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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Orlando Teixeira: Horas mortas

Resultado de imagem para coletânea de poetas paulistas Editora minerva enéas de moura
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Ouço uma estranha voz, lá fora... Engano, certo,
Quem, numa noite assim, andará pela rua?
Cada vez mais estranha escuto-a... Já mais perto,
Nítida agora, na minha alma se insinua.

Houve alguém que, ao morrer, me deixou num deserto.
Falar-me-á esse alguém? Essa voz será sua?
Tu, que o meu coração deixaste em chaga aberto,
Vem de ti essa voz que sobre mim atua?

E a voz que escuto, a voz permanece calada;
Abro a porta a pensar como Poe:  Talvez seja
Alguém... Fria e cortante, entra o quarto a rajada.

Lembro-me ainda outra vez. Fora o silêncio adeja,
E lá fora, até lá, na larga noite, ansiada,
Esta grande saudade intérmina boceja.
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Coletânea de Poetas Paulistas  Seleção, Organização e Introdução de Enéas de Moura, 1951, Editora Minerva, Rio de Janeiro — RJ; Orlando Martins Teixeira (1874  1902), paulista de São João da Boa Vista, foi jornalista, dramaturgo e poeta; viveu sobretudo no Rio de Janeiro, onde se relacionou nos meios literários; colaborou em jornais de São Paulo, no Rio foi secretário da Gazeta da Tarde; para o teatro, escreveu Pão-pão, queijo-queijo (comédia-revista), O serralho do Nabor (opereta bufa), Contra as crianças (monólogo); na literatura, escreveu e publicou uma única obra, Magnificat (1901), dedicada “à que nunca será minha”, sua musa Violeta “Bebê” Lima Castro, cantora lírica e declamadora de grande fama em sua época.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Orlando Teixeira: Azul

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Chapéu azul, vestido azul, de azul bordado,
Azuis o pára-sol e as luvas, Senhorita,
Como um lótus azul por um deus animado,
Passa, toda de azul, por mil bocas bendita.

Há um bálsamo azul nesse azul que palpita,
Misticismos de um mundo, há muito e em vão, sonhado,
Azul que a alma da gente a idolatrá-la incita,
Azul-claro, azul suave, azul de céu lavado.

Deixa na rua um rastro azul que cega e prende,
Não sei que de anormal, de fantasma ou de duende,
Que prende os pés ao solo e ao mundo os olhos cerra;

Vendo-a, não se vê mais nada que o azul, tonteia...
Como num sonho azul, logo nos vem à ideia
Um pedaço de céu azul passeando a terra.


Nota do Organizador:
Curioso é o aproveitamento do azul neste soneto,
como o do verde por B. Lopes em "Esmeralda".
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Orlando Teixeira (1674  1902), paulista de São João da Boa Vista, foi jornalista, autor teatral e poeta; viveu sobretudo no Rio de Janeiro, onde se relacionou nos meios literários; escreveu e publicou uma única obra, Magnificat (1901), dedicada “à que nunca será minha”, sua musa Violeta “Bebê” Lima Castro, cantora lírica e declamadora de grande fama em sua época.