sábado, 30 de abril de 2022

Arthur Rimbaud: Saldo

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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e
Maurício Arruda Mendonça]

          Vende-se o que os Judeus não venderam, o que nem a nobreza nem o crime degustara, o que o amor maldito e a honestidade infernal das massas ignoram; o que nem o tempo nem a ciência reconhecem;
          As vozes restauradas; o despertar fraterno de todas as energias corais e orquestrais e suas aplicações instantâneas; ocasião única de liberar nossos sentidos!
          Vende-se Corpos sem preço, sem distinção de raça, de todo mundo, de todo sexo, de toda descendência! Riquezas jorram a cada passo! Saldo de diamantes sem controle!
          Vende-se anarquia para as massas; satisfação irreprimível para amadores superiores; morte atroz para os fiéis e os amantes!
          Vende-se casas e migrações, sports, feitiços e comforts perfeitos, e o ruído, o movimento e o futuro que eles fazem!
          Vende-se aplicações de cálculo e saltos inauditos de harmonia. Achados e termos sem suspeita, entrega imediata,
          Impulso insensato e infinito aos esplendores invisíveis, às delícias insensíveis,  e seus segredos enlouquecedores para cada vício  e sua alegria assustadora para a multidão.
          Vende-se Corpos, vozes, a inquestionável opulência imensa, que nunca será vendida. Os vendedores têm muitos estoques para liquidar! Os viajantes não precisam ter pressa para entregar as encomendas!

Arthur Rimbaud

Solde

          À vendre ce que les Juifs n'ont pas vendu, ce que noblesse ni crime n'ont goûté, ce qu'ignorent l'amour maudit et la probité infernale des masses; ce que le temps ni la science n'ont pas à reconnaître;
          Les Voix reconstituées; l'éveil fraternel de toutes les énergies chorales et orchestrales et leurs applications instantanées; l'occasion, unique, de dégager nos sens!
          À vendre les Corps sans prix, hors de toute race, de tout monde, de tout sexe, de toute descendance! Les richesses jaillissant à chaque démarche! Solde de diamants sans contrôle!
          À vendre l'anarchie pour les masses; la satisfaction irrépressible pour les amateurs supérieurs; la mort atroce pour les fidèles et les amants!
          À vendre les habitations et les migrations, sports, féeries et comforts1 parfaits, et le bruit, le mouvement et l'avenir qu'ils font!
          À vendre les applications de calcul et les sauts d'harmonie inouïs. Les trouvailles et les termes non soupçonnés, possession immédiate,
          Élan insensé et infini aux splendeurs invisibles, aux délices insensibles,  et ses secrets affolants pour chaque vice  et sa gaîté effrayante pour la foule.
          À vendre les Corps, les voix, l'immense opulence inquestionable2, ce qu'on ne vendra jamais. Les vendeurs ne sont pas à bout de solde! Les voyageurs n'ont pas à rendre leur commission de si tôt!

(Illuminations, 1873—1875)

Notas dos tradutores:
1. Comfort. Anglicismo utilizado por Rimbaud;
2. Inquestionable. Termo forjado pelo poeta por analogia à palavra “unquestionable”.
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Iluminuras — Gravuras coloridas: Arthur Rimbaud, Tradução, Notas e Ensaio de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, edição bilíngue, 2002, 3ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

William Shakespeare: Farto de tudo, a paz da morte imploro . . . [soneto]

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

66

Farto de tudo, a paz da morte imploro
Para não ver no mérito um pedinte,
E o nulo se ostentando sem decoro,
E a fé mais pura em degradado acinte,
E a honra, que era de ouro, regredida,
E a virtude das virgens violada,
E a reta perfeição ser retorcida,
E a força pelo fraco subjugada,
E a prepotência amordaçando a arte,
E impondo regra o tolo doutoral,
E a verdade singela posta à parte,
E o bem cativo estar do ativo mal:
      Farto de tudo, a morte é o bom caminho,
      Mas, morto, deixo o meu amor sozinho.

William Shakespeare

LXVI

Tir'd with all these, for restful death I cry,
As, to behold desert a beggar born,
And needy nothing trimm'd in jollity,
And purest faith unhappily forsworn,
And gilded honour shamefully misplac'd,
And maiden virtue rudely strumpeted,
And right perfection wrongfully disgraced,
And strength by limping sway disabled,
And art made tongue-tied by authority,
And folly doctor-like controlling skill,
And simple truth miscall'd simplicity,
And captive good attending captain ill.
      Tir'd with all these, from these would I be gone,
      Save that, to die, I leave my love alone.
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50 Sonetos — William Shakespeare, Tradução e Apresentação de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss e Estudo de Nehemias Gueiros, edição bilíngue, 2015, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Múcio Teixeira: O "69"

 
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Eu sei de muitos que só são felizes
Depois que fazem o sessenta e nove...
E sei que poucos sabem que as perdizes
São as culpadas disto.
Como? Prove!...

Exigirá naturalmente a minha
Leitora ingênua, e eu faço-lhe a vontade.
E por que não o galo e a galinha,
Nem os perus?
Escute, por piedade.

Só nessas aves é que temos visto
A posição do par ser invertida
Durante a foda.
Sim? Mas como é isto?

Ponha a cabeça sobre os meus joelhos
E meta na sua boca o meu caralho,
Que eu, roçando o bigode em seus pentelhos,
Com a língua no cono aqui trabalho.

E ela e eu, à moda das perdizes,
Sem invejar no Olimpo Juno e Jove,
Sem sentidos, sentimo-nos felizes...
Fazendo, sem sentir, sessenta e nove!

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Antologia pornográfica: de Gregório de Mattos a Glauco Mattoso [diversos poetas] — Organização, Introdução, Glossário e Notas de Alexei Bueno, 2011, Saraiva de Bolso, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Múcio Scévola Lopes Teixeira (1857 — 1926), gaúcho de Porto Alegre, estudou no Colégio Gomes, foi escritor, jornalista, teatrólogo, biógrafo, diplomata, tradutor e poeta; ainda aos 15 anos, publicou seu primeiro livro de poesias, Vozes trêmulas (1873); na capital gaúcha, fez parte da Sociedade Partenon Literário, falava e escrevia em francês, inglês, alemão, italiano, castelhano e conhecia latim, grego e hebraico; em sua vida literária fez uso de vários pseudônimos: Barão de Ergonte, Boêmio, Muciano Tebas, Manfredo, Felício Fortuna & Cia; obras: Violetas (poesias, 1875), Hugonianas (coletânea de poemas traduzidos de Victor Hugo, 1875), Curso de Literatura Brasileira (1876), Sombras e Clarões (poesias, 1877), Novos Ideais (1880), Cantos do Equador (poesias, 1881), Prismas e Vibrações (poesias, 1882), Pátria selvagem (1884), Cancioneiro Cigano (1885), Parnaso Brasileiro (antologia, 1885), Festas Populares no Brasil (1886), Terra Incógnita (poesia, 1916) e outros títulos; escreveu para vários jornais e revistas de cidades nas quais residiu e, em Caracas Venezuela, quando exerceu a função de cônsul geral do Brasil, publicou volumes em castelhano: Poesías e Poemas, Celajez, Semblanzas Venezolanas, Brasileñas y Lusitanas, Poesías de Don Mucio Teixeira, Poesías escolhidas, 2 volumes, Brazas e Cinzas; traduziu, além de Victor Hugo: Heine, Shiller, Byron, Goethe, Teócrito...

Baudelaire: Um tipo divertido

 
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[traduzido por Alessandro Zir]

IV

          Era a explosão do ano-novo: um caos de barro e de neve, atravessado por mil carroças, cintilando de brinquedos e doces, fervilhando de cobiças e desesperos, delírio oficial de uma cidade grande feito sob medida para perturbar o cérebro do solitário mais arredio.

          Em meio a essa zoeira e barafunda, um asno trotava alerta, fustigado por um campônio armado de chicote.

          Quando o animal estava prestes a fazer a curva numa esquina, um belo senhor de luvas, sapatos reluzentes, cruelmente engravatado e que mal se mexia no seu traje todo novo inclinou-se solene diante da humilde besta e lhe disse, tirando o chapéu:

          Feliz ano-novo!

          Em seguida virou-se na direção de sabe-se quem, pleno de satisfação, como para colher os cumprimentos que lhe seriam prestados pelos amigos.

          O asno passou reto pelo belo tipo, e continuou a correr zeloso conforme lhe era exigido pelo dever.

          Quanto a mim, fui tomado de uma raiva inexprimível daquele magnífico imbecil, que me pareceu concentrar em si o verdadeiro espírito da França.

Baudelaire

Un Plaisant

          C’était l’explosion du nouvel an: chaos de boue et de neige, traversé de mille carrosses, étincelant de joujoux et de bonbons, grouillant de cupidités et de désespoirs, délire officiel d’une grande ville fait pour troubler le cerveau du solitaire le plus fort.

          Au milieu de ce tohu-bohu et de ce vacarme, un âne trottait vivement, harcelé par un malotru armé d’un fouet.

          Comme l’âne allait tourner l’angle d’un trottoir, un beau monsieur ganté, verni, cruellement cravaté et emprisonné dans des habits tout neufs, s’inclina cérémonieusement devant l’humble bête, et lui dit, en ôtant son chapeau: «Je vous la souhaite bonne et heureuse!» puis se retourna vers je ne sais quels camarades avec un air de fatuité, comme pour les prier d’ajouter leur approbation à son contentement.

          L’âne ne vit pas ce beau plaisant, et continua de courir avec zèle où l’appelait son devoir.

          Pour moi, je fus pris subitement d’une incommensurable rage contre ce magnifique imbécile, qui me parut concentrer en lui tout l’esprit de la France.
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O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa — Baudelaire, Tradução de Alessandro Zir e Apresentação-prefácio de Gilda Neves Bittencourt, 2016, L&PM Pocket Volume 1208, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Dalton Trevisan: picos na veia [nanocontos III]

 
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Conto 37:
 
Na farmácia, a mocinha com o bebê no colo, apagando a voz:
 Uma caixa de pílula e um batom bem vermelho.
 
Conto 85:
 
A mulher para a mocinha:
 Mas ele te bate?
 Não. Isso, não.
 Então? Está reclamando do quê?
 
Conto 135:
 
O velhote, bem tristonho:
Ainda fica duro, o carinha. Só que não trava.
 
Conto 201:
 
O solitário, abrindo a porta da casa deserta:
 Ei, minha gente, cheguei!
Juntos alegremente respondem o irmão caruncho e a irmã baratinha.

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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

terça-feira, 26 de abril de 2022

William Shakespeare: Cansado de tudo isso eu clamo pela morte, . . . [soneto]

 
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[transcriado por Augusto de Campos]

Soneto 66

Cansado de tudo isso eu clamo pela morte,
Vendo aos pobres faltar a moradia e o pão
E aos ricos amorais caber a boa sorte,
A fé servir aos maus em pífia exploração,
E a mais pura honradez de todo desprezada,
A hombridade estuprada e morta pelo vício,
E a perfeição em mau feitio desnaturada,
A força convertida em monstruoso artifício,
E a arte calada com brutal autoridade,
O parvo a comandar o honesto e o diligente,
A verdade curial tida por falsidade
E o cativo servindo ao Capitão demente:
         De tão cansado era melhor querer meu fim
         Se a morte não roubasse o meu amor de mim.

William Shakespeare

LXVI

Tir'd with all these, for restful death I cry,
As, to behold desert a beggar born,
And needy nothing trimm'd in jollity,
And purest faith unhappily forsworn,
And gilded honour shamefully misplac'd,
And maiden virtue rudely strumpeted,
And right perfection wrongfully disgraced,
And strength by limping sway disabled,
And art made tongue-tied by authority,
And folly doctor-like controlling skill,
And simple truth miscall'd simplicity,
And captive good attending captain ill.
         Tir'd with all these, from these would I be gone,
         Save that, to die, I leave my love alone.
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Shakespeare — Soneto 66,  em transcriação de Augusto de Campos [via facebook de André Vallias, 23.04.2022 às 07:38hs.]; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Lord Byron, George Gordon: Epitáfio & Epigrama

 
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[traduzido por José Lino Grünewald]

Epigrama

Oh, Castlereagh! você é um patriota agora;
Cato morreu pela pátria, assim você na hora:
Pereceu para não ver Roma como escrava,
Corta a garganta se a Inglaterra for salva.

Epitáfio

Posteridade nunca há de rever
Sepultura mais nobre do que esta:
Aqui jazem os ossos de Castlereagh
Pare, viajante 

[e mije] Digo isto, se for o caso...

Lord Byron

Epigram

Oh, Castlereagh! thou art a patriot now;
Cato died for his country, so didst thou:
He perished rather than see Rome enslaved,
Thou cutt'st thy throat that Britain may be saved!

Epitaph

Posterity will ne’er survey
A nobler grave than this:
Here lie the bones of Castlereagh:
Stop, traveler

[and piss] I mention this, just in case...
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; George Gordon, George Gordon Byron ou Lord Byron (1788 1824), inglês e londrino, barão, foi poeta e revolucionário; levou uma vida radical, em termos de aventuras e escândalos, tornando-se assim o mais famoso dos românticos ingleses; o seu satanismo foi precursor do de Baudelaire; Byron, junto com Shelley e Leigh Hunt, foi um dos fundadores do jornal O Liberal, em Pisa Itália; escreveu e publicou Hours of Idleness (Horas de Ócio, 1807), vieram depois os poemas longos e suas subdivisões em cantos, Childe Harold, Don Juan (18191824), Marino Faliero, Doge de Veneza (peça), além de The Corsair (O Corsário, 1814), Lara, Beppo, The Prisioner of Chillon (O Prisioneiro de Chillon, 1816), e tantos outros textos; também participou lutando com os gregos na guerra contra os turcos, ocasião em que morreu.

domingo, 24 de abril de 2022

Pablo Neruda: Hoje quantas horas . . .

 
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[traduzido por Luiz de Miranda]

Hoje quantas horas vão caindo
no poço, na rede, no tempo,
são lentas mas não tiveram descanso,
seguem caindo, unindo-se
primeiro como peixes,
depois como pedradas ou garrafas.
Lá embaixo entendem-se
as horas com os dias,
com os meses,
com lembranças confusas,
noites desabitadas,
roupas, mulheres, trens e províncias,
o tempo se acumula
e cada hora
se dissolve em silêncio,
se esfarela e cai
ao ácido de todos os vestígios,
à água negra
do avesso da noite.

Pablo Neruda

Hoy cúantas horas . . .

Hoy cúantas horas van cayendo
en el pozo, en la red, en el tempo:
son lentas pero no se dieron tregua,
siguen cayendo, uniéndose
primero como peces,
luego como pedradas o botellas.
Allá abajo se entienden
las horas con los días,
con los meses,
con borrosos recuerdos,
noches desabitadas,
ropas, mujeres, trenes y provincias,
el tempo se acumula
y cada hora
se disuelve en silencio,
se desmenuza y cae
al ácido de todos los vestigios,
al agua negra
de la noche inversa.
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Pablo Neruda — Últimos Poemas (O Mar e os Sinos), Tradução de Luiz de Miranda, Edição Bilíngue, Volume 60 Coleção L&PM Pocket, reimpressão, 2017, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

sábado, 23 de abril de 2022

Ana Akhmátova: Introdução [do livro Réquiem]

 
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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

Aconteceu quando a sorrir
Eram só os mortos: contentes pela paz.
E, inútil sobra, pendia
Em volta de suas celas, Leningrado.
E quando, loucas de dor,
Já marchavam as legiões dos condenados,
E os silvos do trem cantavam
Um breve canto de adeus.
As estrelas da morte sobrestavam
À Rússia inocente, se crespando
Sob as botas de sangue
E a sola dos negros camburões*.

Ana Akhmátova

ВСТУПЛЕНИЕ

Это было, когда улыбался
Только мертвый, спокойствию рад.
И ненужным привеском болтался
Возле тюрем своих Ленинград.
И когда, обезумев от муки,
Шли уже осужденных полки,
И короткую песню разлуки
Паровозные пели гудки.
Звезды смерти стояли над нами,
И безвинная корчилась Русь
Под кровавыми сапогами
И под шинами черных марусь.

* Nota dos tradutores: camburões — Ou literalmente marússias, como eram chamados, em Leningrado, os furgões da polícia na época de Stálin.
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 1909—1960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Nilo Bruzzi: A voz amiga

 
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“Tu que passaste a vida sem roseiras
que dessem flores para perfumá-la;
tu que tiveste sombras agoureiras
que emudeceram sempre a tua fala;

tu que desceste mudo as cordilheiras
de teu sonho gigante cor de opala;
que sozinho choraste horas inteiras
por entre a pompa, a graça, o brilho, a gala;

toma o meu braço carinhoso e amigo
e caminhemos com tranqüilidade,
toma o meu braço e eu morrerei contigo...”

Parei diante da sombra triste e esguia...
Era a voz compassiva da Saudade
que estas palavras mansas me dizia...

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Nilo de Freitas Bruzzi (1897 1978), mineiro de Pomba, fez seus estudos secundários no Caraça, formou-se em Direito pela Faculdade Livre do Rio de Janeiro, foi advogado, professor, crítico, ensaísta, contista, romancista, biógrafo e jornalista; trabalhou e/ou colaborou em diversos periódicos (A Notícia, A Época, Rio-Jornal, O Jornal, Fon-Fon, Seleta, Para Todos, O Malho, Diário de Minas, entre outros), tendo sido redator em alguns deles; obras: Poesias, O Antunes (contos, 1920), Luar de Verona (poemas, 1920), As do Rosto Belo e as de Beleza na Alma (palestras literárias, 1925), O Boêmio, Livro de Amor (poemas, 1926), Literatura Histórica (1930), O Modernismo etc; Nilo Bruzzi foi professor catedrático de Literatura Brasileira e das Línguas Latinas do Ginásio do Espírito Santo e ocupou diversas funções na administração pública, particularmente na área da justiça, em diversas localidades.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Maria Eugênia Celso: Meu céu

 
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És para alguns a fúlgida certeza
de outra vida vivida em perfeição,
uma esperança de compensação
ao velho mal de toda a natureza.

Felicidade, sem a atroz surpresa
do amanhã destruidor, eterna união,
recompensa, esplendor, paz e perdão,
luz sem ocaso em formosura acesa...

Meu céu, no entanto, a pátria imorredoura
do sonho de ventura em que me assombro
e meu quinhão de glórias entesoura,

céu que um reflexo de saudades doura,
seria se, de novo, no meu ombro,
pousasses, filho, a cabecinha loura.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886 1963), mineira de São João Del Rey, filha do Conde e Condessa Afonso Celso e neta do Visconde de Ouro Preto presidente do Gabinete Imperial por ocasião da deposição do Imperador Dom Pedro II , foi jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista; ainda criança, com a deposição da Família Imperial, mudou-se para Petrópolis RJ, e ali estudou no Colégio Sion, onde aprendeu o idioma francês, o qual dominava tão bem quanto à nossa língua; colaborou com os jornais da época, entre os quais o Correio da Manhã, O Jornal, Diário Carioca, Jornal do Comércio e Jornal do Brasil; participante ativa do Movimento Feminista, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se a trabalhos de assistência junto às Damas da Cruz Verde, tornou-se uma das lideranças a criarem a maternidade Pro Mater do Rio de Janeiro e batalhou pelo direito das mulheres ao voto; obras: Em Pleno Sonho (poesia, 1920), Vicentinho (prosa, 1925), Fantasias e Matutadas (poesia, 1925), Desdobramento (contos, 1926), Alma Vária (poesia), Jeunesse (poesia), O Solar Perdido (poesia, 1945), O Diário de Ana Lúcia, De Relance (crônicas), Ruflo de Asas (teatro em verso), Síntese Biográfica da Princesa Isabel (biografia); uma de suas facetas na literatura foi o humorismo matuto; em 1955, teve suas Poesias Completas (sem conter os versos em francês) editadas por José Olímpio; representou o Brasil em Conferência da Unesco, em Paris, e em outras missões culturais.