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sábado, 17 de junho de 2023

Lima Barreto: Quase doutor


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          A nossa instrução pública cada vez que é reformada, reserva para o observador surpresas admiráveis. Não há oito dias, fui apresentado a um moço, aí dos seus vinte e poucos anos, bem posto em roupas, anéis, gravatas, bengalas, etc. O meu amigo Seráfico Falcote, estudante, disse-me o amigo comum que nos pôs em relações mútuas.
          O Senhor Falcote logo nos convidou a tomar qualquer coisa e fomos os três a uma confeitaria. Ao sentar-se, assim falou o anfitrião:
           Caxero traz aí quarqué cosa de bebê e comê.
          Pensei de mim para mim: esse moço foi criado na roça, por isso adquiriu esse modo feio de falar. Vieram as bebidas e ele disse ao nosso amigo:
           Não sabe Cunugunde: o véio tá i.
          O nosso amigo comum respondeu:
           Deves então andar bem de dinheiros.
           Quá ele tá i nós não arranja nada. Quando escrevo é aquela certeza. De boca, não se cava... O véio óia, óia e dá o fora.
          Continuamos a beber e a comer alguns camarões e empadas. A conversa veio a cair sobre a guerra européia. O estudante era alemão dos quatro costados.
           Alamão, disse ele, vai vencer por uma força. Tão aqui, tão em Londres.
           Qual!
           Pois óie: eles toma Paris, atravessa o Sena e é um dia inguelês.
          Fiquei surpreendido com tão furioso tipo de estudante. Ele olhou a garrafa de vermouth e observou:
           Francês tem muita parte... Escreve de um jeito e fala de outro.
           Como?
           Óie aqui: não está vermouth, como é que se diz "vermute"? Pra que tanta parte?
          Continuei estuporado e o meu amigo, ou antes, o nosso amigo parecia não ter qualquer surpresa com tão famigerado estudante.
           Sabe, disse este, quase fui com o dotô Lauro.
           Por que não foi? perguntei.
           Não posso andá por terra.
           Tem medo?
           Não. Mas óie que ele vai por Mato Grosso e não gosto de andá pelo mato.
          Esse estudante era a coisa mais preciosa que tinha encontrado na minha vida. Como era ilustrado! Como falava bem! Que magnífico deputado não iria dar? Um figurão para o partido da Rapadura.
          O nosso amigo indagou dele em certo momento:
           Quando te formas?
           No ano que vem.
          Caí das nuvens. Este homem já tinha passado tantos exames e falava daquela forma e tinha tão firmes conhecimentos!
          O nosso amigo indagou ainda:
           Tens tido boas notas?
           Tudo. Espero tirá a medáia.

Careta, 8-5-1915

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Lima Barreto: Crônicas Escolhidas, Apresentação de João Antônio, Coleção Folha de São Paulo, 1995, Editora Ática, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

domingo, 12 de fevereiro de 2023

genésio dos santos: vítiguenstain

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pela orelha ou pelo bico
pelo bico ou pela orelha
será o bico dum pato?
será orelha dum coelho?

é bom prestar atenção
melhor não confiar no espelho
talvez seja um coelhato
quem sabe só um patelho

alguém disse ornitorrinco?!
por que não? quem sabe, sim!
se o pegarmos pelas patas
e o bicho botar um ovo...

mas se for ovo de páscoa
não poderia ser coelho
nem mesmo um coelhato
jamais seria patelho

quadrinhas feitas nas patas
— tal qual se moldavam telhas!? 
talvez surja um poemato
quem sabe um poemetelho

e o poeta estupefato
procurando pelo em ovo
percebe que tudo empata 
declama a trova de novo:

— pela orelha ou pelo bico
pelo bico ou pela orelha
será o bico dum pato?
será orelha dum coelho?

[2020]

são paulo  sp

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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho — SP, Folha Bancária, participou do jornal Brinque (do coletivo cultural do Seeb-SP, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

domingo, 10 de maio de 2020

genésio dos santos: wittgenstein

duck-rabbit" (Ludwig Wittgenstein, "Philosophical Investigations ...
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sim, wittgenstein
tira coelho da cartola.
pato não é ganso.


sp, 10.05.2020

Minha foto
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genésio dos santos ferreira, paulista e itapetiningano, nascido em 1952,  caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra são Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até um dia destes foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais o espelho — sp, folha bancária e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Capitão Furtado: Trovas

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Ninguém na vida ama mais
do que eu amo a minha bela!
Amo ela de coração,
minha vida é amar ela!

Meus versos são para ti,
são feitos de coração...
Dedico a ti meu afeto,
meus carinho por ti são!

Toda vida hei de amá-la,
cara Bina, minha bela...
Já sinto que o coração
no meu peito por ti gela!

O sonho da arma minha
é ver ela bem banguela,
pra que ninguém nunca cubice
o incanto da boca dela!

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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Capitão Furtado, pseudônimo de Ariovaldo Pires (1907 1979), paulista de Tietê, foi cantor, compositor e radialista; é considerado um expoente da literatura caipira; ainda criança mudou-se para Botucatu SP e em 1926 chega a São Paulo, onde arruma trabalho como auxiliar de escritório; a partir daí começa o seu envolvimento com produções caipiras na Rádio Cruzeiro do Sul e na Rádio São Paulo — PRA—5, e depois nas rádios Tupi, Difusora, Nacional, Cultura etc., nas quais encena quadros radiofônicos, apresenta programas, compõe, cria programa de calouros, participa como assistente de produção e como coordenador artístico de filmes; escreveu e publicou o livro Lá vem mentira (1956); Capitão Furtado nos deixou como legado mais de uma centena de composições caipiras, em parceria com diversas duplas, atuando como letrista e também cantando; discografia: Natal do Sertão (1936), Adoração (1937), Amanhecer no Sertão (1938), Caipira em Hollywood (1938), Brincadeira de Roda (1938), As Três Gargalhadas (1945), Sodade do Ranchinho (1951), Arraial da Curva Torta (1958), Roda de Violeiros (1958), Tapera (1959) e outros, além de ser reverenciado em trabalhos de violeiros e estudiosos da música caipira: Ao Capitão Furtado — Marvada Viola (com diversos músicos e músicas, 1987).

domingo, 20 de agosto de 2017

Monteiro Lobato: Prefácio a "Rosário de Capiá" de Nhô Bento [trechos]

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          Foi em casa de Cicero Marques. Certa noite vi lá dois estranhos, um gordão e moreno a quem davam o nome de Nhô Bento  e era de fato um perfeito “Nhô”, bonachão, sossegado. Outro, um chatola, foi me apresentado como Pagano. Eu podia pensar tudo daqueles dois homens, menos que fossem dois verdadeiros e grandes poetas. Em certo momento Cícero pede a Nhô Bento que recite um dos seus poemas. Nhô Bento levanta-se e limpa o pigarro  e eu suspiro por dentro, preparando-me para a séca. Esses tais recitativos de encomenda são em geral uma estopada que a gente tem que engolir de cara amável, com palminhas no fim e pedidos hipócritas de “Recite outra...”

          Mas a minha surpresa foi grande. O homem pôs-se a dizer, com uma expressão, uma verdade e uma propriedade inexcedíveis, os melhores poemas caipiras que ainda ouvi  ricos de imagens novas, de modismos, de mil particularidades que no momento eu não podia analisar mas me enlevaram, como igualmente enlevaram a todos os presentes. Cicero olhava-nos orgulhoso  o orgulho dum empresário feliz. “Eu não dizia?” era a sua expressão ante o nosso espanto. E quando entre palmas Nhô Bento terminou o seu poema, o “Recite outro!” foi geral e sinceríssimo, porque versos como aqueles são como um bons-bocados que um não contenta.

          . . . Foi uma das mais belas noites de minha vida, essa em que travei conhecimento com dois estranhíssimos poetas, desses que não fazem invocação a Apolo, não entram nas academias, mas enchem a alma do povo e imortalizam-se de verdade  como o grande Catulo.
     
          Discutiu-se depois a publicação dos poemas de Nhô Bento e com prefácio meu! Pobre de mim! O menos crítico dos homens, o mais sem jeito, e virado “prefaciador” oficial” de livros, como antigamente havia na roça aqueles “oradores oficiais” das festinhas de família.

          . . .

          Este nosso país é um assombro. Nascemos aqui, vivemos aqui e morremos aqui e não o conhecemos. Conhecemo-lo tão pouco que quando apareceu o primeiro retrato d’après nature do jéca foi um espanto geral, e uma celeuma que durou anos e ainda é debatida. É que ninguém sabia como era o jéca  e sabem quantos jécas há neste país? Milhões. Talvez 15 milhões, isto é, a terceira parte da nação! Mas esses milhões de nacionais vivem de tal modo segregados da civilização das cidades grandes e pequenas, tão alheios à cultura geral, que somos etnograficamente um balde com dois terços de água e um de azeite  coisas imisturáveis.

          Temos duas civilizações, ou melhor, duas “culturas”: a cultura importada, dos que vivem nas cidades, sabem ler e escrever e até livros escrevem! E a “cultura local”, filha da terra como um cogumelo é filho dum pau podre, desenvolvida pelos homens do mato  o caboclo, o caipira, o jéca, em suma. Como o jéca nunca leu nada nem escreve, a sua cultura se foi fazendo ao tipo primitivo, por lentas acessões e restritas experiências locais e com a transmissão sempre oral. O assunto é grande demais para caber num prefácio; exige livros, já que se trata duma “cultura” de 15 milhões de seres humanos. Mas cumpre-nos aqui a considerar a galope um dos aspectos dessa “cultura”: a língua, pois foi na língua do jéca que Nhô Bento nos encantou.

          Essa língua descende da que os portugueses introduziram e que alijou a língua geral então existente nestes territórios: o tupi-guarani. Ficou a língua portuguesa sendo a língua geral do Brasil e até hoje o é. E por que o é? Porque aprendemos o português de duas maneiras: de ouvido e de leitura. Se o aprendêssemos só de ouvido, como acontece com o jéca, a nossa “língua geral” estaria hoje tão distanciada da língua portuguesa que um português não a entenderia. O que conserva as línguas e impedem que caminhem com velocidade excessiva pela tentadora da evolução, é a escrita.

          Mas como o jéca nunca soube ler nem escrever, a evolução da língua portuguesa em sua boca se fez a galope. Nhô Bento em seus poemas fixa muito bem a língua falada do jéca  e antes que me esqueça: por que os nossos filólogos não extraem a gramática dessa língua do jéca? Que interessante seria!... Quanta “mutação” vocabular, quanta variação da sintaxe, da prosódia, de tudo!... Troca do “b” pelo “v”: “cumbérsa”, “bérso”, “cuvérta”... O “lh” substituído pelo “i”: “abêia”, “páia”, “máia” (malha)... O “ou” reduzido a “ô”: “fumô”, “botô”... Quantos aspectos!

          Devíamos fazer a gramática da interessantíssima “língua do jéca” como os franceses fizeram a gramática da “língua do oc”; e devíamos ensinar essa gramática nas escolas, lado a lado com a gramática portuguesa, em vez de torturar as pobres crianças com o terrível e inútil latim do senhor Capanema. Ficaríamos assim educados em duas línguas, a geral, ou portuguesa, e uma língua auxiliar, a do jéca. Que vantagem haveria nisso? Oh, grande: podermos falar gramaticalmente com os 15 milhões de jécas que há no território brasileiro.

          . . . A forma escrita das línguas é um artificialismo tremendamente embaraçador da evolução natural das línguas. Tão emperrado, que no inglês a língua falada está p’ra cá, e a escrita está p’ra lá. Mr. Churchill escreve “enough” e diz “inâf”. O jéca teve a felicidade de não saber ler nem escrever, de não se preocupar com a Academia de Letras, de usar dos jornais unicamente o papel  e graças a isso “evoluiu” a língua portuguesa só de ouvido e sempre de acordo com as injunções da “lei do menor esforço” e da “lei da melhor compreensão”. E como suprimiu besteiras inúteis! Os verbos, por exemplo. Nós, por causa da tirania da escrita, ainda estamos com tantas variações pessoais como as tinha o latim. Dizemos: Eu tenho, Tu tens, Ele tem, Nós temos, Vós tendes, Eles têm. Ha um grave defeito aqui. Se o pronome já indica a pessoa do verbo, por que indicá-la novamente com a variação do verbo? Redundância, bobagem perda de esforço. O jéca, muito mais economizador de esforço, porque vive na maior das penúrias, diz: Eu tenho, Vancê tem, Ele tem, Nós tem, Vancês tem, Eles tem.

          O inglês também diz: I have, He have, We have, You have, They have  e tanto o jéca como o inglês exprimem perfeitamente a “pessoa que tem”, sem estarem latinescamente variando o pobre verbo.

          Há uma estranha aproximação do inglês com a língua do jéca, a ponto dum amigo meu, o visconde de Sabugosa, achar que essa língua deriva do inglês e não do português, como o saudoso Alvaro Guerra supunha. O jéca forma os seus plurais com a mesma inteligência e economia do inglês: diz, por exemplo, “as casa”, os “hóme” “as muié”, em vez de dizer redundantemente como o português, “as casas”, “os homens”, “as mulheres”. O inglês diz, “the houses” (o casas), “the men” (o homens), “the women” (o mulheres) a mesma coisa que o jéca, só que invertido. Se pondo apenas o artigo no plural a frase fica perfeitamente clara, para que botar no plural também o substantivo? Pensa com muita razão o jéca  e o inglês faz o mesmo raciocínio quando pluraliza o substantivo e não mexe no artigo.

          Tudo isso eu diria no prefácio de Nhô Bento, se fosse escrevê-lo E acentuaria que o mesmo direito que tiveram os portugueses de corromper o latim e transformá-lo em língua portuguesa, temos nós, letrados, de corromper a língua portuguesa e transformá-la na “língua brasileira”; e tem o iletrado jéca de “evoluí-la” em outro rumo. Mais cientificamente, podemos dizer que a língua portuguesa no Brasil está sofrendo duas variações: uma lenta, da gente que sabe ler e escrever; e outra rápida, da gente da roça segregada do urbanismo, do livro, do jornal e do radio  o abençoado jéca que tem a sorte de não ler os jornais do governo nem os da oposição e de não ouvir a “Hora do Brasil”.

          Quem condena como coisa “errada” o modo de falar ou a língua do jéca, revela-se curto de miolo. Os modos de variação duma língua são fenômenos naturais, e não há erro nos fenômenos naturais. Erro é coisa humana. Temos que estudar essas variações em vez de tontamente condená-las, pois condená-las equivale, por exemplo, a condenar os anéis de Saturno em nome dos planetas que não possuem anéis; os as caudas dos cometas em nome dos astros suras; ou as sementes da paineira por virem ao mundo envoltas num algodãozinho em nome das sementes de capiá que vêm nuas.

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Rosário da Capiá  (Poemas Caboclos) — Nhô Bento (José Bento de Oliveira), Prefácio de Monteiro Lobato e Ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, 1946, 1ª Edição, Graphicars — F. Lanzara, São Paulo e Rio de Janeiro; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e tornando-se seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; foi co-proprietário da Companhia Editora Nacional; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (conto, 1918), Cidades Mortas (conto, 1920), Negrinha (conto, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), entre tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.

domingo, 5 de julho de 2015

Guimarães Rosa: Pão ou pães, é questão de opiniães . . . *

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 Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de ho­mem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do cór­rego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mo­cidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, er­roso, os olhos de nem ser se viu ; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebi­tado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: deter­mi­naram era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente  depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá  fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães é questão de opiniães... O sertão está em toda parte.



* Nota: Este texto é o início do romance Grande sertão: Veredas; o título do texto é um atrevimento deste aprendiz de blogueiro.
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Grande sertão: Veredas Guimarães Rosa, 1984, Círculo do Livro S.A., São Paulo SP; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, formado em Medicina, foi diplomata, escritor e também poeta; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia  Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969), Ave, palavra (diversos, 1970) e Magma (poesias, escrito em 1936 e editado apenas em 1997), etc.; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Checoslováquia e Holanda); Guimarães Rosa, com sua única obra em poesia, Magma, escrito em 1936 para participar de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, obteve a premiação com louvor em primeiríssimo lugar, mas, por razões do autor, o livro permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Carlos Drummond de Andrade: Conversa na fila

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          CONVERSAVAM na fila do cinema:
          — E o seu caso com a Belmira?
          — Encerrado, depois de um incidente onfálico. Observei-lhe que não ficava bem  ir à praia de tanga, quando ainda emergia daquele problema de cirsônfalo.
          — E ela?
          — Não gostou e rompemos. Nossa ligação teve um fim celíaco. E você com a Isadora?
          — Mal, meu caro. Sabia que ela é hipnóbata? E o pior de tudo: com loxodromismo. De noite é aquela confusão no apartamento: batida nos móveis, objetos quebrados, e ela volta com acrodinia, com meralgia ou com podalgia.
          — Que lástima.
          — Depois, a Isadora se distingue por uma total aprosexia. Não adiante falar com ela que tome cuidado, que se proteja. Sua desatenção é mesmo esplâncnica
          — Caso sério.
          — Pois é. Mas vamos mudar de assunto. Viu aquele projeto de superclínicas integradas do Quintiliano? Ele está entusiasmadíssimo!
          — Vi. Para mim, o Quintiliano é um caso de cianopsia empresarial. Vê lá se aquilo funciona.
          — Por que não? Você é que me parece com tendência fotodisfórica. Não capta a evidência solar da iniciativa.
          — Pode ser. Mas o Quintiliano é lalômano e dislálico a um tempo, e isso me irrita, ainda mais ligado à somatomegalia projetista.
          — Que tem isso? O essencial é que ele sabe ser sinérgico e sua doxomania semeia empreendimentos grandiosos.
          — É. Mas isto, ao fim de algum tempo, fica tautométrico.
          — Não interrompendo. Repare nessa garota à nossa frente.
          — Já notei. Onicófaga.
          — Nem por isso deixa de ser uma graça.
          — Você acha? Quando se virou, notei que é leptorrínica.
          — Quase nada!
          — Sem falar na anisocoria, que captei de relance.
          — Ora, nem se percebe.
          — E a pele...
          — Que tem a pele?
          — Xilóide.
          — Daqui a pouco você enxerga na coitadinha hipertricose, furfuração intensiva e até glossotriquia.
          — Que é que você quer? Graças a Deus, não sofro nem nunca sofri de hebetação.
          — Nem eu nunca lhe atribuí qualquer patose.
          — Eu sei. Quero provar apenas que meu senso crítico-estético não se acha em catábase. Nada me escapa. A propósito. Corrija-se. Você está meio camptocósmico
          — Dá para notar? Ainda bem que não estou opistótono, como o Ricardão.
          — É mesmo. O Ricardão jamais se mantém ortostático. Nossa turma, hem?
          — Realmente. O Guedes com aquele xiloma, o Tenório com o seu teratoma...
          — A pobre da Zuenilda às voltas com a sua colpocele...
          — E o Monjardim, cada vez mais anártrico, a ponto de não se entender mais o que ele quer dizer...
          A fila chegou ao guichê, o papo acabou, e eu não entendi ponto-e-vírgula do que os dois disseram. E você?

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Os Dias Lindos — Crônicas, terceira edição, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Os Dias Lindos crônicas (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...