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quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Ascenso Ferreira: A cavalhada

 
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Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…

                 Roxas,
                        verdes,
                                brancas,
                                        azuis,

Alegria nervosa de bandeirinhas trêmulas!
Bandeirinhas de papel bulindo no vento!…
Foguetes do ar…

"De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai começar!"

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…

                 Roxas,
                        verdes,
                                brancas,
                                        azuis…

Lá vem Papa-Légua em toda carreira
e vem com os arreios luzindo no sol!
Danou-se! Vai tirar a argolinha!
Pra quem será?

Lá vem Pé-de-Vento!
Lá vem Tira-Teima!
Lá vem Fura-Mundo!
Lá vem Sarará!

Passou lambendo!
Se tivesse cabelo tirava!…
Andou beirando!…
Tirou!!!

Música, seu mestre!

Foguetes, moleque!
Palmas, negrada!
Tiraram a argolinha!
Foi Sarará!

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…

                 Roxas,
                        verdes,
                                brancas,
                                        azuis…

Viva a cavalhada!
Vivoôôô!!!
“De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai terminar!”


* Nota da edição — Vocabulário:
Cavalhada — Desfile a cavalo, corrida de cavaleiros, jogo de canas, jogo de argolinhas ou de manilha (**). O autor assistiu em Bebedouro, arredores de Maceió, Alagoas, janeiro de 1952, a uma cavalhada. “Os cavaleiros, sempre em número par, vestem branco, e os prêmios simbólicos são faixas de fazendas vistosas, na maioria azuis e encarnadas, cores que dividem as duas alas. Cada ala tem o seu maquinador, reminiscência do “mantenedor” clássico. O maquinador da direita é do cordão encarnado, e denomina-se Roldão obrigatoriamente, e o da esquerda, do azul, Oliveiros. Depois da corrida de argolinhas, os cavaleiros em ordem foram render graças diante da Capela, etc.”.
(**) Do “Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895 1965), pernambucano de Palmares, Zona da Mata, foi funcionário público, poeta, letrista-compositor, declamador e cantador dos próprios versos; em 1911, publicou seu primeiro poema ‘Flor fenecida’ no jornal A Notícia, de Palmares e, depois, colaborou com o Diário de Pernambuco e outros jornais; participou do Movimento Modernista de Pernambuco; suas obras: Catimbó (1927), Cana Caiana (1939), Xenhenhém (1951), Poemas 1922 — 1951 (1951), O Maracatu (publicação póstuma, 1986) ...; como letrista, teve poemas musicados por Heitor Villa Lobos (O Trem de Alagoas), Alceu Valença (Vou danado pra Catende, refrão de ‘O trem de Alagoas’), Hekel Tavares (Chove chuva!), Capiba (Onde o sol descamba) e outros compositores.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Ascenso Ferreira: Folha verde

 
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Folha verde meninice,
deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...

Cavalos correndo,
engenhos moendo,
Japarandubas, Trombetas, Pirangi...
Banhos no rio!
Lavandeiras!
Jangadas de bananeiras!
Pescarias de ovo e de jequi*...

Folha verde! Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...

Os sinos sonoros que falam do céu!
A feira, o mercado, bananas, cajus!
Imbaúbas macias como veludo,
ingás, mais macios do que veludo!

Babá-do-Arroz-Doce, Sá-Biu-dos-Cuscus,
“o home dos caranguejo e dos siri!”

Folha verde! Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...

Lua cheia! Lua-por-do-sol”
desfazendo-se em luar...

Manja Real!
Saltar e pegar!
Boca de forno!
Forno!
Pai do Poço!
Olha a cobra que te morde!
Sai do caminho deixa eu passar!
Vamos brincar de esconder!
Pronto, já me escondi...

Folha verde! Deliciosa meninice das gentes da minha terra,
que eu tanto amei e senti...


* Nota da edição — Vocabulário: Jequi — Cesto para pesca, muito oblongo e afunilado.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895 1965), pernambucano de Palmares, Zona da Mata, foi funcionário público, poeta, letrista-compositor, declamador e cantador dos próprios versos; em 1911, publicou seu primeiro poema ‘Flor fenecida’ no jornal A Notícia, de Palmares e, depois, colaborou com o Diário de Pernambuco e outros jornais; participou do Movimento Modernista de Pernambuco; suas obras: Catimbó (1927), Cana Caiana (1939), Xenhenhém (1951), Poemas 1922 — 1951 (1951), O Maracatu (publicação póstuma, 1986) ...; como letrista, teve poemas musicados por Heitor Villa Lobos (O Trem de Alagoas), Alceu Valença (Vou danado pra Catende, refrão de ‘O trem de Alagoas’), Hekel Tavares (Chove chuva!), Capiba (Onde o sol descamba) e outros compositores.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Ascenso Ferreira: A pega do boi

 
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A rês tresmalhada
ouviu na quebrada,
soar a toada,
de alguém que aboiou:

Hô-hô-hô-hô-hô!
Váa!
Meu boi surubim...
Boi!
Boiato!

É logo espantada
sentindo a laçada
no mato embocou...

Atrás, o vaqueiro
montando veleiro
também mergulhou...

Os cascos nas pedras
davam cada risco
que nem o corisco
de noite no céu...

Saltaram valados,
subiram oiteiros,
pisaram faixeiros
e mandacarus...

Até que enfim...
No Jatobá
do Catolé,
bem junto a um pé
de oiticoró,
já do Exu
na direção...

O rabo da bicha reteve na mão!
(Poeiriço danado e dois vultos no chão)

Mas, baixa a poeira,
a rês mandingueira
por terra ficou...

E um grito de glória no espaço vibrou:

Hô-hô-hô-hô-hô!
Váá!
Meu boi surubim...
Boi!
Boiato!

Cana caiana (1939).

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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895 1965), pernambucano de Palmares, Zona da Mata, foi poeta, letrista-compositor e funcionário público; em 1911, publicou seu primeiro poema ‘Flor fenecida’ no jornal A Notícia, de Palmares e, depois, passa a colaborar com o Diário de Pernambuco e outros jornais; participou do Movimento Modernista de Pernambuco; obras: Catimbó (1927), Cana Caiana (1939), Poemas 1922 — 1951 (1951), O Maracatu (publicação póstuma, 1986), e outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Heitor Villa Lobos (O Trem de Alagoas) Alceu Valença (Vou danado pra Catende, refrão de ‘O trem de Alagoas’), Hekel Tavares (Chove chuva!), Capiba (Onde o sol descamba) e outros.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Ascenso Ferreira: Xenhenhém nº 2

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Em meio às minhas muitas dores
talvez maiores do que o mundo,
surges, às vezes, um segundo,
cheia de pérfidos langores.

Chegas sutil e sem rumores…
E até sinto o odor profundo
no qual eu sôfrego me inundo
 pária do amor, sonhando amores.

Depois, tu falas não sei donde…
És como um eco que responde
mas, sempre e sempre, além… além…

Súbito, encontro a casa oca.
Não estás! — Meu Deus, que coisa louca,
só é na vida um xenhenhém!

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Os Sonetos (Antologia — Diversos autores), Coordenação Gráfica de Rogério Ramos e Capa e Ilustrações de Percy Deane, 1982, Edição especial para o Banco Lar Brasileiro S.A., LR Editores Ltda, São Paulo  SP; Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895 1965), pernambucano de Palmares, Zona da Mata, foi poeta, letrista-compositor e funcionário público; em 1911, publicou seu primeiro poema ‘Flor fenecida’ no jornal A Notícia, de Palmares e, depois, passa a colaborar com o Diário de Pernambuco, Revista do Norte e outros jornais; participou do Movimento Modernista de Pernambuco; sua bibliografia: Catimbó (1927), Cana Caiana (1939), Poemas 1922 1951 (1951), Xenhenhém (1951), O Maracatu (publicação póstuma, 1986), e outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Heitor Villa-Lobos (O Trem de Alagoas), Alceu Valença (Vou danado pra Catende, refrão de ‘O trem de Alagoas'), Hekel Tavares (Chove chuva!), Capiba (Onde o sol descamba) e outros.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ascenso Ferreira: Gaúcho

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Riscando os cavalos!
Tinindo as esporas!
Través das coxilhas!
Saí de meus pagos em louca arrancada!

 Para quê?
 Para nada.

Xenhenhém  1951

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Roteiro da Poesia Brasileira — Modernismo, Seleção e Prefácio de Walnice Nogueira Galvão, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895 — 1965), pernambucano de Palmares, Zona da Mata, foi poeta, letrista-compositor e funcionário público; em 1911, publicou seu primeiro poema ‘Flor fenecida’ no jornal A Notícia, de Palmares e, depois, passa a colaborar com o Diário de Pernambuco, Revista do Norte e outros jornais; participou do Movimento Modernista de Pernambuco; sua bibliografia: Catimbó (1927), Cana Caiana (1939), Poemas 1922 1951 (1951), Xenhenhém (1951), O Maracatu (publicação póstuma, 1986), e outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Heitor Villa-Lobos (O Trem de Alagoas) Alceu Valença (Vou danado pra Catende, refrão de ‘O trem de Alagoas')), Hekel Tavares (Chove chuva!), Capiba (Onde o sol descamba) e outros.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Ascenso Ferreira: Filosofia (1939)

(A José Pereira de Araújo  "Doutorzinho de Escada")


Hora de comer  comer!
            Hora de dormir  dormir!
Hora de vadiar  vadiar!

Hora de trabalhar?
 Pernas pro ar que ninguém é de ferro!
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Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século Seleção e Organização de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001 (In Catimbó e Outros Poemas Ascenso Ferreira, 1963, José Olympio, Rio).