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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Guta Girolamo: Heráclito

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          O elevador para, a porta se abre muito devagar, indecisa, cuidadosa. Por fim, deixa a nova visitante entrar nos mistérios do nono andar. A menina dá um passo adiante e, quase imediatamente, o imenso salão se ilumina. Uma abóbada gigantesca ao centro deixa os raios dourados do sol entrar.
          As paredes ao redor e as milhares de estantes muito altas estão atoladas de livros de todos os tipos e tamanhos. Não há nenhuma classificação aparente. É um livro após o outro, após o outro, após o outro. Manuela percorre o espaço entre as estantes com a surpresa do olhar ingênuo, maravilhando-se com a beleza das encadernações, das luzes que saem de alguns livros, do movimento que eles fazem nas prateleiras e dos sons baixinhos que produzem.
          Ela segue cada vez mais para o interior deste grande hall, guiada mais pela curiosidade do que pela prudência. As estantes estão cada vez mais altas, mais curvas e mais estreitas, formando corredores e mais corredores dos quais não se vê o fim. Através da abóbada, o dia que agoniza colore o ambiente de um amarelo violento e de um roxo ensandecido. Ouve-se um choro, um lamento, uma risada. Um vulto passa ora aqui, ora ali.
          Aos poucos, a abóbada revela, no céu noturno, o brilhante Vênus, o avermelhado Marte, o Cruzeiro do Sul. Uma gigantesca lua derrama seu brilho intenso como um pesado manto azul e prateado sobre o monstruoso império de livros. Não há caminho possível, não há saída, não há direita e esquerda, em cima e embaixo, perto e longe, hoje, ontem, amanhã. E a menina finalmente a vê. É uma mulher muito alta e magra, com um pescoço umas seis vezes maior do que deveria ser, de braços longuíssimos, trajando um vestido muito justo e longo que esconde seus pés. Ela não anda, flutua. Esta mulher, já muito velha, percorre lentamente os corredores, passando suavemente a mão sobre os livros que vão se iluminando ao toque de seus dedos longos e grossos. A velha lamenta, chora, ri, gargalha e volta a lamentar.
          Manu se aproxima ainda mais. Olha-a de frente e o que vê são olhos grandes e profundos circundados por uma pele cheia de vincos. São translúcidos, mudam de cor e contam milhares de histórias ao mesmo tempo, felizes, tristes, misteriosas, doces, amargas. É uma visão atordoante e prazerosa e dos olhos da menina rolam longas lágrimas salgadas. A Velha passa a mão sobre seu rosto. “Olhos virgens.” E continua seu caminho. Manu a segue por esse labirinto cuja posição das estantes está sempre mudando.
          De repente, um trovão. Na abóbada cai uma cortina de pingos, águas que as nuvens revoltas expulsam de si mesmas. Ela abaixa os olhos e vê, no meio de tudo, u m imenso espaço vazio, um buraco frio e preto, fundo e largo, que gira furiosamente, causando uma leve ventania enquanto engole os livros das estantes mais próximas, um a um. A Velha está ao seu lado e, de supetão, joga-se no buraco. Flutua, gira... O buraco vai se fechando. Ela lança um livro para Manu, dá um sorriso úmido, e deixa-se afundar neste curioso abismo.
          Um rompante de luz traz a atenção de Manu de volta para cima. Um sol ainda tímido lança seus primeiros raios do dia. Ela volta a olhar para baixo e, onde havia o buraco, há agora um extravagante jardim muito verde, com muitos arbustos, flores de todo tipo, bancos de madeira, outros de mármore e, no centro, um pequeno lago. Manu ajoelha-se na grama, diante do lago, abre o livro que a Velha lhe jogou e lê, na primeira folha, escrito à mão, em letras muito antigas, “na mesma biblioteca entramos e não entramos, somos e não somos”. Aperta o livro contra o peito. De onde está sentada percebe que as estantes do labirinto se movem novamente e deixam entrever o elevador distante. Abraçada ao livro, Manu olha-se no lago, procurando em seu reflexo alguma resposta. “Somos e não somos” ressoa em sua mente. Fixa o olhar no espelho d’água e... parece que seus olhos estão maiores, seu rosto mais fino, seus cabelos mais longos. “Procuro-me a mim mesma”. A decisão foi tomada. As estantes do labirinto voltam a se mover e desaparece a visão do elevador.
          Manu levanta, caminha para fora deste oásis verde para entrar no oásis labiríntico, multicolorido e multiatmosférico das estantes dessa biblioteca infinita. Anda tranquila, abandonando-se ao prazer de passar suas mãos languidamente sob os livros repousados em seus nunca definitivos lugares. Ela percebe que está agora muito mais alta. De fato, tão alta que consegue alcançar, com seus braços compridíssimos, os livros das prateleiras mais distantes. O pescoço alongou-se imensamente e seus dedos agora são grossos e fortes, com vincos, como se o tempo houvesse passado muito velozmente nos últimos minutos. Mas são igualmente jovens, espertos, sem marcas de nenhum tipo. Estranho, inebriante.
                    Manu está passeando por aquele corredor, com as mãos acarinhando os livros. Súbito, sente cócegas e ri. Uma imagem muito engraçada vem à sua mente. Toca outro livro mais detidamente, crimes hediondos. Outro, felicidade inesperada, gestos, falas, lugares, fatos. Tudo o que deveria vir só muito lentamente vem num átimo, num sopro, como um vento forte, um gozo profundo. Um livro está coberto por uma névoa. É a morte que se avizinha. “Morte de terra é tornar-se água, morte de água é tornar-se ar, de ar fogo, e vice-versa.” Em outro, matemática, os segredos do universo. Manu dá uma gargalhada larga e preguiçosa. Em um deles ela se detém por mais tempo, fecha os olhos e chora. “Lutar contra o coração é difícil, pois o que ele quer compra-se a preço de alma”.
                    Manu já é bastante velha, bastante jovem, um bebê. Ela sente seu coração bater no peito, no pé, nos braços, sua circulação, sua mente, suas ideias. Tudo ela perscruta, tudo vê e não vê, sente... talvez, sabe e não sabe, é e não é.

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Um Circo de Percalços Falsos: guia para a bibliotecária das galáxias, (Coletivo As Lontras Daquela Hora), Coordenador: Luiz Bras, 2016, Editora Aspas, São Paulo — SP; Guta Girolamo, apaixonada por filosofia e literatura, pesquisadora e mestranda na USP, está descrito nos minitraços biobibliográficos deste Circo de Percalços Falsos, ‘é uma estrela cadente em ascensão. Guerreira amazona, dispara suas flechas supersônicas e sai pendurada nelas por toda a Via Láctea, sua morada, procurando lugares inexplorados, de onde tira a matéria-prima de suas histórias, seus amores, danças e desejos nunca domesticados.”.