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XI
Tu és como um triste avaro,
que, trazendo vestes rotas,
guarda um tesouro fúlgido e raro,
preciosidades ignotas.
Vestido em crianças esfarrapadas
e ilusões gastas e frias,
tens no peito aferrolhadas
preciosas pedrarias.
E ficas-te, embevecido,
muita vez, a contemplá-las.
Podem rir-te do vestido!
Ostentem suas brilhantes galas!
Tu tens riquezas maiores,
maiores preciosidades:
são ametistas as tuas dores,
são opalas as saudades;
os teus sonhos, esses luzem
de um vário brilho de pedrarias,
onde acaso se recruzem
irisações fugidias...
Urzes — 1889
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Amadeu Amaral — Poesias Completas, 1977,
Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo em co-edição
com Editora Hucitec, São Paulo — SP; Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado
(1875 — 1929), paulista de Capivari (atual Monte Mor), foi poeta, jornalista, crítico,
folclorista, ensaísta e filólogo; fez o curso primário em sua cidade natal, aos
onze anos veio pra São Paulo, autodidata, frequentou algumas aulas no Curso Anexo
da Faculdade de Direito, não concluiu o ensino secundário, trabalhou nos jornais
Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, Diário da Noite, em São Paulo, e Gazeta
de Notícias (do Rio); suas obras: Urzes (poesia, 1889), Névoa (poesia, 1902), Espumas
(poesia, 1917), Letras Floridas (ensaio, 1920), O Dialeto Caipira (filologia, 1920),
Lâmpada Antiga (poesia, 1924), O Elogio da mediocridade (ensaio, 1924), Tradições
populares (folclore, publicação póstuma, 1948) etc.; sua obra Dialeto Caipira, escrita
à luz da linguística, foi pioneira no estudo científico de um dialeto regional no
país; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.