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sábado, 12 de dezembro de 2020

Luís de Camões: Coitado! que em um tempo choro e rio; . . . [soneto]

 

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Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo,  e quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
De uma cousa confio e desconfio.

Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço;
Calando, dou vozes; falo e emudeço;
Nada me contradiz, e eu aporfio.

Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me, e estar quedo;
Usar de liberdade, e estar cativo;

Queria que visto fosse, e invisível;
Queira desenredar-me, e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!

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Antologia Escolar de Poesia Portuguesa — De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo — SP; Luís Vaz de Camões (1524 1580), português, teria nascido em Lisboa ou em Coimbra, foi poeta e é considerado um dos maiores vultos da literatura em língua portuguesa da Renascença e um dos grandes poetas do mundo ocidental; foi através de sua obra poética que a língua portuguesa passou a expressar sentimentos, sensações, fatos e idéias de uma forma até então jamais alcançada por ninguém; retratou o humanismo e a expansão ultramarina, dois elementos que caracterizaram o Renascimento Português; celebrizou-se não tão somente por ter escrito Os Lusíadas, longo poema épico que expõe a história e a cultura portuguesa até à época vigentes, mas também pelo desenvolvimento de uma obra lírica na qual se encontram, entre os poemas mais famosos, os sonetos; foi só após a sua morte que teve reunida, na coletânea Rimas, sua obra lírica.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Mário de Sá-Carneiro: Quase

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Um pouco mais de sol  eu era brasa,
Um pouco mais de azul  eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho  ó dor!  quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim  quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
 Ai! a dor de ser  quase, dor sem fim... 
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar....
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol  vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
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Um pouco mais de sol  e fora brasa,
Um pouco mais de azul  e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

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Antologia Escolar de Poesia Portuguesa — De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo — SP; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português de Lisboa, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, nas revistas Alma Nova Contemporânea, parte em vida, e, depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; são de sua autoria Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Fernando Pessoa: Poema em linha reta

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[heterônimo: Álvaro de Campos]


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe 
 todos eles príncipes  na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos  mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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Antologia Escolar de Poesia Portuguesa — De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo — SP; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário e tradutor; fez seus estudos escolares no Convento de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925),entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em vida, além do livro Mensagem, única obra sua publicada em português, publicou, em inglês, Antinous, 35 Sonnets, English Poems I e II, English Poems III; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Mário de Sá-Carneiro: Álcool

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Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo 
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante 
Manhã tão forte que me anoiteceu.

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Antologia Escolar de Poesia Portuguesa — De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo — SP; Mário de Sá-Carneiro (1890  1916), português de Lisboa, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, parte em vida, e depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; são de sua autoria Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes ter revelado tal intenção em carta a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Almeida Garrett: Barca bela

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Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
          Que é tão bela,
          Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
         Colhe a vela,
         Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
         Mas cautela,
         Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
        Só de vê-la,
        Ó pescador!

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
        Foge dela,
        Ó pescador!

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Antologia Escolar de Poesia Portuguesa  De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo  SP; João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799  1854), português do Porto, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi escritor, dramaturgo, orador e político, e considerado um dos representantes literários do Romantismo em Portugal; trabalhou em jornais, foi fundador e dirigiu alguns deles  O Português e O Cronista, e colaborou com outros periódicos  a Revista Universal Lisbonense e A Semana, de Lisboa; escreveu e publicou O Retrato de Vênus (poema, 1821), Catão (tragédia, 1822), Camões (poema, 1825), Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa (in Parnaso Lusitano, 1826), Adozinda (poema, 1828), Da Educação (ensaio), Lírica de João Mínimo (poema, 1829), Portugal na Balança da Europa (ensaio, 1830), Um Auto de Gil Vicente (teatro, 1841), Viagens na minha terra (romance, 1846), Dona Filipa de Vilhena (comédia, 1846), e tantos outros títulos em verso e prosa e dramaturgia, além de inúmeros textos que, vindos à luz, só foram publicados postumamente.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Camilo Pessanha: Encontraste-me um dia no caminho . . . [soneto]

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Caminho

II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.

 Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que choramos a dor de cada um... 
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

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Antologia Escolar de Poesia Portuguesa De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo SP; Camilo de Almeida Pessanha (1867 1926), português coimbrão, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na magistratura e foi professor de Filosofia; ao longo do seu período acadêmico publica poemas (o primeiro, 'Lúbrica', datado de 1895) em revistas e jornais como A Crítica, de Coimbra, Novo Tempo, periódico de Mangualde, e A Gazeta, de Coimbra; devido seu ofício de magistrado viveu em diversas regiões de Portugal e em 1894 parte para Macau; pelas mãos de Ana de Castro Osório, e a partir de autógrafos recolhidos e recortes de jornais, publicou-se em vida apenas uma obra do poeta, Clepsidra (1920), várias vezes reeditada; foi assim que os versos de Pessanha, considerado um dos poetas mais importantes do Simbolismo português, se salvaram do esquecimento.