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[traduzido
por Rodrigo Garcia Lopes e
Maurício
Arruda Mendonça]
Vende-se o que os Judeus não venderam, o que nem a
nobreza nem o crime degustara, o que o amor maldito e a honestidade infernal
das massas ignoram; o que nem o tempo nem a ciência reconhecem;
As vozes restauradas; o despertar fraterno de todas as
energias corais e orquestrais e suas aplicações instantâneas; ocasião única de
liberar nossos sentidos!
Vende-se Corpos sem preço, sem distinção de raça, de todo
mundo, de todo sexo, de toda descendência! Riquezas jorram a cada passo! Saldo
de diamantes sem controle!
Vende-se anarquia para as massas; satisfação irreprimível
para amadores superiores; morte atroz para os fiéis e os amantes!
Vende-se casas e migrações, sports, feitiços e comforts
perfeitos, e o ruído, o movimento e o futuro que eles fazem!
Vende-se aplicações de cálculo e saltos inauditos de
harmonia. Achados e termos sem suspeita, entrega imediata,
Impulso insensato e infinito aos esplendores invisíveis,
às delícias insensíveis, — e seus segredos enlouquecedores para cada vício — e sua alegria assustadora para a multidão.
Vende-se Corpos, vozes, a inquestionável opulência
imensa, que nunca será vendida. Os vendedores têm muitos estoques para
liquidar! Os viajantes não precisam ter pressa para entregar as encomendas!
Solde
À vendre ce que les Juifs n'ont pas vendu, ce que
noblesse ni crime n'ont goûté, ce qu'ignorent l'amour maudit et la probité
infernale des masses; ce que le temps ni la science n'ont pas à reconnaître;
Les Voix reconstituées; l'éveil fraternel de toutes les
énergies chorales et orchestrales et leurs applications instantanées;
l'occasion, unique, de dégager nos sens!
À vendre les Corps sans prix, hors de toute race, de tout
monde, de tout sexe, de toute descendance! Les richesses jaillissant à chaque
démarche! Solde de diamants sans contrôle!
À vendre l'anarchie pour les masses; la satisfaction
irrépressible pour les amateurs supérieurs; la mort atroce pour les fidèles et
les amants!
À vendre les habitations et les migrations, sports,
féeries et comforts1 parfaits, et le bruit, le mouvement et l'avenir qu'ils font!
À vendre les applications de calcul et les sauts
d'harmonie inouïs. Les trouvailles et les termes non soupçonnés, possession
immédiate,
Élan insensé et infini aux splendeurs invisibles, aux
délices insensibles, — et ses secrets affolants pour chaque vice — et sa gaîté
effrayante pour la foule.
À vendre les Corps, les voix, l'immense opulence
inquestionable2, ce qu'on ne vendra jamais. Les vendeurs ne sont pas à bout de
solde! Les voyageurs n'ont pas à rendre leur commission de si tôt!
(Illuminations, 1873—1875)
Notas dos tradutores:
1. Comfort. Anglicismo
utilizado por Rimbaud;
2. Inquestionable. Termo forjado pelo poeta por analogia
à palavra “unquestionable”.
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Iluminuras
— Gravuras coloridas: Arthur Rimbaud, Tradução, Notas e Ensaio de Rodrigo Garcia
Lopes e Maurício Arruda Mendonça, edição bilíngue, 2002, 3ª edição, Editora Iluminuras
Ltda., São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), francês de Charleville,
estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências
de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica —, Paul Verlaine, Charles
Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes
da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura
e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente
as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada
no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações
(Illuminations, 1873—1875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros
poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks
e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound,
Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e
partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades,
realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões
inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations,
com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud
morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada
devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.











