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sábado, 19 de março de 2022

Petrarca: Triunfo da castidade [trecho]

 
____________________
[traduzido por Camões]

Quando em um tempo e num só jogo assi[m]
dos deuses o grão poder vi domado,
e dos homens tão famosos que ali vi,

tomei exemplo de seu cruel estado
e receba proveito de alheio mal
em do próprio meu ser consolado;

que, pois vejo de uma seta e dum sinal
tocado Febo1 e o mancebo de Abido2,
um chamado deus, o outro puro mortal,

e num só laço presa Juno3 e Dido4,
que piedoso amor lhe deu a morte,
não de Enéias, como em comum é havido,

não me devo queixar de minha sorte,
mancebo incauto, desarmado e só.
Se minha imiga contra Amor é forte,

dele mais que de mim é para haver dó,
que tão desfeito o vi de seu valor,
que se não podia alçar nem ir a vó5.

Não se dão de peitos com tanto furor
dois feros leões, ou raios ardendo
que no ar, terra e mar fazem terror.

como vi Amor com seu fero argumento
contra aquela dama cujo servo som6,
e ela mais lesta que chama o vento.

Não é tão temeroso o horrendo som
de Etna combatido do grão gigante7,
nem de Cila e Caribdis8 seu grande tom,

que mais não fosse ver naquele instante
um tão cruel e duvidoso assalto,
que só para o dizer não sou bastante.

Cada um por si se levantava em alto
a ver tão nova empresa, cujo terror
corações e olhos fazia d’esmalto.

Primeiro vem à ofensa o vencedor
com seu arco na mão, mui desenvolto,
escolhendo de mil setas a milhor.

Não corre com tanto ímpeto ao porto
de fugitiva cerva o leopardo
livre na selva ou da cadeia solto,

que vagaroso não fique e covardo
em respeito da fúria que trazia
o atrevido Amor no fero esguardo9.

Desejo e piedade me combatia,
com aquela contenção me ara mui grata,
mas não ver que Amor assi[m] a vencia.

[ . . . ]

Francesco Petrarca

Triunfo della pudicizia (Triumphus Pudicitie)

[trecho]

Quando ad un giogo ed in un tempo quivi
domita l' alterezza degli déi
e degli uomini vidi al mondo divi,

i' presi esempio de' lor stati rei
facendo mio profitto l' altrui male
in consolar i casi e i dolor mei;

ché s' io veggio d'un arco e d'uno strale
Febo percosso e 'l giovene d'Abido,
l'un detto deo, l'altro uom puro mortale,

e veggio ad un lacciuol Giunone e Dido,
ch'amor pio del suo sposo a morte spinse,
non quel d'Enea, com'è 'l publico grido,

non mi debb'io doler s'altri mi vinse
giovene, incauto, disarmato e solo.
E se la mia nemica Amor non strinse,

non è ancor giusta assai cagion di duolo,
che in abito il rividi ch’io ne piansi,
sì tolte gli eran l'ali e 'l gire a volo.

Non con altro romor di petto dansi
duo leon feri, o duo folgori ardenti
che cielo e terra e mar dar loco fansi,

ch'i' vidi Amor con tutti suo' argomenti
mover contra colei di ch'io ragiono,
e lei presta assai più che fiamme o venti.

Non fan sì grande e sì terribil sòno
Etna qualor da Encelado è più scossa,
Scilla e Caribdi quando irate sono,

che via maggiore in su la prima mossa
non fosse del dubbioso e grave assalto,
ch'i' non cre' che ridir sappia né possa.

Ciascun per sé si ritraeva in alto
per veder meglio, e l'orror de l'impresa
i cori e gli occhi avea fatti di smalto.

Quel vincitor che primo era a l'offesa,
da man dritta lo stral, da l'altra l'arco
e la corda all'orecchia avea già stesa.

Non corse mai sì levemente al varco
d'una fugace cerva un leopardo
libero in selva o di catene scarco,

che non fosse stato ivi lento e tardo,
tanto Amor pronto venne a lei ferire
ch'al volto à le faville ond'io tutt'ardo.

Combattea in me co la pietà il desire,
ché dolce m'era sì fatta compagna,
duro a vederla in tal modo perire.

[ . . . ]

Notas da edição:
1. Febo: Apolo, primitivamente, para os gregos, o deus do sol.
2. o mancebo de Abido: Leandro (T. amor”, III, v. 21).
3. Juno: (“T. amor”, I, v.154).
4. Dido: rainha de Cartago, que se matou após ter sido abandonada por Enéias.
5. vó: vôo, com a vogal aberta para rimar com só do verso 14 e dó do verso 16.
6. som: sou, mantido por motivo de rima.
7. grão gigante: Encélado, um dos gigantes que queriam escalar o Olimpo, foi sepultado por Júpiter sob o Etna; o seu hálito inflamado e o seu agitar-se eram as causas do fogo e das convulsões do vulcão.
8. Cila e Caribdis: trata-se da eriçada passagem do estreito de Messina. Caribdis, por ter roubado os bois de Hércules, foi metamorfoseado em abismo por Júpiter, formando uma das pontas do estreito. Cila era uma bela ninfa que foi transformada em monstro por Circe; habitava o lado oposto de Carbidis no estreito de Messina e devorava os navegantes que passavam por ali.
9. esguardo: italianismo, sguardo, o olhar de Amor.
____________________
Petrarca: Triunfos — edição bilíngue italiano-português, Introdução de Pedro Heise e Tradução de Camões, 2006, Editora Hedra, São Paulo — SP; Francesco Petrarca (1304 — 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' — poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' — diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' — série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' — elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum — coleção de doze poemas pastorais, Africa — épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Petrarca: Triunfo da morte [trecho]

____________________
trecho do primeiro capítulo

[traduzido por Camões]

Aquela bela dama1 e gloriosa,
que hoje é nu [e]spírito e pouca terra,
e foi alta coluna e valorosa,

tornava com grande honra de sua guerra,
deixando já vencido o grande imigo
que com seu doce fogo o mundo aterra,

não com mais armas que respeito altivo,
honestidade em rosto e pensamento,
coração casto e de virtude amigo.

Grande espanto era ver tal vencimento,
as armas d'Amor rotas e desfeitas,
e os vencidos dele em mor tormento.

A bela dama e as outras eleitas
se vinham gloriando da vitória,
em bela esquadra juntas e restreitas.

Poucas eram, que rara é vera glória,
mas di[g]nas, da primeira à derradeira,
de claríssimo poema e de história.

Traziam, por insígnia, na bandeira
em campo verde um branco armelino
d'ouro fino, e topazes a coleira.

Não humano, certamente, mas divino
era o seu doce andar, e o que diziam:
ditosa é a que na[s]ce a tal destino!

Estrelas e sol em meio pareciam,
em cujo resplendor o seu consiste;
de rosas coroadas todas iam.

Como nobre coração que honra aquiste,
cada uma em sua virtude se alegra,
quando outra insígnia vi, escura e triste;

e uma fera dona em veste negra,
com tal furor qual eu não sei se atrás,
no tempo dos gigantes, fosse em Flegra2,

chamou e disse: “Donzela, tu que vás
de beleza e virtude alterada,
de tua vida o termo não saberás?

Eu sou a ‘importuna’, a ‘celerada’
chamada de vós, gente surda e cega
a quem a morte vem antecipada.

Eu sou a que matei a gente grega
e troiana, e no último os romãos,
que todos minha fouce corta e sega.

Não deixo povos gentios nem cristãos,
chego quando por mim menos se espera,
atalho mil pensamentos, todos vãos.

[ . . . ]

Francesco Petrarca

Trionfo della morte [Triumphus Mortis]

[trecho do] Capitolo Primo

Quella leggiadra e gloriosa donna
ch'è oggi ignudo spirto e poca terra
e fu già di valor alta colonna,

tornava con onor da la sua guerra,
allegra, avendo vinto il gran nemico,
che con suo' ingegni tutto 'l mondo atterra,

non con altr'arme che col cor pudico
e d'un bel viso e de' pensieri schivi,
d'un parlar saggio e d'onestate amico.

Era miracol novo a veder ivi
rotte l'arme d'Amore, arco e saette,
e tal morti da lui, tal presi e vivi.

La bella donna e le compagne elette
tornando da la nobile vittoria
in un bel drappelletto ivan ristrette;

poche eran, perché rara è vera gloria,
ma ciascuna per sé parea ben degna
di poema chiarissimo e d'istoria;

era la lor vittoriosa insegna
in campo verde un candido ermellino,
ch'oro fino e topazi al collo tegna;

non uman veramente, ma divino
lor andar era, e lor sante parole:
beato s'è qual nasce a tal destino!

Stelle chiare pareano, in mezzo un sole
che tutte ornava e non togliea lor vista,
di rose incoronate e di viole.

E come gentil cor onore acquista,
così venìa quella brigata allegra,
quando vidi un'insegna oscura e trista;

ed una donna involta in veste negra,
con un furor qual io non so se mai
al tempo de' giganti fusse a Flegra,

si mosse e disse: “O tu, donna, che vai
di gioventute e di bellezze altera,
e di tua vita il termine non sai,

io son colei che sì importuna e fera
chiamata son da voi, e sorda e cieca
gente, a cui si fa notte innanzi sera;

io ò condotto al fin la gente greca
e la troiana, a l'ultimo i Romani,
con la mia spada la qual punge e seca,

e popoli altri barbareschi e strani;
e giugnendo quand'altri non m'aspetta
ò interrotti infiniti penser vani.

[ . . . ]

Notas da edição:
1. aquela bela dama: Laura, amada de Petrarca.
2. Flegra: vale na Tessália em que Júpiter enterrou alguns dos gigantes que tentavam escalar o Olimpo.
____________________
Petrarca: Triunfos — edição bilíngue italiano-português, Introdução de Pedro Heise e Tradução de Camões, 2006, Editora Hedra, São Paulo — SP; Francesco Petrarca (1304 — 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' — poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' — diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' — série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' — elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum — coleção de doze poemas pastorais, Africa — épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

domingo, 26 de setembro de 2021

Petrarca: Triunfo da fama [trecho]

 
____________________
trecho do primeiro capítulo

[traduzido por Camões]

Depois que a Morte do vulto triunfou
que triunfar de mim sempre soía,
e deste nosso mundo o sol levou,

soberba se partiu, cruel, impia,
turbada em rostro, fera e temida,
que o lume da beldade morto havia;

quando leda, em uma relva florida,
vi doutra parte aparecer aquela
que os mortos do sepulcro torna à vida.

Qual na madrugada a amorosa estrela1
se vê no Oriente ao sol diante,
que alegre s’acompanha só com ela,

tal vinha, mas não sei qual elegante
estilo se atreverá a pôr em rima
o que segue o meu, rudo e ignorante.

Tão claro era o céu naquele clima
que, quanto em mim o desejo era maior,
menos podia sofrer a vista em cima;

esculpido era na fronte o valor
da nobre companhia, onde conheci
muitos daqueles vencidos do Amor.

Da mão direita da bela dona vi
César e Cipião vitorioso;
mas qual mais perto, a grã pena o compreendi:

um, não servo d’Amor, mas virtuoso,
o outro d’ambos; e foi me mostrada,
logo após o princípio glorioso,

gente de ferro e de valor armada,
como ao Capitólio no tempo antigo
pela Via Lata ou pela Sagrada2.

Todos vinham naquela ordem que digo;
na fronte a cada um claro se lia
o nome e a glória de que foi amigo.

Atento estava ao rumor que ouvia
e ao grave vulto do primeiro par3:
a um o neto4, a outro o filho5 seguia,

que no mundo foi um só sem nenhum par;
e logo os que a seus imigos armados
com seus membros a passo foram cerrar.

De três filhos6 dois pais7 acmpanhados:
os dois iam detrás8 e o um diante9;
o último10 é o primeiro entre os louvados.

Depois, como piropo relumbrante,
aquele, cujo conselho e forte mão
Itália na mor pressa achou diante:

eu digo Cláudio11, que, noturno e chão,
foi a Metauro e quis logo ali purgar
da má semente o bom campo romão.

Olhos houve a ver e asas a voar;
um grande velho12  junto o segundava,
que Aníbal, suspenso, fazia parar.

[ . . . ]

Francesco Petrarca

Trionfo della fama [Triumphus Fame]

[trecho do] Capitolo Primo

Da poi che Morte trionfò nel volto
che di me stesso trionfar solea,
e fu del nostro mondo il suo sol tolto,

partissi quella dispietata e rea,
pallida in vista, orribile e superba,
che 'l lume di beltate spento avea;

quando, mirando intorno su per l'erba,
vidi da l'altra parte giugner quella
che trae l'uom del sepolcro e 'n vita il serba.

Quale in sul giorno un'amorosa stella
suol venir d'oriente innanzi al sole
che s'accompagna volentier con ella,

cotal venìa, ed oh! di quali scole
verrà 'l maestro che descriva a pieno
quel ch'io vo' dir in semplici parole?

Era d'intorno il ciel tanto sereno
che per tutto 'l desir ch'ardea nel core
l'occhio mio non potea non venir meno;

scolpito per le fronti era il valore
de l'onorata gente, dov'io scorsi
molti di quei che legar vidi Amore.

Da man destra, ove gli occhi in prima porsi,
la bella donna avea Cesare e Scipio,
ma qual più presso a gran pena m'accorsi:

l'un di vertute, e non d'Amor mancipio,
l'altro d'entrambi; e poi mi fu mostrata
dopo sì glorioso e bel principio

gente di ferro e di valore armata,
siccome in Campidoglio al tempo antico
talora o per Via Sacra o per Via Lata.

Venian tutti in quell'ordine ch'i' dico,
e leggeasi a ciascuno intorno al ciglio
il nome al mondo più di gloria amico.

Io era intento al nobile pispiglio,
ai volti, agli atti; ed ecco i primi due:
l'un seguiva il nipote e l'altro il figlio,

che sol senza alcun pari al mondo fue;
e quei che volser a' nemici armati
chiuder il passo colle membra sue,

duo padri, da tre figli accompagnati,
l'un giva inanzi e due venian dopo,
e l'ultimo era il primo fra' laudati.

Poi fiammeggiava a guisa d'un piropo
colui che col consiglio e co la mano
a tutta Italia giunse al maggior uopo:

di Claudio dico, che notturno e piano,
come il Metauro vide, a purgar venne
di ria semenza il buon campo romano;

egli ebbe occhi a vedere, a volar penne;
ed un gran vecchio il secondava appresso,
che con arte Anibàle a bada tenne.

[ . . . ]

Notas da edição:
1. amorosa estrela: planeta Vênus.
2. Via Lata ou pela Sagrada: as duas principais ruas por onde passavam os cortejos triunfais para chegar ao Capitólio.
3. primeiro par: Júlio César e Cipião, o Africano, (“T. amor”, I, v. 89).
4. o neto: Públio Cornélio Cipião (século II a.C.), conhecido como o Cipião Menor em relação ao avô, Cipião Africano.
5. o filho: Júlio César Otávio Augusto (63 a.C. — 14 d.C.), sobrinho de Júlio César, mas adotado pelo tio (“T. amor”, I, v. 95).
6. de três filhos: os irmãos Públio Cornélio Cipião Africano (235 — 183 a.C.), Lúcio Cornélio Cipião Asiático (séculos III — II a.C.) filho de Gneu.
7. dois pais: Públio Cornélio Cipião (século III a.C.) e Gneu Cornélio Cipião (século III a.C.), também irmãos.
8. dois iam detrás: os dois menos importantes, Cipião Asiático e Cipião Nasica.
9. um diante: Cipião Africano.
10. o último: Cipião Nasica, o mais louvado entre todos por sua doutrina e seus costumes.
11. Cláudio: Caio Cláudio Nero, (séculos III — II a.C.), o cônsul que, de noite, sorrateiramente, derrotou o exército cartaginês no rio Metauro (Itália meridional).
12. um grande velho: Quinto Fábio Máximo (275 — 203 a.C.), mais conhecido como o contemporizador, pois adotou tal tática para derrotar o general cartaginês Aníbal.
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Petrarca: Triunfos — edição bilíngue italiano-português, Introdução de Pedro Heise e Tradução de Camões, 2006, Editora Hedra, São Paulo — SP; Francesco Petrarca (1304 — 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' — poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' — diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' — série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' — elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum — coleção de doze poemas pastorais, Africa — épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Petrarca: Triunfo do amor [trecho]

____________________
trecho do primeiro capítulo

[traduzido por Camões]

No tempo que meus suspiros acende
a doce memória daquele dia
de que meu longo mal todo depende,

o sol um e outro corno acendia
de Tauro1, e a bela moça de Titão2
tornava o seu lugar, leda e fria.

O amor, tristeza, choro e a sazão
me tinham posto no cerrado canto
onde repousa o cansado coração.

Assi[m], entre a erva, encostado no manto,
vencido de sono, vi grão resplandor
e, dentro, breve riso e largo pranto;

e vi um vitorioso imperador3
como um dos que levavam a grã glória
triunfando ao Capitólio4 vencedor.

E eu, que não costumo ver vitória
em nosso tempo de virtude avaro,
indi[g]no de triunfo e de memória,

ao hábito maravilhoso e raro
levei com alvoroço a vista em breve,
que se o aprender me foi mui caro:

quatro cavalos mais alvos que neve,
num carro de fogo, e em cima um moço cru
com seu arco na mão ligeiro e leve,

cujos tiros não perdoam a nenhum;
nos seus ombros asas resplandescentes
de mil cores, e o mais é tido nu.

Derredor dele inumeráveis gentes,
uns mortos e outros presos, vi trazer,
outros feridos de tiros pungentes.

Desejoso d’ouvir noivas e saber
do caso estranho, me fiz daqueles um,
que amor aparta ante tempo de viver.

Pus-me ali a olhar se conhecia algum
daquela miserável companhia
do cruel rei de choro sempre jejum,

e  nenhum conheci; que s’algum havia
de minha notícia, era mudado
por morte, dor ou falta e alegria.

Um vulto me chamou5, milhor tratado,
e disse “Aqui a verdade não se esconde:
este é o galardão do vão cuidado!”

E eu, maravilhado, disse “Donde
me conheces tu, qu’eu não te conheço?”
E ele suspirando me responde:

“Por causa desta pena que padeço
e por este ar escuro; que amigo
teu sou muito, e natural de Arezzo”.

[ . . . ]

Petrarca

Trionfo d'amore (Triumphus Cupidinis)

[trecho do] Capitolo Primo

Al tempo che rinnova i miei sospiri
per la dolce memoria di quel giorno
che fu principio a sì lunghi martiri,

già il sole al Toro l’uno e l’altro corno
scaldava, e la fanciulla di Titone
correa gelata al suo usato soggiorno.

Amor, gli sdegni, e ’l pianto, e la stagione
ricondotto m’aveano al chiuso loco
ov’ogni fascio il cor lasso ripone.

Ivi fra l’erbe, già del pianger fioco,
vinto dal sonno, vidi una gran luce,
e dentro, assai dolor con breve gioco.

Vidi un vittorioso e sommo duce
pur com’un di color che ’n Campidoglio
triunfal carro a gran gloria conduce.

I’ che gioir di tal vista non soglio
per lo secol noioso in ch’i’ mi trovo,
voto d’ogni valor, pien d’ogni orgoglio,

l’abito in vista sì leggiadro e novo
mirai, alzando gli occhi gravi e stanchi,
ch’altro diletto che ’mparar non provo:

quattro destrier vie più che neve bianchi;
sovr’un carro di foco un garzon crudo
con arco in man e con saette a’ fianchi;

nulla temea, però non maglia o scudo,
ma sugli omeri avea sol due grand’ali
di color mille, tutto l’altro ignudo;

d’intorno innumerabili mortali,
parte presi in battaglia e parte occisi,
parte feriti di pungenti strali.

Vago d’udir novelle, oltra mi misi
tanto ch’io fui in esser di quegli uno
che per sua man di vita eran divisi.

Allor mi strinsi a rimirar s’alcuno
riconoscessi ne la folta schiera
del re sempre di lagrime digiuno.

Nessun vi riconobbi; e s’alcun v’era
di mia notizia, avea cangiata vista
per morte o per prigion crudele e fera.

Un’ombra alquanto men che l’altre trista
mi venne incontra e mi chiamò per nome,
dicendo: “Or questo per amar s’acquista!”

Ond’io meravigliando dissi: “Or come
conosci me, ch’io te non riconosca?”
Ed ei: “Questo m’aven per l’aspre some

de’ legami ch’io porto, e l’aer fosca
contende agli occhi tuoi; ma vero amico
ti son e teco nacqui in terra tosca”.

[ . . . ]

Notas da edição:
1. Tauro: o sol prestes a entrar na constelação de Touro.
2. a bela moça de Titão: a Aurora, esposa jovem do velho Titão.
3. um vitorioso imperador: Eros, deus grego do amor.
4. Capitólio: a principal das sete colinas de Roma, o santuário mais importante da cidade.
5. um vulto me chamou: não se sabe exatamente quem seja o guia de Petrarca, mas a crítica costuma atribuir tal papel a Giovanni Sighinolfi, chanceler dos Gonzaga, senhores de Mântua.
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Petrarca: Triunfos — edição bilíngue italiano-português, Introdução de Pedro Heise e Tradução de Camões, 2006, Editora Hedra, São Paulo — SP; Francesco Petrarca (1304 — 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' — poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' — diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' — série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' — elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum — coleção de doze poemas pastorais, Africa — épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.