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Soneto perverso
Amo-te
muito, meu amor, e tanto
que
de amar-te estou disposta em dano;
das
minhas mãos não ouso levantar
nem
gesto urbano que a teu rosto dar.
De
me tragar na fúria do teu gozo
ainda
o meu corpo a se pender no poço
dos
olhos teus (refúgio aterrador)
que
põe gelado o desmedido ardor.
Estou
vencida mas quisera, entanto,
nos
braços teus abrir-me em furor
como
um tapete, echarpe, tátil manto
que,
de veludo e espinho (em mista dor),
te
molestasse, te feriste tanto
— só pra em seguida mitigar-te, amor.
Soneto infeliz
Por
onde amar conduz-me à sua gruta
sequer
me estende em bem a leve esteira
a me
salvar (incauta) da fundura
que
entre vida e morte faz fronteira.
Que
pese sobre mim grossa madeira
é
desamparo que a meu corpo avulta
e
(afinal) o dano — a sua multa
por
acercar-se tanto dessa beira.
Com
turvo afeto, obscuro e mais carente,
da
maçã tenho o lado que mereço —
não
mordo nada além que a semente.
Entanto,
grito ao mundo o que careço
e o
brado soa solto — até demente!
Mas
por inútil do que diz, padeço.
(da
série: cinco sonetos para Mariana Alcoforado)
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Alumbramentos — poesia: Maria Lúcia
Dal Farra, Apresentação [texto/orelha do livro] de Inês Pedrosa, 1ª edição, 2012,
Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista
de Botucatu, estudou
piano e educação musical na Faculdade de Música Santa Marcelina em sua terra natal,
graduou-se em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela
Universidade de São Paulo, pós-doutorado pela École Pratique des Hautes Études de Paris
e Universidade de Lisboa, é escritora, poeta, ensaísta, pesquisadora e também
professora universitária, hoje aposentada; lecionou na USP, na UNICAMP, na Universidade
da Califórnia, em Berkeley — EUA, e na Universidade Federal de Sergipe; foi pesquisadora
do CNPq; suas obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira,
crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética
de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, Trocando olhares
(1994), Livro de auras (poesia, 1994), Florbela Espanca, Afinado desconcerto (2002),
Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005),
Correspondência amorosa de Florbela Espanca: 1920-1925 (2008, ) Alumbramentos (laureado
com o Prêmio Jabuti, poesia, 2012), Terceto para o fim dos tempos (poesia, 2017)
e outros títulos.