sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Thomas Stearns Eliot: Os homens ocos

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[traduzido por Bezerra de Freitas]

I

Nós somos os homens ocos,
Nós somos os homens empalhados
Apoiados uns aos outros
A cabeça cheia de palha. Ai de nós!
Nossas vozes rouquenhas, quando sussurramos juntos,
São suaves e não têm sentido
Como o vento na relva seca
Ou os pés dos ratos que passam sobre vidro quebrado
Na nossa adega vazia.
Feio sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento;
Os que já cruzaram
Com o olhar para a frente, o outro Reino da morte
Recordam-se de nós — se é que assim seja —
Não como almas perdidas, exaltadas, mas simplesmente
Como homens ocos
Homens empalhados.

II

Olhos, não ouso fitá-los nos sonhos
No reino do sonho da morte
Estes não aparecem;
Os olhos são a luz solar
Numa coluna partida.
Ali está uma árvore que balouça
E há vozes na canção do vento
Mais distantes e mais solenes
Que uma estrela que se apaga.
Que eu não mais me aproxime
Do reino do sonho da morte
Que use disfarces
Pêlo de rato, pele de corvo, sarrafos cruzados
Num campo
Fazendo o que o vento faz
E não mais —
Não aquele encontro final
Na região crepuscular.

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
São erguidas, aqui elas recebem
A súplica da mão de um morto
Sob a cintilação de uma estrela que se apaga
É assim
No outro reino da morte
Despertar a sós
No instante em que estamos
Tremendo de ternura
Lábios que beijariam
Até a laje partida.

IV

Os olhos não estão aqui
Não há olhos aqui
Neste vale de estrelas moribundas
Neste vale oco
Esta garganta partida dos nossos reinos perdidos.
Neste último reduto de encontros
Nós nos agrupamos
E evitamos falar
Reunidos nessa praia de rio cheio
Sem vista, a não ser
Que os olhos desapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
A única esperança
Do reino do crepúsculo da morte
Dos homens ocos.

V

Aqui vamos andando à roda da pêra silvestre
Pêra silvestre, pêra silvestre,
Aqui vamos andando à roda da pêra silvestre
Às cinco horas da manhã
Entre a idéia
E a realidade,
Entre o gesto
E o ato
Desce a Sombra
Pois o Reino é teu.
Entre a concepção e a criação,
Entre a emoção
E a resposta
Desce a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a força
E a existência,
Entre a essência
E a descendência
Desce a Sombra.
Pois o Reino é teu,
Pois tua é
A Vida é
Pois tua é
É assim que acaba o mundo
É assim que acaba o mundo
É assim que acaba o mundo
Não com um estrondo, mas com um gemido.

T. S. Eliot

The Hollow Men

[Mistah Kurtz-he dead
A penny for the Old Guy]

I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us — if at all — not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

II

Eyes I dare not meet in dreams
In death's dream kingdom
These do not appear:
There the eyes are
Sunlight on a broken column
There is a tree swinging
And voices are
In the wind's singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death's dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat's coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer —

Not that final meeting
In the twilight kingdom

III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man's hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death's other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death's twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

V

Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o'clock in the morning.

Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate da qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para teatro; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Laura Riding: Nenhuma terra ainda

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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Mar demorado, como é fugaz,
De aguidéia a aguidéia
Tão rápida em sentir surpresa e vergonha.
Onde momentos não são tempo
Mas tempo são momentos.
Tanto nem sim nem não,
Tanto único amor, ter o amanhã
Por um fracasso inevitável de agora e já.

Deitados na água barcos e homens fortes,
Mestres em fraqueza, partem para algum lugar:
O mais poderoso dorminhoco em sua cama
É incapaz de conhecer lugares nobres assim.
Então a fé embarcou na terra do marinheiro
Em busca de absurdos em nome do céu
Descobrimento, uma fonte sem fonte,
Lenda de neblina e paciência perdida.
Descobrimento, uma fonte sem fonte,
Lenda de neblina e paciência perdida.

O corpo nadando em si mesmo
É o querido da dissolução.
Com gotejante boca diz uma verdade
Que não pode mentir, em palavras ainda não nascidas
Da primeira imortalidade,
Onissábia impermanência.

E o olho empoeirado cujas agudezas
Tornam-se aguadas na mente
Onde ondas de probabilidade
Escrevem a visão com letra de maré
Que só o tempo pode ler.

E a terra seca ainda não,
Salvação e solidão absolutas
Ostentando sua constância
Como uma ilha sem água ao redor
Numa água sem terra alguma.
Ostentando sua constância
Como uma ilha sem água ao redor
Numa água sem terra alguma.


There is no land yet

The long sea, how short-lasting,
From water-thought to water-thought
So quick to feel surprise and shame.
Where moments are not time
But time is moments.
Such neither yes nor no,
Such only love, to have to-morrow
By certain failure of now and now.

On water lying strong ships and men
In weakness skilled reach elsewhere:
No prouder places from home in bed
The mightiest sleeper can know.
So faith took ship upon the sailor's earth
To seek absurdities in heaven's name
Discovery but a fountain without source,
Legend of mist and lost patience.

The body swimming in itself
Is dissolution's darling.
With dripping mouth it speaks a truth
That cannot lie, in words not born yet
Out of first immortality,
All-wise impermanence.

And the dusty eye whose accuracies
Turn watery in the mind
Where waves of probability
Write vision in a tidal hand
That time alone can read.

And the dry land not yet
Lonely and absolute salvation
Boasting of constancy
Like an island with no water round
In water where no land is.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Mário de Andrade: Na Rua Aurora eu nasci . . .


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Na Rua Aurora eu nasci
Na aurora da minha vida
E numa aurora cresci.

No Largo do Paissandu
Sonhei, foi luta renhida,
Fiquei pobre e me vi nu.

Nesta Rua Lopes Chaves
Envelheço, e envergonhado
Nem sei quem foi Lopes Chaves

Mamãe! me dá essa lua,
Ser esquecido e ignorado
Como esses nomes de rua.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Mário Raul de Morais Andrade (1893 1945), paulista e paulistano, formou-se em Ciências e Letras e, depois, em Canto no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, ensaísta, folclorista, professor de Música e de Artes e um dos expoentes da Semana de Arte Moderna de 1922 e do Modernismo; colaborou com os periódicos A Gazeta e O Echo (São Paulo), A Cigarra (São Paulo), Papel e Tinta, Revista do Brasil, Illustração Brasileira, Klaxon, Revista de Antropofagia, Terra Roxa (revistas modernistas, em São Paulo e no Rio de Janeiro), Jornal do Commércio (São Paulo), Diário Nacional (São Paulo), O Estado de São Paulo e em outros veículos informativos e de arte pelo país afora; suas obras: Há uma gota de sangue em cada poema (1917), Paulicéia desvairada (1922), A escrava que não é Isaura (1925), Amar, verbo intransitivo (1927), Ensaios sobre a música brasileira (1928), Macunaíma (romance, 1928), Compêndio da história da música (1929), Modinhas imperiais (1930), Música, doce música (1933), Belazarte (1934), Música do Brasil e Poesias (ambos em 1941), O Movimento Modernista (1942), Aspectos da Literatura Brasileira (1943) e tantos outros títulos em verso, prosa e canto.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Cecília Meireles: Ou isto ou aquilo

 
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Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
E vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Ou Isto ou Aquilo (1964)

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Poesia infantil e juvenil brasileira — Uma ciranda sem fim [ensaios/estudos de vários autores], Organização e Apresentação de Vera Teixeira de Aguiar e João Luís Ceccantini, 2012, Associação Núcleo Editorial Proleitura (ANEP), Cultura Acadêmica Editora, São Paulo — SP; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), carioca, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919 publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; além das já citadas, outras obras: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto e outros poemas (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Leminski: Arte do chá & Merda é ouro & mais um poema

 
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Arte do chá

      ainda ontem
convidei um amigo
      para ficar em silêncio
comigo

      ele veio
meio a esmo
      praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo

— o —

Merda é ouro

Merda é veneno.
No entanto não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
Cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
à bosta da pessoa amada.

— o —

hoje à noite  
lua alta               
faltei             
e ninguém sentiu  
a minha falta

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Leminski — distraídos venceremos, 1987, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paulo Leminski Filho (1944 1989), paranaense de Curitiba, foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor, professor, músico e letrista; como seminarista da Ordem dos Beneditinos, no Mosteiro de São Bento em São Paulo, iniciou seus estudos de latim e grego; como judoca faixa-preta, estudou o idioma japonês e tomou contato com a cultura e a poesia do Oriente; participante do I Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, conheceu o poeta Haroldo de Campos, de quem se tornou amigo e parceiro em várias obras; cursou Direito e desistiu, cursou Letras e desistiu várias vezes; foi professor de História e de Redação em cursos pré-vestibulares, professor de judô, atuou em publicidade; após estréia com seus textos, na revista Invenção, do poeta Décio Pignatari, colaborou em outros periódicos e revistas de vanguarda; teve textos musicados e fez parcerias com Caetano Veloso e outros músicos, compositores e letristas; traduziu obras de Petrônio, Alfred Jarry, James Joyce, John Fante, John Lennon, Samuel Beckett, Yukio Mishima, conhecedor que era dos idiomas inglês, francês, latim, grego, japonês e espanhol; suas obras: Matsuo Bashô (ensaio biográfico, 1983), Caprichos e Relaxos (poesia, 1983), Cruz e Sousa (ensaio biográfico, 1983), Descartes com lentes (conto, 1983), Jesus a.C. (ensaio biográfico, 1983), Agora é que são elas (romance, 1984), Anseios crípticos (1986), Leon Trotski: a paixão segundo a revolução (ensaio biográfico, 1986), Distraídos venceremos (poesias, 1987), Guerra dentro da gente (1988), Catatau (prosa poética experimental, 1989), 40 Clics (poesia, com fotografias de Jack Pires, 1990), La vie en close (poesia, 1991), Uma carta uma brasa através: cartas a Régis Bonvincino — 1976 a 1981 (1992), Metamorfoses: uma viagem pelo imaginário grego (1994), Winterverno (1994), O ex-estranho (1996) e outros; recebeu premiações por sua obra.

domingo, 25 de setembro de 2022

Oswald de Andrade: História pátria

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Lá vai uma barquinha carregada de
                                                 Aventureiros
Lá vai uma barquinha carregada de
                                                 Bacharéis
Lá vai uma barquinha carregada de
                                                 Cruzes de Cristo
Lá vai uma barquinha carregada de
                                                 Donatários
Lá vai uma barquinha carregada de
                                                 Espanhóis
                                                 Paga prenda
                                                 Prenda os espanhóis!
Lá vai uma barquinha carregada de
                                                 Flibusteiros
Lá vai uma barquinha carregada de
                                                 Governadores
Lá vai uma barquinha carregada de
                                                 Holandeses
Lá vai uma barquinha cheinha de índios
Outra de degredados
Outra de pau de tinta

         Até que o mar inteiro
         Se coalhou de transatlânticos
         E as barquinhas ficaram
         Jogando prenda com raça misturada
         No litoral azul do meu Brasil.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; José Oswald de Sousa Andrade (1890 1954), paulista e paulistano, bacharel em Humanidades e em Direito, foi jornalista, redator, poeta, dramaturgo, escritor, crítico teatral, e um dos expoentes do Modernismo e da Semana de Arte Moderna de 1922 levada a efeito no Teatro Municipal de São Paulo; iniciou-se no jornalismo como redator e crítico teatral do Diário Popular, fez parte do grupo da revista Klaxon (1922 a 1923) e da Revista de Antropofagia (1928 a 1929); colaborou e publicou seus textos em diversos periódicos de sua época: revista A Cigarra, A Vida Moderna, Jornal do Comércio, O Jornal, A Gazeta, Correio Paulistano, Revista do Brasil, Diário de São Paulo, Correio da Manhã, entre outros, e fundou a revista O Pirralho, e, depois, Papel e Tinta, Terra Roxa, juntamente com outros modernistas; percurso literário: revista O Pirralho (humor em português macarrônico, 1912 1917), A recusa (teatro, 1913), Théâtre Brésilien — Mon coeur balance e Leur Âme (com Guilherme de Almeida, 1916), A trilogia do Exílio: I — Os Condenados, II — A estrela de absinto, III — A escada vermelha (romances, de 1922 1934), Memórias sentimentais de João Miramar (romance, 1924), Pau-Brasil (poesia, 1925), Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927), Serafim Ponte Grande (romance, 1933), O homem e o cavalo (teatro, 1934), O rei da vela (teatro, 1937), Marco Zero: I — A revolução melancólica, II — Chão (romances, ambos em 1943), Cântico dos Cânticos para flauta e violão (1945), O escaravelho de ouro (1946), além de manifestos e conferências, e outros textos em verso e prosa e para teatro; de família abastada, Oswald viveu entre o Brasil e a Europa, onde transitou por diversos países.

sábado, 24 de setembro de 2022

Tristan Corbière: Infante em seu lençol (risinho)

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

O prazer te foi duro, mais fácil é o mal
   Deixa-o vir à luz do dia.
À musa funesta já não se faz madrigal;
   Vais e o anjo fica à revelia

Teu lenço conhece o pus, e teu lençol o fel;
   Canta, mas deixa essa mania
De sair à rua estendendo teu chapéu,
   Por vinténs de amor ou ironia.

Agora dorme: eis o sono que liberta;
Com tua agonia a Morte brinca esperta,
   Como o gato magro e o rato;

Sorrateira, a pata te lança ou te deita.
E o velho paroxismo ainda te deleita:
   Torce a boca, escuma... e seja grato.

Tristan Corbière

Petit coucher1
(risette)

Le plaisir te fut dur, mais le mal est facile
   Laisse-le venir à son jour.
À la Muse camarde on ne fait plus d'idylle;
   On s'en va sans l'Ange à son tour

Ton drap connaît ta plaie, et ton mouchoir ta bile;
   Chante, mais ne fais pas le four
D'aller sur le trottoir quêter dans ta sébile,
   Un sou de dégoût ou d'amour.

Tu vas dormir: voici le somme qui délie;
La Mort patiente joue avec ton agonie,
   Comme un chat maigre et la souris;

Sa patte de velours2 te pelotte et te lance.
Le paroxysme3 encor est une jouissance:
   Tords ta bouche, écume... et souris.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
1. Pela temática da morte e pelo tratamento em segunda pessoa, esse poema “reencontrado” lembra bastante a seção “Rondéis para depois”, embora suas imagens sejam mais fortes. Título  “Petit coucher” era uma expressão da época da monarquia que designava a cerimônia para o momento em que o rei se recolhia. “Risette” (risinho de criança), como subtítulo, evoca a homofobia contida no título: “petit coucher” (adjetivo + substantivo), uma cochilada, pode ser lido “petit couché” (substantivo + particípio passado), a criança em sua cama. Como em “Rondéis pour Après”, a imagem do sono remete à da morte. A tradução destaca aqui a idéia do príncipe (infante, como substantivo) em sua cama, mas também a idéia de uma certa ingenuidade infantil (“infante”, adjetivo em função de advérbio), em face da morte (“lençol” entendido como mortalha, como em “Soneto póstumo”), de acordo com a atmosfera do poema;
2.Chat qui fait parte de velours” é o gato que apresenta as patas tendo escondido suas garras. Em sentido figurado, “faire patte de velours” significa dissimular um objetivo maligno sob uma aparência inofensiva;
3. Provável referência a [Alfred de] Musset, em Namouna: Chez lui la jouissance était un paroxysme.
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, edição bilíngue, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 1875), francês de Morlaix Finistère-Bretagne, estudou em regime de internato num liceu de Saint-Brieuc e em regime de externato num liceu de Nantes, foi poeta simbolista e caricaturista; de sua biografia consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno e que seu mais antigo poema, com data de 1860, satiriza um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873) e a revista La Vie Parisienne registra alguns de seus poemas; o livro é considerado um fracasso total e não obteve reconhecimento público; o poeta só teve seu trabalho valorizado após Paul Verlaine o citar em Les Poètes maudits, 1883; consta que tal recomendação bastou para trazer Tristan Corbière ao público e firmá-lo como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; de saúde frágil, morreu de tuberculose aos 29 anos de idade; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, vem a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Carlos Drummond de Andrade: Não se mate

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Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Brejo das Almas (1934)

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia” de Emanuel de Moraes, Fortuna Crítica de Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos, João Gaspar Simões, Hélcio Martins, Gilberto Mendonça Teles, Affonso Romano de Sant’Anna, Joaquim-Francisco Coelho, José Guilherme Merquior e Antônio Houaiss, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...