
a Adauto Novaes
É um edifício todo feito de treva.
Bloco de quarteirão de comprido,
doze andares para cima,
abandonado, invadido por mendigos, traficantes,
ratos, baratas, lixo, horror insone.
Desesperada cólera de cimento, vidraças quebradas,
músculos de treva.
Na fachada toda grafitada em negro
ardem duas janelas iluminadas por lampião
enquanto o basculante de um banheiro do último andar
deixa coar mortiço pisca-pisca de velas.
Seriam as últimas famílias que ainda resistem
em condomínio sem luz e água
velando os últimos cadáveres do sonho?
Ou seriam fantasmas da utopia em destroços?
Só um bloco louco que vestiu luto
parecem dizer as sombras da ventania escarlate
(prédios assim em Nova York
são cobertos por grossos muros de concreto).
Alguém supôs o expressionismo alemão,
atmosfera kafkiana,
mas o edifício é bem mais potente do que isso,
ele carrega em catastrófico silêncio
o símbolo da cidade degradada,
o vertiginoso nó do sistema enfartado,
o grito paralisado de uma boca que já morreu.
Pensamento ferido de treva
qual uma lua bruscamente arrancada do céu.
CV (Cidade vertigem — 2005), p.141
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Afonso Henriques Neto (Coleção
Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora
UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944,
mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB),
com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia
marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou
em Brasília — DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso
ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas
(1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992),
Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998),
Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto:
Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma
cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.







