo, mexendo, gozando Zumbi!
Depois, minha serra, tu desabando, caindo,
levando nos braços Zumbi!

(Novos Poemas)

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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, 2016, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Jorge de Lima: A morte da louca

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Para Maria Helena Nélson Pinto

Onde andarás, louca, dentro da tempestade?
      És tu que ris, louca?
Ou será a ventania ou algum estranho pássaro desconhecido?
Boiarás em algum rio, nua, coroada de flores?
Ou no mar as medusas e as estrelas palparão os teus seios e tuas
[coxas?
Louca, tu que foste possuída pelos vagabundos sob as
[pontes dos rios,
estarás sendo esbofeteada pelas grandes forças naturais?
Algum cão lamberá os teus olhos que ninguém se lembrou de beijar?
Ou conversarás com a ventania como se conversasses com tua irmã
[mais velha?
Ou te ris do mar como de um companheiro de presídio?
Onde andarás, louca, dentro da tempestade?
Estarão as gaivotas surpresas diante do estranho corpo adormecido na
[morte?
Se estás morta, começaste a viver, louca!
Se estás mutilada começaste a ser recomposta na grande Unidade!
Onde andarás, louca, dentro da tempestade?

(A túnica inconsútil)

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Poemas Negros (edição ampliada): Jorge de Lima, Apresentação de Fábio de Souza Andrade, 2016, Alfaguara, Rio de Janeiro — RJ; Jorge Matheos de Lima (1893 1953), alagoano de União dos Palmares, formado em medicina, foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor, professor de literatura e pintor; escreveu e publicou XIV Alexandrinos (1914), O Mundo do Menino Impossível (poesia, 1925), Poemas (1927), Novos Poemas (1929), O acendedor de lampiões (poesia, 1932), Calunga (romance, 1935), Tempo e eternidade (poesia, 1935), A túnica inconsútil (poesia, 1938), A mulher obscura (romance, 1939), Anunciação e encontro de Mira-Celi (poesia, 1943), Poemas Negros (1947), Livro de Sonetos (1949), Guerra dentro do beco (romance, 1950), Invenção de Orfeu (poesia, 1952) e outros títulos em verso e prosa.