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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Seraphim França: Corvo

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Vede-o,  era um ponto negro a se perder no espaço!
Cresceu. Ficou maior e mais distinto, embora
Vague inda, lá, a tarjar o alvacento regaço
Das nuvens, que, em contraste, o seu negror descora.

Cresceu mais. Pouco a pouco aviva-se lhe o traço:
Asa côncava e torta, a cauda em leme... Agora
Que esplêndida espiral,  desliza sem cansaço!
Vem ali. Ei-lo aqui! Vai pousar sem demora...

Pousa. De um negro fusco e sujo,  que ave feia!
Grasna,  é lúgubre, lembra a asa negra do tédio.
Mas eis que a terra o enoja, e ele aflito se alteia.

Vibra as asas com ânsia, enrija os nervos de aço,
E vai-se, e voa mais, e está tão alto, vede-o:
Feliz! É um ponto negro a se perder no espaço!


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Sonetos Brasileiros — Séculos XVII ao XX, Coletânea organizada por Laudelino Freire, 1929, F. Briguiet & Cia. Editores, Rio de Janeiro — RJ; Seraphim França ou Serafim França (1888  1967), paranaense de Curitiba, formado em Direito pela Escola Livre do Rio de Janeiro, foi advogado, promotor público, jornalista, escritor, poeta e dramaturgo; como jornalista, escreveu para a revista Olho da Rua e colaborou com vários periódicos e revistas literárias curitibanas; bibliografia: Colcha de Retalhos e A Crise (peças teatrais), Álbum de um Moço (poesia, 1907), Canção da Terra dos Pinheirais (poesia, 1912), Barra Velha (contos, premiado pela Academia Brasileira de Letras, 1938), Senhorita Mistério (novela), Fábulas, Rindo e Filosofando (fábulas), Ressurreição (poesia), Arca de Noé (fábulas), Torre Verde (poesia), Roda-Viva (fábulas), Na trilha do Sol (poesia) etc; viveu em Curitiba.