quarta-feira, 31 de julho de 2019

Afonso Henriques Neto: Das gangrenas

Afonso Henriques Neto por Marcelo Santos – EdUERJ – Editora da ...
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a Adauto Novaes

É um edifício todo feito de treva.
Bloco de quarteirão de comprido,
doze andares para cima,
abandonado, invadido por mendigos, traficantes,
ratos, baratas, lixo, horror insone.
Desesperada cólera de cimento, vidraças quebradas,
músculos de treva.
Na fachada toda grafitada em negro
ardem duas janelas iluminadas por lampião
enquanto o basculante de um banheiro do último andar
deixa coar mortiço pisca-pisca de velas.
Seriam as últimas famílias que ainda resistem
em condomínio sem luz e água
velando os últimos cadáveres do sonho?
Ou seriam fantasmas da utopia em destroços?
Só um bloco louco que vestiu luto
parecem dizer as sombras da ventania escarlate
(prédios assim em Nova York
são cobertos por grossos muros de concreto).
Alguém supôs o expressionismo alemão,
atmosfera kafkiana,
mas o edifício é bem mais potente do que isso,
ele carrega em catastrófico silêncio
o símbolo da cidade degradada,
o vertiginoso nó do sistema enfartado,
o grito paralisado de uma boca que já morreu.
Pensamento ferido de treva
qual uma lua bruscamente arrancada do céu.

CV (Cidade vertigem — 2005), p.141

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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Álvaro Armando: Ari Barroso

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A. B.

Começou como “speaker” esportivo
A manobrar a gaita como o Edu,
Controlando e apitando de olho vivo
Bicicletas e frangos do FlaFlu.

No Samba o seu sucesso progressivo
Valorizou-o mais do que o zebu.
E eleito Vereador, é vê-lo ativo
A “bossa” defender como tabu.

Ari Barroso

De fato, sem rigor e preconceitos,
Seu Samba do Brasil fez um cartaz
Como o Governo nunca fez tão bem.

Compositor de fama e de “direitos”,
O “disco” da fortuna é o que lhe apraz,
É outra, agora, a “gaita” que ele tem...

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Helena Ferraz, em evento na ABI
(na foto, a única mulher)
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Na Berlinda — Versos de Álvaro Armando, Caricaturas de Théo e Apresentação-prefácio de Gondin da Fonseca, 1947, Editora Civilização Brasileira S. A., Rio de Janeiro — RJ; Álvaro Armando, pseudônimo de Helena Ferraz de Abreu (1906 1979), natural do Rio de Janeiro, foi escritora e jornalista; nascida Helena Marília Bastos Tigre (filha do poeta Bastos Tigre, a quem só veio a conhecer quando mocinha, proibida que fora por seus ‘dela’ familiares), já aos oito anos escrevia crônicas e poesias para o jornal manuscrito O Potoka; depois, criou o Correio Universal (suplemento semanal que circulava em dezenas de jornais espalhados pelo país), colaborou nos jornais Correio da Manhã (foi responsável pela coluna 'Pingos e Respingos'), O Jornal, dos Diários Associados, (escreveu a coluna ‘Janela Indiscreta’), O Globo (colunas diárias em ‘Humorglobinas’ e ‘Na Boca do Globo’), dirigiu A Cigarra Feminina (suplemento de A Cigarra), além de ter trabalhado em revistas de grande circulação nacional, como Careta e Manchete; Helena Ferraz também exerceu atividades em publicidade e em programas radiofônicos e televisivos (Rádio MEC, Rádio Globo e TV Tupi); satirizou figuras públicas da época; foi eleita a primeira mulher diretora na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e, até o fim da vida, dirigiu a Biblioteca Bastos Tigre; teria sido o uso do pseudônimo masculino, Álvaro Armando, que a pusera tão à vontade no exercício da poesia satírica, o que tornara possível uma extensa carreira em jornais de grande circulação e destaque no Brasil da época; bibliografia: Na Berlinda — Versos de Álvaro Armando (ilustrações de Théo, 1947).

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Paul Verlaine: A alameda

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[traduzido por Onestaldo de Pennafort]

Pintada e empoada como em pastorais de outrora,
frágil dentro dos nós das fitas e laçadas,
na alameda onde o musgo os bancos descolora,
ela passa, sob as ramagens ensombradas,
tão lânguida! e com os mil ademanes airosos
que é hábito ter com os periquitos preciosos.
Arrasta longa cauda azul em derredor.
E às mãos, cheias de anéis, machuca um leque ornado
de motivos sensuais, de um sabor tão alado
que ela sorri, cismando, a cada pormenor.
 Loura, em suma. O nariz pequeno e a rosa fosca
da boca entre orgulhosa e ingênua, dão-lhe um ar
petulante. Aliás, mais vivo do que a mosca
que lhe reanima um pouco o inexpressivo olhar.

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L’allée

Fardée et peinte comme au temps des bergeries,
Frêle parmi les nœuds énormes de rubans,
Elle passe, sous les ramures assombries,
Dans l’allée où verdit la mousse des vieux bancs,
Avec mille façons et mille afféteries
Qu’on garde d’ordinaire aux perruches chéries.
Sa longue robe à queue est bleue, et l’éventail
Qu’elle froisse en ses doigts fluets aux larges bagues
S’égaie un des sujets érotiques, si vagues
Qu’elle sourit, tout en rêvant, à maint détail.
 Blonde, en somme. Le nez mignon avec la bouche
Incarnadine, grasse, et divine d’orgueil
Inconscient.  D’ailleurs plus fine que la mouche
Qui ravive l’éclat un peu niais de l’œil.
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Festas Galantes — Paul Verlaine, Tradução de Onestaldo de Pennafort, 1983, 3ª edição revista, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

domingo, 28 de julho de 2019

Violante do Céu: Que suspensão, que enleio, que cuidado . . . [soneto]

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Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano deus Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.

Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.

Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para quem de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.

Escrituras Doutros Tempos,
Coimbra, França Amado, 1914.

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Sóror Violante do Céu (1602  1693), portuguesa de Lisboa, freira dominicana, professou no Convento Nossa Senhora da Rosa de Lisboa e foi poetisa conhecida pelos meios culturais da época; sua obra permanece registrada em Rimas Várias de La Madre Sóror Violante Del Cielo, religiosa em El Monastério de La Rosa de Lisboa (1646), Parnaso Lusitano de Divinos e Humanos Versos, compostos pela Madre Sóror Violante do Céu, religiosa dominicana no Convento da Rosa de Lisboa (dois volumes, 1733), e na Fênix Renascida.

sábado, 27 de julho de 2019

Íris Cavalcante: um jeito de amar chamado amigo

Nasce um Leitor
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tenho alguns amigos, poucos
mas de grande valor
tenho amigos passarinhos
quando reconheço um, eu digo: voe!

alguns perdem o vínculo com a gravidade
e alçam rasantes de liberdade
eu poderia citar alguns
bem, melhor não!
estes são os que fazem das asas instrumento de trabalho

são da mesma espécie dos
amigos sonhadores
às vezes, os sonhadores são mais prudentes
oscilam do sonho ao voo
ora turbulência, ora calmaria
nunca se sabe quando um sonhador
voa ou está em terra firme
o sonhador tem uma velocidade inalcançável!

tenho amigos poetas
estes são passarinhos e sonhadores e belos
de uma beleza, algumas vezes, invisível!
mas que importa isso ao poeta
se ele extrai beleza do improvável?

o poeta é um artesão
com mãos hábeis e um olhar atento
encaixa uma palavra qualquer num poema
dando-lhe forma e relevo
com a perfeição de um esteta

somos capazes de sentir a forma
do poema
pegá-lo com as mãos
antes que ele inaugure suas asas e
alce o próprio voo
poemas assim têm o alcance
da atemporalidade
e nos comovem num para sempre

tenho amigos artistas
estes são passarinhos sonhadores
poetas e belos
porque a arte é a coisa mais
perto da vida
e não consigo imaginá-la sem
as asas da liberdade
os sonhos que eu persigo e os poemas

ah, também tenho amigos
que não são humanos
nem passarinhos nem sonhadores
nem poetas nem artistas
mas têm um jeito todo próprio de demonstrar ternuras
que alguns humanos não são capazes

ainda há outro jeito de definir amigos
tenho amigos que são amor
não é fácil entender essa travessia
mas não precisa mesmo entender, não
é só um jeito de amar com a sensação
de lugar seguro...

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Revista E  Sesc São Paulo, julho de 2019, nº 1, ano 26; Íris Cavalcante, cearense de Baturité, especialista em Escrita Literária e MBA em Administração Estratégica, é poeta e romancista; bibliografia: Palavras e Poesias (2003), O Caminho das Letras (2006), O Sobrevivente (2011), Vento do 8º andar (2017); com esta última obra, foi finalista do Prêmio Jabuti de 2018 na categoria Poesia; participa em coletâneas e colabora em revistas eletrônicas.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Eugênio de Castro: O cravo de papel

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Cravo de papel de seda,
Com delgado pé de arame,
Nenhuma abelha o beijou
Fugida do alado enxame.

Fina serrilha acairela
Suas pétalas de lume:
Vermelho, p'la cor, engana,
Mas, falso, não tem perfume.

Feito por mão feminina,
Quem o fez com tal primor
Talvez nele se pintasse,
Dizendo amar sem amor…

À laia de bandeirola,
Ostenta, acordando fados,
Uma quadrinha com versos
Cheios d'amor, mas errados.

Nesse trajo, a arder se vê
Em ardente romaria.
Um Manuel o compra e of’rece
À sua noiva, Maria.

Mas a mãe da noiva observa
Em seu materno temor:
 Quem um cravo falso dá,
Dá decerto um falso amor!

Manuel, que ama deveras,
Responde com ansiedade:
 Se este cravo é de mentira,
Meu amor é de verdade!

Não seja assim, tia Rosa,
Tão rabugenta e cruel:
Tenha confiança em mim
E no cravo de papel.

Ainda que seja d'oiro,
A oferta de quem quer bem
Vale mais pelo que diz
Do que p'lo peso que tem.

Este cravo, sendo falso,
Vence os cravos verdadeiros,
Cuja cor, cujo perfume
São doces mas passageiros.

Não diga mal, tia Rosa,
Deste cravo que é honrado:
Se ele nasceu sem perfume,
Tem o do amor com que é dado!

Ouvindo Manuel, Maria
Desfalecia d'amor,
E, sobre o seu seio, o cravo
Par'cia um santo no andor.

Manuel cumpriu a palavra,
Foi firme nos seus afetos;
Casou, e morreu velhinho,
Deixando filhos e netos.

E Maria, também velha,
Viúva de Manuel,
Levou p’ra a cova, ainda fresco,
O seu cravo de papel.

Cravos de Papel. Obras Poéticas. Lumen, vol. IX

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Presença da Literatura Portuguesa IV — Simbolismo, por Antonio Soares Amora, 1969, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Eugênio de Castro e Almeida (1869 1944), português coimbrense, foi poeta e professor da Universidade de Coimbra, onde também formou-se em Letras; um dos fundadores da revista Os Insubmissos (1889), colaborador da revista Boêmia Nova, ambas divulgadoras do Simbolismo Francês, o poeta dirigiu a Arte (1895 a 1897), a mais importante revista literária portuguesa da época; obra poética: Oaristos (1890), Horas (1891), Silva, Interlúnio, Belkiss (todos em 1894), Tirésias, Sagramor (1895), Salomé e Outros Poemas (1896), O Rei Galaor (1897), O Anel de Polícrates (1907), Cravos de Papel (1922), A Caixinha das Cem Contas (1923), Descendo a Encosta (1924), Chamas de uma Candeia Velha (1925) etc.