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domingo, 31 de dezembro de 2023

Amadeu Amaral: A um poeta


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XI

Tu és como um triste avaro,
que, trazendo vestes rotas,
guarda um tesouro fúlgido e raro,
preciosidades ignotas.

Vestido em crianças esfarrapadas
e ilusões gastas e frias,
tens no peito aferrolhadas
preciosas pedrarias.

E ficas-te, embevecido,
muita vez, a contemplá-las.
Podem rir-te do vestido!
Ostentem suas brilhantes galas!

Tu tens riquezas maiores,
maiores preciosidades:
são ametistas as tuas dores,
são opalas as saudades;

os teus sonhos, esses luzem
de um vário brilho de pedrarias,
onde acaso se recruzem
irisações fugidias...

Urzes — 1889

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (atual Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; fez o curso primário em sua cidade natal, aos onze anos veio pra São Paulo, autodidata, frequentou algumas aulas no Curso Anexo da Faculdade de Direito, não concluiu o ensino secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924), Tradições populares (folclore, publicação póstuma, 1948) etc.; sua obra Dialeto Caipira, escrita à luz da linguística, foi pioneira no estudo científico de um dialeto regional no país; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Amadeu Amaral: Canção

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Vivi outrora numa terra,
longe destas gândaras más,
sonhando alegre com a guerra,
no seio da mais rósea paz.

Era mui pobre a minha tenda,
mas tão risonha e tão feliz,
que a passarada fez vivenda
no mesmo ponto em que eu a fiz.

Mas eis que um dia me apareces,
na donaire do corpo em flor,
qual uma santa que pede preces;
preces te dei, preces de amor.

Segui-te. Errei por longes terras,
fui o teu pajem mais fiel;
por ti lidei cruentas guerras,
por ti me fiz de menestrel.

De rubras chagas sanguinosas,
sorrindo, todo me cobri,
como herói coberto de rosas,
que glorioso e forte sorri.

Até que, um dia, me fugiste,
benção do céu, divino dom...
Fiquei qual quem, absorto e triste,
acorda em meio a um sonho bom.

E hoje, sem ter mais quem me entenda
sou como alguém que viva exul;
em vão procuro a minha tenda,
a minha flórea tenda azul.

Névoa — 1902

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (atual Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; fez o curso primário em sua cidade natal, aos onze anos veio pra São Paulo, autodidata, frequentou algumas aulas no Curso Anexo da Faculdade de Direito, não concluiu o ensino secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924), Tradições populares (folclore, publicação póstuma, 1948) etc.; sua obra O Dialeto Caipira, escrita à luz da linguística, foi pioneira no estudo científico de um dialeto regional no país; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

domingo, 7 de maio de 2023

Amadeu Amaral: Meus filhos


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Ave canora, lépida Maria;
Ziza, serena flor do meu rosal;
Yola, ânfora de graça e de alegria;
Dedéu, meu bom rapaz, doce e leal;

Por vós descubro em mim nova poesia,
Um senso religioso, amplo e jovial;
E, árvore, canto em vós, ó romaria,
Que outra não vejo pelo mundo igual.

Algo, certo, deveis-me, como devo,
Como deveis a vossa Mãe robusta;
Mas eu vos devo maior soma. Olhai:

Vós influis-me um precioso enlevo,
E o bem de achar a sorte sempre justa,
E o suave orgulho de ser vosso pai.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Amadeu Amaral: Sobre os males da bondade

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Quando menino, ouvi frequentemente,
que homens duros e pérfidos havia,
dos quais devera ser tão diferente
quanto da noite é diferente o dia.

Entrei na Vida como quem, tremente,
fosse escalando horrenda serrania...
Quanta vez invejei a bota ingente
com que o Pequeno Polegar fugia!

Jamais, porém, vi monstros a meu lado.
Torturas e aflições — messe infinita —
só almas bem maviosas me tem dado.

— Oh Vida, quanto da Ilusão destoas!
Talvez tu fosses muito mais bonita,
se não houvesse tantas almas boas...

26 de junho 1921.

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo e Gazeta de Notícias (do Rio); obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Amadeu Amaral: Por esta melancólica descida, . . . [soneto]

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[Os meus camaradas]

Por esta melancólica descida,
Através de sarçais e de atoleiros
Que seria, dizei, da minha vida
Sem vós, ó meus amados companheiros?

Que seria desta alma, assim ferida,
Que seria dos sonhos derradeiros
Sem quem me ouvisse a voz, jamais ouvida,
Na surda multidão dos caminheiros?

Ah! como é bom sentir na treva incerta
A amiga voz que à nossa voz responde,
A doce mão que a nossa mão aperta!

Vamos... Rodeia-me sempre assim... Cuidado!
Quero, na escuridão que nos esconde,
Ouvir os vossos passos a meu lado.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Amadeu Amaral: A vida é uma caudal, em cujo fio . . . [soneto]

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[Sobre a eterna alternativa das saudades e das esperanças]

A vida é uma caudal, em cujo fio
Desliza a gente, mais do que navega.
Vamos olhando o céu claro ou sombrio,
Às margens a fugir, a onda que as rega.

Em mil aspectos a atenção se emprega.
Lá surge um verde bosque, um caule esguio.
Duplo abano de palmas se desprega
No azul dos ares e no azul do rio.

Vai passando... passou. Como, tristonho
Agora, o leque ao longe se balança!
O quadro visto já parece um sonho!

E é sempre, é sempre assim, em toda idade.
Surge em nosso caminho uma esperança?
Que linda! Olhai!... Passou. E' uma saudade.

[28 de Junho de 1921]

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Amadeu Amaral: Basta crer na Beleza. . . . & Que importa que o final de todo humano esforço . . . [sonetos]

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III

Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.

Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?

Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.

E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.

VI

Que importa que o final de todo humano esforço
seja um enigma, além, — e, inda mais longe, nada!
Que os caminhos da vida, o direito e o retorso,
levem ao mesmo termo a boa e a má jornada.

Que procurava o efebo, erguendo o disco e a espada
na arena, ou governando a quadriga no corso?
O sereno esplendor da alma forte, ligada
à rijeza do braço e ao relevo do torso.

Perdeu-se tudo? Sim. Talvez não. A beleza,
que em vagas de emoção torceu a turba erguida,
não se perdeu, talvez, quem sabe! como o resto...

E que importa, afinal! Afronta essa incerteza.
afronta a escuridão, glorificando a Vida
no minuto de luz que arde, às vezes, num gesto!

(Espumas — 1917)

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo e Gazeta de Notícias (do Rio); bibliografia: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Amadeu Amaral: Rios


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Almas contemplativas! Vão rolando
Por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, árvores e tetos,
Céus e terras, tranqüilos, espelhando;

Vão refletindo todos os aspectos,
Num serpentear indiferente e brando;
Espreguiçam-se, límpidos, cantando,
No remanso dos sítios prediletos;

Fecundam plantações, movem engenhos,
Dão de beber, sustentam pescadores,
Suportam barcos e carreiam lenhos...

Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
Cumprindo o seu destino sem clamores
E sonhando consigo um grande sonho.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo e Gazeta de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc. etc.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Amadeu Amaral: O Trabalho, Libertador

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Operário e filósofo, Spinosa
lidou com as mãos e o cérebro alapar;
reparando u’a máquina mimosa,
a máquina do mundo ia a estudar.

Adejava-lhe a mão, meticulosa,
lá onde tinha preso o agudo olhar:
voava-lhe a mente na amplidão, à rosa
dos ventos solta, pássaro a voar.

É que o trabalho é educador perfeito:
põe-nos o ser por um caminho estreito;
e de tantas passadas que lá faz,

fica este ser mais livre do que nunca,
pois nenhuma surpresa a idéia trunca,
e ela consigo se conserva em paz.

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Amadeu Amaral: A um velho

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Por muito tempo viveu tua alma
na velha crença de nossos pais,
como a colomba que vive calma
na paz áustera das catedrais.

Certo, correu-te então a existência
como um arroio de mansas águas,
cheia de sonhos e de inocência,
livre de mancha, livre de mágoas.

Mas, eis que um dia — dia nefando —
o que foi pomba se muda em corvo:
parte voando, parte voando
num largo voo pesado e torvo;

percorre os ares, percorre terras,
libra-se ao alto, na luz se afunda,
e trava lutas, e acende guerras
por vis pedaços de carne imunda.

Depois, mais tarde, cansado e feio,
quando a velhice covarde tomba,
o corvo sente saudoso enleio,
pensa nos tempos em que foi pomba...

E a pouco e pouco, radiosa e calma,
— aurora santa, clarões ideais —
sente de novo raiar-lhe na alma
a alma da pomba das catedrais.

Qual certos deuses, velho! criança!
És bufo e belo, sagrado e torvo:
tens qualquer cousa de pomba mansa
e alguma cousa de feio corvo.

(Urzes — 1889)

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo e Gazeta de Notícias (do Rio); obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Amadeu Amaral: Sobre as Promessas da Aurora

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... l’affreuse aurore...
A. de Vigny.

A triste aurora aí vem. Frota sangrenta,
surge no levantino ancoradouro,
junto a um pardo bulcão, serra pedrenta
onde há um jorro fluvial de lavas de ouro.

Despindo a treva e a bruma, a terra, lenta,
se abre em cintilações como um tesouro.
Brilha a cachoeira, e enquanto o dia aumenta,
vai abafando seu sinistro estouro.

Agora estruge a vida, outra cachoeira.
O moinho mói o grão, flagela as águas
Gemem no arado os bois, aos tropeções...

Homens! são mais doze horas de canseira!
mais doze horas de lutas e de mágoas,
doze horas de ânsias e lacerações!

18 de set. 1922.

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo e Gazeta de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Amadeu Amaral: Crepúsculo sertanejo

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Cai a noite. Um rubor fulge atrás da colina,
cuja sombra se alonga a pouco e pouco, enorme.
A velha árvore, além, verde nuvem, se inclina
para o chão, balançando o vulto desconforme.

É uma nota profunda a vibrar na surdina
das cores e da luz, no amplo vale que dorme.
No silêncio feral, que é uma vaga neblina
de sons, passa-lhe a voz como um borrão informe.

Sob a copa uma forma em cinza se desmancha.
Um boi cansado busca a figueira cansada;
muge, e deita-se, em paz, numa violácea alfombra.

Muge. A fronde e o animal fazem uma só mancha;
o mugido e o rumor da fronde, a mesma zoada.
Manchas de som... Zoadas de cor... Silêncio. Sombra.

(Espumas — 1917)

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo e Gazeta de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Amadeu Amaral: O arroio

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Lá vai o arroio claro a fugir entre lájeas,
entre rendas sutis de avencas e de lestres,
aqui beijando, a rir, tufos de saxifrágeas,
ali roçando a flor das roseiras silvestres.

Lá se vai. Nada o prende a tão risonha estância.
Di-lo-eis satisfeito: insatisfeito salta...
Em vão lhe verte a flor os filtros da fragrância,
em vão a erva sedosa a riba em flor lhe esmalta.

Em vão bailam-lhe em cima, a namorar-lhe as pérolas,
borboletas de seda e de veludo e prata.
Tentam debalde enfeitiçá-lo as auras quérulas,
os insetos de fogo e os pássaros da mata.

Em vão lhe acena, ansiosa, a palma sobre o estípite...
Tudo embalde lhe está em derredor tramando
teias de tentações e de afagos! Precípite,
para tudo se ri, mas lá se vai, cantando.

A uma rosa, — talvez por mais bela e mais úmida, —
que o exorava, movendo acima da água o cálix,
respondeu, a soerguer-lhe uma carícia túmida:
— Exala o teu perfume. É forçoso que o exales.

Balouça no ermo o alvor da corola de névoa!
pois esse é o teu destino. A mim cabe outra sorte:
quer a minha que eu fuja e que não pare, eu levo-a,
sem relutar, comigo; é mister que a suporte.

Parar seria, oh flor, viver no lodo flácido,
e onde ostentas o olor e a alvura da epiderme,
gerar traições letais sob um repouso plácido,
e conviver com o sapo e alimentar o verme.

— E que vais tu achar além, tão longe, arroio,
senão a resistência imota das pedreiras,
a vertigem brutal das quedas sem apoio,
a opressão dos canais e o estouro das cachoeiras?

Por isto vais trocar esta paragem flórea...
— Quando se aceita, sabe-o, é menor a desgraça.
Menor, quando se busca. E é gozo e íntima glória,
se se vence, e depois, sem parar, se ultrapassa!

Hei de seguir, crescer. Minhas rasteiras águas
serão águas caudais em cachões e remoinhos.
— Serão dores mortais tuas pequenas mágoas...
— Mas não me hão de impedir que rasgue o meu caminho

Hei de abri-lo a cantar. Fraguedo e precipício
ver-me-ão sempre avultar, ao sol, de embate a embate
— Por que tanta fadiga e tanto sacrifício?
— Para surgir mais forte após cada combate.

Hei de inundar, enorme, o amplo vale, a planície...
— Levarás o baldão das quilhas e dos mastros.
— Quando os astros, no céu, vierem à superfície,
dormirei, a sonhar, todo coalhado de estros...

— E que te espera além? O mar, o olvido... — Teme-o
quem não sabe, como eu, desafiar a treva.
— E por nada, afinal, te cansas! — Qualquer prêmio
macularia o alvor do sonho que me leva...

(Espumas — 1917)

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo e Gazeta de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Amadeu Amaral: Ao Rio Capivari

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Velho Capivari, quanto mudaste!
Tinhas outrora tanta força e brio,
tão lento agora vais, e tão macio,
por entre o mato que te forma engaste.

Quem te mudou assim? Que rude estio,
que castigo do céu fez o contraste?
Parece que em riacho te trocaste,
depois de seres caudaloso rio.

Mas... tu terás mudado, ou eu me engano?
vi-te com vista de menino outrora;
e quanto errava o olhar com que te vi!

Se eu olhava o futuro — era um oceano;
e o tempo, e tudo que lá vai, agora,
inda é menos que tu, Capivari!

28 de junho de 1921.

(Lâmpada Antiga — 1924)

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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado (1875 — 1929), paulista de Capivari (hoje Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico, folclorista, ensaísta e filólogo; autodidata, sem concluir o curso secundário, trabalhou nos jornais Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo e Gazeta de Notícias (do Rio); obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas (poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920), Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924) etc.