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domingo, 13 de setembro de 2026

Maria Lúcia Dal Farra: Soneto perverso & Soneto infeliz

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Soneto perverso

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que de amar-te estou disposta em dano;
das minhas mãos não ouso levantar
nem gesto urbano que a teu rosto dar.

De me tragar na fúria do teu gozo
ainda o meu corpo a se pender no poço
dos olhos teus (refúgio aterrador)
que põe gelado o desmedido ardor.

Estou vencida mas quisera, entanto,
nos braços teus abrir-me em furor
como um tapete, echarpe, tátil manto

que, de veludo e espinho (em mista dor),
te molestasse, te feriste tanto
— só pra em seguida mitigar-te, amor.

Soneto infeliz

Por onde amar conduz-me à sua gruta
sequer me estende em bem a leve esteira
a me salvar (incauta) da fundura
que entre vida e morte faz fronteira.

Que pese sobre mim grossa madeira
é desamparo que a meu corpo avulta
e (afinal) o dano — a sua multa
por acercar-se tanto dessa beira.

Com turvo afeto, obscuro e mais carente,
da maçã tenho o lado que mereço —
não mordo nada além que a semente.

Entanto, grito ao mundo o que careço
e o brado soa solto — até demente!
Mas por inútil do que diz, padeço.

(da série: cinco sonetos para Mariana Alcoforado)

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Alumbramentos — poesia: Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação [texto/orelha do livro] de Inês Pedrosa­, 1ª edição, 2012, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, estudou piano e educação musical na Faculdade de Música Santa Marcelina em sua terra natal, graduou-se em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, pós-doutorado pela École Pratique des Hautes Études de Paris e Universidade de Lisboa, é escritora, poeta, ensaísta, pesquisadora e também professora universitária, hoje aposentada; lecionou na USP, na UNICAMP, na Universidade da Califórnia, em Berkeley — EUA, e na Universidade Federal de Sergipe; foi pesquisadora do CNPq; suas obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, Trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Florbela Espanca, Afinado desconcerto (2002), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Correspondência amorosa de Florbela Espanca: 1920-1925 (2008, ) Alumbramentos (laureado com o Prêmio Jabuti, poesia, 2012), Terceto para o fim dos tempos (poesia, 2017) e outros títulos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Maria Lúcia Dal Farra: Loucura

 
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A órbita da loucura é imensa.

Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes com rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.

Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.

É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces

— inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.

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Alumbramentos — poesia: Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação [texto/orelha do livro] de Inês Pedrosa­, 1ª edição, 2012, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, estudou piano e educação musical na Faculdade de Música Santa Marcelina em sua terra natal, graduou-se em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, pós-doutorado pela École Pratique des Hautes Études de Paris e Universidade de Lisboa, é escritora, poeta, ensaísta, pesquisadora e também professora universitária, hoje aposentada; lecionou na USP, na UNICAMP, na Universidade da Califórnia, em Berkeley — EUA, e na Universidade Federal de Sergipe; foi pesquisadora do CNPq; suas obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, Trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Florbela Espanca, Afinado desconcerto (2002), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Correspondência amorosa de Florbela Espanca 1920-1925 (2008, ) Alumbramentos (laureado com o Prêmio Jabuti, poesia, 2012), Terceto para o fim dos tempos (poesia, 2017) e outros títulos.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Maria Lúcia Dal Farra: Penteando uma cabeça grega

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Ao Rubens Rodrigues Torres Filho

A atenção do rosto grego
está toda nos cabelos —
a porção mais inquieta do mármore.
Daí que a ausência do urgente instrumento
para subjugá-los
embarace o enigma mais à mão:
o pente
(fuso das parcas)
tece ou doma os fios?

Indiferente à pergunta,
a peruca
(coroa de fina trança e franja)
desce distraída pelos cantos da nuca
como rios que
(de repente)
se encapelassem na barba —
barca que traz impressa na carcaça
as ondas do mar Egeu.

À tona
o golfo fundo dos olhos ocos
mostra cavidade bastante para desvendar
o curso dos anos e oceanos.
Mas ainda assim
(patética)

a máscara boia entre tragédia e riso
e o ricto da boca
(imperceptível)
se afunda ornado de medusas —
que asseguram em coro:

devora-me ou decifro-te!

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Alumbramentos — poesia: Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação [texto/orelha do livro] de Inês Pedrosa­, 1ª edição, 2012, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, estudou piano e educação musical na Faculdade de Música Santa Marcelina em sua terra natal, graduou-se em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, pós-doutorado pela École Pratique des Hautes Études de Paris e Universidade de Lisboa, é escritora, poeta, ensaísta, pesquisadora e também professora universitária, hoje aposentada; lecionou na USP, na UNICAMP, na Universidade da Califórnia, em Berkeley — EUA, e na Universidade Federal de Sergipe; foi pesquisadora do CNPq; suas obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, Trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Florbela Espanca, Afinado desconcerto (2002), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Correspondência amorosa de Florbela Espanca 1920-1925 (2008, ) Alumbramentos (laureado com o Prêmio Jabuti, poesia, 2012), Terceto para o fim dos tempos (poesia, 2017) e outros títulos.