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sábado, 4 de abril de 2026

Paul Celan: Os anos de ti até mim


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

De novo se enrolam teus cachos quando choro. Com o azul dos teus
olhos
pões a mesa do nosso amor: uma cama entre verão e outono.
Bebemos o que fermentou alguém que não fui eu, nem tu, nem um
terceiro:
sorvemos um vazio pela última vez.
Nos espelhos do fundo do mar nos observamos e nos servimos mais
apressados os pratos:
a noite é a noite, ela inicia com a manhã,
ela me deita junto a ti.

Paul Celan

Die Jahre von dir zu mir

Wieder wellt sich dein Haar, wenn ich wein. Mit dem Blau deiner
Augen
deckst du den Tisch unsrer Liebe: ein Bett zwischen Sommer und
Herbst.
Wir trinken, was einer gebraut, der nicht ich war, noch du, noch ein
dritter:
wir schlürfen ein Leeres und Letztes.
Wir sehen uns zu in den Spiegeln der Tiefsee und reichen uns rascher
die Speisen:
die Nacht ist die Nacht, sie beginnt mit dem Morgen,
sie legt mich zu dir.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França e, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas. Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (1952), Von Schwelle zu Schwelle (1955), Sprachgitter (1959), Die Niemandsrose (1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora de origem judaica, nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, teve origem no seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", suicidou-se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Hans Magnus Enzensberger: Mais razões por que os poetas mentem


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Porque o momento
em que se pronuncia
a palavra feliz
nunca é o momento feliz.
Porque os lábios de quem morre de sede
já não conseguem exprimir sede.
Porque a palavra proletariado
não passa pela boca do proletariado.
Porque quem está desolado
não sente vontade de dizer:
“Eu sou um desolado.”
Porque orgasmo e orgasmo
não podem ser conciliados.
Porque o moribundo, em vez de afirmar:
“Agora estou morrendo”,
apenas emite um ruído surdo
que nós não compreendemos.
Porque são os vivos que
enchem os ouvidos dos mortos
com suas notícias nefastas.
Porque as palavras vêm tarde,
ou cedo demais.
Porque, portanto, é um outro,
sempre um outro
que está falando
e porque aquele
de quem se está falando
cala.

Hans Magnus Enzensberger

Weitere Gründe dafür, dass die Dichter lügen

Weil der Augenblick,
in dem das Wort glücklich
ausgesprochen wird,
niemals der glückliche Augenblick ist.
Weil der Verdurstende seinen Durst
nicht über die Lippen bringt.
Weil im Munde der Arbeiterklasse
das Wort Arbeiterklasse nicht vorkommt.
Weil, wer verzweifelt,
nicht Lust hat, zu sagen:
»Ich bin ein Verzweifelnder.«
Weil Orgasmus und Orgasmus
nicht miteinander vereinbar sind.
Weil der Sterbende, statt zu behaupten:
»Ich sterbe jetzt«,
nur ein mattes Geräusch vernehmen läßt,
das wir nicht verstehen.
Weil es die Lebenden sind,
die den Toten in den Ohren liegen
mit ihren Schreckensnachrichten.
Weil die Wärter zu spät kommen,
oder zu früh.
Weil es also ein anderer ist,
immer ein anderer,
der da redet,
und weil der,
von dem da die Rede ist,
schweigt.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Hans Magnus Enzensberger: Nênia à maçã

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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Aqui estava a maçã
Aqui ficava a mesa
Isto era a casa
Isto era a cidade
Aqui jaz o país

Essa maçã ali
É a Terra
Um belo astro
Onde havia maçãs
E comedores de maçãs.

Hans Magnus Enzensberger

Nänie auf den Apfel

Hier lag der Apfel
Hier stand der Tisch
Das war das Haus
Das war die Stadt
Her ruht das Land.

Dieser Apfel dort
ist die Erde
ein schönes Gestirn
auf dem es Äpfel gab
und Esser von Äpfeln.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 11 de janeiro de 2025

Bertolt Brecht: A troca da roda


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Estou sentado no barranco da estrada.
O condutor trocando a roda.
Não gosto do lugar de onde vim.
Não gosto do lugar para onde vou.
Por que eu vejo a troca da roda
Com impaciência?

Bertolt Brecht

Der Radwechsel

Ich sitze am Straßenhang
Der Fahrer wechselt das Rad.
Ich bin nicht gern, wo ich herkomme.
Ich bin nicht gern, wo ich hinfahre.
Warum sehe ich den Radwechsel
Mit Ungeduld?
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Ulla Hahn: Suspeita


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Sou suspeita pelo silêncio:
Há semanas calo minhas
Palavras para dentro do botão de uma rosa.

Falas boas falas bonitas falas de amor
Falas veras e comprovadas
Falas de criança falas de pássaro leves e reais
Falas solidárias falas de ânimo: ele há de
Desabrochar na realidade
Marcha morte música no ar.

Sou suspeita por um aroma estranho:
A rosa começa a respirar de minhas palavras.

Ulla Hahn

Verdächtig

Ich bin der Stille verdächtig:
Seit Wochen schweige ich meine
Wörther in die Knospe einer Rose

Cute Worte schöne Worte Liebesworte
Auf ihre Echtheit geprüfte Worte
Kinderworte Vogelworte leicht und whar
Mitworte Mutworte: sie muss
In der Wirklichkeit aufgehn
Marsch Mord Musik in der Luft

Ich bin eines fremden Geruchs verdächtig:
Die Rose beginnt aus meinen Wörtern zu atmen.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ulla Hahn, nascida em 1945, alemã de Brachthausen, hoje Kirchhundem, estudou Literatura Alemã, Sociologia e História na Universidade de Colônia, doutorou-se, é escritora e poeta; trabalhou como jornalista,  atuou como editora literária na Rádio Bremen, foi professora nas universidades de Bremem, Hamburgo e Oldenburg; foi membro temporário do Partido Comunista Alemão; decidiu viver como autora freelance; suas obras: Literatur in der Aktion. Zur Entwicklung operativer Literaturformen in der Bundesrepublik (dissertation, Athenaion-Literaturwissenschaft — Band 9, 1978), Herz uber Kopf (primeira coleção de poemas, 1981), Unerhörte Nähe (poemas, 1988), Liebesgedichte (1993), Das verborgene Wort, Aufbruch e Spiel der Zeit (trilogia de romances, 2001, 2009 e 2014), Gesammelte Gedichte (coleção de poemas, 2013) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra, entre as quais o Prêmio Alemão do Livro, Deutscher Bucherpreis, em 2002, pelo romance Das verborgene Wort.

domingo, 4 de agosto de 2024

Paul Celan: Elogio da distância


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores dos mares errantes.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre sua promessa.

Aqui lanço,
um coração que habitava entre os homens,
minhas vestes e o brilho dum voto:

Mais preto no preto, estou mais nu.
Apenas na renegação me torno fiel.
Eu sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
estou à deriva e sonho com rapto.

Um fio fisgou um fio:
separados num enlace.

Na fonte dos teus olhos

um enforcado estrangula a corda.

Paul Celan

Lob der Ferne

Im Quell deiner Augen
leben die Garne der Fischer der Irrsee.
Im Quell deiner Augen
hält das Meer sein Versprechen.

Hier werf ich,
ein Herz, das geweilt unter Menschen,
die Kleider von mir und den Glanz eines Schwures:

Schwärzer im Schwarz, bin ich nackter.
Abtrünnig erst bin ich treu.
Ich bin du, wenn ich ich bin.

Im Quell deiner Augen
treib ich und träume von Raub.

Ein Garn fing ein Garn ein:
wir scheiden umschlungen.

Im Quell deiner Augen
erwürgt ein Gehenkter den Strang.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França e, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas. Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (1952), Von Schwelle zu Schwelle (1955), Sprachgitter (1959), Die Niemandsrose (1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, teve origem no seu nome romeno: Ancel..

sábado, 15 de junho de 2024

Ingeborg Bachmann: Publicidade


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Mas, e para onde iremos
despreocupado fique despreocupado
quando anoitecer e quando esfriar
fique despreocupado
mas, e
com música
que deveremos fazer
animado e com música
e pensar
animado
diante de um fim
com música
e para onde levaremos
de preferência
as nossas dúvidas e o calafrio dos anos todos
para a lavanderia dos sonhos despreocupado fique despreocupado
mas, e o que acontecerá
de preferência
quando o silêncio mortal

irromper

Ingeborg Bachmann

Reklame

Wohin aber gehen wir
ohne sorge sei ohne sorge
wenn es dunkel und wenn es kalt wird
sei ohne sorge
aber
mit musik
was sollen wir tun
heiter und mit musik
und denken
heiter
angesichts eines Endes
mit musik
und wohin tragen wir
am besten
unsre Fragen und den Schauer aller Jahre
in die Traumwäscherei ohne sorge sei ohne sorge
was aber geschieht
am besten
wenn Totenstille

eintritt

1956
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ingeborg Bachmann (1926 1973), austríaca de Klagenfurt, estudou Filosofia e Direito nas universidades de Innsbruck, Graz e Viena, foi escritora, dramaturga e poeta; após se formar e doutorar-se trabalhou como roteirista e editora da rádio austríaca Rot-Weiss-Rot; a poeta lecionou nas universidades de Harvard (EUA) e Frankfurt (Alemanha); suas obras: Ein Geschaft mit Traumen (peça radiofônica, 1952), Die gestundete Zeit (coletânea de poesias, 1953), Die Zikaden (peça radiofônica, 1955), Todesarten/The Book of Franza & Requiem for Fanny Goldmann (romance inconcluso, 1955), Anrufung des großen bären (coletânea de poesias, 1956), Der güte Gott von Manhattan (peça radiofônica, 1959), Der Prinz von Homburg (libreto de ópera, 1960), Der junge Lord (libreto de ópera, 1965), Das dreißigste Jahr (contos, 1961), Malina (romance, 1971), Simultan/Three Paths to the Lake (contos, 1972), Ich weiß keine bessere Welt (poemas não publicados, 2000) ...; recebeu premiações por suas obras em poesia e peças para rádio; teve poemas musicados; Ingeborg Bachmann, que também fez uso do pseudônimo Ruth Keller, veio a morrer após sofrer graves queimaduras por incêndio em seu apartamento em Roma Itália.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Ulla Hahn: Não são os amantes

 
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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Não são os amantes que voam ao vento.
Cada qual um peso na perna do outro
refreiam aos pares
seu eu esvoaçante. Assim
crescem entre céu e terra
acabam perdendo o equilíbrio.
Cambaleiam. Caem
sobre os próprios pés em
campos e florestas invadem
um ao outro.
Procriando agarram-se
ao mundo.

Porém os solitários: inacessíveis
a todos os tipos de clorofórmio
estão suspensos no ar
enraizados no espaço rodopiam
em queda livre em torno de si
duplicando a si mesmos. Assim
lhes permanece leve a terra
o vento os leva
de suas paragens nunca e sempre
no destino.

Ulla Hahn

Nich die Liebenden

Nich die Liebenden fliegen im Wind.
Einer des anderen Klotz am Bein
beschweren sie paar
weise ihr luftiges Ich. So
wachsen sie zwischen Himmel und Erde
geraten sie aus dem Gleichgewicht.
Taumeln. Fallen
über die eigenen Füße in
Walder und Wiesen ein
über das andere her.
Krallen sich zeugend fest
an der Welt.

Aber die Einsamen: Unerreichbar allen
Sorten von Chloroform
hängen sie in der Luft
wurzeln im Raum wirbeln
im freien Fall um sich selbst
sich selbst verdoppenlnd. So
bleibt ihnen die Erde leicht
verweht sie der Wind
von ihrer Stätte nie und immer
am Ziel.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ulla Hahn, nascida em 1945, alemã de Brachthausen, hoje Kirchhundem, estudou Literatura Alemã, Sociologia e História na Universidade de Colônia, doutorou-se, é escritora e poeta; trabalhou como jornalista, atuou como editora literária na Rádio Bremen, foi professora nas universidades de Bremem, Hamburgo e Oldenburg; foi membro temporário do Partido Comunista Alemão; decidiu viver como autora freelance; suas obras: Literatur in der Aktion. Zur Entwicklung operativer Literaturformen in der Bundesrepublik (dissertation, Athenaion-Literaturwissenschaft  Band 9, 1978), Herz uber Kopf (primeira coleção de poemas, 1981), Unerhörte Nähe (poemas, 1988), Liebesgedichte (1993), Das verborgene Wort, Aufbruch e Spiel der Zeit (trilogia de romances, 2001, 2009 e 2014), Gesammelte Gedichte (coleção de poemas, 2013e outros títulos; recebeu premiações por sua obra, entre as quais o Prêmio Alemão do Livro, Deutscher Bucherpreis, em 2002, pelo romance Das verborgene Wort.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Volker Braun: Perguntas de um operário durante a revolução


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Tantos relatórios
Tão poucas perguntas.
Os jornais anunciam que estamos no poder.
Quantos de nós
Só porque nunca mandaram em nada
Continuam mantendo a boca escondida
Como se fosse genitália?
As rádios transmitem nossos rumos ao mundo.
Como, com as máquinas em andamento, nos resta
Uma escolha entre duas alavancas?
Nas praças, nossos nomes em postes.
Está cada um a postos
As novas resoluções
A outorgar? Alguns resolvem apenas
Ir às fábricas. Nos tronos está
Nossa gente: vocês nos perguntam
O suficiente? Por que
Não falamos sempre?

Volker Braun

Fragen eines Arbeiters während der Revolution

So viele Berichte.
So wenig Fragen.
Die Zeitungen melden unsere Macht.
Wie viele von uns
Nur weil sie nichts zu melden hatten
Halten noch immer den Mund versteckt
Wie ein Schamteil?
Die Sender funken der Welt unsern Kurs.
Wie, an den laufenden Maschinen, bleibt
Uns eine Wahl zwischen zwei Hebeln?
Auf den Plätzen stehn unsere Namen.
Steht jeder auf dem Platz
Die neuen Beschlüsse
Zu verfügen? Manche verfügen sich nur
In die Fabriken. Auf den Thronen sitzen
Unsre Leute: Fragt ihr uns
Oft genug? Warum
Reden wir nicht immer?
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Volker Braun, nascido em 1939, alemão de Dresden, trabalhou em gráfica, fábrica de gás, construção, estudou filosofia na Universidade de Leipzig, é poeta, dramaturgo e prosador contista e romancista, tendo residido no lado oriental do país durante todo o período de existência das duas Alemanhas no pós Segunda Guerra; o autor, perseguido por suas posições políticas mas reconhecido por seus trabalhos, recebeu distinções e premiações por sua arte poética; entre 1965 e 1967, trabalhou como dramaturgo no Berliner Ensemble, depois atuou no Deutsches Theater e, mais tarde, outra vez no Berliner Ensemble; obras publicadas: Provokation für mich (Provocação para mim, coletânea de poemas 19591964, 1965), Die Kipper (peça teatral escrita de 1962 a 1965, 1972), Das ungenzwungene Leben Kasts (A vida desenfreada de Kast, 1972), Gegen die symmetrische Welt (Contra o mundo simétrico, poema, 1974), Es genügt nicht die einfache Wahrheit (A simples verdade não é suficiente, 1975), Unvollendete Geschichte (História inacabada, romance, 1977) e outras publicações; vive em Berlim, onde deu início a sua carreira literária; premiações: Prêmio Lessing (1981), Prêmio Nacional da Alemanha Oriental (1986), Prêmio Bremer de Literatura (1986), Prêmio Memorial Schiller (1992) etc.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Volker Braun: A propriedade

 
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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Aqui ainda estou: meu país se vai ao ocidente.
GUERRA ÀS CHOUPANAS, PAZ AOS PALÁCIOS.
Eu mesmo lhe dei o pontapé contundente.
Ele se joga fora e seus parcos gracejos.
Ao inverno segue-se o verão dos desejos.
E eu posso ir plantar bananeira.
E todo meu texto se torna asneira.
Aquilo que nunca possuí me arrancam sem piedade.
Daquilo que nunca vivi sentirei sempre saudade.
A esperança estava no caminho, feito uma armadilha.
Minha propriedade, agora faz parte de vossa partilha.
Quando de novo direi meu para dizer compartilha.

Volker Braun

Das Eigentum

Da bin ich noch: mein Land geht in den Westen.
KRIEG DEN HÜTTEN FRIEDE DEN PALÄSTEN.
Ich selber habe ihm den Tritt versetzt.
Es wirft sich weg und seine magre Zierde.
Dem Winter folgt der Sommer der Begierde.
Und ich kann bleiben wo der Pfeffer wächst.
Und unverständlich wird mein ganzer Text
Was ich niemals besaß wird mir entrissen.
Was ich nicht lebte, werd ich ewig missen.
Die Hoffnung lag im Weg wie eine Falle.
Mein Eigentum, jetzt habt ihrs auf der Kralle.
Wann sag ich wieder mein und meine alle.
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Volker Braun, nascido em 1939, alemão de Dresden, trabalhou em gráfica, fábrica de gás, construção, estudou filosofia na Universidade de Leipzig, é poeta, dramaturgo e prosador contista e romancista, tendo residido no lado oriental do país durante todo o período de existência das duas Alemanhas no pós Segunda Guerra; o autor, perseguido por suas posições políticas mas reconhecido por seus trabalhos, recebeu distinções e premiações por sua arte poética; entre 1965 e 1967, trabalhou como dramaturgo no Berliner Ensemble, depois atuou no Deutsches Theater e, mais tarde, outra vez no Berliner Ensemble; obras publicadas: Provokation für mich (Provocação para mim, coletânea de poemas 19591964, 1965), Die Kipper (peça teatral escrita de 1962 a 1965, 1972), Das ungenzwungene Leben Kasts (A vida desenfreada de Kast, 1972), Gegen die symmetrische Welt (Contra o mundo simétrico, poema, 1974), Es genügt nicht die einfache Wahrheit (A simples verdade não é suficiente, 1975), Unvollendete Geschichte (História inacabada, romance, 1977) e outras publicações; vive em Berlim, onde deu início a sua carreira literária; premiações: Prêmio Lessing (1981), Prêmio Nacional da Alemanha Oriental (1986), Prêmio Bremer de Literatura (1986), Prêmio Memorial Schiller (1992) etc.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Bertolt Brecht: A solução


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Depois da rebelião do 17 de junho
O secretário da Associação dos Escritores
Mandou distribuir panfletos na Alameda Stalin
Onde se podia ler que o povo havia
Levianamente perdido a confiança do governo
E somente a reconquistaria
Mediante trabalho dobrado. Ora,
Não seria bem mais fácil
Se o governo dissolvesse o povo e
Elegesse um outro?

Bertolt Brecht

Die Lösung

Nach dem Aufstand des 17. Juni
Ließ der Sekretär des Schriftstellerverbands
In der Stalinallee Flugblätter verteilen
Auf denen zu lesen war, daß das Volk
Das Vertrauen der Regierung verscherzt habe
Und es nur durch verdoppelte Arbeit
Zurückerobern könne. Wäre es da
Nicht doch einfacher, die Regierung
Löste das Volk auf und
Wählte ein anderes?
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina em Munique, mas tendo sido convocado pelo exército na Primeira Guerra interrompeu o estudo e trabalhou como enfermeiro em hospital militar; com a ascensão de Hitler em 1933, deixou a Alemanha e exilou-se primeiro na Dinamarca e depois nos Estados Unidos e Suiça; de volta à Alemanha em 1948, fundou a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.